O escritor Will Self define George Orwell como “mediocridade literária”, num texto que pode ser lido aqui (em inglês, transcrição de programa de rádio). Claro que se trata de lançar uma pedrada no charco estagnado das discussões intelectuais: Will Self é um iconoclasta que gosta de chocar, também há aqui estratégias de marketing e circo mediático (é necessário que se fale dos autores que publicam um novo livro), mas o texto é curiosamente contraditório, pois a suposta “mediocridade literária” tem um “estilo que consegue explicar um número de coisas com dolorosa clareza”, o que devia ser um elogio brutal.
No fundo, a crítica a um autor clássico visa contestar uma das características mais importantes de Orwell: a simplicidade. Aliás, a argumentação está centrada no ensaio sobre “Política e a Língua Inglesa”, o que é revelador. A literatura das duas últimas décadas tentou romper com estes processos da clareza e da legibilidade, introduzindo a complexidade da linguagem, o fluxo de consciência que atropela as ideias. Ao atacar a tradição, Self está a defender a sua dama.
Julgo que este pós-modernismo bateu na parede (os leitores já não o querem) e que a literatura contemporânea tem de recuperar a simplicidade da tradição, entretanto perdida em tentativas de experimentalismo e nas histerias autocentradas e preocupadas com a destruição do que se imagina ser a velharia.
As sociedades contemporâneas estão a envelhecer, mas o antigo deixou de contar, os escritores tentam ser aquilo que não são: criam personagens públicas, transformam-se em actores e figuras vagamente divertidas, domesticadas pelos media, em vez de continuarem a ser intelectuais envolvidos no seu mundo. Existe o culto do novo, daí as visões da realidade serem sempre tão negativas, embora inócuas e cuidadosas quando abordam o multiculturalismo ou usam a linguagem do politicamente correcto (digamos, a novilíngua).
George Orwell era o inverso disto, tinha ideias políticas e defendeu-as, rejeitando o conforto do mediatismo ou as hipocrisias do consenso intelectual. Gosto muito deste autor, da sua simplicidade estilística e riqueza de conteúdo. O espantoso romance 1984 teve grande impacto no meu imaginário, mas há outro livro que me impressionou e que nunca vi em português, Coming Up for Air, história de um homem convencional que, fugindo à sua existência conformista, faz uma viagem nostálgica ao passado. Também gosto dos ensaios e de Os Dias da Birmânia, mas em Coming Up for Air, de 1939, o autor antecipa a guerra que se aproxima: a sua personagem imagina a destruição provocada pelos bombardeamentos aéreos (que se tornariam reais dois anos mais tarde).
Orwell combateu em Espanha, experiência que relatou em Homenagem à Catalunha, e tinha vivências preciosas, imaginação, memória e cultura sólida. Em A Filha de um Reitor descreve uma personagem feminina poderosa, coisa rara em autores masculinos. Orwell era um enorme escritor, não haja dúvida, capaz de pensar sobre os conflitos do seu tempo, sobre a luta de classes, sobre pobreza e literatura, sobre jardinagem, colonialismo e mudança, sobre a nostalgia e o futuro.
Nem de propósito, tinha isto escrito e surge o post de Sérgio Almeida Correia, onde se refere o risco de ler George Orwell na Tailândia. Mediocridade literária? Só pode ser brincadeira.


Eu li o texto de Self e não me senti nada persuadido da sua tese. Parece que Orwell cometeu o crime de ter uma opinião sobre estilo – no caso dele, simples, directo, despojado, como fica bem ao jornalista que era – e Self deduz disso uma mente reaccionária que queria o inglês parado no ano de 1945. O estilo de Orwell serviu-lhe bastante bem. Mas Self não lhe perdoa não ter querido ser James Joyce ou Vladimir Nabokov. Parece-me que Orwell compreendia as suas limitações literárias e ateu-se ao que podia fazer com esmero. 1984 é um dos mais cativantes romances que já li; os ensaios dele também são lúcidos, cogentes e inteligentes. Orwell era um grande comunicador e essa é a melhor qualidade que transparece da sua obra: o seu dom de transmitir informação ao leitor.
Quanto a Self, pelo que conheço da sua fama, ele parece ser um cavalheiro ressabiado que não é levado muito a sério como romancista no RU apesar de se esforçar por ser um dos grandes da actualidade. Geralmente eu só ouço falar dele, não por causa dos romances, mas devido a artigos controversos como este. O último que me trouxe à atenção dele foi sobre o cediço tema da Morte do Romance. Já não há pachorra!
Agora quanto ao texto do Luís Naves, há tanta coisa para discutir nele:
– 1) Eu, apesar de tudo, pertenço ao campo de Self no tocante ao estilo: prefiro-o complexo; a escrita literária não é escrita jornalística, é um outro tipo de escrito, mais elaborada, trabalhada, surpreendente e bela. Prefiro de longe Nabokov a Hemingway; prefiro as frases longas de Saramago às curtas frases declarativas de Raymond Carver; prefiro a desfragmentação temporal de Torrente Ballester à linearidade de Agatha Christie. A escrita literária tem de comportar alguma complexidade e dificuldade, caso contrário não há motivo para ler um romance em vez dum jornal.
2) Dizer que Self reage ou não contra a tradição depende de como a encaramos. A visão de que o romance antigamente era simples e linear e claro, e depois vieram os Modernistas e os Pós-Modernistas e ficou tudo uma trapalhada sem nexo, parte do princípio de que o romance é aquela fórmula que se convencionou imitar desde o século XIX. Na verdade, Steven Moore, em The Novel: An Alternative History, traça uma história do romance que contraria essa visão e coloca a complexidade, a arte pela arte, a pirueta técnica, o bizarro, como elementos muito antigos do romance que na verdade se perderam com a sua banalização e massificação (século XIX) e que foram redescobertos pelos autores do século XX, assim fazendo de Joyce e companhia tradicionalistas.
3) Quanto aos leitores não quererem o pós-modernismo, a verdade é que eles não querem nada; se os autores dessem aos leitores apenas o que eles querem, não haveria literatura. Ela existe, não pela graça de leitores, mas apesar deles, que estão demasiado ocupados a ler Eugéne Sue, A Rosa do Adro, Adrian Mole e romance policiais escandinavos para perceberem seja o que for. Eu fico feliz por haver homens e mulheres que se esforçam para criar maravilhosas obras literárias que sabem que ninguém vai querer ler, apesar do trabalho que exigiram e da beleza que emitem. Ninguém quer saber que William Gass tenha passado 25 anos a escrever um romance aliterativo de 600 páginas: cada frase é uma melodia, cada palavra foi cuidadosamente escolhida para ressoar noutra, é um longuíssimo poema em prosa de inexcedível brio, e ninguém quer saber. E Gass é do mais pós-modernista que há, foi ele quem cunhou a palavra meta-ficção. Eu estou grato aos pós-modernistas, eles revolucionaram a literatura, fizeram coisas que ninguém achava ser possível, mas ninguém quer saber de excelência porque é mais divertido andar a ler a Lisbeth a punir violadores com vibradores pelo cu acima.
4) Sobre a triste figura dos jovens escritores, absolutamente de acordo. Leio as entrevistas deles e não parecem ter uma única ideia que seja deles, que não seja um cliché de modas e tendências bem-pensantes. Acabei de ler Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, seguido de Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer, com entrevistas de Valter Hugo Mãe e Gonçalo M. Tavares, e o contraste era tremendo entre a honestidade brutal de um e a vontade de não ofender muito dos mais novitos.
Ih, que horror, escrevi ‘ateu-se’ em vez de ‘ateve-se’! Malditos verbos irregulares.