Natureza morta


Luís Naves,

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“Considero jornalismo tudo o que amanhã será menos interessante do que é hoje”. A frase foi tirada do diário de André Gide, de uma lista de “folhinhas”, aforismos a fechar o ano de 1921. Gosto de diários, sobretudo de autores que escreviam para a gaveta e faziam literatura, falando das suas vidas e da sua arte, sem preocupação com o que seria publicado. Os diários são registos domésticos; estão para a literatura como as naturezas mortas, as paisagens e os retratos estão para a pintura. Nas datas famosas encontramos textos sobre os acontecimentos, mas seriam ridículos no jornal do dia. Por curiosidade, ao lermos os jornais antigos em datas vulgares, pouco percebemos dos editoriais, escritos para um público que conhecia os factos, entretanto esquecidos. Um exemplo simples: um artigo sobre o actual governo não pode explicar o assunto no seus detalhes, as pessoas sabem do que se trata, mas daqui a vinte anos os leitores desse velho artigo serão outros e, dada a falta de referências, ficarão confusos. As prosas de 1921 sobre a espuma do dia foram tremendas enquanto a tinta secava, mas hoje parecem obscuras. Os leitores têm uma exigência, querem textos fáceis de compreender hoje e rejeitam tudo o que procura ser mais interessante amanhã.

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10 comentários em “Natureza morta”

  1. Os diários são registos domésticos; estão para a literatura como as naturezas mortas, as paisagens e os retratos estão para a pintura.

    A pintura actual não é isto — e alguns dos assuntos pictóricos indicados, da pintura do renascimento até ao modernismo, também não eram “registos domésticos”. Só a paisagem (landschap) nasceu com o intuito de elencar a propriedade da aristocracia, como mapa e como demonstração de boa governança (por isso é que nasceu no Norte, onde há estas preocupações e não nasceu em países que vieram a ter “autarcas”), e teve quase sempre uma dimensão social, colectiva ou metafísica. Podem ler o livro de Nils Buttner para tirar as dúvidas. Sobre a Natureza-Morta a coisa é muito mais complexa, porque se trata de um campo alegórico que funciona muitas vezes no registo da meta-linguagem e deve ser lida para trás e para frente na história como um contínuo, da semiótica de Magritte (e das coisas que parecem Magritte) às estruturas cru-cozido dos frescos e dos trompe-l’oeil Romanos. Sobre este assunto os ensaios de Norman Bryson são elucidativos.

    Ler as “imagens” factualmente pode pertencer ao jornalismo mas não pertence às artes-plásticas. Aliás, tentar encontrar “factos” na realidade é um equívoco da mesma natureza.

      1. V., ufffff! Sim senhor, nada de pintura marxista.

        Isso seria magnífico, mas infelizmente já estamos muito para lá da esperança. O cancro não tem cura.

  2. Uma pesquisa interessante seria fazer a colecção de palavras/expressões mais frequentes publicadas a cada ano em jornais, revistas, documentos oficiais etc. Poderia até ser desde o início de Portugal.
    Talvez quando a Torre do Tombo tiver tudo digitalizado e a IA ler tudo…

    1. “….colecção de palavras/expressões….documentos oficiais etc. Poderia até ser desde o início de Portugal.”
      Desde o início de Portugal? Forçosamente seriam em latim e não são muitos os documentos oficiais, são todos oficiais. E em português, propriamente, só a partir de 1550.

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