Cadernos de um enviado especial ao purgatório (20)


Luís Naves,

Os críticos da União Europeia insistem na ideia da mediocridade política da Europa e os exemplos parecem confirmar a tese. Israel ignora as opiniões europeias e até as desdenha; durante a intervenção da Líbia faltaram munições; e, mais recentemente, foi difícil concordar nas sanções contra a Rússia, com os 28 divididos entre pombas e falcões, com a Alemanha no meio.

O caso da Rússia é exemplar: este império em declínio hostiliza um país vizinho com quem tem afinidades e confia na fraqueza da resposta europeia. E ocorre o seguinte paradoxo: embora a Rússia tenha uma economia 12 vezes inferior à da UE, as sanções decididas pela Rússia contra interesses europeus tiveram forte impacto mediático.

Na Ucrânia, país europeu entre a Rússia e a UE, trava-se de novo uma guerra, aliás a poucas centenas de quilómetros da região onde há cem anos, em Agosto e Setembro de 1914, combateram enormes exércitos, tendo os russos batido os austro-húngaros de forma tão completa que a Áustria nunca recuperou.

Muitos observadores aproveitam para antecipar a possibilidade de um novo conflito entre europeus e russos, mas seria mais correcto afirmar que a fraqueza da UE vem da sua percepção de não ter inimigos externos.

A Europa transformou-se num império pós-moderno, com sentimento de culpa pelo anterior imperialismo e extrema relutância em exercer o poder que devia resultar da sua força económica. O facto é que não existe ameaça evidente, comum aos 28, ou igualmente urgente para todos. A Europa não tem inimigos, mas apenas alianças cuja ruptura seria impensável (não é o mesmo que dizer impossível). A Rússia de 2014 tem pontos em comum com a de 1914, o sentimento de insegurança e a inflexibilidade dos líderes. A UE também tem semelhanças com o Império Austro-húngaro, mas são gritantes as diferenças: não há ameaça existencial, vocação ofensiva ou incapacidade de diálogo.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (19)


Luís Naves,

O País terá dificuldade em atingir as metas impostas pelo Tratado Orçamental, que exigem redução regular da dívida pública, o que implicará saldos primários positivos. Dito de outra forma, cumprir o tratado significa défice nominal próximo do zero (e, para isso, falta um ajustamento de 6 mil milhões de euros).

Infelizmente, Portugal entrou num período de paralisia, pois as instituições parecem incapazes de compreender o problema e estão a fazer as manobras políticas a que se habituaram no passado, posicionando-se para uma longa luta pelo poder.  As últimas decisões do Tribunal Constitucional fazem parte desse jogo político, mas tornam quase impossível o cumprimento do Tratado Orçamental, forçando o Governo a uma crise, a um aumento de impostos que não deseja e que o condena a uma derrota nas urnas.

As consequências são ainda mais vastas, pois como demonstram os números do INE, o crescimento económico é demasiado frágil e será facilmente anulado por qualquer aumento de impostos. Não parece existir saída simples: cortar mais na despesa parece impossível, novos impostos anulam o crescimento incipiente, mas sem novos impostos não teremos contas equilibradas, a dívida continuará a crescer e Portugal verá o seu financiamento externo dificultado, com taxas de juro mais altas. Estas vias convergem no mesmo precipício, o abandono da zona euro.

Discutindo os próximos anos, alguns acham que não é preciso fazer reformas significativas na despesa pública. Outros imaginam que será possível alterar um tratado europeu cujos termos foram exigidos pela Alemanha. Há ainda quem pense em estratégias que excluem do debate questões de finanças públicas, onde por sinal reside o problema orçamental que criou toda esta crise. Vamos de fantasia em fantasia, elevando ao nível de arte as tácticas de ‘chutar para canto’, ‘empurrar com a barriga‘ e ‘passar entre as gotas de chuva’.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (18)


Luís Naves,

Sobretudo nos países que viveram de forma mais intensa a crise, o colapso financeiro de 2008 teve por consequência maior o fracasso da democracia liberal e o avanço de algumas ideias, ainda em gestação, que pretendem romper com o ciclo que conhecemos nos últimos 30 anos.

Em qualquer conversa encontramos a seguinte mudança: logo nas primeiras frases surgem sinais de profunda insatisfação com os partidos e com a democracia parlamentar, vistos como exemplos de corrupção e ineficácia. As pessoas estão descontentes e querem a ruptura. O socialismo falhou na geração anterior e não é resposta viável à substituição do liberalismo. Não veremos o aumento da dimensão do Estado através de nacionalizações, mas o futuro passa pelo reforço do poder do Estado, algo que a tecnologia permite inteiramente.

 

 

A opinião pública convenceu-se de que a liberdade do mercado foi um erro. Nas últimas três décadas houve um brutal aumento das desigualdades sociais, conivência entre negócios e política, abuso dos recursos. A percepção dominante é de que mercados não são livres nem racionais, pelo contrário, foram tomados por interesses, o contribuinte tornou-se refém da ganância, o Estado foi negligente na regulação, os media estão domesticados pelo dinheiro.

Os políticos tradicionais tornaram-se embaraçosos e o eleitorado das sociedades industrializadas está disponível para ilusões populistas. As pessoas vão preferir o palhaço ao dirigente sombrio, o demagogo ao líder pessimista, o vendedor de banha da cobra ao mensageiro de mais austeridade.

A mudança será acelerada pela aparente circunstância destes liberais não terem resposta para os problemas de fundo do Estado Providência: tendo em conta a pressão demográfica, como serão financiados os crescentes exércitos de aposentados e as legiões de pobres? O aumento de produtividade não é suficiente e desfazer o sistema será uma resposta impopular.

O novo ciclo tentará assim fornecer soluções controlando o capitalismo, prometendo meter o génio na garrafa. Os eleitos terão maior poder na economia e a vaga de liberalização de costumes será substituída por uma onda inversa, conservadora.

A democracia recebe a culpa pelos ‘excessos’ do liberalismo e do politicamente correcto. Os políticos vão pedir condições de estabilidade e oferecer em troca mais autoridade. Vamos ouvir falar muitas vezes em comunidade nacional, valores tradicionais, segurança. Nos próximos anos, vamos ouvir falar menos vezes em tolerância cultural e em liberdade.

 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (17)


Luís Naves,

Visto a partir da segurança do extremo ocidental da Europa, o Médio Oriente parece uma zona de desastre e colapso. A tragédia em Gaza é quase inexplicável: os habitantes daquele território vivem como autênticos prisioneiros num campo de concentração; as poucas indústrias foram destruídas, não há água ou electricidade, a reconstrução será inútil, centenas de milhares perderam a casa ou ficaram traumatizados. Em cada novo espancamento, Gaza radicaliza-se um pouco mais. Aliás, a radicalização dos perdedores ajuda talvez a explicar a insanidade do Estado Islâmico do Iraque e Síria. Esta organização fez milhões de pessoas recuar um milénio, conquistou um território assinalável e combate todas as outras forças da região. O EIIS conseguiu a coisa espantosa de unir  americanos, iranianos, sauditas, curdos e ainda o regime sírio. A América, que está a perder o Iraque, alia-se ao Irão para combater estes radicais extremos, que matam ou expulsam todos os membros das outras comunidades religiosas. O grupo quer criar um califado e conquistou com rapidez fulgurante um espaço significativo, embora ainda sem ameaçar o fluxo do petróleo. Aliás, não adianta defiinir o EIIS como “grupo terrorista”, pois este é já um embrião de Estado, capaz de se expandir por meios militares convencionais.

A América, no caso do Iraque, cometeu um erro tremendo em 2003, alterando o equilíbrio que existia entre as três potências regionais inimigas (Iraque, Irão e Arábia Saudita) que controlavam dois terços das reservas petrolíferas do planeta. Os problemas do Islão político vão ainda mais fundo: há uma guerra civil na Síria que já matou 200 mil pessoas, a Líbia encontra-se à beira da fragmentação total, o Iémen mergulha no caos, todo o Sara está em rebelião, os vencedores da revolução egípcia foram aprisionados e o descontentamento e a repressão alastram na Ásia Central, da Chechénia a Xinjiang. Estaremos a assistir ao estertor da própria civilização islâmica? É bem possível.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (16)


Luís Naves,

O que escrevi a propósito de literatura podia ser interpretado como rejeição do contemporâneo, mas visou apenas reflectir sobre o critério que determina a escolha daquilo que é considerado arte. A minha intenção era dizer que o comércio e a exposição mediática em excesso limitam as novas ideias e sobretudo pretendi sublinhar que estes processos implicam a banalização do artista, transformado em jarrão decorativo que, quando fala, diz o que se espera dele: sempre obscuro, mas sem ser incómodo.

As elites deixaram de ler romances, que eram escritos por membros das classes altas. A literatura foi extremamente popular entre as pessoas influentes dos dois séculos anteriores, tema de conversa nos salões da aristocracia e, depois, nas festas dos burgueses da revolução industrial. O desconhecimento das novidades castigava-se com sarcasmo e a ignorância dos clássicos era impensável.

Isto já não é assim e os escritores, que no passado tinham certa fama, pelo menos na sua cidade, estão agora inteiramente proletarizados. A literatura perdeu a aura intelectual que possuía, deixando de ser um farol das consciências. O mesmo é válido para pintores, violinistas ou maestros: o impacto social dos artistas é hoje tanto maior quanto mais se massificou a arte. A cultura popular dita as regras e vive aliás um período medíocre. As massas deixaram de ter disposição para coisas estranhas, a sua reduzida exigência aceita imitações e rejeita quem tente contrariar a moda instalada. A escrita de hoje, tecnicamente excelente, mantém muitas qualidades, mas os escritores e os artistas são personagens secundárias, ao serviço de um mercado que os condena à inexistência, caso não satisfaçam as expectativas dos consumidores. Sem fazerem concessões ao gosto dominante, serão desconhecidos; se as fizerem, serão maus escritores. Um dilema difícil.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (15)


Luís Naves,

Este barómetro publicado pelo jornal El País mostra a recuperação instantânea dos socialistas espanhóis nas intenções de voto, consequência da nova liderança de Pedro Sánchez, que foi eleito há um mês. Aparentemente, o PSOE subiu quase 50%; e, mesmo que seja menos, a recuperação é impressionante, mostrando de novo a tendência para a bipolarização. À excepção do PSOE e do PP, todos os restantes partidos caem, incluindo o movimento Podemos, que mesmo assim fica em terceiro, com 10,7%, ou o UPyD, que não descola. A situação em Espanha não tem a gravidade da portuguesa, mas este é um bom indicador de tendências, pois os dois países tendem a imitar-se. A recuperação económica parece demasiado lenta e ainda incerta. Curiosamente, lá como cá, existe modesta criação de emprego com taxas de crescimento baixas, o que sugere um efeito positivo das reformas, mas esse efeito pode ser tardio. A lição mais importante da sondagem é a que resulta da ‘limpeza do passado’ que os partidos tentam fazer. Se António Costa vencer as primárias do PS, o efeito de novidade será talvez mais importante do que foi com Sánchez. Em vez de empate, teremos os socialistas perto da maioria, a poderem governar com um ou dois movimentos populistas da esquerda, por exemplo, com Marinho Pinto e o Livre. O desvio de eleitores para as franjas será provavelmente menos acentuado e, neste cenário, a Direita precisará mesmo de apertar os cintos de segurança.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (14)


Luís Naves,

A arte deixou de ser importante na nossa vida, ela está ligada ao entretenimento, é decorativa e superficial.

A literatura morreu, pelo menos a parte exigente, pois a escrita de ficção está a tornar-se numa forma de reflexão sobre o imediato, mais próxima da crónica ou do jornalismo, que não podem mentir. Assim, ao perder universalidade, a literatura torna-se banal e servil. O escritor não pode prescindir da imagem pública, é um actor, e o romance não deve ser demasiado incómodo ou nem verá a luz do dia. Na escrita que sai das gavetas falta autenticidade e capacidade de resistir à passagem do tempo. Os leitores desistiram. Os estados de alma pós-modernos incluem anestesia geral e as pessoas já nem querem ler algo que perturbe a sua insónia, preferem traduções de livros inócuos.

O cinema é um exercício da indústria, como o fabrico de um automóvel, mas que recorre a capital de risco; complexo, sem dúvida, com exigências estéticas e técnicas, mas que sai de uma fábrica. Hollywood matou tudo o resto. A pintura é efémera e a música aproximou-se da complexidade, já suficientemente incompreensível para que possa em breve ser feita por computadores. Ninguém dará pela diferença.

A arte tem medo do risco, dispersa-se na vastidão dos pequenos eventos, na diversidade das experiências humanas e da linguagem, submete-se ao poder dos negócios, da moda e do falso exótico, reflectindo uma sociedade que declina para a irrelevância.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (13)


Luís Naves,

Um Homem Muito Procurado é o mais recente filme baseado num romance de John Le Carré. Ainda não vi, mas espero que faça justiça à obra literária e a escolha do falecido Philip Seymour Hoffman para o papel de Gunther Bachmann parece garantia de qualidade. Na complexa geopolítica de John Le Carré, este é o romance da guerra contra o terror, com uma curiosa legião de perdedores, incluindo o banqueiro desiludido, o fugitivo com problemas de identidade, a advogada idealista e o espião à moda antiga desadaptado à nova ordem, que parece calhar a Hoffman como uma luva. Le Carré consegue casar a guerra fria e o extremismo islâmico, mas a sua teia de intriga leva-nos aos territórios pantanosos da rivalidade internacional e da alta finança. Em música de fundo, o desconhecimento ocidental sobre os movimentos radicais islâmicos, com críticas ácidas à estratégia americana na chamada luta contra o terror. Temo que o filme possa menorizar a notável figura do banqueiro, Tommy Brue, personagem repleta de subtilezas, que enfrenta conflitos interiores difíceis de explicar em cinema, mas que o romancista transforma numa complexa filigrana de motivações pessoais e procura da redenção. No fundo, o banqueiro e o “terrorista” têm dois pontos em comum: a sombra do pai e a atracção impossível pela advogada. O jovem Issa Karpov, o homem muito procurado, vem da Chechénia, território que curiosamente deixou de ser notícia, mas onde a Rússia fez uma cruel defesa do seu império, radicalizando a população islâmica. Le Carré, um mestre da narrativa, é também um profundo conhecedor deste conflito. Os filmes baseados na sua obra costumam ser bons, mas os enredos são complexos e têm muita informação, o que não se compadece com a linguagem de Hollywood e o ritmo da hora e meia.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (12)


Luís Naves,

Escrevo “a situação não é tão má como a pintam” e logo surgem comentários que me atribuem a frase “a situação está a melhorar”. Os comentadores reagem de forma ofendida e enumeram exemplos de calamidade, como se eu negasse que a crise esteja na origem de muitos dramas na sociedade portuguesa. Nunca defendi essa ideia, nem poderia defender.

O meu País vive dentro de um fado triste, preso ao seu destino trágico. Não havia alternativa à mudança, mas tentar desfazer o mito da desgraça colectiva é um gesto condenado a esbarrar num muro de convicções. Durante três anos, foi criado um ambiente negativo que visava, de forma objectiva, limitar a extensão das reformas estruturais. No caso BES, as autoridades actuaram de forma aparentemente eficaz (foi evitado o colapso geral), mas a culpa foi de imediato atribuída ao governador do Banco de Portugal e ao Governo, os mesmos que estão a resolver o problema.

Quem tenta mudar o sistema costuma enfrentar dificuldades inesperadas, pois actuar contra os interesses que dominam a nossa sociedade tem elevados custos de reputação. Apesar de saber isso, estou surpreendido com a violência dos ataques ao governador do Banco de Portugal. 

Os acontecimentos dos últimos dias mostram que existe desta vez uma diferença: depois de conduzirem o ajustamento, os parceiros europeus estão a alterar também o nosso capitalismo da treta. Ao longo da sua História, Portugal viveu crises regulares seguidas de longos períodos de cristalização dos regimes políticos, que apodreciam na árvore. Esta estranha forma de vida acabou. Na actual crise, está a ser tentada a via reformista e pretende-se que, no final da transição, o País seja mais europeu. Os interesses instalados tentam contrariar as reformas e convencer a população a resistir à mudança. Eles sabem que a manipulação da percepção da realidade é a mais eficaz continuação da política.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (11)


Luís Naves,

Com inteligência e simplicidade, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas coloca neste texto um problema importante das redes sociais contemporâneas. Estas tendem a afastar o pensamento original e promovem a normalização da opinião publicada. Ali prevalece um comportamento de tribo, de ‘nós contra eles‘, onde qualquer diferença é hostilizada verbalmente. De facto, perde-se demasiado tempo a explicar o que nos parecia ser claro, a desmentir o que não se escreveu, a repetir ideias evidentes, a ser ignorado ou atacado por outros autores. O pior é que este espírito das redes sociais alastrou ao jornalismo dito de referência e dá trabalho remar contra a maré das opiniões pré-fabricadas e dos freios intelectuais. Em Portugal, tornou-se quase impossível dizer que a situação do País não é tão desesperada como a pintam. Nas redes sociais, essa afirmação implica insultos imediatos, leituras enviesadas e a reputação destruída. Muitos autores não estão para isso e desistem, pelo que se agrava a tendência para certa limitação à liberdade de expressão, que alguns parecem aceitar sem problemas.    

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (10)


Luís Naves,

Leio a imprensa e a blogosfera já sem qualquer surpresa. Hoje, em poucos minutos, encontrei uma dezena de textos sobre o fim da nação. Depois, fiz a leitura dos jornais internacionais, onde se avoluma alguma preocupação com o conflito ucraniano e os efeitos das sanções à Rússia, mas sem que um único escriba reparasse que este pequeno país chamado Portugal deixou de existir.

Uma pequena pergunta: o que aconteceu à sociedade portuguesa?

 

O fracasso do governo

Este Governo nunca quis e nunca soube conduzir a opinião pública. Foi o seu maior erro, pois não se transforma um país sem convencer as pessoas. O resultado foi a opinião publicada mais pessimista do universo e uma sociedade cuja elite não aceita a transformação em curso, embora não exista alternativa razoável a essa mudança. Depois, ouvimos os nossos amigos e a vida é sempre uma profunda desgraça (quando escavamos um bocado, a deles vai razoavelmente bem). Uma amiga deu-me uma boleia num carro caríssimo e foi o caminho todo a cascar na situação: Portugal afundava e ela guiava um carro caríssimo.

O caso BES é brutal. As notícias sobre o tema têm saído em pequenas doses homeopáticas e só hoje percebi que os pequenos accionistas do BES viram o seu investimento preservado (embora continuem a fugir da bolsa).

A comunicação governamental desta crise tem sido de uma perfeita imbecilidade, à excepção da excelente entrevista da ministra das Finanças. Aliás, gostava que alguém me conseguisse explicar a lógica de uma coisa destas ser anunciada de véspera por um comentador político e ainda não consegui perceber o que acontece ao fim de dois anos, pois quando a ministra ia dizer, o jornalista interrompeu, para fazer uma pergunta ao lado. Não admira que os investidores estejam nervosos, ninguém informa, anda tudo a banhos.

Há quem escreva que a bolsa, afinal, não existia. Outros críticos sugerem, sem o afirmar, que Portugal nem sequer tem condições para cumprir a lei em vigor na união bancária, quanto mais permanecer na zona euro. Em matéria de finanças públicas, é tudo insustentável: a dívida, que devíamos reestruturar; a austeridade, que devíamos anular; os cortes na despesa, que devíamos inverter.

Enfim, teremos talvez de continuar a manter os interesses especiais e o capitalismo da treta. A única saída que resta neste labirinto é mesmo o abandono da zona euro e o regresso ao escudo. Julgo que isto explica muitas das críticas que leio à própria União Europeia, essa coisa que para as elites nacionais passou a ser ineficaz, egoísta e nula. 

 

Um país bipolar

Em Espanha, a imprensa é geralmente favorável à transformação necessária. Em Portugal, o contraste é evidente: os telejornais têm duas partes: a primeira é uma desgraça, com os cortes, as cabazadas ao Benfica e os protestos de funcionários públicos. Introduzi o Benfica a martelo, mas é um bom exemplo: uma equipa que ainda não fez nenhum jogo a sério já perdeu tudo.

Uma jornalista famosa chegou a confessar-me um dia que nem sempre escrevia o que pensava, pois isso era mal interpretado e perdia leitores. Por isso, suavizava algumas opiniões, tornando-as mais pessimistas.

Talvez isso explique que as informações positivas sejam transmitidas de forma a que pareçam mais negativas. No outro dia fiz uma experiência neste blog, publicando um pequeno post com uma frase verdadeira e uma ironia provocatória. Fui acusado por vários comentadores de ser propagandista. Ninguém reagiu à ironia, mas à informação verdadeira. Os comentários foram de extrema violência, pois a informação negava todos os mitos e, como sabemos, não é popular desafiar mitos entranhados. A verdade é primeiro propaganda, depois relativizada em análises que olham o copo meio vazio, por fim passa em nota de rodapé.

Na segunda parte dos telejornais, passamos do inferno ao paraíso, vamos a banhos e temos as melhores praias do mundo, as melhores pousadas, a melhor gastronomia, as melhores maravilhas naturais, entrevistas a turistas queimados como lagostas e que parecem extremamente satisfeitos, desportos de beira-mar e hotéis repletos, festivais de verão com a mais recente vedeta do pop mundial, piscinas e festas de glamour. O único problema visível é uma sombrinha no céu, que anuncia um pouco menos de insuportável calor.

É este país bipolar que parece incapaz de perceber a mudança em que vive. Um país que era governado por corporações e por um punhado de famílias, que terá, daqui para a frente, de se governar sozinho. 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (9)


Luís Naves,

Havia três possibilidades: o BES falia e verificavam-se perdas monstruosas; alguém generoso comprava o banco; ou era aplicado um resgate. Sendo impossíveis as duas primeiras, o País foi conduzido para a terceira hipótese e, pela primeira vez, as novas regras europeias foram usadas no salvamento de uma instituição financeira.

Este é o aspecto que mais me espanta nos comentários que tenho lido e ouvido sobre o caso BES e o aparecimento do Novo Banco: os analistas evitam referir que a solução aplicada é europeia e o dinheiro vem da troika; que foi tudo negociado com a Europa, com apoio do BCE, onde o Banco de Portugal tem assento; que o dinheiro é um empréstimo temporário e remunerado; que a forma deste resgate estava escrita numa lei europeia em vigor.

No final, é bem possível que o contribuinte perca dinheiro, mas primeiro pagam os accionistas e os credores que arriscaram. A alternativa a esta intervenção era o estoiro puro e simples de um banco enorme (para a nossa dimensão), o que seria uma catástrofe económica sem precedentes.

Também me espanta a reacção partidária, sobretudo a reacção apressada do Bloco de Esquerda. À primeira pergunta (então, o que se fazia aos depósitos?), a líder do bloco começou a patinar. Os críticos desta opção têm de explicar muito bem qual era a alternativa. Como é que se salvava o banco sem aplicar a lei comunitária, em grande parte imposta pela Alemanha?

Um mito persistente afirma que a Europa é irrelevante, mas este caso prova que a zona euro começa a ter uma união bancária e mudou por completo a lógica da integração. Antes do resgate, um pequeno banco português estoirou e foi possível ao governo salvar os seus accionistas, pagando várias vezes as loucuras que tinham sido feitas (ainda estamos a pagar a conta). A intervenção seguinte, sob ajustamento, envolveu dinheiro da troika que está a ser devolvido, mas foram preservados os interesses dos accionistas e a solução leva tempo. Agora, havendo igualmente um empréstimo temporário, as regras são bem piores para os accionistas. O interesse dos contribuintes e dos depositantes conduz toda a operação, que será muito mais rápida. 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (8)


Luís Naves,

Nos momentos em que tudo corre mal, aparecem comentários que comparam eventuais erros e omissões ‘à orquestra do Titanic’. Em certos textos, critica-se que a música continue, de forma imperturbável, exemplo de estupidez e inutilidade. Assim, lemos frases deste género: ‘O barco afundava e havia quem fizesse como a orquestra do Titanic, continuando a tocar’. As melhores prosas acrescentam detalhes de incompreensão da realidade e, além da vertigem do erro, existe igualmente uma espécie de loucura ou tolice.

No entanto, esta é uma péssima utilização de um episódio verídico. Se existe lição a extrair da orquestra do Titanic é a da espantosa coragem de oito músicos que, durante o afundamento do grande paquete, em 1912, continuaram a tocar até uma fase avançada do naufrágio: muitos sobreviventes afirmaram ter ouvido música mesmo nos instantes finais da catástrofe.

Não se sabe ao certo o que levou estes músicos a tocar até ao fim. O que se sabe é que todos ele morreram, embora não fizessem parte da tripulação e estivessem no navio com estatuto de passageiros (podiam tentar salvar-se). A intenção de acalmar os outros náufragos é conhecida, pois o chefe do grupo dissera que teria essa atitude em caso de naufrágio. Não sabemos como convenceu os restantes membros da orquestra, mas percebemos que tocar até ao fim não foi uma decisão estúpida ou inútil, mas uma escolha nobre e de grande valentia, que salvou vidas.

Nas crises, nunca é problema a existência de uma orquestra do Titanic, que continua a tocar até ao fim, sabendo que vai pagar o grande preço. Pelo contrário, o problema é a sua ausência, o salve-se quem puder, a corrida aos botes, o pânico e a cobardia.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (7)


Luís Naves,

Num dos primeiros grandes filmes da nouvelle vague francesa, Les 400 Coups, dois rapazes roubam uma fotografia da actriz sueca Harriet Andersson, num cinema onde passa o filme de Ingmar Bergman Monica e o Desejo. A película de François Truffaut, de 1959, em português Os 400 Golpes, contava a história de um adolescente e da sua busca da liberdade, mas a narrativa semi-autobiográfica usava uma nova maneira de abordar as personagens, sem lhes atribuir motivações evidentes, ao contrário da norma nas produções de Hollywood. Em resumo, a nouvelle vague utilizava um realismo próximo da vida, onde a acção era menos previsível e a complexidade das personagens mais elaborada. A arte continuava a enganar os sentidos, mas de maneira subtil. Podemos tentar explicar o motivo do furto da fotografia, homenagem ao mestre sueco, a um filme brilhante, a uma actriz devastadoramente bela, piscar de olho ao cinema europeu, anúncio de ruptura estética, o que quisermos, pouco importa, é um roubo justificado. Truffaut consegue um pequeno momento transcendente e a ligação com todos os rapazes que também um dia sonharam em roubar a fotografia de Mónica e o Desejo. Foi esta magia que se perdeu no cinema contemporâneo. Agora, não há segredos nem minúsculas preciosidades praticamente ocultas, que cabe a cada um de nós encontrar e decifrar; não há poesia, apenas citação.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (6)


Luís Naves,

Em Bloguítica, Paulo Gorjão defendera esta escolha muito antes dos outros. Carlos Moedas tem tudo para ser um bom comissário europeu. Infelizmente, tirando alguns exemplos de lucidez, o debate político gerado pelo anúncio deste nome insiste na pobreza habitual, que em vários casos revela desconhecimento do próprio funcionamento interno da União Europeia. Há pessoas que imaginam uma Europa que não existe e, por isso, continuam a não perceber a realidade. Como diria Robert Heinlein, “a vida é o que é e não perdoa a ignorância”.

O que mais me espanta, neste caso, é o argumento de que devia ter sido escolhida uma mulher e, de preferência, uma mulher socialista; a pasta atribuída ao país seria assim muito melhor. A ser verdade, isto era inadmissível, pois os comissários são escolhidos pelos governos. Existe negociação, é certo, envolve o perfil das pessoas e as suas competências, mas esta é uma atribuição dos Estados. A imposição de um perfil seria mais um passo no sentido do directório. Ninguém imagina o presidente da comissão a fazer este número com a chanceler Merkel: “envie uma mulher e recebe uma pasta melhorzinha”.

O novo presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, acha que é inovador, a ponto de considerar que as eleições europeias lhe davam legitimidade para o cargo, e agora queria inovar em matéria de comissários, estabelecendo quotas para género e eventualmente para credos religiosos, minorias étnicas e outras novidades. Portugal recebia um doce se enviasse uma mulher, mas apesar dos abracinhos e beijinhos, isso não era bem assim, a negociação foi mesmo sobre lugares para os países: os grandes ficam com as pastas importantes e os outros repartem o que sobra.

Os socialistas portugueses, em campanha interna, aproveitaram a escolha de Moedas para agitar o consenso europeu e defendem uma tese do outro mundo, que devia ter sido escolhida uma mulher socialista, embora o governo seja de centro-direita e tenha disponível uma pessoa competente da sua área política.

Os que criticam Passos Coelho por alegada submissão aos poderes da Europa são afinal os mesmos que queriam ver o Governo português a ceder a uma sugestão que certamente nunca foi feita aos Estados mais fortes da UE: “se mandarem uma mulher em vez de um homem, a vossa pasta é muito melhor”.  

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (5)


Luís Naves,

O capitalismo não aprendeu nada com a crise financeira de 2008. Pelo contrário, parece mais à solta, com as suas loucuras aplaudidas desmioladamente pela ortodoxia da liberdade dos mercados e os polícias sinaleiros do costume.

Um fundo chamado Elliot Management, controlado pelo milionário americano Paul Singer, comprou dívida argentina a preço de saldo e agora exige o pagamento total da dívida (entretanto reestruturada), tendo convencido um tribunal federal americano a suportar a exigência, apesar de haver um acordo com a maioria dos credores e da questão obedecer ao direito argentino.

Em resumo, Singer comprou abaixo de 170 milhões de dólares e quer agora receber 1,5 mil milhões, usando chantagem (o governo argentino fala em extorsão) sobre um país com 40 milhões de habitantes. O Fundo Elliot Management teve margens de lucro anuais médias de 14% desde 1977 (mas o que produzem? como é que isso é possível?), tendo esfolado países inteiros: pelo menos Peru e Congo pagaram a conta com margens que a Argentina não quer pagar.

A situação será provavelmente resolvida nos próximos dias, mas Buenos Aires arrisca-se a entrar em default e as tentativas de negociar a questão a nível governamental mais elevado estão a deparar com fortes críticas da direita americana. Aliás, Paul Singer é um republicano da corrente libertária que defende regulação nula dos mercados. 

Fundos financeiros com  centenas de funcionários compram dívida barata e levam ao chão países inteiros, para garantirem lucros de mil por cento, já que não lhes chega 300 %. Com a decisão do tribunal que apoia estas práticas, o poder fica todo na mão dos credores. A Argentina não é o Peru e a Europa não é a Argentina, mas o facto é que Buenos Aires está há dez anos fora dos mercados financeiros e dificilmente aceitará o preço político desta factura. O seu desafio já popularizou a expressão ‘fundos abutre’, que têm em Portugal outro potencial alvo. Como demonstra este caso, como mostra a situação do BES, o mundo das finanças não precisa de menos regulação, mas de mais regulação. Alguns capitalistas têm ganância fora de controlo e ameaçam criar nova crise, ainda pior do que a anterior. Não pode ser o poder financeiro a regular o poder dos Estados. Tem de ser ao contrário.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (4)


Luís Naves,

Carl Von Clausewitz defendia a doutrina de guerra incisiva, na qual a população do inimigo tinha de ser submetida às necessidades políticas dos beligerantes. Esta tese tornou-se dominante no século XX, sobretudo durante as duas Guerras Mundiais, onde os exércitos invasores executaram acções brutais contra populações civis. Segundo se pensava, impor o terror era uma das formas de vencer, mas na prática isso apenas aumentou a resistência, dificultando a vitória.

A forma violenta como o exército israelita está a lidar com a situação em Gaza aponta para um exemplo clássico da estratégia de Clausewitz: guerra curta, tácticas que não poupam populações, a intenção de esmagar a liderança política, neste caso, do Hamas.

Em 1804, ao saber do assassínio do Duque de Enghien (fuzilado de noite, de forma impiedosa, com uma lanterna ao peito) o ministro da polícia de Napoleão, Joseph Fouché, afirmou para a posteridade: “Pior que um crime, é um erro”. A frase é cínica, mas aplica-se ao que Israel tenta fazer na Faixa de Gaza. A brutalidade contra populações civis só vai radicalizar o Hamas e aumentar a simpatia da opinião pública por este grupo radical. Haverá vítimas inúteis em maior número e um ciclo de violência mais prolongado. Em vez da submissão, apenas se encontrará resistência redobrada.

O Hamas pode ser esmagado, mas se isso acontecer, vão crescer como cogumelos novas organizações ainda mais radicalizadas. Os EUA, que fornecem as munições, terão dificuldade em manter as suas alianças no Médio Oriente. Em Israel, um quinto da população é árabe, mas alguns políticos extremistas israelitas defendem um Estado exclusivamente judaico, há até quem queira a expulsão de cidadãos.

De facto, pior que um crime, tudo isto parece ser um monstruoso erro.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (3)


Luís Naves,

Nas redes sociais encontram-se textos muito violentos contra Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares, por nenhum deles ter condenado publicamente o banqueiro Ricardo Salgado. São variações de um artigo do cómico João Miguel Tavares, que insistia na mesma tecla: devido às suas ligações de amizade, os dois comentadores recusaram criticar em público o amigo banqueiro. Portugal procura um bode expiatório para os seus problemas e já escolheu aquele que serve às mil maravilhas. Quem no passado opinou que Ricardo Salgado tinha charme (rigorosa verdade) é agora insultado nas redes sociais e equiparado a traidor da Pátria. Os comentadores que evitaram falar do seu amigo, esses, embora revelassem carácter, são agora fustigados por alegada omissão. E depois surgem os heróis que ninguém viu, mas que agora reivindicam denúncias corajosas. Repito: um comentador ou jornalista que evita falar dos seus amigos revela dignidade. Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares evitaram criticar o banqueiro Ricardo Salgado, avisando que não se pronunciavam devido à ligação que tinham com ele. Compreendo: também não critico os meus amigos em público. Aliás, este problema da amizade em contraste com a verdade pode ser levado mais longe: em última análise, um comentador teria de vergastar publicamente as pessoas que ama. Toda a gente tem defeitos e, levando a tese ao absurdo, sendo a crítica um dever, o hipócrita terá a suprema obrigação de lançar a primeira pedra. Vivemos nos tempos do purgatório, ninguém pode ter amigos e há até quem se gabe de não os ter.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (2)


Luís Naves,

Evito escrever sobre questões internacionais, mas não é falta de assunto, é perplexidade. As revoluções árabes falharam quase todas, com particular estrondo no Egipto, e nasceu um califado no Iraque a na Síria (imagine-se, um recuo de mil anos). A civilização ocidental entrou numa fase estranha, incapaz de controlar os excessos ou de reduzir um sistema de consumo que ameaça a estabilidade do próprio clima do planeta. Alguns Estados caem fora do ninho e condenam-se à extinção; há milhões de pessoas sem qualquer futuro visível. E esta exclusão também ocorre dentro dos países chamados ricos, onde as desigualdades podem destruir democracias construídas com labor e sacrifício. Muitos pobres ficarão no exterior das classes consideradas humanas e, assim condenadas à pobreza e à incultura, deixarão simplesmente de existir, ignoradas por meios de comunicação obcecados apenas pelo espectáculo. O capitalismo é insaciável. Cada um fecha-se nas suas razões: estamos a construir um mundo de condomínios privados que bombardeiam faixas de gaza

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (1)


Luís Naves,

Não se pense que é tudo mau por aqui. Temos sol e certa tranquilidade, obesos e diabéticos, mulheres bonitas, bronzeadas, o céu azul-marinho, a brisa meio envergonhada, sopa de marisco e novela da tarde, craques de futebol comprados nos saldos, ex-banqueiros a afundar a bolsa, pessimistas no comentário matinal, jornais sem notícias e o país sem pressa, porventura está um poucochinho de calor, a procissão sai ainda do adro e requer certa paciência na calma. Aqui é tudo verde e sedoso, prolongado e contido, cheio de esperança, mas nada de especial, sempre à espera não se sabe bem de quê. Que o tempo passe, talvez, que tudo escorregue sem passar, que o comboio chegue. Há quem esteja pior, nem a dormir nem acordado, preocupado com a mera preocupação, não sendo infecção nem alergia, mas estado de alma em fase aguda. Aqui, onde me encontra o crepúsculo, posso afirmar, com a certeza típica de um enviado especial que entrevistou a sua dose de taxistas: este é o País mais banal do mundo.