Cadernos de um enviado especial ao purgatório (38)


Luís Naves,

A comunicação social foi unânime: o representante português na Comissão Europeia, Carlos Moedas, obteve um posto irrelevante numa área onde o Governo tem desinvestido. Segundo esta visão, Moedas terá uma função de segunda linha e houve até notícias a ridicularizar o resultado. O PS chegou a referir que tinha “evitado” a entrega de uma pasta social e surgiu a história delirante de que o presidente da comissão tinha pedido o envio de outra pessoa (como se isso fosse possível). Era crucial demonstrar que a pasta de ciência representa pouco, nomeadamente investigadores que se dedicam a assuntos bizarros e teóricos.

O que a comunicação social não explicou é que Portugal conseguiu um dos bifes do lombo na nova Comissão Europeia. Carlos Moedas vai gerir o Programa Horizonte 2020, o mais ambicioso de sempre na área da ciência e da inovação. Entre 2014 e 2020, terá um orçamento de 80 mil milhões de euros (é o orçamento português durante um ano), sem contar com a parte do investimento privado. Este programa terá implicações nas áreas da saúde, espaço, transportes, energia, visando a criação de emprego e a participação activa de empresas. Na realidade, trata-se de uma pasta vital da área económica, que visa criar a “União da Inovação” e uma política mais integrada, para impedir a duplicação de trabalhos e aumentar a cooperação.

Quando falam de estratégia, os dirigentes europeus mencionam a consolidação orçamental, as reformas estruturais e costumam referir um terceiro elemento: o investimento em investigação e desenvolvimento. O objectivo é conseguir que até 2020 todos os países gastem no sector 3% do PIB. Carlos Moedas estará no centro de uma das políticas mais importantes da UE, mas estão a vender-nos o filme ao contrário e quase se pode prever o circo mediático à volta da confirmação parlamentar do comissário. É a política do quanto pior, melhor, agora ao vivo e a cores também na Europa, onde costumava existir consenso.

5 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (38)”

  1. “O objectivo é conseguir que até 2020 todos os países gastem no sector 3% do PIB.”

    Assim se expressa “O Estado dos Gestores”, a nomenklatura ocidental e seus apoiantes.
    Já resultados, objectivos não interessam. O que interessa é dinheiro, só dinheiro, tudo é medido pelo dinheiro. São assim os socialistas das diversas cores.

  2. Depois de ver as vantagens para Portugal que vieram do facto do presidente da comissão ser um fugitivo português, não me parece que este cargo vá fazer qualquer diferença. Se o sr. mantiver a morada cá sempre são mais umas despesas bem pagas que ele cá fará nas férias – sempre anima a economia.
    Se vai fazer com a investigação científica da Europa o mesmo que o governo de que fazia parte fez cá no burgo – desinvestimento e desvirtuamento dos processos de atribuição de verbas para investigação, então a UE, estando junto do abismo, continua a dar passos em frente.

    1. Consegue quantificar o “desinvestimento” e qualificar o “desvirtuamento dos processos de atribuição de verbas para investigação”? Só para ficarmos mais bem informados. A não ser que essa afirmação seja mais um sound-bite daqueles que nos querem impingir todos os dias.
      São muito dignificantes para o país e para quem as profere, zurrices do tipo: o PS conseguiu evitar que o comissário português ficasse com um pasta (pretensamente) mais importante. Não são?
      Custa muito à tralha socialista que o PS nunca tenha conseguido colocar nenhum representante seu em nenhum lugar de destaque na Europa. Como dizia o outro: é a vida.
      Entretanto os Tribunais portugueses (certamente ao serviço da direita neoliberal) vão condenando semanalmente importantes figurões e ex ministros do PS a penas de prisão. Se calhar é por se terem portado bem.

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