Cadernos de um enviado especial ao purgatório (31)


Luís Naves,

No fundo, há duas grandes correntes de pensamento: a crítica aos excessos do materialismo e a crítica às insuficiências da ideologia.

Para muitos autores, o mundo contemporâneo está em declínio, por ter perdido os seus valores e por se basear no insaciável apetite das classes dominantes. O culto do eu leva ao caos social e condena a sociedade à decadência. Há quem defenda a necessidade do regresso à tradição e, quanto maior o choque com a realidade exterior, mais estes movimentos se encolhem na concha dos respectivos fundamentos ideológicos. As críticas à modernidade podem vir de religiões ou de movimentos anti-capitalistas, mas convergem na ideia de que o mundo está à beira de uma transformação inevitável e que essa transformação nos conduz a algo de fundamental. Existe sempre ali a ideia do regresso a um passado idealizado.

Do outro lado do espelho estão os que se afirmam do mundo pragmático. Para eles, as utopias não passam de ilusões, modas ou resistência ao progresso. Segundo afirmam, o mundo material permite fornecer à maioria dos consumidores as bases essenciais do bem-estar, sendo pouco compreensível o descontentamento que alastra nas sociedades contemporâneas. E perguntam esses materialistas: não será a proposta utópica equivalente a trocar uma vida segura por um estado permanente de incerteza?

Os dois lados estão cada vez mais entrincheirados e o debate alastra à generalidade dos temas, conduzindo ao seguinte problema: nunca fomos tão ricos, tão livres e tão cultos como agora, mas também nunca terá havido vidas tão conscientes do seu vazio; por outro lado, se fôssemos mais felizes, viveríamos com o mesmo acesso à riqueza, liberdade e cultura?

 

4 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (31)”

  1. Luís Naves,

    É minha convicção que o momento que vivemos é de uma grandiosidade jamais conhecida. O Homem experimenta a impotência do conhecimento que buscou exterior a si.
    Disse-nos o filósofo: “conhece-te a ti mesmo”.

    Quero com isto dizer que o Homem não só lutou por adquirir o domínio dos elementos, inventou fórmulas e regras que subjugaram muitos e o próprio, mas não se dominou. Não adquiriu o conhecimento de si, não reconheceu o outro em si e transformou as relações em meras funcionalidades.

    Utopicamente pensou que a utopia era uma via lunática e externa ao conhecimento lógico, e descartou a possibilidade de que essa mesma utopia está para a acção social da mesma forma que a experimentação está para a ciência.

    Por outro lado, confrontado com sua pobre ignorância, confunde a necessidade de renovação com restauração. E como os modelos adquiridos nunca foram contestados, erradamente pensa que é através do regresso a falsas origens que soluciona seus problemas.

    Disse-nos Cipriano, bispo:
    “O que o homem é Cristo quis ser, para que o Homem pudesse ser o que Cristo é”.
    O sermão da montanha ilumina-nos com a seguinte afirmação: “Vós sois Sal da terra e Luz do mundo”.
    Mas pare ser Sal da terra e Luz do mundo é necessário passar pelo purgatório, lugar onde se purgam os falsos modelos e onde se compreende que a renúncia ao “eu” nada mais é do que nos darmos a oportunidade de abrir um espaço ao outro.

  2. Esta é uma questão tão antiga e tão sem resposta hoje como há milhares de anos. Parece-me que a redução da questão a dois campos antagónicos e em permanente conflito é demasiado redutora – mas a moda é ver tudo a preto e branco, os “bons” contra os “maus”…

    Apenas alguns pontos de reflexão:

    1- O que é o ser humano? O que o torna diferente dos outros animais?
    De um ponto de vista primário, o instinto de um animal é a auto-preservação da sua vida e a reprodução com o maior número de indivíduos capazes (raras são as espécies monogâmicas ou auto-reprodutoras). O que torna a espécie dos humanos algo tão diferente que vai além das necessidades básicas dos animais (comida, bebida, habitat, parceiro sexual)?

    2- O capitalismo já foi apelidado de um sistema que faz o ser humano permanentemente insatisfeito. Só assim consegue convencê-lo a uma permanente aquisição de coisas materiais e à substituição das anteriores (que podem estar perfeitamente funcionais; apenas desactualizadas). Poderá um sistema que vive da perpétua insatisfação das pessoas deixá-las satisfeitas após um determinado limiar de acumulação?

    3- Como conciliar o crescente individualismo e a cultura do umbigo-centrismo com a necessidade de vivermos em sociedade, dado que “o Homem é um animal social”?

  3. No mundo actual nota-se um mal que deriva de demasiada gente a ter tempo para se preocupar com o “sexo dos anjos” porque o desenvolvimento os libertou da necessidade de prover as necessidades basicas e lhes permite viver no mundo da fantasia ou realidade virtual.Noto isso com os jovens que se inscrevem nos movimentos extremistas e até embarcam para a violencia. Se os provedores de educação os confrontassem com as suas proprias responsabilidades deixavam em grande medida de sobrelevar a natural tendencia dos sonhos e experiementações proprios dos jovens e eram travados pelas comezinhas dificuldades de comer ou pagar as contas. Claro que a tendencia não vai regredir e pelo menos nas nossas sociedades vamos ter que ocupar os cada vez mais desocupados seja com seguir as estrelas/desportistas seja com discutir o sexo dos anjos, ou as guerras e religioes dos outros.

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