Cadernos de um enviado especial ao purgatório (40)


Luís Naves,

Em Portugal, o referendo pela independência na Escócia produziu análises diferentes das que encontramos na Imprensa internacional, que pareceu mais preocupada com as consequências da votação na vida dos escoceses e no futuro do Reino Unido. Por aqui choveram as críticas sobre a União Europeia, que estará à beira do colapso. Veja-se este texto de João Miranda, que coloca a questão ao contrário: os eleitores escoceses não votaram pela Escócia ou pelo Reino Unido, mas foram vulneráveis a um suposto interesse exterior. “A União Europeia tem interesse em enfraquecer os grandes Estados”, escreve o autor de Blasfémias, como se os Estados europeus que formam a UE tivessem algum interesse em enfraquecer-se a si próprios.

Neste texto no DN, Viriato Soromenho Marques compara a situação europeia ao império romano e à ex-Jugoslávia. As analogias históricas são sempre interessantes, mas não vejo como será possível usar estas duas. Roma era um império e a ex-Jugoslávia uma federação, a União Europeia não é uma coisa nem outra.

A Escócia pondera ou ponderou sair do Reino Unido, mas não se propõe sair da UE, pelo contrário, deseja permanecer (escrevo quando a votação terminou e o resultado ainda é desconhecido, mas o argumento funciona para os dois lados). A Catalunha quer sair de Espanha, mas não tem qualquer intenção de abandonar a União. O mesmo se pode dizer da Flandres e das outras regiões nacionalistas que em breve serão micro-Estados.

A fragmentação política na Europa está provavelmente no futuro, mas ligada à elevada sensação de segurança dos europeus. Os escoceses não sentem qualquer ameaça externa e acreditam que se podem tornar numa espécie de país escandinavo. Se houvesse uma ameaça, ninguém votaria a favor da separação. Dizer que o problema está na Europa parece ser uma conclusão contrária aos factos. É precisamente o oposto, ninguém quer perder o acesso a um mercado gigantesco e à livre circulação de bens e capitais. Isto também não é uma conspiração de Bruxelas contra o Estado-nação, pelo contrário, as nações europeias podem existir de muitas formas e existem também sob a forma União Europeia, que pertence aos Estados que a compõem.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (39)


Luís Naves,

A votação sobre a independência da Escócia mostra os perigos do referendo. É fácil que um debate seja captado por populistas, por interesses limitados e por ideias delirantes. Muitos eleitores votarão por não gostarem do governo conservador britânico. Julgando escolher a independência, tentam assim castigar um partido, afectando profundamente a vida de pessoas sem direito a voto.

Num referendo, as duas opções nunca são iguais nas suas consequências: neste caso, o sim à independência será irreversível (nem que seja por um voto), enquanto o “não” pode ser desafiado dentro de cinco a dez anos, sobretudo se houver diferença mínima. As sondagens indicam votação equilibrada, com tendência para o “não” à independência, logo estamos perante um exemplo do poder crescente do populismo e da fragmentação política na Europa.

Há outro aspecto relevante: como é que uma região da UE se transforma num país da UE?  A Escócia terá um óbvio problema de moeda, pois precisa de negociar a permanência na libra ou a adesão ao euro. Quanto tempo levará a transição? Que parte da dívida britânica ficará na Escócia? Os maiores obstáculos estarão na integração europeia, pois a Escócia precisará de negociar a partilha de poder (comissário, eurodeputados, assento no conselho, funcionários, legislação) e isso terá de ser ratificado por cada Estado-membro da UE. Por exemplo, o Reino Unido perde eurodeputados ou haverá aumento no número global e todos perdem? É irónico: os escoceses votam pela independência e terão de iniciar de imediato uma partilha de soberania.

Em caso de acabar o Reino Unido, o referendo será estudado de perto por catalães e flamengos. Caso o futuro corra mal, a votação funcionará como vacina para outros soberanistas. A democracia europeia tem esta evidente vantagem, permitindo que decorram várias experiências em simultâneo, umas servindo de modelo, outras de aviso.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (38)


Luís Naves,

A comunicação social foi unânime: o representante português na Comissão Europeia, Carlos Moedas, obteve um posto irrelevante numa área onde o Governo tem desinvestido. Segundo esta visão, Moedas terá uma função de segunda linha e houve até notícias a ridicularizar o resultado. O PS chegou a referir que tinha “evitado” a entrega de uma pasta social e surgiu a história delirante de que o presidente da comissão tinha pedido o envio de outra pessoa (como se isso fosse possível). Era crucial demonstrar que a pasta de ciência representa pouco, nomeadamente investigadores que se dedicam a assuntos bizarros e teóricos.

O que a comunicação social não explicou é que Portugal conseguiu um dos bifes do lombo na nova Comissão Europeia. Carlos Moedas vai gerir o Programa Horizonte 2020, o mais ambicioso de sempre na área da ciência e da inovação. Entre 2014 e 2020, terá um orçamento de 80 mil milhões de euros (é o orçamento português durante um ano), sem contar com a parte do investimento privado. Este programa terá implicações nas áreas da saúde, espaço, transportes, energia, visando a criação de emprego e a participação activa de empresas. Na realidade, trata-se de uma pasta vital da área económica, que visa criar a “União da Inovação” e uma política mais integrada, para impedir a duplicação de trabalhos e aumentar a cooperação.

Quando falam de estratégia, os dirigentes europeus mencionam a consolidação orçamental, as reformas estruturais e costumam referir um terceiro elemento: o investimento em investigação e desenvolvimento. O objectivo é conseguir que até 2020 todos os países gastem no sector 3% do PIB. Carlos Moedas estará no centro de uma das políticas mais importantes da UE, mas estão a vender-nos o filme ao contrário e quase se pode prever o circo mediático à volta da confirmação parlamentar do comissário. É a política do quanto pior, melhor, agora ao vivo e a cores também na Europa, onde costumava existir consenso.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (37)


Luís Naves,

A parte mais difícil de uma crise é sair dela. É esse o conflito a que assistimos: no pós-troika, os grupos de interesses e as corporações tentam não perder doses excessivas do poder que detinham. Para isso, criam um clima de horror, desvalorizando o presente: quem disser que a economia começou a crescer e a criar emprego é acusado de propagandista. O passado é negado ou revisto.

Na primeira década do século, o regime democrático avançou para o desastre em atitude sonâmbula, adiando as reformas que podiam ter evitado a queda. Todos os partidos foram responsáveis, mas os socialistas cometeram erros calamitosos. Em 2011, o País entrou em pré-falência e foi salvo pelos seus parceiros europeus, que impuseram reformas estruturais associadas à redução da despesa pública. Esse programa foi cumprido pelo actual governo, com três anos de duros sacrifícios para a população, empobrecimento, aumento do desemprego, cortes nos salários e pensões, mais impostos e menos consumo, falências, emigração.

Entretanto, finda a tutela, os políticos e os comentadores falam como se isto nunca tivesse acontecido. O País não criou a sua própria dívida, o resgate não tinha condições definidas num memorando difícil (e mal negociado). Até se repete que as exigências externas não foram cumpridas. Assim, o ajustamento foi um absurdo, mero zelo ideológico, teimosia de um governo incompetente ou ao serviço de interesses alheios. A austeridade e o empobrecimento não são sintomas do fracasso, mas as causas do mal.

Talvez o País decida regressar aos desequilíbrios crónicos das contas públicas e à cultura dominante da irresponsabilidade das clientelas partidárias. No último século e meio, foi essa a tendência, as reformas foram sempre demasiado curtas para mudar o essencial. E, no entanto, desta vez parece diferente: os europeus tentarão evitar o regresso da tendência e as nossas paupérrimas elites instaladas, uma das causas do atraso nacional, terão menos poder. Se escolhermos o passado, voltaremos à situação de pedintes ou teremos de sair da Europa desenvolvida. A UE também mudou com esta crise, como demonstram o Tratado Orçamental, a união bancária e a política francesa. Isto é algo que muitos não querem compreender: seremos europeus ou caóticos.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (36)


Luís Naves,

O pessimismo não é um exclusivo nacional, mas assenta numa consciência ancorada na cultura contemporânea. Imaginem um romance onde o autor decide casar toda a gente e são todos felizes para o resto da vida. Um livro deste tipo dificilmente veria a luz do dia, pois o editor acharia tanto optimismo um perfeito disparate. Se, passando entre as gotas da chuva, chegasse às livrarias, a história seria ridicularizada. Enfim, isto não se aplica a paródias, havendo ainda outras excepções, mas o ponto é o seguinte: já não há finais felizes.

Imaginem o espanto do público na exposição de pinturas com flores e pessoas contentes e casamentos e alegria e vida e ainda sol e felicidade. Toda a gente diria que o pintor era maluco, sem ter incluído uma referência ao medo de existir, ao destino fatal da condição humana, sem sequer uma crítica tímida à opressão, às injustiças sociais, ao peso do declínio da civilização ou à ameaça existencial. Tendo em conta a crise eterna, o optimismo seria deslocado também numa simples comédia em filme ou no teatro.

Cores bonitas, pessoas lindas? Nem na moda ou na publicidade isso funciona: tem de haver uma pequena crítica, algo de bizarro ou grotesco, uma beleza fria ou indiferente. Numa sociedade obcecada com a visão pessimista de si própria, o final feliz tornou-se numa anomalia antiquada e tola. Pode até surgir como comentário trocista, mas nunca como imagem da realidade. O final feliz precisa de alguma forma de ambiguidade ou será visto como estúpido e infantil.

O mundo é aquilo que vemos dele. As reportagens e os documentários são sobre gente no limite, sobre injustiças e derrotas. Os romances centram-se no fracasso ou na observação do homem trucidado pela História. Os filmes são violentos, a pintura é sombria, a música inquietante.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (35)


Luís Naves,

A formação do Estado Islâmico (EI) no Iraque a Síria resulta do erro americano de invadir o Iraque em 2003 e destruir o regime de Saddam Hussein, decisão da administração de George W. Bush agravada pelos sucessivos erros da ocupação, sobretudo a desmobilização do exército iraquiano e o afastamento dos membros do Baath, o partido da ditadura. Bush acreditava ser possível criar uma democracia no Iraque e prosseguiu uma estratégia míope, desdenhando as dúvidas dos seus aliados. Em suma, os políticos perderam uma guerra iniciada sem motivo válido.

O Estado Islâmico, ou Califado, resulta de uma década de luta constante, que deu origem a uma organização de guerrilha de eficácia nunca vista, capaz de enfrentar exércitos modernos. O Iraque ficou partido em três entidades: curdos, xiitas e jihadistas sunitas. O EI será capaz de resistir a uma coligação de vizinhos (que aliás não parece possível, pois teria de incluir Bachar al-Assad e o Irão) e os aliados ocidentais não tencionam enviar tropas para o terreno. Seria um suicídio político. Combater o EI com objectivos limitados ameaça criar uma década de conflito sangrento e pode incendiar o Médio Oriente.

O fanatismo religioso é uma ideia velha, tão antiga como a civilização. Neste caso, o que parece ser novo é o facto de haver pessoas educadas em sociedades seculares e modernas que aderem às novas brigadas internacionais da jihad islâmica. Os fanáticos da guerra santa querem criar uma teocracia semelhante à que existiu no início do Islão, no século VIII. Esta ideia messiânica representa um recuo de 1200 anos na História da humanidade, a recusa dos direitos humanos, do estado de direito, da república, do espírito científico e da liberdade individual. O que mais surpreende é haver centenas, talvez milhares de jovens educados em sociedades ocidentais que aceitam esta brutalidade. Como explicar os milhares de combatentes islâmicos que foram fanatizados em ruas semelhantes àquelas onde vivemos? Como explicar os jihadistas que saem de famílias quase iguais às nossas? Desta vez é diferente: a teoria do choque de civilizações parece insatisfatória.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (34)


Luís Naves,

Também ouvi com espanto a frase que João Gonçalves reproduz. Segundo Marques Mendes, em política “não existem lealdades passadas, só há lealdades para o futuro”. Com extrema candura, este oráculo define toda uma elite, toda uma época.

Torna-se penoso assistir a este espectáculo trágico do “segundo apurei”, a política de comunicação governamental mais desastrosa de sempre, na verdade única no mundo. Como refere Sérgio de Almeida Correia, em post anterior, em vez de serem anunciadas pelas autoridades ou aparecerem nos jornais, onde têm a devida credibilidade, as notícias importantes são reveladas por um comentador que é também político activo com ambições próprias e que finge ser jornalista de investigação.

A ligeireza tomou conta da paisagem mediática. Estamos rodeados de falsas narrativas e de omissões, vemos a hipocrisia geral dos que governam e dos que querem governar, assistimos impávidos às distorções da comunicação social transformada em espectáculo e ao radicalismo marciano dos partidos da oposição. A responsabilidade está em declínio, triunfa o oportunismo e a táctica. As elites portuguesas afundaram o país e vivem uma crise sem precedentes, mas para essas elites, sobretudo as políticas, é difícil compreender que o povo deixou de confiar nelas.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (33)


Luís Naves,

O cessar-fogo no leste da Ucrânia tem a virtude de travar o banho de sangue, mas não resolve o conflito, apenas garante que a soberania ucraniana continuará a ser uma ficção. Os Ocidentais evitam o confronto directo com a Rússia, que está perto de conseguir o seu objectivo: a Ucrânia continuará a ser um país domesticado. Para isso, bastará formar uma nova entidade política, habitada por “russos” que serão prontamente auxiliados por Moscovo, antes e depois das negociações. Se Kiev tentar a democracia, terá ali um espinho cravado.

A criação de enclaves hostis é uma ideia testada: a Rússia mantém sob seu controlo territórios em países que se separaram da URSS, por exemplo Transdniéstria (Moldávia) ou Abcásia e Ossétia do Sul (na Geórgia), governados por delinquentes armados que procederam a limpezas étnicas e que se dedicam a diversos tráficos. Qualquer tentativa de recuperar os enclaves suscita a resposta militar imediata da Rússia. Assim, a Ucrânia será um país instável, sem possibilidade de se aproximar demasiado da UE e sem eleições livres na totalidade do seu território, com uma província anexada e outra separatista. A Europa terá escasso incentivo para decretar novas sanções contra a Rússia. A mini-Guerra Fria deverá ficar por aqui, limitada a relações pouco amistosas e retórica inconsequente.

Enfim, na História de 2014, regista-se que Moscovo utiliza tácticas coloniais do século XIX e esse comportamento é aceite pelas democracias ocidentais, sempre ligeiramente hipócritas, sobretudo quando falam de liberdade. Apesar de tudo, a Ucrânia escapa com sorte: não perdeu muito território e receberá  ajudas militares não letais, para a coisa não parecer um Acordo de Munique.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (32)


Luís Naves,

Certos intelectuais olham para o País com indisfarçável desprezo. Isso é visível neste texto, do qual destaco a seguinte frase: “A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social”. O ‘nosso’ está ali para disfarçar, pois duvido que o autor, Pacheco Pereira, se reveja nestas linhas, que pretendem ser o retrato fiel do povo português, tal como é visto pelas elites. 

E, no entanto, a frase é falsa, não há outra maneira de a caracterizar. O autor descreve um Portugal inexistente, puramente imaginário, povoado por criaturas grotescas e meio debilóides, incapazes de um pensamento estruturado, portanto necessitando da condução esclarecida de uma vanguarda intelectual com ideias e leituras cosmopolitas.

Para o autor, o povo português não vive em cidades e subúrbios, não se concentra no terço litoral do território, não está a envelhecer depressa nem enriqueceu, não é europeu nas suas preferências nem evoluiu um milímetro em matéria de instrução. A frase parece tirada de um romance neo-realista dos anos 40, descrevendo um país de cavadores depauperados, com gosto folclórico e nenhum conhecimento do que se faz lá fora.

Os jovens são drogados e vazios, os velhos não existem, como não existem mulheres independentes. Os portugueses são invejosos e manhosos, brutais (esta ideia nem percebo de onde vem) e as classes em ascensão estão em crise (suponho que o autor fala da classe média, que nunca foi tão alargada e tão influente).

O pior é que este tipo de comentário conquistou as discussões públicas; Portugal acabou, está morto e enterrado. E, no entanto, a visão de hecatombe não é apenas míope em relação ao povo que descreve, mas exibe desconhecimento profundo da realidade sobre esse povo. As elites intelectuais assistem à mudança da sociedade portuguesa sem perceberem patavina do que está a suceder, aplicando uma grelha de análise que talvez fizesse sentido na década de 40, mas que agora é apenas absurda.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (31)


Luís Naves,

No fundo, há duas grandes correntes de pensamento: a crítica aos excessos do materialismo e a crítica às insuficiências da ideologia.

Para muitos autores, o mundo contemporâneo está em declínio, por ter perdido os seus valores e por se basear no insaciável apetite das classes dominantes. O culto do eu leva ao caos social e condena a sociedade à decadência. Há quem defenda a necessidade do regresso à tradição e, quanto maior o choque com a realidade exterior, mais estes movimentos se encolhem na concha dos respectivos fundamentos ideológicos. As críticas à modernidade podem vir de religiões ou de movimentos anti-capitalistas, mas convergem na ideia de que o mundo está à beira de uma transformação inevitável e que essa transformação nos conduz a algo de fundamental. Existe sempre ali a ideia do regresso a um passado idealizado.

Do outro lado do espelho estão os que se afirmam do mundo pragmático. Para eles, as utopias não passam de ilusões, modas ou resistência ao progresso. Segundo afirmam, o mundo material permite fornecer à maioria dos consumidores as bases essenciais do bem-estar, sendo pouco compreensível o descontentamento que alastra nas sociedades contemporâneas. E perguntam esses materialistas: não será a proposta utópica equivalente a trocar uma vida segura por um estado permanente de incerteza?

Os dois lados estão cada vez mais entrincheirados e o debate alastra à generalidade dos temas, conduzindo ao seguinte problema: nunca fomos tão ricos, tão livres e tão cultos como agora, mas também nunca terá havido vidas tão conscientes do seu vazio; por outro lado, se fôssemos mais felizes, viveríamos com o mesmo acesso à riqueza, liberdade e cultura?

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (30)


Luís Naves,

Quando li pela primeira vez este texto, nem quis acreditar. Li de novo e, de facto, trata-se de uma crítica ao “jornalismo concreto” que, segundo a autora, tem excesso de agressividade, sendo uma “nova forma de jornalismo”, em oposição a métodos mais honestos, como será o caso de um jornalismo de fantasia. O texto é uma crítica e o “jornalismo concreto” não deve ser praticado.

O pior é que este texto não foi escrito pelo tontinho da aldeia. A autora de Vai e Vem, Estrela Serrano, é uma especialista em comunicação social, ensina ou ensinou essa matéria e devia saber que só existe “jornalismo concreto”, tudo o resto sendo conversa da treta, limonada pseudo-informativa, com perguntas para embalar bebés. Os políticos têm obrigação de responder a questões autênticas e os jornalistas têm a obrigação de saber se eles disseram alguma coisa, se as suas propostas são viáveis ou se estão a omitir posições relevantes.

No entanto, na sua crítica, a especialista Estrela Serrano escreve que este mau exemplo “é um jornalismo que só se interessa pelo concreto e pelo imediato”, embora a frase seja uma excelente definição de bom jornalismo, que deve questionar exactamente esses dois elementos, o concreto e o imediato, expondo a retórica balofa e o empurrar com a barriga. 

Agora percebo muito melhor a crise da imprensa, a razão da fuga dos leitores. O jornalismo que questiona o concreto e o imediato tornou-se uma raridade que merece a crítica severa dos mandarins da comunicação social. Assim, os jornalistas que exercem a sua profissão devem acalmar-se e fazer apenas as perguntas mais dóceis.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (29)


Luís Naves,

No mundo em que vivemos (não aquele em que imaginamos viver), a discriminação é um dado presente, como se vê neste texto de Paulo Pinto ou neste outro de Filipe Nunes Vicente.

Nos países industrializados existe uma prática de discriminação silenciosa, que ajuda a explicar os fanáticos, os radicais e o descontentamento larvar.

Estas sociedades criaram uma extensa classe média que tem o terror do empobrecimento súbito, seja ele real ou imaginário, terreno fértil para os populistas que tentam explorar a ideia da insegurança. As pessoas vivem no medo profundo de cair ao longo da escada social.

A ordem liberal que triunfou nos últimos 30 anos criou uma sensação de crescente desigualdade e alienou os fracassados do ensino de massas que, sem lugar na economia, sem trabalho e sem qualificações, parecem só possuir o recurso à proletarização extrema.

As minorias não têm lugar nesta situação de desemprego elevado e de redução do Estado social. O sentido de injustiça alastra um pouco por todo o lado, entre os ciganos da Europa Central, nos subúrbios das grandes cidades europeias, nos negros americanos sem voz política, em todos os grupos cujo acesso aos meios de comunicação é feito em doses cuidadosas e filtradas.

Dominadas pela correcção política, pelos partidos burgueses tradicionais e pela defesa da ordem liberal que provocou a crise financeira, as democracias não parecem ter uma resposta viável para os problemas colocados por minorias presas no fundo da pirâmide.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (28)


Luís Naves,

Tal como Pedro Correia escreveu mais abaixo, o mundo contemporâneo parece autocentrado, repleto de frivolidade e niilismo. E, no entanto, nunca houve tanta abundância, nem tal sensação de infelicidade. Nas sociedades industrializadas, toda a gente vive na angústia de cair para a base da pirâmide social, onde existe a minoria do gueto e a discriminação silenciosa.

Os ciclos políticos são cada vez mais efémeros, os casamentos mais curtos, há também a ideia de que a vida passa depressa, comprimida de forma frenética em dias que deixam poucas recordações.

Depois, há tantos objectos nas lojas, que nenhum deles se torna especial. As interrupções sistemáticas de aparelhos de comunicação não deixam tempo para pensar. De certa forma, estes aparelhos dificultam a comunicação humana: vivemos em rede, como as abelhas; e, paradoxalmente, o espaço em que nos movemos é cada vez menos público. Nas cidades, cada pessoa habita a sua solidão, o seu carro, a sua música, a sua minúscula casa. Não há tempo e não se conversa (aliás, ninguém o deseja).

Temos uma ideia mítica sobre o passado, que parece ter sido mais glorioso do que foi na verdade, e já não existe o povo de antigamente, pois também temos uma ideia falsa sobre o que somos. Agora, a vida é superficial e veloz, pessimista e obcecada com a beleza do corpo (que devia ser mera questão estatística).

O mundo tornou-se ruidoso, impaciente, e acima de tudo insatisfatório: obsceno nos seus desperdícios, decadente na sua arte, capaz de oferecer a abundância mais sufocante e o inverso, o sufoco da escassez para todos os que tombarem da horrível mediania.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (27)


Luís Naves,

Há autores para quem o mundo é a preto e branco e que defendem essa ideia simples chamando idiotas aos que discordam. Deviam olhar para o caso do Estado Islâmico (ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante ou Califado). Vejo comentadores que defenderam a invasão do Iraque a defenderem agora que esta é uma ameaça existencial de um grupo terrorista. E, no entanto, a organização tem ideologia e capacidade de conquista, ocupa território e recruta simpatizantes, funcionários e soldados. O conflito subiu de patamar e estamos perante um Estado que mantém fronteiras, exército e financiamento.

A estratégia do EI passa por atrair o máximo de americanos ao combate no terreno, onde haveria inúmeras baixas. Na realidade, o EI é muito mais perigoso para o Ocidente do que os talibãs do Afeganistão, que tinham formado um pequeno Estado radical, mas muito pobre, e que, após uma interrupção armada de 13 anos, estão de novo prontos para tomar o poder naquele país.

Os americanos perderam o Iraque e a intervenção de 2003 foi um erro crasso, como preveniram autores então acusados de idiotas. Ironicamente, os melhores amigos da América na região, os sauditas, ajudaram a financiar este grupo, pelo menos no seu início. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante era potencialmente útil para os interesses da monarquia saudita, pois punha em causa o poder de Bachar al-Assad na Síria. Claro que o génio saiu da lâmpada e, como na história de Aladino, é preciso ter cuidado com o que se deseja. Bombardeando o EI na Síria, a América vai agora ajudar Bachar, aliando-se a Teerão, outro inimigo, para ser possível salvar ainda alguma coisa no Iraque, que se prepara para um conflito de anos. O mundo islâmico que conhecemos está a mudar de forma imprevisível e no meio de um banho de sangue.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (26)


Luís Naves,

Este comentário de Helena Matos mostra como se discute nas trincheiras. A notícia está errada, é verdade, mas não é esse o ponto. Acima de tudo, o facto de haver notícias erradas sobre um problema não nos diz que o problema seja inexistente. As informações incorrectas podem ser corrigidas. No domingo, Morel Malka, judia, convertida ao Islão, casou-se com o árabe israelita Mahmoud Mansour, na localidade de Rishon Letzion, em Israel. Este casamento tornou-se notícia por ter surgido uma organização de extrema-direita, Lehava, a protestar contra a realização do inofensivo matrimónio.

Este Lehava organizou uma manifestação e tentou perturbar o casamento, insultando os convidados, acusando a noiva de “traição”. Para os extremistas, que diziam falar em “nome de Deus”, o casamento destas duas pessoas era uma “abominação”. A tentativa de perturbar a cerimónia provocou forte polémica, levando parte da opinião pública israelita a classificar de “vergonhosa” a actuação dos racistas.

Os casamentos entre pessoas de religiões diferentes representam em Israel um pesadelo para os noivos e isto aplica-se a todas as comunidades, incluindo a casamentos entre judeus e cristãos. A situação é mais grave se envolver um muçulmano, sobretudo do sexo masculino, mas os jornais israelitas dizem que o clima de intolerância piorou. Helena Matos tem o direito de não escrever sobre isso e preferir a notícia defeituosa, mas o problema não vai desaparecer apenas pelo facto de haver um texto mal escrito: o radicalismo não existe só num dos lados do conflito, existe em ambos. E o mundo muda e mudará de muitas maneiras, não necessariamente como os radicais desejam.    

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (25)


Luís Naves,

Não, não é nada disto. Há autores que gostam de criticar a União Europeia sem dizer como é que faziam. Se a Europa não se mexe, é uma menoridade política; no caso de se mexer, é um monstro burocrático.

Aqui, não estão em causa os “joguinhos de poder da baronesa Ashton”: nem são joguinhos, nem são da baronesa. O que está em causa é a liberdade dos europeus de não serem vítimas de intimidação. Devido à crise na Ucrânia, houve sanções contra a Rússia e esta respondeu, proibindo a importação de certos produtos agrícolas. A UE tem 28 países e a resposta russa não atinge todos por igual, tem um impacto na Polónia, na Hungria ou na Lituânia muito superior ao impacto que terá no Reino Unido ou em Portugal. Este é o problema da política externa dos europeus: quando querem falar a uma só voz, têm interesses diferentes.

Neste contexto, a UE tem a obrigação de actuar e de compensar os produtores agrícolas dos Estados membros mais afectados, sobretudo tendo em conta que existe uma política agrícola comum a absorver 40% do orçamento comunitário. Aqui não se pode aplicar a cartilha liberal, pois os mercados agrícolas não são livres, por decisão soberana dos 28 e por razões históricas cuja explicação é complexa. Se Bruxelas nada fizesse, as sanções de Moscovo tinham mais efeito e, na próxima ronda de eventual agravamento desta crise, os países mais expostos à resposta russa seriam obviamente contra novas sanções. Neste caso, com a inacção dos europeus, a Ucrânia seria retalhada às postas. E o autor não tem de se preocupar com a sua parte nos impostos que estão a ser gastos, pois Portugal recebe muito mais dinheiro do que paga para os cofres comunitários. Sim, é verdade, recebemos uma pipa de massa.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (24)


Luís Naves,

Esta história, que li na Economist, mostra um avanço notável na inteligência artificial e demonstra que os humanos estarão dispostos a contar os seus problemas mais íntimos a um programa de computador com elevado grau de inteligência. Esta segunda reportagem sugere que a relação entre homens e máquinas inteligentes poderá assumir formas complexas, pois teremos inibição em fazer mal a um robot que nos pareça autónomo ou capaz de raciocinar. A inteligência artificial terá de evoluir ainda muitos anos antes de atingir um nível que ultrapasse a nossa espécie, mas em breve estaremos perante grandes problemas éticos e eventualmente até perigos existenciais.

Quando li a história da psicóloga virtual lembrei-me de uma personagem de um livro de 1977, o clássico da ficção científica Gateway*, de Frederick Pohl, por sinal verdadeira obra-prima do género. Neste livro, o protagonista faz terapia com ajuda de uma máquina, Sigfrid von Shrink, psiquiatra virtual que o autor imagina com aspecto mecânico. A personagem principal é um explorador que teve sorte numa perigosa viagem espacial às cegas, espécie de lotaria baseada no uso irresponsável da tecnologia de uma espécie alienígena antiga, entretanto desaparecida, a que os humanos chamam os Heechee.

Muitos entusiastas consideram Gateway um dos melhores livros da história da ficção científica e na verdade este romance (que teve duas sequelas) coloca problemas muito interessantes sobre as consequências imprevistas do uso inconsciente da tecnologia. Trata-se de uma variação da lenda do aprendiz de feiticeiro, tendo este conto de origens antigas (talvez da Grécia clássica) inspirado um poema de Goethe, que por sua vez serviu de base para um poema sinfónico do compositor francês Paul Dukas, parte fundamental do filme de Disney, Fantasia, que talvez Frederic Pohl tenha visto, encontrando ali o tema para uma abordagem mais complexa que, por acaso, inclui um psicólogo robótico, Sigfrid von Shrink (o curioso uso do Sigfrid), antepassado literário da verdadeira máquina, que por acaso se chama Ellie, diminutivo em inglês do nome Helen, que vem do grego Helena, que segundo alguns significa luz brilhante, nome apropriado a descobertas e a grandes paixões, mas segundo outros pode estar ligado à designação grega da Lua, e assim estranhamente vamos dar aos Heechee e a Gateway, que é uma lua artificial.  

 

*Foi publicado em português na colecção Argonauta, 355 e 356, com o título A Porta das Estrelas.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (23)


Luís Naves,

No segundo texto da sua coluna, Alberto Gonçalves considera idiota a indignação com a Faixa de Gaza enquanto houver jihadistas a degolar curdos no Iraque. Ele usa mesmo esta expressão, idiota. O segundo texto da coluna (Onde fica a Embaixada da Letónia?) usa o método retórico da ironia para defender a tese de que há graus de mal e não faz sentido a crítica aos graus menores enquanto persistem os maiores.

Hoje assisti a um assalto na minha rua, um matulão a bater numa velhinha e, quando pensei em intervir, moderei a indignação e pensei nos curdos degolados por jihadistas; a velhinha ficou maltratada, mas julgo que fiz bem em não travar o assalto, por causa dos jihadistas que degolam curdos.

Aliás, aposto que nas próximas semanas Alberto Gonçalves deixará de escrever, por falta de material, ou teremos muitas colunas sobre jihadistas. Nem compreendo que se indigne com Marinho e Pinto, no primeiro texto da sua coluna, tendo em conta que Marinho e Pinto é um mal menor. Os russófonos da Letónia são discriminados? Quem quer saber disso? É apenas um país da União Europeia e, entretanto, no Iraque, há jihadistas a degolar curdos.

Os colunistas de jornal que gostam de policiar o pensamento dos outros têm noção clara das prioridades sociais e tratam os assuntos apenas quando eles atingem a relevância conveniente, que lhes permita confirmar as conclusões pré-fabricadas dos seus textos. Quando for mais difícil manter a argumentação, então haverá sempre um jihadista a degolar curdos.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (22)


Luís Naves,

Neste texto, Filipe Nunes Vicente cita um autor que eu desconhecia, Curt Meyer-Clason, e encontra a expressão feliz e certeira da “velha guilda da revolta mansa”. Alguns romances com 40 anos mostram essa elite inconsequente, que discute alta filosofia política nos salões da gente que conta (Sem Tecto, Entre Ruínas, de Augusto Abelaira, é um exemplo que me ocorre de imediato, pois o livro começa com a longa discussão de um grupo idêntico ao descrito por Meyer-Clason). 

A elite nacional já não é tão fina e tão pequena como era em 72 ou 82, nem o povo português é hoje tão pouco instruído como nesse tempo. Ele tornou-se mais europeu, os seus filhos estudaram, o rendimento das famílias aumentou. Apesar disso, muitos intelectuais continuam a desprezar a ignorância das classes menores, sem perceberem que imaginam uma realidade inexistente; por outro lado, os pobres que ascenderam à classe média perderam a paciência para a mansidão pedante destes visionários míopes, que parecem ignorar todas as transformações. As novas fórmulas infalíveis para o futuro falam para um País que já não existe há pelo menos uma geração e que, no essencial, se está nas tintas para utopias, agitações revolucionárias e cultura obrigatória.         

Na Europa persiste a imagem de um Portugal pobre e quase analfabeto, mas as classes sociais dominantes no País partilham dessa opinião distorcida e consideram que o seu próprio povo forma um rebanho com a qual não se consegue fazer qualquer mudança.  As altas conversas incluem grandes estratégias e nobres desígnios, gentilmente fornecidos à população sem que alguém se lembre de perguntar o que ela deseja. É por isso que, sempre que surge um problema, a discussão morre no início, para não sair dos círculos certos. Os meios de comunicação, os partidos, os escalões mais altos da administração e da economia, enfim, todos os patamares instalados exibem um desprezo permanente pela autêntica ascensão social, que tem cada vez mais a forma de diluição de classes.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (21)


Luís Naves,

Um texto brilhante de João Gonçalves, a propósito de personagens de John Le Carré. A traição, o grande tema do escritor britânico, é um enigma difícil de compreender e reproduzo a impressionante frase de George Smiley, citada no texto: “Você é uma boa pessoa, leal e discreto, como é que não o demitiram?”

Excelente pergunta. Através de Smiley, Le Carré capta o mundo de sombras onde a lealdade foi sacrificada a cálculos distorcidos, onde trair se tornou um jogo trivial e a verdade se esconde no nevoeiro de mil enganos. Mas este mundo de espiões não é mais do que uma analogia do nosso próprio mundo. A ambiguidade e o efémero comandam as relação entre as pessoas. Valores como lealdade são hoje pouco valorizados, os nossos amigos são descartáveis, em nome das vantagens tácticas e da visão de curto prazo. Enganar tornou-se um vício, o desprezo pelo outro é a norma, até à desumanização, se isso for necessário para preservar as pequenas ilusões do poder.

Smiley é um símbolo daqueles, raros, que sendo traídos buscam mesmo assim fragmentos de uma verdade. “São homens de mundos abolidos”, escreve João Gonçalves, “ainda há alguns, poucos, por aí dispostos a tentar e a fracassar. E a tentar de novo e a fracassar melhor”.

Tal como esses poucos, julgo que as personagens desencantadas de John Le Carré acabam por ter razão. Perdem perante os hipócritas, perdem sempre, mas no fundo também vencem. A realidade é mais forte do que a mentira, a traição e o engano não passam de doenças contagiosas que, depois de enfraquecerem a sociedade, acabam por se extinguir, num fútil apodrecimento.