Tragicomédias


Ana Vidal,


 

A moda da stand-up comedy tomou conta deste país, decididamente. De repente, tornámo-nos um povo de cómicos, debitando piadas em qualquer palco, com qualquer público que se preste a ouvir-nos. Já não bastava as estrelas da canção que todos os pais portugueses julgam ter em casa, e que promovem com a convicção inabalável de chegar a ver lançadas no estrelato internacional as suas pequenas Madonnas, agora descobrimos a nossa veia de comediantes. Sobram-nos os motivos e os temas, é certo, sobretudo no que toca ao humor negro. Mas falta-nos quase sempre aquela dose mínima de sofisticação, de ironia e de subtileza que faz dos ingleses os reis da graça inteligente. Há excepções, evidentemente, mas essas são conhecidas e reconhecidas. A maioria é um desastre.

 

Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota (registo em que éramos bons, pelo menos) com uma confrangedora colagem ao humor que aprendemos – mas não apreendemos – com a infindável repetição de séries americanas. Que também as há óptimas, não duvido. Mas que não nos basta passar a beber café por uma caneca, comer hamburgers com ketchup e andar em casa de meias de lã com sola de borracha para nos transformarmos em genuínos Seinfeld’s, disso também não tenho a menor dúvida. Chega a ser deprimente o desfile de mediocridade de hordas de aspirantes a “cómicos” nos canais televisivos, absolutamente seguros do seu talento, como se a comédia não fosse a mais difícil e ingrata das artes de palco.

 

O fenómeno é irreversível, e já ultrapassou há muito as fronteiras do razoável. Relato-vos um caso que presenciei, há pouco tempo, numa missa de sétimo dia. Sim, é verdade: a “piadomania” também já chegou à igreja, e manifesta-se nas alturas mais inconvenientes. Perante uma assembleia consternada por uma morte prematura, duríssima, o padre resolveu fazer-se engraçado. Disse, entre outras inacreditáveis patetices, que rezava o terço a caminho de casa, a conduzir: “Uma ave-maria e uma aceleradela, uma santa-maria e um pé no travão”, acompanhando esta descrição edificante com um gesto de braços e um estalar de dedos que lembrava o vira do Minho. Ainda estávamos mal refeitos da surpresa e já outra graçola vinha a caminho, no elogio fúnebre: “O … era um artista. Fez muito do que se pede a um homem para que deixe memória na sua passagem por esta vida. A mim, por exemplo, falta-me tudo: nunca escrevi um livro, nunca plantei uma árvore e nunca tive um filho. Pelo menos até agora… ainda!” E sublinhava o “ainda!” com um sorriso malandreco e um inclinar de cabeça, como a sugerir que tencionava tratar nessa mesma noite de colmatar a lacuna. Toda a homilia que se seguiu foi no mesmo tom de stand-up comedy, perante uma plateia contrita pela total ausência de tacto numa ocasião daquelas.

 

Devo acrescentar que nada tenho contra o casamento e a sequente procriação dos padres católicos. Pelo contrário, penso que uma conjugalidade autorizada poderia talvez contribuir para contrariar as estatísticas da desertificação de vocações. Mas esta declaração em tom de piada fácil, completamente deslocada do contexto, deu-me vontade de vaiar o padre-humorista ali mesmo, como se faz aos maus actores que mais valia fossem aprender o muito honrado ofício de pedreiro.

Pretérito prefeito


Rui Rocha,

Gerhard Müller, o novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, considera que a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal na Igreja Católica segue a vontade e chamamento de Cristo. Se virmos bem, é capaz de ter razão. Os apóstolos eram todos homens. Já então, para que eles pudessem acompanhar Jesus na proclamação da Boa Nova, era preciso que ficasse alguém a trabalhar. Assim sendo, presumo que não será nada fácil mudar este estado de coisas. A menos que, um dia destes, Deus nos envie uma filha para salvar as mulheres (e, já agora, se tiver tempo, também os homens que andamos bem precisados). Com um bocado de sorte, a filha de Deus calha de ser negra e ficamos logo com dois problemas resolvidos: o do machismo e o do racismo. Pensando bem, melhor seria que viessem duas filhas, sendo a segunda chinesa. Para além do racismo e do machismo, ainda dávamos um passo de gigante no domínio de outros direitos humanos.

Quatro perguntas


Pedro Correia,

1. Enquanto capelão das forças armadas, e como tal inserido na hierarquia militar com a patente de major-general, deve o bispo Januário Torgal Ferreira continuar a prestar lealdade a um Governo que, nas suas próprias palavras, é “profundamente corrupto”?

 

2. Os chefes dos três ramos das forças armadas revêem-se de algum modo nestas declarações e, em caso negativo, romperão o silêncio para dizerem o que pensam?

 

3. Sendo o estado português laico o que justifica a manutenção em funções de um bispo católico das forças armadas?

 

4. Em nome da necessidade de conceder equidade de tratamento às diversas confissões religiosas, garantia decorrente do artigo 13º da Constituição da República, não deveria a hierarquia militar incluir igualmente nas fileiras castrenses, talvez também com o posto de major-general e respectivo “suplemento de condição militar”, um rabino, um imã, um bonzo e um xamã?

A vontade da Santa Sé.


Luís Menezes Leitão,

 

Desde que D. Afonso Henriques decidiu dar a independência a este cantinho à beira-mar plantado que, com excepção do tempo dos Filipes, não temos um Governo tão subserviente aos ditames do estrangeiro. Primeiro o Governo obedece atento, venerador e obrigado, a todas as medidas que venham da troika, por mais disparatadas que as mesmas sejam e, como se viu, estarem a arrasar totalmente o país. Depois, nesta história dos feriados, uma iniciativa absolutamente ridícula e que só demonstra uma falta de consideração pelos símbolos nacionais como não há memória em Portugal, acabou por transformar a extinção dos feriados religiosos numa suspensão por cinco anos porque “é a vontade da Santa Sé”. Pelo vistos, para o Governo, se é a vontade da Santa Sé, ou da Santa Troika, amen. Mas como nem a Santa Sé, nem a Santa Troika se importam com os feriados que comemoram a independência do país ou o regime republicano, esses serão definitivamente extintos. Se o Ministro da Economia tivesse um pingo, já não digo de sentido de Estado, mas de vergonha na cara, voltava atrás com esta absurda proposta de extinção de feriados e poupava-nos a este triste espectáculo da humilhação do Estado Português e dos seus símbolos nacionais, a que todos os dias somos forçados a assistir.

Há menos católicos e os católicos são cada vez menos jovens


Rui Rocha,

Um estudo da Universidade Católica revela que existem menos católicos em Portugal (86,9% da população há 12 anos contra 79,5% actualmente). Em comentário de circunstância, o porta voz da Conferência Episcopal declarou a propósito que o essencial é a qualidade e não a quantidade. Se a qualidade se mede pelo compromisso dos católicos com os ritos e actividades da igreja, os resultados não são, todavia, muito animadores. Na verdade, mais de metade são católicos nominais (nunca vão à missa) ou praticantes ocasionais ou irregulares (vão à missa até 11 vezes por ano). Entretanto, o dado mais contundente no que diz respeito ao afastamento progressivo da população da matriz católica encontra-se no quadro em que se analisa a posição religiosa por escalão etário:

 

No escalão até 24 anos, apenas 61% dos inquiridos se dizem católicos. E no escalão entre 25 e 34 anos os católicos são menos de 70%. Isto é, não só a ICAR está a perder fiéis, como revela uma progressiva incapacidade de cativar o interesse das pessoas à medida que a sua idade baixa. Não faltarão explicações para o facto. Pela minha parte, atrevo-me a sugerir que a ICAR nunca poderá constituir uma proposta atractiva para uma população que, nascida em liberdade e educada num contexto em que a igualdade da mulher se tornou inquestionável, não encontra na proposta católica mais do que o reconhecimento relutante e, aparentemente, a contragosto, dessa realidade. A retórica católica sobre a protecção dos mais fracos não se compreende, hoje em dia, se não incluir, mais do que a tolerância perante essa igualdade, um compromisso forte no sentido do seu reconhecimento e da sua promoção ali onde ela ainda faltar.

Preso por dar vivas à liberdade


Pedro Correia,

 

«Protege-te dos vacilantes /

Porque um dia saberão o que não querem»

Heberto Padilla

 

Vários dias depois, interrogo-me sobre o destino daquele homem que se encheu de coragem e gritou “abaixo o comunismo, viva a liberdade” pouco antes do início da vasta missa campal celebrada pelo Papa na Praça Antonio Maceo, em Santiago, segunda maior cidade de Cuba. Foi um grito insensato, atendendo ao contexto, mas as figuras tocadas pelo heroísmo não costumam caracterizar-se pela sensatez.

Vejo e ouço rostos e nomes de assassinos diariamente nas páginas dos jornais e nas imagens dos telediários. Por lamentável contraste, ignoramos tantas vezes a identidade destes heróis solitários que ousam proclamar em voz bem alta o que milhões de concidadãos pensam em países agrilhoados e amordaçados. Ao ver aqueles fugazes segundos de reportagem televisiva em que vários esbirros da ditadura cubana rodeavam o indivíduo e o levavam para parte incerta, pensei que aquela era a perfeita metáfora de uma revolução falhada: 53 anos após a vitoriosa entrada dos barbudos da Serra Maestra em Havana, basta alguém proclamar uma frase em louvor da liberdade para ser riscado da convivência cívica.

Infelizmente, nada que deva surpreender-nos: em Cuba qualquer cidadão pode ser detido a todo o momento com acusações tão vagas e tão implacáveis como “faltar ao respeito aos símbolos pátrios”, algo que muitos comunistas portugueses associariam de imediato à ditadura salazarista embora estejam sempre na primeira linha do aplauso ao chamado “socialismo cubano”.

O problema não reside apenas na facilidade com que se é preso em Cuba. Há “flagrantes violações da dignidade humana” nos cárceres castristas, como alertam opositores à ditadura, entre eles o médico Óscar Elías Biscet, que sabe muito bem do que fala: esteve 12 anos preso por delito de opinião.

Pensava em tudo isto enquanto acompanhava a missa papal em Santiago sintonizando o canal oficial cubano Cubavisión, de que disponho através da TV Cabo. Dir-se-ia um canal devoto, tanta era a solene deferência perante Bento XVI nesta sua inédita peregrinação ao país que Fidel Castro fez proclamar em 1976 como estado ateu até à revisão constitucional de 1992.

 

Escuto com alguma emoção o Credo recitado em coro por largos milhares de vozes. Na primeira fila da assistência à cerimónia litúrgica alinham-se respeitosamente vários membros da nomenclatura cubana, com destaque para o “general do exército Raúl Castro, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros”, como não se cansa de assinalar a locutora da Cubavisión. O irmão mais novo e herdeiro de Fidel saudou o Papa chamando-lhe “Santidade”, algo impensável noutros tempos. Quase todos os bens da Igreja Católica foram “nacionalizados” após 1959 e dezenas de sacerdotes acabaram por ser expulsos da ilha, onde o ensino religioso foi proibido. Até 1991 um cidadão cubano tinha de se declarar “não crente” para ingressar no Partido Comunista.

“Ficaram para trás os anos de fanatismo anti-religioso em que as pessoas eram expulsas do trabalho ou da escola só por terem em casa um quadro do Sagrado Coração de Jesus”, escreveu Yoani Sánchez no El País. O mesmo jornal que viu o seu correspondente em Havana, Mauricio Vincent, ser expulso da ilha em Setembro de 2011: os seus artigos independentes irritavam as autoridades comunistas.

 

Cuba deve avançar “pelos caminhos da justiça, da paz, da liberdade e da reconciliação”, disse o Papa na sua homilia em Santiago enquanto a chuva caía, com persistência muito tropical. As imagens da Cubavisión focavam a multidão compacta, mas quase sempre à distância, com raros planos aproximados. A política contamina tudo – até a realização televisiva. O general Raúl Castro cumprimentou o Sumo Pontífice com uma semivénia respeitosa, a poucos metros da imagem da padroeira cubana, à qual Ernest Hemingway – cubano por opção e adopção – ofereceu a medalha recebida em 1954 pela Academia de Estocolmo que o distinguiu com o Nobel da Literatura.

Hemingway viu-se forçado a abandonar Cuba em 1960, o que lhe apressou a morte. Vivesse ele hoje e talvez acabasse por escrever um romance sobre aquele desassombrado cubano detido simplesmente por dar vivas à liberdade – anónimo herói da vida real. Robert Jordan – o protagonista de Por Quem os Sinos Dobram – gostaria de o conhecer. E era bem capaz de juntar a sua voz àquele corajoso brado solitário.

Foto: Enrique de la Osa (Reuters)

 

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Manuel, in memoriam


enlil,

 

Sou ateu até à medula dos ossos – saí assim. Estou por isso em condições privilegiadas para dizer que hoje morreu alguém que mais se aproximou da ideia que faço de um santo: D. Manuel Falcão, Bispo Emérito de Beja.

Nunca me foi dado ver pessoa tão desprendida dos seus cuidados materiais. Embora pertencesse a uma família abastada, tinha que ser a irmã a mudar-lhe em segredo o guarda-roupa quando os fatos já se encontravam quase no fio. O automóvel de serviço, era ele, sempre que possível, quem o consertava em caso de avaria, dando uso à sua formação de engenheiro. O dinheiro de que dispunha, dissipava-o em pequenos auxílios discretos ou numa obra monumental, lenta e prudente: o levantamento, restauração e conservação do património histórico e artístico da diocese de Beja. Isto dito assim parece coisa institucional e maçadora, mas não era, porque estando entregue a José António Falcão (apesar do nome não tem qualquer laço familiar) tornou-se “apenas” um case study.

Foi em Janeiro de 1975 que Manuel Falcão recebeu o bispado de Beja. É difícil conceber cargo mais complicado, dada a hora e o local. Como ele o desempenhou, se quiserem saber, falem com pessoas de Beja, sobretudo comunistas, que elas vos dirão.

Manuel Falcão não era um homem efusivo e prazenteiro, mas era de trato cordial e sobretudo ponderado. Ou seja, procurava sempre salvar o pecador do seu pecado, em vez de brandir as penas do inferno, por maior que fosse o erro. Sei do que falo e com ele aprendi que o anti-clericalismo é insensato. Percebi também que ser ateu em paz e descanso, sem correr riscos de ver a cabeça separada dos ombros ou acabar com o corpo em chamas, é uma prerrogativa das sociedades cristãs contemporâneas. Bem sei que isto contrasta com alguns preconceitos dominantes, mas é a vida…

Pelo Natal, Manuel Falcão entregava a cada um dos 79 sobrinhos-netos um envelope com €20. Dava-lhes também a responsabilidade de entregarem esse dinheiro à instituição de caridade ou beneficência que entendessem.

Valha-o Deus, homem


Rui Rocha,

D. Manuel Monteiro de Castro, o novo cardeal português, entende que “a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”. É de homem. Das cavernas, benza-o Deus. Desde logo, é lamentável que transpareça do discurso uma visão funcional das mulheres. Se bem a conheço, a visão oficial da Igreja Católica apela à integridade ontológica, independentemente de qualquer função. É nessa perspectiva que se entende, por exemplo, a defesa da proibição do aborto. Entendamo-nos. O lugar das mulheres é onde elas quiserem, mesmo que não sirvam para nada ali onde estiverem. O mesmo se aplica aos homens. Sendo que, no caso destes, a probabilidade de não servirem para nada seja lá onde for é bem maior. Tal como a de fazerem ou dizerem asneira. Depois, as palavras de D. Manuel são incompreensivelmente redutoras. Existem tantas funções essenciais para as mulheres em casa, no escritório, na praia ou no campismo que os dois mil e tal anos de história da Igreja Católica não foram suficientes para as enumerar, quanto mais para as perceber. Mesmo admitindo que uma dessas funções não é dizer missa. Mas, para além disso, esta intervenção é profundamente discriminatória. Na verdade, não admito a D. Manuel que me exclua da possibilidade de, a ficar alguém em casa a educar os meus filhos, ser eu próprio a fazê-lo. Pode um ser humano ter uma visão do Paraíso? Acho que sim. No meu caso, passar os dias com os meus filhos, brincar com eles, ajudá-los, ensinar-lhes o pouco que sei, aprender com eles, zangar-me e logo correr a abraçá-los, rirmos e chorarmos juntos, tudo isto me parece a antecipação do Céu em plena Terra. Digo que não tem comparação, não desfazendo, com a função de Cardeal ou de Penitenciário-mor da Santa Sé. Melhor, só mesmo se a minha mulher pudesse estar em casa connosco. Mas isso, de tão bom, tão bom, talvez já fosse pecado. Por isso, espero que D. Manuel, ungido pelo Espírito Santo, possa um dia ver a luz que o ajude a despir-se, em bom recato se a isso a Providência ajudar, do preconceito que a vontade de Deus o fez exteriorizar. Até lá, resta-lhe enfiar o barrete. Cardinalício.

Da importância das palavras


Pedro Correia,

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de “antimuçulmano”. Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de “islamófobos” e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser “laicos”, nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de “Papa nazi”, “assassinos”, “ignorantes”, “pedófilos” e “filhos da puta” com que nestes dias alguns destes “laicos” têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de “islamófobos”.

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.

Um pouco mais sós


Sérgio de Almeida Correia,

Sendo um homem de fé, sou por natureza e feitio anticlerical. Mas habituei-me a ouvir e a respeitar D. José Policarpo. Um homem que soube projectar uma outra dimensão da Igreja portuguesa, pontuando o seu discurso pela lucidez. Sinal da sua atenção aos problemas do seu tempo e que, ao contrário do que alguns teimam em rejeitar, são também os do seu templo. Marcou a sociedade portuguesa com a oportunidade da sua intervenção cívica, com a autoridade do conhecimento e da razão, e tentou renová-la à medida das suas possibilidades. Muitas vezes discordei do clérigo, poucas do homem, porque respeitar é também compreender o outro na discordância. Talvez que o facto de ser um fumador contribuísse para marcar a diferença num mundo que aceita sem resistência o cada vez maior número de espartilhos à liberdade individual em nome de uma sociedade asséptica e amorfa. D. Jorge Ortiga diz tratar-se de um acto normal por D. José ter atingido o limite de idade. Eu acredito que sim. Só que nos dias que correm a sua carta de renúncia, sendo aceite, deixará este país mais pobre. Com menos uma voz como a dele não será só a Igreja a perder. Perdem todos. Ateus e agnósticos incluídos. Pela simples razão de que a humanidade não tem credo, cor, raça, ideologia ou sexo, e depende de homens como ele.    

As 101 (o)posições da Igreja Católica em matéria de uso de preservativo


Rui Rocha,

Se percebi bem, apesar do alarido, a posição da Igreja em matéria de preservativo continua a ser… a do missionário. Ao que parece, o uso foi admitido pelo Papa apenas para determinadas finalidades muito restritas. Imagino que estarão incluídas as gastronómicas (dizem-me que os há com sabor a morango e a pau de canela), as decorativas (em 2011 estarão na moda as cores do Vaticano?), as lúdicas (tal e qual os balões, os sacanas dos látexes!) e as de agasalho (dá muito jeito, com o frio que está). Agora, quando se trata de amandar o gato às filhoses… o bichano que encolha os bigodes: ah, coiso e tal que não pode ser. É isto, não é?

 

PS (sem ofensa aos eleitores portugueses): tendo em conta que a (o)posição não é muito clara, talvez fosse inspiração do Altíssimo criar um serviço de helpdesk no Vaticano com atendimento 24/24 horas. Não vá dar-se o caso de andar por aí alguma mocidade em pecado por desconhecimento ou dúvida na interpretação da doutrina da Santa Madre Igreja.

Excessos pouco redentores


Sérgio de Almeida Correia,

Tenho acompanhado com um misto de curiosidade e espanto a viagem de Bento XVI a Portugal. 

Ainda com a imagem bem fresca na minha memória de João Paulo II e da viagem que fiz a Roma e ao Vaticano no ano que antecedeu o seu desaparecimento, confesso que tenho olhado para o pontificado de Ratzinger com uma grande desconfiança. O seu papel enquanto guardião da doutrina oficial e a forma como tem conduzido a Igreja desde que assumiu o seu comando em nada contribuíram para afastar esse estado de espírito. 

A imagem do Papa, para além daquilo que é transmitido pelo próprio nas suas fugazes aparições, textos e discursos, é muitas vezes a que resulta do que é transmitido pelos seus adjuntos e secretários e da forma como as suas mensagens são filtradas até chegarem ao exterior. E é exactamente por aqui que as coisas têm claudicado. Sucessivos escândalos, declarações evasivas e pouco esclarecedoras sobre os mesmos, uma certa complacência com os poderosos e um perdão sempre pronto em relação a situações de extrema gravidade deram alimento às vozes que fazem do ataque às religiões e, em especial, ao catolicismo, uma bandeira de afirmação no contexto mundial. 

A Igreja perdeu força e protagonismo com Bento XVI mas parece que aos poucos começa de novo a recuperar a sua influência e a resgatar uma credibilidade que tão mal tratada tem sido.

A melhor prova dessa recuperação é dada pelas corajosas palavras que proferiu no voo que o trouxe até Lisboa. Ao condenar de forma tão clara e directa os erros cometidos, ao afirmar e reconhecer que os maiores inimigos da Igreja estão dentro dela, Bento XVI assume de novo o protagonismo e garante que está atento ao que se passou e está a passar. Essa é a maior e melhor mensagem de esperança e de confiança no futuro que poderia transmitir.

Como católico e cidadão esse é um estímulo poderoso para o trabalho futuro. A fortificação do espírito numa muralha ética, a coragem de enfrentar os desafios, o ser capaz de olhar para dentro e de ajuizar qual o melhor caminho a seguir, percebendo que é a Igreja que terá de se adaptar aos novos tempos, e não o contrário, é o papel e o que se espera de um líder com a dimensão religiosa e política do sucessor de S. Pedro.

Mas o conforto que isso me dá não me descansa o espírito noutras vertentes.

Percebo e reconheço a importância e o interesse para todos da viagem a Portugal de Bento XVI, numa altura de crise internacional e interna, num momento em que todos os esforços serão sempre insuficientes e ficarão aquém do necessário para minorar o sofrimento de muitos milhões, mas tenho muita dificuldade em aceitar alguns excessos, venham eles de onde vierem.

Dou de barato as complicações estradais, a tolerância de ponto decretada pelo Governo ou os milhares que foram gastos na preparação da visita e no alindamento de Lisboa. Estou certo de que os católicos portugueses não chorarão a contribuição que os seus impostos irão dar para as despesas da visita, embora qualquer pessoa de bom senso e no seu perfeito juízo possa pensar que setenta e cinco milhões de euros para serem “derretidos” em três dias é uma verba excessiva para com a contenção, e a discrição, que a fé também reclama e de que a Igreja deveria ser a primeira a dar exemplo.

Incomoda-me a ostentação excessiva, a forma bajuladora e até certo ponto subserviente como as instituições da República e os seus titulares se comportam nalgumas cerimónias públicas; o tempo dado pelos canais públicos de rádio e de televisão à visita, e, em especial, determinado tipo de manifestações que apenas servem para rebaixar o evento, o seu interesse ecuménico e político e conferir natureza folclórica àquilo que era suposto ser sério. A oferta de camisolas de equipas de futebol em pleno Terreiro do Paço é um exemplo disso mesmo.

Seria bom que momentos como esse, e que eu sinceramente espero não ver repetidos, não servissem para desvalorizar a importância desta visita e que, naquilo que ainda falta cumprir, as instituições da República e os seus titulares não se comportassem como meros serventuários da Santa Sé ou dos secretários de Bento XVI. Tudo o que é excessivo é contraproducente. Tudo o que é forçado é ridículo. A Igreja e a República não podem em momento algum ser confundidas e seria bom que isso não passasse despercebido. Para bem de uma e de outra instituição.  

Apostolado e cultura


jmmcc,

Ora aí está. Certos homens são tão apressadamente associados às suas opções de vida e tão aligeiradamente separados da sua condição humana que até nos esquecemos, por vezes, de que eles também são feitos de virtudes e de fraquezas.

O Prémio Pessoa 2009 – decidido por Pinto Balsemão, Faria de Oliveira, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Fraústo da Silva, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga, Rui Baião e Vieira Nery – é atribuído a um homem de reconhecidas virtudes, com uma vida rica de apostolado e vasta de cultura: D. Manuel Clemente, bispo do Porto e «uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo».

Uma história verdadeira


jmmcc,

Receio já ter falado superficialmente nisto uma vez. No entanto, como não localizo, fica-me a esperança de nunca o ter feito no DO. A história é verdadeira.

Tenho uma ideia relativamente nítida do meu avô materno, que morreu de repente era eu ainda um garoto. Sei que era médico, que era muito viajado, que fez muita clínica gratuita a muita gente que não tinha meios, que possuía uma biblioteca vastíssima, que comprava livros atrás de livros e que era um humanista, no sentido de se interessar pelas coisas mais variadas, por quase tudo. Sei também que muitos diziam que era dedicadíssimo ao estudo e à actualização do seu exercício profissional e que esse exercício era tão avançado quanto possível, até muito avançado para a época.

Do seu perfil perante a vida e o mundo, sei ainda que esteve uma vez presente (por convite específico, presumo) numa sessão maçónica, mas que recusou integrar-se por detestar rituais. Contudo, era convictamente republicano e laico.

Escreveu e publicou um espesso livro de memórias e viagens; deixou outro por acabar, quando morreu. Interessava-se muito pelo conhecimento de diferentes religiões e dizia achar alguma pureza na essência do Budismo.

Pela minha avó (e pela família, talvez), casou pela Igreja. As duas filhas receberam educação católica e era normal levar a família à missa de domingo. Ficava no carro ou ia tomar um café e levava todos de volta para casa. E lembro-me de o ver na igreja, quase perfilado em sentido do princípio ao fim, sempre que ia ao casamento de alguém.

Sobre o fenómeno de Fátima – e é apenas aqui que quero chegar, para não maçar mais os leitores com estas memórias pessoais e desinteressantes – tinha uma posição muito pragmática que não escondia e que se resume assim: "Fátima não faz mal a ninguém. Como congrega valores que são genericamente os valores que todos cultivamos, Fátima até faz bem. Agora, milagres… Milagre, para mim, seria  uma pessoa não ter um braço e regressar a casa com o braço que lhe faltava."

Eis, portanto, um homem esclarecido e culto que se declarava laico e que respeitava as sensibilidades dos outros sem confrontos desnecessários e gratuitos. Um homem que seria incapaz de pensar que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e, menos ainda, de apoucar quem acreditasse de outra maneira.

Em suma: há uns que sabem respeitar, há outros que não passam sem achincalhar. Estes são os que confundem ter o direito de com ser necessário. Porque ser crítico e ter modos não são coisas incompatíveis.

Ainda o mau gosto


jmmcc,

Fui contido, quando ontem escrevi aqui sobre o mau gosto de Saramago. O facto é que ele tem o desplante de expor que «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana», mas confunde logo a seguir a Biblia com o desempenho da Igreja ao longo dos séculos: «as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram», e as Cruzadas foram crimes do Cristianismo que envolveram a morte de muitos milhares de pessoas, entre culpados e inocentes.

Saramago persegue a religião com tanta raiva que mistura a Bíblia com acontecimentos históricos da Igreja, dos quais só aproveita o que lhe interessa. Para ele, a Igreja é o lado negativo das Cruzadas, é a Inquisição, é o apoio às ditaduras. Para ele, a Igreja nunca arrepiou caminho, nunca reconheceu os erros gravíssimos cometidos por homens que a formam, nunca teve mártires que morreram por grandes causas da Humanidade, nunca teve gente que pagou caro por proteger os fracos dos déspotas, nunca partiu para chegar despojada a todo o mundo com a missão de ajudar, ensinar, curar, apoiar, etc., sem olhar a raças e credos.

Igreja, para Saramago, é golpe. Não o golpe que ele diz, mas um golpe publicitário. Dá-lhe jeito baralhar as coisas. Contudo, sai-se mal, porque era suposto ele mostrar-se mais esclarecido nos conhecimentos, mais claro nas ideias. E esta é a razão pela qual as suas maquinações são de tão mau gosto, além de doentias.

Um manual de mau gosto


jmmcc,

Há dois ou três livros cuja leitura considero ser essencial para a vida: a Bíblia e O Capital (deixo o terceiro ao juízo dos leitores) são obras indispensáveis, goste-se ou não do conteúdo e concorde-se ou não com a ideologia, para entendermos o nosso mundo.

Não é preciso ser-se crente para se perceber uma obra que encerra valores que a própria Humanidade consagra, mesmo que alguns não sejam do nosso tempo por estarem hoje consagradas normas social e genericamente dadas por adquiridas. Por isto e por todas as razões, dizer que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e ainda acrescentar que é «um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» é bem mais do que uma ligeireza irresponsável. Saramago é um manual de mau gosto e não é de agora.

Rumo ao próximo Conclave


André Couto,

D. José Policarpo continua a fazer corte à Corte do Vaticano, na conquista da luz inspiradora do próximo Conclave.

Depois do famoso alerta que fez às jovens portuguesas de que "casar com um muçulmano acarreta um monte de sarilhos", veio a terreiro concordar com Sua Santidade o Papa Bento XVI e, como se ninguém soubesse, relembrou de forma perniciosa que o preservativo é falível.

Poucos são estúpidos e todos percebem onde quer chegar. Insiste na irresponsabilidade de bater uma tecla gasta, mas que premida ainda provoca a disseminação de doenças e a irresponsabilidade por parte de pessoas que, inconscientes, deviam ser aconselhadas de forma pedagógica e não à luz de dogmas retrógrados. Vale que a Santa Igreja está tão distante da população que cada vez menos a ouvem.

Será que os inúmeros clericais condenados por pedofilia e abuso de menores usaram preservativo?