Em arte não há certezas


Luís Naves,

Em post anterior, A mediocridade literária, referi a polémica em torno de um texto sobre George Orwell; o que escrevi suscitou um comentário muito interessante do nosso leitor Luís Miguel Rosa, que podem seguir neste excelente Um Blog Fashionável.

 

Várias questões levantadas no comentário são pertinentes, mas aproveito para explicar que não sou historiador de arte nem perito em literatura. Sobre este assunto, tenho opiniões que resultam do meu trabalho, não passam de observações de um autor que tenta analisar aquilo que faz.

Quem escreve tem preferências. Costumo citar uma fase de Miquel Barceló: “Cada pintor faz a sua própria História de Arte”, que pode ser interpretado como a viabilidade de todas as opções de estilo. O mais importante não é caber num rótulo. Um escritor escreve por ter coisas para dizer e usa determinada forma, quase sempre tirada da tradição e que lhe parece a mais eficaz naquele momento.

Nesse sentido, ninguém escreve para leitores ou críticos. Cada artista usa técnicas e formas adequadas ao objectivo da obra.

Como escreve Luís Miguel Rosa, a escrita literária tem de comportar “dificuldade e complexidade, caso contrário não há motivo para ler um romance em vez de um jornal”. Há ainda a questão do gosto, que é individual (cada leitor tem o seu gosto).

Assim, não existe oposição entre estilos simples e complexos, mas oposição entre eficaz e ineficaz. Entre uma obra que toca nos nervos de uma sociedade e outra que passa ao lado do essencial.

A interpretação que fiz do texto de Will Self sobre George Orwell sugere que o crítico não está a falar de Orwell, mas do seu próprio trabalho. Acrescento que os leitores não querem “este tipo de pós-modernismo” e, neste ponto, posso ter sido menos claro. “Os leitores não querem nada”, escreve Luís Miguel Rosa, mas o facto é que querem provavelmente uma literatura que não seja elitista, artificial ou alheia ao seu mundo, vazia ou politicamente correcta, histérica e autocentrada. Claro que o mundo contemporâneo, sendo mediatizado e financeiro, relega a literatura para plano secundário, perante o triunfo da cultura popular e dos êxitos de vendas. É difícil saber o que querem as pessoas que verdadeiramente gostam de literatura, mas como já escrevi neste blog, os escritores têm cada vez menos importância (até política) e aqui estamos perante o dilema do ovo e da galinha, qual deles nasceu primeiro? Será que os escritores escrevem coisas irrelevantes ou é a sociedade que rejeita a sua relevância?

Em resposta a esta questão, defendo que a escrita deve tentar impedir a imbecilização do público e reconquistar o terreno da legibilidade. Não é escrever jornais em forma de livro, mas simplificar, regressar à sociedade, ter conteúdo. Não sou defensor de frases curtas em vez de frases compridas, sou a favor de frases com sentido e clareza.

Mas estas, repito, são meras opiniões e, no fundo, estou a falar do que faço ou tento fazer. Em arte, felizmente não há certezas.

  

 

Um comentário em “Em arte não há certezas”

  1. Sim, Luís Naves. A arte é um acto solitário. Só é artista quem o faz nesta circunstância, exactamente porque não trabalha para críticos ou leitores, ou, ou, ou…

    Neste sentido, o artista não escreve, não pinta, não dança, não actua para alguém, mas deixa-se encontrar por quem o deseja.

    Do mesmo modo o leitor não sabe o que quer, ele simplesmente quer ler e encontrar algo que o agrade e que o toque. O sentido da descoberta tanto é para o que cria quanto para o que busca. E cada um deles encontra-se sempre nessa procura. Não é por acaso que, por exemplo, um quadro é a face visível do invisível.

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