Há dois ou três livros cuja leitura considero ser essencial para a vida: a Bíblia e O Capital (deixo o terceiro ao juízo dos leitores) são obras indispensáveis, goste-se ou não do conteúdo e concorde-se ou não com a ideologia, para entendermos o nosso mundo.
Não é preciso ser-se crente para se perceber uma obra que encerra valores que a própria Humanidade consagra, mesmo que alguns não sejam do nosso tempo por estarem hoje consagradas normas social e genericamente dadas por adquiridas. Por isto e por todas as razões, dizer que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e ainda acrescentar que é «um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» é bem mais do que uma ligeireza irresponsável. Saramago é um manual de mau gosto e não é de agora.

Não percebo este ultrage. O homem faz a sua leitura selectiva da Biblia, como toda a gente.
Não percebe? É só ler de novo o primeiro período do segundo parágrafo do ‘post’, que resume o meu fundamento. Se ainda assim não resultar, diga-me qual é a palavra que não percebe.
Perceberia se visse o mesmo ultrage quando alguém afirma que a Biblia é o mais belo livro de sempre e que por ela guia toda a sua vida. É o simétrico na selectividade da leitura e igualmente questionável.
Por acaso, é engraçada essa sua ‘simetria’. Embora não venha a propósito, é mesmo engraçada. Quando «alguém afirma que a Biblia é o mais belo livro de sempre e que por ela guia toda a sua vida» corre o risco de ferir os sentimentos de alguém?
Dizer o que Saramago disse corre seguramente o risco de ferir outros, que é exactamento o contrário do que se espera de uma pessoa civilizada e esclarecida. O modo gratuito com que se violenta quem crê é próprio de quem se está nas tintas para os outros, porque ninguém precisa disso para expor os seus pontos de vista.
Se o critério é não ferir os sentimentos ou, acrescentaria, os interesses de outrem, então o caminho é o silêncio e a perpetuação das tradições milenares. Vejo-o contra toda a nudez ou será que não? Vejo-o a favor da escravatura ou será contra? Como lê o livro? À luz da História ou literalmente?
A bíblia é um livro colectivo de texto seleccionado, não é um texto de autor, é um livro censurado, é um manual empresarial e não consta que deus ou os seus directores gerais recorram ao RSI para sobreviver.
A bíblia e o ‘Capital’ são os seus livros de cabeceira? Faz bem, está no seu pleno direito. Não retire é a outros a opção de ter livros de cabeceira diferentes e de criticar a bíblia com o mesmo vigor e independência critica com que outros criticam o Capital.
Já sei que o meu comentário nada tem que se relacione com o seu artigo, sei também que está pejado de incorrecções e incoerências, pois é assim que tem por hábito responder aos que aqui, legitimamente , se lhe opõem.
Legitimidade que é óbvia, quando corresponde ao enunciado. Por sinal, muito mal colocado, como já esperava. Se pensa que sou um purista, esqueça: não me conhece.
A substituição de «sentimentos» por “interesses” é sua e é abusiva. O critério é não ferir sentimentos, sim: os seus e os de seja quem for. Pode chamar-lhe compreensão, aceitação, tolerância ou simplesmente educação. Nada mais a acrescentar.
Enquanto ateu (ainda sem sentença do Santo Ofício) agradeço a forma compreensiva, de aceitação, tolerante, simplesmente educada e plena de humildade cristã como acolheu o meu comentário.
Não se costuma dizer que ofende quem pode e não quem quer? Porque é que os crentes haviam de ficar ofendidos com o que diz Saramago? Que tipo de cuidado especifico deve este ter, por seu lado, com os sentimentos daqueles?
O critério é não ferir os sentimentos seja quem for. Pode chamar-lhe compreensão, aceitação, tolerância ou simplesmente educação.
Há alguma ironia em ver este blogue condenar Saramago por aquilo que é claramente um Delito de Opinião.
Não é por um delito, L.Rodrigues: é por um insulto gratuito que ele devia ter exposto como ponto de vista legítimo e não quis.
E não é condená-lo: é criticá-lo. E não é o DO: sou eu. E não seja abusivo na sua imaginação: seja mais rigoroso.
Se não abusar na imaginação, abuso aonde?
Olhe, L.Rodrigues, faça como nós. Reunimos sensibilidades diferentes, não nos tratamos mal e respeitamos as diversas sensibilidades de quem nos lê e de quem aqui nos honra com os seus comentários. Crentes e não-crentes incluídos, como é óbvio.
Aproveito para assinalar um contraste importante que é de toda a justiça reconhecer: V., L.Rodrigues, tal como o Paulo Quintela, o ZA, etc., correram aqui em ‘defesa’ das palavras de Saramago e, no entanto, não precisaram de ser incorrectos com quem possa discordar. É simples, portanto. Simples, legítimo e a merecer toda a consideração.
Pela minha parte não corri e muito menos em defesa fosse de quem fosse, até porque o homem nem precisa. Vim aqui expressar simples e livremente a minha opinião mas aproveito para assinalar o elegante desdém e o alegre clima de superioridade com que brinda habitualmente os que aqui se lhe opõem. Não que tal coisa me incomode, se isso ocorresse há muito que o teria deixado de comentar. Cada um adopta o tom que mais lhe convém sujeitando-se à apreciação livre de quem nos lê.
Disse.
Precisamente. Uma coisa é fazer críticas à maneira como os Homens lidaram com a religião, outra é críticar a própria religião. A ideia que dá é que Saramago tem dificuldade em aceitar a noção de que as pessoas têm todo o Direito de acreditar no que querem.
Ora aí está, Daniela.
Na mouche …. nem Soares diria melhor!
ultraje e não “ultrage”
Certo.
Claro. Obrigado.
Aguardo ansiosamente as opiniões de Saramago sobre o Alcorão.
No artigo referenciado ele também o menciona.
Senta-te, compadre…
Vou mesmo esperar sentado. Com um longo bocejo. O que aconteceu ao Rushdie deve fazer pensar muitas vezes a desassombrada voz de Lanzarote.
Diz você.
Como Saramago penso da Biblia exactamente o mesmo. Como você também acho a Bíblia e o Corão obras histórica/ literárias fundamentais mas subscrevo inteiramente o que Saramago pensa delas. Pensa diferente? Ok! Mas felizmente existem mais opiniões
Está enganado. Não penso nem deixo de pensar, que é coisa que não vem ao caso. O que vem ao caso, como parece que V. não percebeu, é o insulto gratuito. O que eu penso e (espero eu) o que V. pensa não tem de ser exposto publicamente em termos insultuosos para com aqueles que pensam de outro modo.
O direito à opinião não deve confundir-se com direito ao insulto, que são coisas que Saramago confunde vulgarmente. Se há algo que a Igreja prega hoje em dia (e pratica por todo o mundo na sua intervenção junto dos mais diversos povos e dos mais frágeis) é a compreensão e tolerância.
desculpe, onde você vê insulto eu vejo uma opinião. não será na sua cabeça que o insulto se forma? ‘a igreja católica faz coisas positivas’ concerteza que sim mas o que é que isso tem com as opiniões de saramago? os judeus, hindus , muçulmanos e outras religiões também o fazem e não é por isso que eu/você omito opiniões às vezes bem duras sobre elas. nada nem ninguém é infalível .
Disse.
Vou já comprá-lo. Estou curiosa.
O Caim naturalmente.
Como diz o outro, não havia necessidade . Pareceu-me acabadote . Ele também fala no Alcorão, distribuiu o mal pelas aldeias.
Gostaria que a próxima personagem do próximo romance dele fosse o profeta Maomé. Para equilibrar ainda mais.
Essa é uma crítica que me parece um bocado injusta. Parece-me claro que Saramago dificilmente escreverá um romance sobre o Corão e por muitas outras razões que não, necessariamente, a falta de coragem.
L. Rodrigues, talvez não. Mas não me vai dizer que há diferenças ENORMES entre escrever um livro a críticar o Deus Católico e um livro a críticar Alá e os muçulmanos.
Há diferenças, mas o Saramago não tem culpa delas, nem isso invalida o que ele tinha a dizer sobre a Biblia, além de neste caso, os comentadores insistirem em ignorar que ele meteu o Corão no mesmo saco. Muito poucas das criticas que aqui vi me pareceram honestas.
Pedro, apesar do grande alvoroço do evangelho segundo Jesus Cristo, considero que é uma das obras menos conseguidas do Saramago. Não é fácil escrever dentro daquele universo, é necessário um talento e uma sensibilidade que lhe faltou. Para mim que não sou critica literária, o livro perde fulgor a partir do meio. Li-o quando saiu, já lá vão uns anos largos, e lembro-me da sensação de desencanto, e de pensar que ele não teve mão para tamanha obra. Em todo o caso o livro está longe de ser ofensivo.
Só ofende quem pode e não quem quer, Ariel. Pela minha parte, também o considero um dos livros mais fracos de Saramago.
Como a Leonor, também estou ansioso por ler o livro.
Quanto às opiniões de Saramago sobre a Bíblia, embora não as subscreva, encaro com a mesma indiferença com que assisti à reacção às caricaturas de Maomé ou às críticas de Rushdie ao Corão. São apenas opiniões.
Faz parte da imagem pública do escritor estar do contra e fazer declarações bombásticas, Carlos. A Lobo Antunes não lhe dá na religião mas também usa desta prorrogativa do seu estatuto de rebeldia. Nada de novo. Leiamos o livro então 🙂
“Leiamos o livro então :)”
Isso é que nunca! Era só o que faltava. Por mim, fico-me pelas badanas (na livraria).
Se fosse a si fugia até das badanas.
A menos que seja sopa de badanas de tubarão. Hehe…
Tenho cá para mim, que o Saramago ficou enciumado de tanta polémica com a Maitê e andou a ver como poderia dar que falar e, quem sabe, também ter direito a telejornais nacionais.
E a religião cristã, será sempre uma boa alternativa.
Estranha, esta perseguição a uma ideologia, vinda de quem bebeu toda a vida de uma outra.
Adenda: religião cristã e judaica.
Realmente, o que mais tem é estranheza. Concordo.
As religiões são ideologias?! Estou sempre a aprender:)))
Espero que esteja sempre aberta e ainda a tempo.
Ideologia = conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas e visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo.
Eu estou é com uma grande dor de dentes. Amanhã procurarei restar aberta, se ainda for a tempo.
Religião=1. culto prestado a uma divindade; crença na existência de um ente supremo como causa, fim ou lei universal 2. conjunto de dogmas e práticas próprias de uma confissão religiosa 3. a manifestação desse tipo de crença por meio de doutrinas e rituais próprios. 4. crença, devoção, piedade 5. reverência às coisas sagradas
Do Houaiss
Certo. O que não invalida a definição que coloquei antes. De qualquer modo, o termo ‘religião’ não encontra correspondência em outras línguas, parece-me. Assim, visto por analogia, parte das definições que aqui nos trouxe podem andar na linha das ideologias. O que nem sequer acredito que seja chocante.
Entretanto, as sua melhoras rápidas. Isso é um padecimento horrível.
Dizem as más línguas que é muito notório que os últimos livros* assentam demasiado num determinado pilar…
* Dizer últimos livros é pouco exacto, mas…
Não é um mero pilar, é uma trave mestra…
Por falar nisso: que será feito da Ana Mestre, que há tantos dias não aparece por cá?
(Desculpe aproveitar o seu comentário para isto, Ariel.)
Por quem é João, aproveite os meus comentários sempre que desejar, confio que será sempre para uma boa causa :)))
Sempre, Ariel.
Ou isso, Ariel. Ou isso.
:)))
Recuso-me a alimentar a polémica, que é exactamente o que quer Saramago. Ele adora estar no centro das atenções e ainda para mais agora, que tem um livro para vender… ou acham que o momento destas declarações é casual?
Por outro lado, eu ouvi parte da entrevista – que achei de um pretensiosismo insuportável, já agora – e ele diz às tantas, depois dessa bomba que referes: “Estamos lá todos” (na Bíblia). E com esta simples admissão está a restituir à Bíblia toda a importância histórica e sociológica que ela tem. Engraçado, não?
Tens toda a razão, na primeira parte. E tens toda a razão, na segunda parte, em que ele julga que é irónico e é ‘vítima’ da própria ironia. Engraçado.
Dos comentários mais certos que li aqui.
Saramago é polémico, gosta de provocar e de chocar. Pretensioso e com uma total falta de bom senso, que nem a idade curou.
E, óviamente, tem um livro para vender.
Alguém devia dizer isto a Saramago:
This virtue of faith can no man give himself, nor yet any man to another”. – Thomas More.
Muitíssimo bem lembrado.
Era bom dizer-lhe isso, mas ele não sabe Inglês. Pois se já no Português é o que se sabe…
Não é propriamente um tema, dada a sua complexidade, que se possa abordar numa caixa de comentários mas gostaria de pegar numa frase de um conentário do João Carvalho: “”Se há algo qye a Igreja preza hoje em dia (…) é a compreensão e tolerância.”
O seu “hoje em dia” leva-me a pensar que concorda que nem sempre foi assim. E não foi…
Cardeal Cerejeira escrevendo a Salazar (1940) após o fim das negociações sobre a Cocordata:
“Eu agradeço-te e felicito-te poe ela, como Patriarca, como português e como teu amigo. Deus te pagará. Nem ele te pôs onde estás, com o poder e o prestigio que tens, senão para que tu O servisses e à sua igreja, para o fazer reinar em Portugal”.
Em 1946 o mesmo Cardeal dizuia a Salazar:
“mais do que ninguém precisas das luzes de Deus e da protecção de Nossa Senhora, contra os perigos de toda a ordem que te ameaçam e a todos nós, e para bem guaires o barco português nos dificeis caminhos do presente. Precisas de levar ao fim, na inteira fidelidade a ela, a missão que Deus te deu…”
É evidente que a Igreja não foi sempre o que é hoje em dia. E o exemplo em Portugal no Estado Novo é coisa nenhuma, se comparado com a Inquisição e por aí fora.
Porém, já que falou no comportamento do antigo cardeal-patriarca, vale a pena referir um caso por oposição, para sermos justos e que V. esqueceu ou não quis lembrar: o caso do bispo do Porto, que desafiou Salazar apenas em nome da solidariedade para com a pobreza e acabou exilado durante dez anos.
Isto serve para recordar que houve sempre homens bons, mesmo nos piores momentos. Por exemplo: fala-se muito de várias ditaduras terem sido apoiadas pela Igreja, mas esquecem-se muito as que desafiaram ditadores, já sem falar na quantidade de mártires religiosos que lutaram por grandes causas.
Não tenho capacidade para acompanhar a genialidade de Saramago… graças a Deus.
Pois, pois…
Quando comecei a ler o post, pensei que os comentários versassem sobre as palavras de Saramago, mas depois de los ler, parece-me ter havido uma inflexao para discutir a religiao e os seus actores terrenos.
Quanto a Saramago, que prezo como autor, parece-me, pela pequena descriçao lida no Publico, que incorre no mesmo erro: confundindo acçoes com ideias e principios morais (espero que a palavra nao seja inapropriada…).
Saramago critica a guerra santa e a atitude da igreja face aos povos de manipulaçao de vontades (e tem razao), mas esquece-se que muitos do que sao considerados os valores mais nobres da humanidade também se inscrevem na Biblia.
E quanto ao papel social da Igreja nos dias de hoje, -sem esquecer afirmaçoes que chegam a ser criminosas de alguns das suas mais altas figuras- como aafirmar que o caminho da luta contra a sida passa pela abstinencia ou pela monogamia, dizendo que o preservativo até pode ser fonte de contágio- mas pensando no que sao muitos padres, freiras e leigos dedicados, podemos concluir que sem muitos destes “catolicos de base”, inspirados justamente no tal “manual de maus costumes”, o mundo seria muito menos solidário e fraterno, em suma, seria um mundo pior.
Quanto a ele nao acreditar em Deus e achar a Biblia e outros livros religiosos uma parvoíce, está no direito dele e é livre de o dizê-lo, é o que pensa. Mas meter tudo no mesmo saco, é que parece mal…
Como é evidente, subscrevo, Rafael.
É o que tenho dito: é preciso descer à profundeeza da caixa de comentários do delito para ler este ping-pong delícioso:)
V. é ping ou pong?
Saramago não critica nem ofende nenhuma das religiões apoiadas na seleta judaica de costumes, tradição oral e escritos que se chama Bíblia . Apenas opina (e quanto a mim com verdade) que esta Bíblia é um manual… etc., etc..
No Estado Novo, a sua leitura não era proibida, mas não era incentivada, antes pelo contrário. Ainda hoje, quantos católicos leram a Bíblia ? Quantos sequer conhecem para além dos episódios mais folclóricos?
É a sua opinião.
Saramago critica razoável e legitimamente e ofende desnecessária e gratuitamente. Ainda por cima, mistura a Bíblia com maus comportamentos da Igreja.
Naturalmente que a Bínlia não é para ler de empreitada, nem é um mero romance. Mas nunca um manual de maus costumes, como abusivamente foi apelidada, de forma feroz e totalmente desrespeitosa.
Mas, falar agora de alguns episódios folclóricos?. Essa, para mim, é novidade. Quanto respeito nestas simples palavras!
Cinco annos volvidos respondo:
Um Catholico―contrariamente a um Protestante―não tem o dever de ler a Biblia.
Se alguem aqui ler qualquer volumosa obra antiga, não entenderá grande parte do que se encontra escripto. Eu sou historiador, e por isso sei reconhecer grande parte das referencias dos Lusiadas e do Quixote, por exemplo. Mas sempre me maravilho, ao ler textos criticos, com pormenores que me passaram despercebidos. E isto são duas obras extraordinariamente accessiveis.
Se se offerecer as tragedias gregas a um qualquer cidadão commum―ou mesmo commedias como a Lysistrata de Aristophanes, cuja subtileza passará largamente despercebida―elle não entenderá metade do texto. Não possui, simplesmente, conhecimentos sufficientes.
Se se offerecer o corpus de Platão a qualquer cidadão commum―sensivelmente do mesmo volume que a Biblia―elle do mesmo modo não entenderá practicamente nada. E uma cousa é decorar e saber recitar Platão. Outra totalmente differente é saber imaginar problemas philosophicos.
Exactamente o mesmo vemos com a Biblia. Por alguma razão temos a exegese e a Alta Critica biblicas. Por alguma razão escreveram os bispos dos primeiros seculos uns aos outros, perguntando e dando palpites quanto a como interpretar trechos das Escripturas.
Por alguma razão entendeu o proprio Luthero na decada de 1520 que para realmente se entender a Biblia esta tem que ser lida no original―afastando-se totalmente dos textos traduzidos para o vernaculo que antes defendera.
O paradoxo actual é a arrogancia extrema de uns e a ingenuidade quasi enternecedora de outros de accreditar que as pessoas teem capacidade intellectual para ler Platões e Biblias e entender o texto.
Eu sou historiador; e em conversas com historiadores amadores e outros apaixonados cinco minutos bastam para lhes fazer ver todo o seu amadorismo: fazem sempre as perguntas erradas. Não basta ler muito para saber. O mais importante é saber fazer as perguntas certas.
Do mesmo modo, cinco minutos de conversa com um competente philosopho ou theologo são sufficientes para me mostrar o quanto eu, da forma mais fundamental, sou como o historiador amador quanto a estes themas, que apprecio e estudo immenso, mas―eis a questão―como amador. E querem alguns ler a Biblia…
O problema, claro, é que tantos hoje julgam que sabem tudo. E gostam de citar por exemplo philosophos sem os entender.
Qualquer amador erudito necessita um bom philosopho, um bom theologo, ou um bom historiador para que lhe expliquem afinal a causa das cousas.
Mas isto não é reconhecido. As pessoas julgam que estes themas elevados são como o futebol. E todos querem dar a sua opinião, em vez de perguntar. A falta de humildade é gritante.
Os Catholicos portugueses, na decada de 1930, condenaram da forma mais vehemente o fascismo italiano e o nazismo allemão―ao poncto do embaixador relatar a Berlim que a influencia Catholica, no regime e fora d’elle, impossibilitava qualquer desenvolvimento de uma politica nazificante desejada em Berlim.
Na mesma epocha, o Cardeal e o Presidente do Conselho tiveram conflictos sobre o papel do Christianismo na sociedade, particularmente nas Forças Armadas e na Mocidade Portuguesa, com o primeiro sempre tentando dar um character o mais possivel Christão a esta.
Que sabe Saramago sobre tudo isto?
Que saberá Saramago sobre a Inquisição? Que sabe elle sobre como eram julgados os homens? As mulheres? Os clerigos? Quem era multado? Preso? Exilado? Quantos eram afinal condenados à morte?
Que saberá elle por exemplo sobre o clima, as colheitas, os preços da comida, a criminalidade na sociedade e… as penas da Inquisição―e como tudo isto estava relacionado?
Que saberá elle sobre as differentes penas applicadas a um clerigo em Portugal, a um Christão-velho na metropole, a um indio no Brasil ou a um indiano na India pelos mesmos delictos?
Que saberá elle, afinal, sobre o Sancto Officio? Pouco mais que os restantes leitores, o que equivale a dizer practicamente nada…
Enfim, desisti de discutir certos themas em 4300 characteres. É como discutir o fazer amor com um menino de sete annos: um exercicio absurdo. Apenas se pode tentar explicar. Mas a maior parte não quer ouvir: quer opinar apenas. E por isso não faz perguntas.
A falta de humildade é gritante.
Saramago está velho e ganhou 1 p. Nobel-logo é “inimputável”. Aliás tenho a ideia que ele menciona isso na entrevista: que não se importa de incomodar!A mim (para além da ofensa gratuita) o que me faz impressão, é que Saramago parece ter deitado “o bebé junto com a água do banho” e isso é triste.A biblia tem cenas horríveis , é certo, mas está repletas de coisas muito interessantes. Por alguma razão, ainda desperta toda esta paixão, tendo sido escrita há tanto tempo…
Sei que o post já vai longo,mas …ler o capital??Aquilo é tão grande, e tão impenetrável…!
A opinião é meramente minha, Rosa. Mas acho importante ‘O Capital’, a par da Bíblia, para entendermos o mundo em que vivemos.
Mas está muito acompanhado, nessa sua opinião!
Quero dizer, já li/ouvi, muitas vezes essa mesma opinião…principal/te com o acontecer desta ultima crise… O queria mesmo saber (se ñ for pedir muito) era: ñ é muitoooo difícil de ler, o capital…(ou serei eu k sou preguiçosa)?
É a Rosa que é pregioçosa, sim, Nem tentou. Não é propriamente um conto que se leia de um fôlego, mas não é impenetrável como parece. Torna-se interessante, se souber lê-lo em jeito de consulta-aqui-consulta-ali.
…bocado como ler a Biblia, então? 🙂
Não esqueço o papel do Bispo do Porto, nem de muitos outros padres no combate à ditadura, tão pouco o de outros padres espalhados pelo mundo, principlamente na América Latina. Mas o João Carvalho fez bem em colocar o reparo. Como disse: é muito dificil discutir assuntos deste melindre numa caixa de comentários.
Sem dúvida que é difícil, mas esta abordagem sucinta em textos fáceis de ler também é um desafio. Especialmente quando o fazemos com elevação, por grande que seja a discórdia.
Ping-pong não está bem escrito, João? É isso?
Há quem escreva de outra maneira, mas eu gosto assim. Porquê?
Perguntou-me lá em cima: “V. é ping ou pong?”
Pensei: queres ver que deste um erro!?
Já me habituei a vir aqui aprender a escrever correctamente consigo:)
V. falou em ‘ping-pong’, o que implica um ‘ping’ de um lado e um ‘pong’ do outro…