A missa anual


Luís Naves,

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O calendário atinge 25 de Abril e ocorre um curioso fenómeno na sociedade portuguesa, mistura de pensamento mágico com dogmas arqueológicos e a aparente necessidade de suspender o sentido crítico. As pessoas põem cravos na lapela, desfilam patrioticamente e conformam-se com umas beatitudes políticas sobre liberdade. Este ano, a revolução fazia 49 anos, nem havia número redondo, mas o espaço mediático, incluindo redes sociais, transformou-se numa gigantesca sacristia onde se debitavam as rezas adequadas ao espírito devoto da época. Duvido que todos acreditem naquilo que é dito, mas não deixa de ser intrigante esta unanimidade sobre os acontecimentos de 1974. O regime deixou de se interrogar e as suas elites estão satisfeitas com as fracas realizações. Em muitas cabeças, o império ainda não acabou; em outras, a revolução foi traída. Na realidade, ao contrário da generalidade dos países europeus, Portugal nunca chegou a ter classe operária forte e, nas duas últimas décadas, a classe média foi dizimada. O país vive de rendas e de subsídios europeus, mas é periférico na Europa, não tem ambição e resiste à mudança. Durante esta época de missa obrigatória, a opinião pública é exposta a ilusões esquerdistas do século passado e a História permitida baseia-se numa mitologia piedosa sobre dois períodos caóticos, o PREC e a Primeira República.

imagem, Night Café, IA

O sistema


Luís Naves,

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O declínio dos velhos partidos tradicionais onde cabia toda a gente (social-democracia, socialismo ou democracia-cristã) deu origem a um sistema fragmentado, onde os não-eleitos têm um papel cada vez mais influente, por exemplo através de organizações internacionais, grupos de especialistas, corporações, comentadores, academia. As carreiras dos políticos que vencem eleições são hoje mais curtas e o exercício do poder desgasta depressa. O povo tornou-se numa entidade abstracta, cujo voto é parcialmente dispensável: a escolha de muitos eleitores pode ser ignorada e isto é considerado normal; outros usam o chamado voto útil, que não os tranquiliza, votando em alguém cuja voz pelo menos será escutada. O fenómeno é europeu e aumenta com o descontentamento. As pessoas não gostam da crispação, do excesso de retórica e da instabilidade, não gostam do desprezo e da sobranceria, mas é isso que os eleitores estão a receber em dose crescente. A bolha político-mediática desligou-se da sociedade e o movimento vai nos dois sentidos. Se a política deixa de servir os interesses da população, então serve para quê?

imagem, Night Café (IA)

Desigualdades e guerra


Luís Naves,

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As elites ocidentais beneficiaram durante as últimas três décadas da prosperidade gerada pela chamada ordem liberal, que triunfou após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Muitos países enriqueceram imenso, mas as desigualdades internas aumentaram em cada um deles. A questão da distribuição desigual dos benefícios da globalização tem sido muito discutida (por exemplo, aqui, onde se fala da derrota da classe média). Os EUA mostram números impressionantes. A riqueza cresceu de forma espectacular, mas a metade mais pobre da população empobreceu em termos reais: a média de 21 mil dólares em 1989 baixou para 16 mil em 2016. Os 10% do topo amealhavam 67% da riqueza total em 1989, mas essa fatia crescera em 2016 para 77% do bolo americano, que entretanto se tornara muito maior. Formaram-se fortunas que, em proporção, rivalizam com os Crassus e Herodes da antiguidade.
Vemos os gráficos sobre a distribuição da riqueza e é difícil acreditar, embora estes sejam cruciais para explicar o fenómeno Trump. Os homens de Davos controlaram o planeta, mas a mudança da ordem global provocada pela guerra da Ucrânia e a rivalidade comercial com a China afectou de forma directa os numerosos interesses destas elites. Os dois conflitos perturbaram o sistema financeiro e mudaram o comércio internacional, há uma vaga de reindustrialização na Europa e nos Estados Unidos. O sistema está a fragmentar-se em dois blocos e cada nação terá de escolher o seu lado. A partir daqui, torna-se difícil travar o passo da mudança. O comércio global vai recuar, a energia e as matérias-primas serão mais caras.
Países de África, América Latina ou Médio Oriente parecem pouco dispostos a seguir as regras anteriormente impostas pelos interesses das grandes fortunas euro-americanas. Isto é visível no regime de sanções financeiras, que não prejudica apenas a Rússia, mas quase toda a gente. Muito do que ouvimos dos dirigentes ocidentais corresponde a um lamento atrás do outro, como quem diz que seria bom que se pudesse voltar para o antigamente.
Torna-se também mais compreensível a insistência numa guerra que, no mínimo, deixa a Ucrânia destruída, e que, no pior dos cenários, nos pode conduzir a um holocausto nuclear. Basta um erro, uma má interpretação do resultado de uma batalha, basta que alguém perca o sangue-frio, e teremos ogivas nucleares em voo. Se houver sobreviventes, a guerra nuclear funcionará como um grande mecanismo de igualdade, o rico igualzinho ao pobre.
Não sabemos bem o que vai acontecer, se teremos escalada ou processo de paz. Os sinais são contraditórios. Ninguém diz com clareza o que pretende, embora do lado ocidental uma das intenções seja certamente a preservação de um sistema económico que durante trinta anos trouxe muita prosperidade, mas sobretudo aos milionários. Essa ordem global beneficiou desproporcionadamente uma classe que não pode nem quer abdicar do privilégio.

imagem Night Café, IA

Poderes paralelos


Luís Naves,

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Fala-se muito no populismo como perigo iminente para a democracia, mas o maior perigo é outro, visível um pouco por todo o lado, a colonização das instituições pelos partidos políticos, por organizações de massas a agendas tribais. Há uma teia de ligações partidárias que se estende por instituições do Estado que deviam ser neutras. Quem estiver fora desta teia não tem carreira. A contaminação invadiu toda a sociedade, sobretudo jornais e universidades, onde se instalaram activistas políticos, muitas vezes radicais, que durante décadas se dedicaram a purgas ideológicas, afastamentos compulsivos dos dissidentes, assédio moral daqueles que discordam. A meritocracia foi destruída e florescem estes pequenos sobas que abusam dos seus poderes com total impunidade. Pertencem a partidos pequenos e grandes, têm programas políticos e usam as ligações para proteger os seus feudos. Eles criam climas de medo e abusam das funções, todas as pessoas à sua volta sabem e calam. Quem não obedecer, vai para a rua.

imagem, Night Café, (IA)

O clima


Luís Naves,

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Uma das características evidentes das redes sociais é o clima de intolerância que se instalou em relação a qualquer ideia que esteja fora da realidade permitida. Existe uma narrativa convencional e segue-se o ataque feroz às transgressões, por menores que sejam. O crime pode ser uma simples frase ambígua. Nesta nova cultura, é impossível discutir racionalmente. Os argumentos transformam-se depressa em bombardeamentos radicais, rasgar de vestes, gritarias, nós contra eles. O fenómeno não é exclusivo das redes sociais e está a alastrar na política tradicional e nos velhos meios de comunicação. As pessoas têm de medir o que dizem e devem ter cuidado quando tentam criticar as verdades absolutas que se instalam no meio mediático. No passado, isto chamava-se auto-censura. Há hoje temas sobre os quais deixou de ser possível argumentar. Quem não segue as interpretações inflexíveis é excluído e, pelo contrário, quem repetir as teses permitidas será compensado. Esta é a construção do futuro: teremos um mundo mais intolerante e repleto de moralistas. Como a religião foi abandonada, isto vem tudo embrulhado em éticas cívicas e nos nossos valores, que são sempre muito melhores do que os valores dos outros.

imagem, Dall-e

Crise da democracia


Luís Naves,

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Há duas teses opostas sobre a crise das democracias. Alguns estudiosos e comentadores julgam que o povo não sabe votar e que as maiorias criadas pelo voto tentam limitar os mecanismos de controlo (funcionários, instituições não governamentais, académicos, juízes, jornalistas). Quando a direita vence eleições, procura conter os poderes destes grupos não eleitos que se auto-intitulam liberais. Como se reclamam da defesa das liberdades, estas entidades resistem, acusando o poder de ser populista. As palavras populista e liberal são apenas rótulos simplificados, mas os governos diabolizados consideram que a resistência vem de elites que não querem respeitar o veredicto popular. Alguns chamam aos não-eleitos “o estado profundo”. Isto é visível, por exemplo, nos poderes da União Europeia, que parece cada vez mais afastada dos interesses dos países que representa. Também é visível na influência de causas ultra-minoritárias, como nos direitos trans e outros. Os intelectuais da direita dizem que a esquerda se apoderou das instituições não-eleitas. A mesma esquerda ataca ferozmente todas as organizações que não controla, como é o caso das Igrejas. Lentamente, a ideia de que a democracia não se esgota nas eleições vai evoluindo para a ideia de que as eleições não contam, o mais importante é a mobilização, a denúncia permanente e, se for preciso, a desordem.

imagem, Dall-e (IA)

O génio saiu da lâmpada


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O artista alemão Boris Eldagsen venceu um prémio de fotografia com uma imagem concebida por Inteligência Artificial (IA). O objectivo da sua candidatura foi demonstrar que existe um problema e que é impossível detectar o uso destas tecnologias. As IA podem conceber imagens novas, produzir ensaios e escrever contos de ficção científica. Esta história, por exemplo, é deliciosa. Existem muitos avisos sobre os perigos das IA e já ninguém tem dúvidas de que isto vai mudar as nossas vidas. Muitas profissões serão talvez extintas. Ao longo da próxima década, haverá profundas alterações económicas. Já é possível automatizar tarefas que até agora eram do domínio das elites, mas a mudança levará alguns anos. Terá de se alterar tudo, o trabalho, as pensões, a segurança social, o lazer e o tempo disponível. Em breve, estes programas vão solucionar problemas e criar coisas novas, como invenções e descobertas científicas, farão propostas de inovações sociais e poderão melhorar a vida de populações de regiões remotas, pois pequenas comunidades passam a ter acesso a professores e médicos de topo, ainda por cima baratos, pacientes e sempre disponíveis. Haverá pequenas revoluções em muitos sectores. O génio saiu da lâmpada, é improvável que se deixe aprisionar. E temos direito a três desejos.

Imagem criada por IA, Night Café

Os bairros pobres


Luís Naves,

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As pessoas pobres são mais afectadas pela inflação e devemos estar atentos ao que sucede em bairros menos afortunados das cidades ou nas regiões onde o poder de compra é limitado. Os efeitos do aumento dos preços já são visíveis em certas zonas, com sinais de degradação no comércio e falta de compradores ou nos sacos que saem das lojas demasiado leves. Não é fácil gerir um orçamento familiar quando aumentam as hipotecas e rendas, a factura da comida e os preços da energia, ao mesmo tempo que o salário fica na mesma. Há notícias de que isto está controlado, é usada uma linguagem optimista (quando se diz por exemplo que a inflação baixou). Devia dizer-se que está a aumentar mais devagar e bem acima da taxa de crescimento económico: para o ano, os aumentos salariais não podem compensar a subida dos preços de agora. Inflação com crescimento baixo é uma mistura explosiva nas zonas pobres. Depois, virá o fecho de lojas e a redução da produção nas fábricas. Quem estiver endividado, vai passar um mau bocado. A crise que agora começa é mais complexa do que se imagina e os seus efeitos negativos serão rápidos.

imagem Night Café (IA)

Epidemia de dança


Luís Naves,

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A politização da justiça está a causar crises inesperadas. Os partidos religiosos de Israel queixam-se dos tribunais laicos e exigem uma reforma que obrigue os juízes a obedecerem ao poder político; um ex-presidente americano vai a tribunal por crimes menores, para escândalo de metade do país e júbilo da outra metade. Estes são apenas dois exemplos de histórias no seu início, que revelam tensão entre elites e povo, ou entre eleitos e não-eleitos. Há outros exemplos de politização acelerada em sistemas menos relevantes, como universidades, comunicação social ou entretenimento, nos quais se propagam sinais de entropia. A imprensa concentra-se em poucos grupos cujo financiamento nem sempre é transparente; as séries de TV, sobretudo no streaming, são hoje veículos de activismo militante, também pouco transparente. Às tantas, ninguém confia em coisa alguma. As pessoas deixam de acreditar na justiça e nas notícias, desconfiam de tudo, dos intelectuais e magistrados, dos jornalistas, da própria ficção. Na Europa medieval houve vários surtos de uma mania de dança que envolvia centenas ou até milhares de pessoas. Estas multidões não conseguiam parar de se mover; muitas vítimas caíam para o lado e morriam de cansaço. A população andava assustada com o repentino alvoroço. Foi histeria colectiva ou doença infecciosa? Ninguém sabe, mas há alturas em que toda a gente parece mover-se ao mesmo tempo, cada um para seu lado, numa agitação doida cujo único propósito é apenas o movimento. É nestes tempos de bailes alucinados que se multiplicam os falsos profetas.

imagem Night Café (IA)

A verdade e a mentira


Luís Naves,

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O Presidente francês está a ser criticado pelo que disse sobre as relações da França com a China. Nos dias que correm, isso significa que ficou subitamente no lado errado da força. Do ponto de vista de Paris, a visita à China foi um êxito diplomático, mas Washington não terá gostado de frases com linguagem semelhante à dos chineses, por exemplo, a defesa do “mundo multipolar” ou a contestação da “mentalidade da Guerra Fria”. Numa entrevista, já no regresso a Paris, Macron atreveu-se a dizer que Taiwan não é um problema da Europa e que os europeus devem evitar tornar-se “vassalos” da América. Frases mais explícitas terão sido retiradas a tempo, antes da publicação.

The Economist não gostou. O New York Times condenou Macron sem reservas, num texto onde Ursula von der Leyen surgia como uma heroína da resistência, colocada no pedestal do bom comportamento. A líder da Comissão saiu da China pela porta pequena, após ter ofendido os mandarins. O PM polaco também mandou recados a Macron, insinuando que havia líderes europeus a “sonhar” que podiam “cooperar com a Rússia e alguns poderes da Ásia”, leia-se com a China, leia-se também que a Polónia se encarregará de travar essas ambições.

Afinal, quem manda hoje na Europa? O eixo franco-alemão, como nos habituámos a ver, ou os dirigentes que se dão muito bem com a América? O facto é que já não é possível disfarçar as divisões na UE, sobretudo com a estratégia na guerra da Ucrânia. Lembram-se das reportagens sobre os migrantes que a Bielorrússia despejou para a Polónia? Os polacos responderam à provocação com uma barreira que provocou um clamor nas redacções. Na altura, o governo polaco era quase fascista, agora é exemplar na luta contra a tirania.

A guerra da Ucrânia matou dezenas de milhares de pessoas, mas também se combate na opinião pública ocidental. Há assuntos de que não se fala: a corrupção do lado ucraniano e os desvios de dinheiro e armas, as elevadas baixas ou a perseguição religiosa e linguística. Um tenente-coronel ucraniano que esteve meses na frente de batalha dizia recentemente, citado pelo New York Times: “A guerra de informação é tão intensa, que já não conseguimos saber o que é verdade e o que é mentira”. Excelente resumo.

imagem: Night Café (IA)

Analogias


Luís Naves,

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Na análise da situação internacional, encontramos muitas analogias com 1938, Neville Chamberlain e o acordo de Munique. Julgo que esta é uma forma eficaz de eliminar à nascença qualquer possibilidade de paz na Ucrânia, pois não se negoceia com um ditador como Hitler, conversa acabada, não se faz um acordo com o diabo. Estas interpretações omitem um facto da maior importância: o erro de Chamberlain não foi ter assinado um acordo de paz, mas ter recusado um entendimento com outro tirano, Estaline, semanas antes de aceitar a cedência de território checoslovaco aos nazis. Os aliados chegaram a Munique em desvantagem e, claro, foram enganados.
Chamberlain era um homem extremamente conservador e foi incapaz de conceber a ideia de se aliar ao dirigente comunista, cercando a Alemanha em 1938, o que provavelmente teria levado os generais alemães a tentarem um golpe contra Hitler. O PM britânico não negociou com Estaline por achar que Hitler era mais razoável do que o georgiano. Isto foi uma escolha, pelo menos na versão inglesa, que pode ser lida aqui. Do ponto de vista de Londres, a URSS era uma ameaça maior do que a Alemanha. Os polacos concordaram. Depois de Munique, os checos pediram ajuda a Moscovo, mas a oportunidade perdera-se e as tropas soviéticas não tinham por onde passar.

 

O que pensavam os soviéticos? As fontes ocidentais dizem que isso é pouco claro. Facto: Estaline não confiava em Chamberlain. O biógrafo Stephen Kotkin, que analisou o arquivo do próprio Estaline (isto vem no segundo volume da monumental biografia Stalin, Waiting for Hitler), diz que o Kremlin queria uma aliança com as potências ocidentais, a qual deveria incluir polacos e checos. Chamberlain e polacos recusaram as tentativas diplomáticas, a URSS nem sequer participou na conferência de Munique. A decisão foi um erro e quase arruinou o Reino Unido e a URSS. Aliás, Estaline fez mais tarde um pacto com Hitler, sem qualquer ilusão de que seria atacado: pensou que tinha três anos de folga, foram só dois.
O que é melhor, paz ou guerra? Prolongar a paz, em 1938, quase destruiu os defensores do adiamento do conflito. Mas, vendo melhor, as semelhanças com a actualidade são fracas. Havia duas ditaduras e as nações democráticas tinham de pactuar com uma delas e escolheram mal o parceiro. A URSS era um país isolado e Hitler jogava com as ambiguidades e os ressentimentos: a ordem europeia baseava-se em regras definidas pelo Tratado de Versalhes, que tinha uma base étnica e nacionalista. Estas regras favoreciam Hitler e o antiquado Chamberlain dava alguma razão ao líder nazi.
Para explicar a actualidade, a analogia adequada é 1914. Os europeus não pensavam numa guerra generalizada, a economia era próspera, após anos de globalização acelerada e mudança tecnológica que favorecia a qualidade de vida das populações. Desencadear uma guerra era o domínio de líderes que ainda viviam no século anterior e que achavam que o conflito entre impérios duraria escassas semanas. As guerras coloniais eram fáceis e pouco dispendiosas. Por isso, os combates duraram quatro anos e destruíram a Europa. Há quem diga que essa guerra, na realidade, só terminou em 1945. Ninguém pensou que os piores pesadelos podiam ser concretizados.
Hoje, nas notícias, parece que estamos a ler os capítulos do livro de Christopher Clark Sonâmbulos, Como a Europa foi para a Guerra em 1914, obra que explica os colossais erros políticos cometidos por uma elite fora da realidade. Havia cinco potências, mais quatro secundárias, mas a grande rivalidade era entre Alemanha e Grã-Bretanha. França, Rússia e Áustria-Hungria também afiavam as facas e competiam na expansão imperial.
No nosso caso, há três potências nucleares à beira de um choque e duas delas já se enfrentam quase directamente, numa situação extremamente perigosa. A grande rivalidade é entre China e Estados Unidos. A guerra da Ucrânia deverá definir a fronteira entre os impérios americano e russo, mas está a provocar uma separação económica entre dois grandes blocos, com as potências menores a terem de afinar as suas alianças e interesses (Irão, Índia, Brasil). A guerra generalizada não é inevitável: tem havido intervenções claras a avisar para os perigos, também análises lúcidas a explicar o que podemos perder. Infelizmente, estas vozes são pouco escutadas.
A Europa suicidou-se em 1914 e quatro impérios colapsaram. O número de mortos foi tremendo, talvez 40 milhões de pessoas em quatro anos, o que dá uma média de 27 mil por dia. Hoje, um conflito semelhante teria armas nucleares e, se tudo corresse mal, seria o provável fim da civilização e talvez até o suicídio da humanidade.

Descontentamento


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Emerge na Europa um padrão de descontentamento que se reflecte em eleições, sondagens e protestos, como se uma comichão se apoderasse das sociedades. Em França, a maioria parlamentar que sustenta o poder é mínima e os inquéritos de opinião sugerem a possibilidade de um sismo político, caso haja novas eleições. Há outros casos recentes, incluindo a subida da direita em Espanha, o progresso dos populistas na Finlândia, Bulgária, Suécia e Holanda, as dificuldades de vários governos, incluindo em Portugal. O que estará a suceder? Não há explicações inteiramente convincentes, mas o fim das ideologias, as mudanças tecnológicas e o aumento das desigualdades económicas são os suspeitos mais prováveis. O socialismo abandonou a luta de classes e defende causas de identidade, o liberalismo criou perdedores, os movimentos populistas engolem o conservadorismo, o centro é um lugar vazio. Os partidos deixaram de escutar os eleitores. Enfim, a política está fragmentada, enquanto a opinião pública é submersa por um turbilhão de futilidades.

Crimeia


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Qualquer interpretação sobre a guerra da Ucrânia que não acompanhe a visão dominante dos meios de comunicação é recebida com intolerância, mas vamos lá tentar sair um bocadinho da lenda. A Ucrânia arrisca-se a ser um estado falhado ou um protectorado euro-americano que levará 40 anos a sair da pobreza. Em Abril do ano passado, houve uma hipótese de paz desigual, mas pressões ocidentais acabaram com o processo. Isto, por exemplo, ainda não está explicado. Entretanto, morreram pelo menos outras cem mil pessoas. O conflito terminará provavelmente num armistício segundo o modelo coreano, com uma fronteira mais ou menos igual à que se negociava há um ano, mas é difícil escrever estas coisas sem receber insultos.
A Rússia não pode abdicar da Crimeia nem retirar o apoio aos russófonos separatistas. Esta é uma questão histórica complexa, (há muita literatura, mas quem estiver interessado deve ler isto). A Crimeia está empapada de sangue russo derramado ao longo de três séculos. Não há nenhum líder do Kremlin que possa abdicar daquele território, sobretudo entregue de bandeja aos Estados Unidos. É como perguntar em Washington que interesses vitais da América podem ser cedidos à China (Florida, Porto Rico, o Panamá?).

 

No início do conflito, o presidente Biden foi claro: o objectivo do Ocidente é mudar o regime do Kremlin. Outros dirigentes de topo têm afirmado que a intenção é desmembrar a Rússia e criar uma confederação domesticada que sirva para cercar a China (explicado aqui). A estratégia do urso de circo parece ter falhado. O Kremlin não ruiu, as sanções tiveram impacto limitado e a qualidade dos armamentos fornecidos chegou aos seus limites. Se o arsenal à disposição dos ucranianos subir de patamar, há risco de uso de armas nucleares.
Quando entramos nas subtilezas, o assunto torna-se ainda mais complicado. Antes da invasão russa, o exército ucraniano estava a ser armado e a intenção era expandir a NATO, colocando a fronteira da aliança a escassos 400 quilómetros de Moscovo. Em Março de 2021, o presidente Zelensky da Ucrânia assinou um decreto a ordenar ao seu exército que recuperasse os territórios perdidos (Crimeia e repúblicas separatistas); em Novembro de 2021, houve um acordo com os Estados Unidos de apoio militar, onde se dizia que a Crimeia “jamais” seria russa. Em 2014, ocorrera a chamada “revolução de Maidan” que foi, na realidade, o derrube de um governo eleito, no âmbito de um conflito antigo entre nacionalistas e pró-russos. Na argumentação a preto e branco, é geralmente omitido que existia uma guerra civil na Ucrânia desde essa data e que o governo bombardeava a sua própria população.
A ideia de um regime democrático exemplar é um mito: companhias ocidentais estavam num processo de compra de terras (as mais férteis da Europa), e havia na Ucrânia muitos nostálgicos do nacionalismo de Stepan Bandera, a Ucrânia para os ucranianos. Isto significa apenas metade da população de 1991 (agora talvez dois terços), o resto emigra ou aceita. Escrever estas coisas é hoje equivalente a ser comunista e merece imediata conotação com os reaccionários de Moscovo.
Não se pode escrever que em 2022 o maior partido da oposição foi proibido na Ucrânia, televisões russófonas foram encerradas, que a igreja ortodoxa tradicional (dependente do patriarcado de Moscovo) é perseguida sem luvas, como são destruídos os livros em russo. Também não se pode dizer que os serviços secretos ucranianos prendem meia dúzia de pessoas por dia (por dia!) acusadas de “colaboracionismo” ou de “espionagem”, para não falar do recrutamento forçado ou da desmoralização dos soldados enviados para o talho do Donbass.
Em Moscovo, este é um conflito existencial: em caso de derrota, o império será desmembrado, por isso a derrota não é um cenário. A Rússia vai separar-se do Ocidente e os europeus perdem acesso a energia, fertilizantes, comida e minerais baratos. O comércio será limitado. O gasoduto que levava gás natural a preços ultra-competitivos da Rússia para a Alemanha pelo Báltico foi destruído à bomba. A Europa sai de tudo isto dividida e humilhada e a Ucrânia é o campo de batalha entre dois impérios.

Comboios


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Milhares de portugueses estão a ser prejudicados pela greve nos comboios mas, olhando para os meios de comunicação, o assunto nem sequer existe. O pequeno período de férias foi perturbado e, no fim-de-semana da Páscoa, os turistas que se aventuraram para Sintra ou Cascais viajaram em condições dignas de uma república das bananas. Horários suprimidos, o caos nas estações, os passageiros sem informação, as raras composições tão repletas como comboios indianos. O fenómeno é nacional. As greves estendem-se por semanas, o prejuízo é incalculável, a sabotagem económica evidente: os sindicatos ligados ao PCP sabem que não terão os aumentos que exigem, o governo sabe que não vai tomar nenhuma decisão que atinja os grevistas, a oposição finge que não vê. Os cidadãos afectados são aqueles que não têm carro e precisam do comboio, os turistas que desistem de fazer turismo, os comerciantes que perdem negócio, enfim, são também aqueles que, pagando os seus impostos, deixam de ter os serviços que pagaram. Existe direito à greve, mas esta luta não é mais do que chantagem. Veremos os efeitos políticos no eleitorado dos bairros suburbanos a desviar-se da esquerda directamente para a extrema-direita. A vida dos habitantes destas zonas tornou-se um inferno quotidiano e a bolha político-mediática está-se nas tintas.

imagem: Night Café

Nostalgia


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Apesar de tudo, resta-nos a nostalgia. Nos anos 80, as raparigas eram magricelas e apenas um bocadinho mandonas. Nos amores e na vida, não havia os exageros desta nossa época de plástico, de bebés-chorões e autênticos-falsos. As questões de identidade ainda não dominavam a vida das sociedades e, embora o assunto fosse discutido, não havia terrores climáticos. As velhas fotografias encheram-se de um estranho cor-de-rosa a envolver o grão, mas ainda conseguimos ver o cabelo esquisito e as roupas descoloridas e os carros, cujos motores ronronavam como gatos felizes. Lembro-me de quase tudo: as pessoas sorriam umas para as outras, pois era assim naquele tempo, de jornais a preto e branco e televisores todos com o mesmo programa. Não era crime ser conservador, tínhamos medo da guerra nuclear, ao contrário do que sucede nesta nossa época irreflectida que, tendo perdido o medo, anda a acender fósforos nos paióis. Havia pânico nos mercados, a inflação doía, mas os eleitos tinham mais autoridade e as instituições pareciam sólidas. Hoje, autoridade tornou-se uma palavra suja e os políticos descrevem-se em frases curtas. Nos anos 80, os nossos computadores eram brinquedos complicados, ainda recém-nascidos, pouco se fazia com eles. Agora, temos máquinas inteligentes que cabem no bolso do casaco, frigoríficos pensativos e caixinhas com bibliotecas, mas já não temos tempo para pensar ou escrever um poema que não seja sintético, nem discutimos as dúvidas calmamente sentados à mesa. Vamos ao cinema e vemos umas películas violentas, com fogo-de-artifício e nenhuma ideia, ao contrário daquele tempo, quando o escuro da sala servia também para namorar jovens magricelas. Ganhámos em cinismo e solidão, deixámos de saber se aquilo que vemos é verdade ou mentira. Perdemos em quase tudo: a música era mais inocente e genuína, a liberdade tinha mais sonho e ousadia, a vida não precisava de ser aumentada.

Ordem mundial


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A História parece avançar em grandes ciclos, geralmente com duração de uma geração. Cada ciclo tem fases semelhantes às de uma vida humana: infância, adolescência, maturidade, declínio e velhice. Entre Ialta e a queda do muro de Berlim decorreram 44 anos, sendo este período marcado pela Guerra Fria, competição entre super-potências, corrida espacial, o triunfo da América, mas também por mudanças económicas que abriram o caminho para a fase seguinte. O ciclo em que vivemos foi abundante em liberalismo e desigualdade, abertura de fronteiras, globalização do comércio, desordem, desindustrialização do Ocidente e digitalização do trabalho. Embrionário antes de 1989, durou até agora 34 anos, mas entrou na sua fase de velhice e vai terminar em breve. A próxima ordem internacional deverá começar em meados da década e terá elementos contrários, que já são visíveis: regimes conservadores, nacionalismo, reforço militar, tecnologia de inteligência artificial, retracção do comércio internacional, costumes mais puritanos. Cada ciclo reage ao anterior. É como nas famílias, a civilização é a mesma, mas as gerações mudaram.

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Natureza morta


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“Considero jornalismo tudo o que amanhã será menos interessante do que é hoje”. A frase foi tirada do diário de André Gide, de uma lista de “folhinhas”, aforismos a fechar o ano de 1921. Gosto de diários, sobretudo de autores que escreviam para a gaveta e faziam literatura, falando das suas vidas e da sua arte, sem preocupação com o que seria publicado. Os diários são registos domésticos; estão para a literatura como as naturezas mortas, as paisagens e os retratos estão para a pintura. Nas datas famosas encontramos textos sobre os acontecimentos, mas seriam ridículos no jornal do dia. Por curiosidade, ao lermos os jornais antigos em datas vulgares, pouco percebemos dos editoriais, escritos para um público que conhecia os factos, entretanto esquecidos. Um exemplo simples: um artigo sobre o actual governo não pode explicar o assunto no seus detalhes, as pessoas sabem do que se trata, mas daqui a vinte anos os leitores desse velho artigo serão outros e, dada a falta de referências, ficarão confusos. As prosas de 1921 sobre a espuma do dia foram tremendas enquanto a tinta secava, mas hoje parecem obscuras. Os leitores têm uma exigência, querem textos fáceis de compreender hoje e rejeitam tudo o que procura ser mais interessante amanhã.

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Look, man


Luís Naves,

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Alguns economistas famosos (Nouriel Roubini, Peter Schiff, entre outros) estão a fazer avisos sérios sobre a vulnerabilidade do sector bancário americano e a ameaça iminente de uma crise financeira, cujos efeitos provavelmente já estamos a sentir. O primeiro destes gurus fala em “crise de dívida estagflacionária”, ou seja, forte recessão com inflação, com os países endividados em dificuldades cada vez maiores, presos num pântano de areias movediças, onde se afunda o crédito, o consumo e a economia real. Nesse cenário, Portugal pode ter problemas. Os pessimistas mencionam a possibilidade de repetição da crise de 2008, mas numa versão de filme de terror, e há académicos a dizer que centenas de bancos americanos estão em dificuldades. Isto surge na pior altura: no meio de um conflito político interno nos EUA, de uma guerra na Europa e de enorme tensão com a China. A crise interna é profunda (até o New York Times critica os termos da acusação a Trump, “the rule of the circus”) e as dificuldades económicas prometem durar. Em 1960, a economia americana representava 40% da economia mundial; agora, a fatia é de 24%. Se houver colapso financeiro, os historiadores do futuro poderão dizer que a América tinha a hegemonia mundial e a moeda de referência do planeta e que, após uma sucessão de cinco péssimos presidentes, ocorreu um declínio rápido destas vantagens. Joe Biden ficará na História como o pior presidente americano, o velhinho dos gelados que perdeu a Rússia (Truman perdeu a China) e que, no plano económico, conseguiu até ser pior que Herbert Hoover.

imagem: Night Café

O caso TAP


Luís Naves,

A comissão de inquérito parlamentar sobre a TAP permitiu vislumbrar a péssima política a que temos direito; dito de outra forma, conseguimos ver a cozinha de um restaurante muito tóxico. Baratas a circular entre a comida, uns cozinheiros pouco recomendáveis, o prato absolutamente intragável. As revelações da comissão mostram governantes a dispor de uma empresa nacionalizada como se esta fosse um feudo onde todas as interferências eram e são possíveis, um governo a agir com impunidade e uma estranha infantilidade. Os socialistas sentem-se donos daquilo que controlam. Houve decisões tomadas em cima do joelho. Um secretário de Estado pediu para mudar um voo com uma ladainha sobre política interna. Esta é uma história de descoordenação entre ministros, falta de sentido de estado, reuniões embaraçosas, indemnizações amigas, desrespeito pelos eleitores e despedimentos injustos. Como é que um governo com maioria absoluta chegou a este ponto de degradação em apenas um ano? E quanto dinheiro é que estas trapalhadas vão ainda custar aos contribuintes? Isto parece ser apenas o princípio de um lavar de roupa suja que vai envergonhar o país, talvez acabe com estrondo e eleições.

Um romance sobre o primeiro Trump


Luís Naves,

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Gore Vidal (1925-2012) publicou em 1987 o romance Império, sobre a forma como os EUA subiram de patamar no poder internacional, em 1898. O livro conta a história de famílias da elite americana e o próprio Vidal fazia parte desse núcleo, o que facilitou o seu trabalho de misturar personagens de ficção com pessoas que existiram. Uma das figuras reais do livro, William Randolph Hearst, inspirou o filme Citizen Kane, de Orson Welles (na imagem), e ainda hoje é uma lenda tão fascinante como a do seu imitador, Donald Trump. Hearst nasceu em 1863 e, na altura da intriga do romance, rondava os 40 anos. Ele pode ser considerado um dos fundadores do império americano, pois as ambições coloniais dos EUA foram estimuladas pela imprensa da época, que por essa altura se tornou uma influente indústria de massas.
Hearst tinha muito dinheiro e nos anos 90 do século XIX criou uma rede nacional de jornais que partilhavam colunas e noticiário sensacionalista. Em 1904, o magnata tentou ser presidente e quase conseguiu, entrando numa rivalidade política e simbólica com Theodore Roosevelt, que viria a ser eleito. Aqui, convém recuar um pouco no tempo: Roosevelt foi outro dos fundadores do império, famoso pelo seu papel na batalha de San Juan, em Cuba, durante a Guerra Hispano-Americana de 1898.

Este conflito com o império espanhol foi alimentado pela rivalidade entre Hearst e o outro magnata da imprensa, Joseph Pulitzer. O tema domina o romance de Vidal, que abrange vários anos, sendo que uma das consequências da guerra foi a aquisição das Filipinas, onde uma rebelião nativa seria depois suprimida com grandes atrocidades do lado americano.
Uma das questões do livro de Vidal é o aparecimento da nova forma de jornalismo desenvolvida por Pulitzer e Hearst, que nos EUA é conhecida por ‘Imprensa amarela’. Por outro lado, havia diferenças de classe: Pulitzer era emigrante, Hearst pertencia a uma das melhoras famílias da América e podia ser candidato a presidente. Em 1904, tinha adoptado toda a linguagem dos populistas democratas e os seus jornais empurravam a candidatura, mas cometeu o erro de subestimar a força da máquina partidária. Embora fosse milionário, Hearst aderiu ao partido das massas e falhou a nomeação por pouco. De outra forma, teria enfrentado o candidato das elites, Theodore Roosevelt, e talvez ganhasse.
Vendo bem, o romance de Gore Vidal é dominado por estas duas personagens secundárias da intriga, mas sobretudo pelo magnata da imprensa. Hearst surge nos diálogos dos aristocratas americanos como um verdadeiro traidor da classe dominante. O autor até parece ter tido receio no uso excessivo da figura, como se existisse uma maldição a aguardar quem o tentasse fazer (Orson Welles vem à memória).
No final de Império, há uma cena entre Roosevelt e Hearst, que na vida real aconteceu sem testemunhas. Vidal imaginou o diálogo entre os dois, mas ao leitor fica a sensação de que o capitalista, mesmo assim, não foi bem explicado pelo autor.
Quando publicou Império, Gore Vidal não podia saber que haveria um segundo Hearst no romance da América. Essa personagem surgiu com toda a força em 2016, já depois da morte do escritor: Chama-se Donald Trump, é um milionário de Nova Iorque, capaz de manipular emoções e notícias, traidor da sua classe social e líder de uma ameaçadora onda populista. Criado pela televisão e mestre da frase curta, Trump compreendeu o descontentamento das massas acumulado pela crise financeira e concebeu um movimento irresistível, que tomou conta do Partido Republicano (que até aí sempre fora das elites). A imprensa achou que ele era uma piada, mas o candidato venceu as presidenciais e, na Casa Branca, foi atacado como nenhum outro presidente antes dele, nem sequer Theodore Roosevelt.
Os poderosos da América odeiam Trump intensamente, como odiaram Hearst. Após a derrota humilhante de 2020 e uma travessia do deserto, o segundo populista milionário é de novo candidato à nomeação pelos republicanos. Hoje, será também o primeiro ex-presidente acusado de um crime, num caso com méritos duvidosos que lançou um circo mediático. O medo também se repete, no caso de Hearst na fase ascendente da América, com Trump no início da queda desta grande nação. No Partido Republicano a luta pela nomeação ficou mais estreita e, tendo em conta a crise financeira que parece inevitável, Trump pode vencer em 24. A acusação judicial divide o país, metade da América está irritada com aquilo que vê como perseguição política do seu ídolo, a outra metade parece fascinada com o capítulo Vingança, do excelente romance Declínio.