Cadernos de um enviado especial ao purgatório (33)


Luís Naves,

O cessar-fogo no leste da Ucrânia tem a virtude de travar o banho de sangue, mas não resolve o conflito, apenas garante que a soberania ucraniana continuará a ser uma ficção. Os Ocidentais evitam o confronto directo com a Rússia, que está perto de conseguir o seu objectivo: a Ucrânia continuará a ser um país domesticado. Para isso, bastará formar uma nova entidade política, habitada por “russos” que serão prontamente auxiliados por Moscovo, antes e depois das negociações. Se Kiev tentar a democracia, terá ali um espinho cravado.

A criação de enclaves hostis é uma ideia testada: a Rússia mantém sob seu controlo territórios em países que se separaram da URSS, por exemplo Transdniéstria (Moldávia) ou Abcásia e Ossétia do Sul (na Geórgia), governados por delinquentes armados que procederam a limpezas étnicas e que se dedicam a diversos tráficos. Qualquer tentativa de recuperar os enclaves suscita a resposta militar imediata da Rússia. Assim, a Ucrânia será um país instável, sem possibilidade de se aproximar demasiado da UE e sem eleições livres na totalidade do seu território, com uma província anexada e outra separatista. A Europa terá escasso incentivo para decretar novas sanções contra a Rússia. A mini-Guerra Fria deverá ficar por aqui, limitada a relações pouco amistosas e retórica inconsequente.

Enfim, na História de 2014, regista-se que Moscovo utiliza tácticas coloniais do século XIX e esse comportamento é aceite pelas democracias ocidentais, sempre ligeiramente hipócritas, sobretudo quando falam de liberdade. Apesar de tudo, a Ucrânia escapa com sorte: não perdeu muito território e receberá  ajudas militares não letais, para a coisa não parecer um Acordo de Munique.

Um comentário em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (33)”

  1. Sauda-se para já a paz; e penso que a sua razão de quem começou deve-se manter submersa.
    Seguir as pegadas de elefante dos Obamas não serve a UE no todo e muito menos ao nosso maior parceiro.

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