O clima


Luís Naves,

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Uma das características evidentes das redes sociais é o clima de intolerância que se instalou em relação a qualquer ideia que esteja fora da realidade permitida. Existe uma narrativa convencional e segue-se o ataque feroz às transgressões, por menores que sejam. O crime pode ser uma simples frase ambígua. Nesta nova cultura, é impossível discutir racionalmente. Os argumentos transformam-se depressa em bombardeamentos radicais, rasgar de vestes, gritarias, nós contra eles. O fenómeno não é exclusivo das redes sociais e está a alastrar na política tradicional e nos velhos meios de comunicação. As pessoas têm de medir o que dizem e devem ter cuidado quando tentam criticar as verdades absolutas que se instalam no meio mediático. No passado, isto chamava-se auto-censura. Há hoje temas sobre os quais deixou de ser possível argumentar. Quem não segue as interpretações inflexíveis é excluído e, pelo contrário, quem repetir as teses permitidas será compensado. Esta é a construção do futuro: teremos um mundo mais intolerante e repleto de moralistas. Como a religião foi abandonada, isto vem tudo embrulhado em éticas cívicas e nos nossos valores, que são sempre muito melhores do que os valores dos outros.

imagem, Dall-e

4 comentários em “O clima”

  1. as tvs ainda não conseguiram entrevistar cães e gatos.
    acabaram os filmes de cóbois porque os Indios saíram das reservas para a baixa política.
    as cantoras canta da cintura para baixo e às vezes dá vontade de dizer ó menina esconda lá essa coisa para eu não perder o entusiasmo.
    até os tomates diminuíram de tamanho.

  2. As pessoas cada vez estão mais sós em frente dos seus computadores ou smartphones. Isso faz diminuir as suas competências sociais e, também, torna-as agressivas.

  3. As redes sociais vieram facilitar e acelerar uma aspiração tão velha como a humanidade, a questão da identidade, de fazermos parte de qualquer coisa, um lugar, um grupo, uma ideia, até uma banda de música: a ideia da pertença, do sangue e da terra.
    Isso para mim é simples, concorde-se com isto ou aquilo, ou não.
    O que eu não percebo mesmo, e é que não percebo mesmo, é como surgiu esta cultura de cancelamento, qual nova caça às bruxas, que quer reescrever o passado e tornar tudo assético.
    De onde vem isto? Quem é esta gente? Como obteve o poder que atualmente tem? É isto que gostava de perceber, porque se isto continua esperam-nos anos de trevas no que ao livre pensamento diz respeito.

    1. Não podemos deixar que isto continue. Temos de denunciar a “cultura de cancelamento” (ou seja, uma outra forma de censura) e, se for necessário, escorraçar os censores.

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