Mea culpa


escafandro,

Por motivos que não vêm ao caso, tenho seguido pouco a campanha interna do Partido Socialista. Indesculpável, eu sei, quaisquer que sejam os tais motivos, decorrendo ela desde tempos quase pré-pós-troika e, considerando a qualidade dos intervenientes principais (ou pelo menos de um deles, génio indiscutível, messias sem túnica), estando ela certamente repleta de ideias inovadoras que farão Portugal crescer a seis ou sete por cento ao ano, de modo a, talvez logo no orçamento de 2016, poderem reverter-se as políticas do governo actual e evitarem-se mudanças tão tenebrosas quanto a privatização de empresas públicas e a reforma da Segurança Social.

Transbordando de complexo de culpa, decidi que tinha de ver o primeiro debate televisivo entre Seguro e Costa, ocorrido anteontem. Infelizmente, um facto inesperado impôs-se de novo: esqueci-me. Só ontem de manhã, ao ler os textos do Luís Menezes Leitão e do Pedro Correia, aqui mesmo no Delito, me apercebi da falha cometida (sim, sim, sem dúvida: é indesculpável). Desesperado, resolvi que nada me faria deixar de assistir ao da noite passada. De modo a não falhar novamente, coloquei um alerta no telemóvel e optei mesmo por não ir à Feira do Livro do Porto ver Pedro Mexia e Salvato Telles de Menezes discorrerem sobre as obras de David Foster Wallace e Pier Paolo Pasolini (andava há vários dias desejoso de perceber as ligações entre ambas mas aquilo começava às sete da tarde e sabe-se lá se demoraria tanto tempo quanto leva a ler Infinite Jest ou parecem demorar os filmes de Pasolini). Infelizmente, quando cheguei a casa pousei o telefone no quarto, onde deve ter retinido até, misericordiosamente, lhe acabar a bateria, e depois pus-me a rever um filme de 1932 com Marlene Dietrich (O Expresso de Shangai, de Joseph Von Sternberg), acabando por me esquecer outra vez. Evidentemente, estou mortificado, não tenho feito outra coisa que não criticar-me e garanto que tentarei corrigir a minha ignorância sobre a campanha interna do PS tão depressa quanto possível. Creio que há um terceiro debate e procurarei não o falhar, nem que para isso tenha de usar métodos ainda mais radicais, como, para começar, ir ao Google pesquisar a data da sua realização. E, se por uma conjugação aziaga do destino, também esse não vir, procurarei informação nos noticiários televisivos, ainda que tal me pareça um oxímoro, e nos jornais e na internet e na rádio e noutros meios de que entretanto me lembre. Talvez até siga os candidatos e assista aos seus discursos. Afinal, em Outubro já devo ter menos razões para andar tão alheado da actualidade política.

Se não o conseguir, resta-me o consolo de saber que, felizmente, qualquer dos candidatos tem capacidades e ideias mais do que suficientes para salvar o país sem a minha atenção.

12 comentários em “Mea culpa”

  1. Li sua reflexão com muito interesse e a conclusão a que chega. O final desta sua homília recordou-me aquela frase de Jesus:

    “Deixai que os mortos enterrem os seus mortos”.

  2. Caro José António
    Acabas de passar a ti próprio o melhor certificado de saúde mental que poderias desejar. E, por favor, não te lembres do terceiro. É o melhor que podes fazer pela continuação do teu bem estar.
    Eu que os vi, ando com tonturas e o médico declarou serem resultantes de um novo vírus que se propaga pelos frente a frente políticos e futebolísticos. Parece que se cura se o paciente se afastar de imediato de qualquer meio de comnicação social.
    Mesmo em relação ao DO, o clínico impôs algumas restrições, dado a frequência com que se abordam aqueles temas e considerou o teu exemplo como aquele que eu devo seguir. Estás a ver a tua sorte?!

    1. Helena:
      De facto ando a sentir-me estranhamente bem. Ou pelo menos não muito mal, o que já é bom. Aqui entre nós, debates políticos ou futebolísticos conseguem deixar de pantanas a frase ignorance is bliss: uma pessoa assiste e fica mais preocupada (como devia) mas tão ignorante como antes.

  3. Esse tal terceiro da série é depois de terem fechado as inscrições para os simpatizantes poderem votar. Mas já lá diz o Povo: o que não tem remédio remediado está.

    1. Pedro:
      O texto tem uns exageros mas a verdade é que me esqueci mesmo dos debates. 🙂

      (O que teve os seus pontos positivos: prefiro olhar para a Marlene durante uma hora e tal do que para o Seguro ou o para o Costa.)

      1. Esse filme do Sternberg tem uma das melhores frases da história do cinema:
        «It took more than one man to change my name to Shanghai Lily.»
        (melhor do que qualquer frase até hoje pronunciada por Seguro e/ou Costa)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *