O pessimismo não é um exclusivo nacional, mas assenta numa consciência ancorada na cultura contemporânea. Imaginem um romance onde o autor decide casar toda a gente e são todos felizes para o resto da vida. Um livro deste tipo dificilmente veria a luz do dia, pois o editor acharia tanto optimismo um perfeito disparate. Se, passando entre as gotas da chuva, chegasse às livrarias, a história seria ridicularizada. Enfim, isto não se aplica a paródias, havendo ainda outras excepções, mas o ponto é o seguinte: já não há finais felizes.
Imaginem o espanto do público na exposição de pinturas com flores e pessoas contentes e casamentos e alegria e vida e ainda sol e felicidade. Toda a gente diria que o pintor era maluco, sem ter incluído uma referência ao medo de existir, ao destino fatal da condição humana, sem sequer uma crítica tímida à opressão, às injustiças sociais, ao peso do declínio da civilização ou à ameaça existencial. Tendo em conta a crise eterna, o optimismo seria deslocado também numa simples comédia em filme ou no teatro.
Cores bonitas, pessoas lindas? Nem na moda ou na publicidade isso funciona: tem de haver uma pequena crítica, algo de bizarro ou grotesco, uma beleza fria ou indiferente. Numa sociedade obcecada com a visão pessimista de si própria, o final feliz tornou-se numa anomalia antiquada e tola. Pode até surgir como comentário trocista, mas nunca como imagem da realidade. O final feliz precisa de alguma forma de ambiguidade ou será visto como estúpido e infantil.
O mundo é aquilo que vemos dele. As reportagens e os documentários são sobre gente no limite, sobre injustiças e derrotas. Os romances centram-se no fracasso ou na observação do homem trucidado pela História. Os filmes são violentos, a pintura é sombria, a música inquietante.

Antes matavam quase sempre os heróis nos filmes, para não haver mais que contar, mas agora deixam sempre uma porta aberta para uma eventual sequela. Infelizmente com os livros não se passa o mesmo. Às vezes penso que quem está feliz não sente tanta necessidade de escrever. Mas se visitar o meu blogue (passe a publicidade) constatará que tem imagens e textos bastante tranquilos. Claro que com este conteúdo não tem muitos leitores.
E quais as razões?
– Revolucionários precisam de desvalorizar a sociedade existente para a Revolução ter mais hipotese de sucesso?
– Sem Deus o Homem não consegue ser Optimista?
– Paradoxalmente com a melhoria da qualidade de vida o Homem tornou-se mais intolerante a qualquer falha e logo mais pessimista ?
Quem se casaria hoje para ver 2 ou 3 filhos mortos sem chegarem a adultos como há 150 anos atrás?
Grande verdade – a arte se é feliz deixa de o ser (e se faz dinheiro, também, relembrando Millor Fernandes). Atrever-me-ia a dizer que o culto do negativo e do pessimismo na cultura e na arte, curiosamente, poderá deixar as pessoas mais infelizes, estabelecendo-se depois um ciclo altamente vicioso. O deslumbramento é visto como infantil, sim, kitsch ou naive. Tenho dias em que faço um zapping pelos canais cabo e os filmes são de uma violência e fealdade extremas. As atrizes ganham oscares quando ficam feias: Nicole Kidnam, Charlize Theron, entre outras, agora até ouvi falar da Jennifer Aniston. O que comprova tudo o que tão bem disse no post. Na mouche.