Maria e as outras


Teresa Ribeiro,

Declaração de interesses: fui educada na corrente evangélica da religião cristã (que os católicos designam por protestante), mas como vivo num país católico é impossível não ter assimilado, ainda que com uma distância crítica, a sua cultura religiosa. Como tal, ao contrário do que muitos defendem, considero que os assuntos da igreja católica também me dizem respeito. De resto, se se orgulha da sua vocação universalista a ICAR só tem é que se abrir às críticas do mundo.

Vem esta introdução a propósito de um artigo que li no jornal sobre o sacerdócio das mulheres, um dos temas fracturantes do catolicismo. Não pretendo discorrer sobre o machismo da hierarquia católica, pois estou ciente de que não acrescentaria nada de novo à discussão. Permitam-me antes que exponha a perplexidade que este assunto desperta na minha alma protestante. Quando medito nele pergunto-me sempre como é que o culto mariano, que nós não praticamos e que a nossos olhos se revela como uma incompreensível subalternização de Jesus Cristo, pode conviver com esta teimosa exclusão das mulheres.  A resposta que vislumbro é perversa: esse culto, que enaltece a abnegação da virgem – a qualidade mais evidente na figura de Maria – serve para a Igreja estabelecer o seu guia comportamental para as mulheres: Sejam como ela. Perdoem as nossas ofensas e renunciem a tudo, que para pecar já cá estamos nós.

Malditas na sua génese, mães do pecado original, para se purificarem o melhor mesmo é as mulheres passarem directamente ao estado gasoso. Nessa qualidade terão até os machistas mais empedernidos a beijar-lhes os pés, dando ao mundo provas de humildade e do infinito respeito que lhes despertam as mulheres em abstracto e as santas no concreto.

Francisco ou Francisco I?


Pedro Correia,

 

Surge a dúvida nas redacções na hora de escrever o nome escolhido pelo novo Papa: Francisco ou Francisco I? A resposta foi dada pelo próprio chefe da Igreja Católica ao ser anunciado, no balcão principal da basílica de São Pedro, pelo decano do colégio cardinalício: Francisco. Apenas Francisco. Com efeito, o numeral ordinal só se aplica numa sequência que envolva pelo menos dois. Daí o facto de mencionarmos também os reis de Portugal à luz deste critério: D. Dinis, D. Duarte, D. Sebastião ou D. Miguel, que não tiveram continuadores onomásticos, são designados assim mesmo, sem numeral. Que resulta absurdo quando é usado ocasionalmente em alusões a uma “Avenida D. Carlos I” (em Lisboa) ou a uma “ponte D. Luís I” (no Porto). Pelo simples motivo de que Portugal apenas teve um rei com cada um destes nomes.

De resto, é esse igualmente o critério na Igreja Católica: Pedro foi o primeiro Papa. Só Pedro. Porque nunca houve um Pedro II. Nem haverá. Porque se houvesse, reza uma velha superstição, seria o último.

Bergoglio, Rosas e Esquível


Pedro Correia,

O Bloco de Esquerda consegue marcar presença em qualquer debate televisivo: só falta mesmo vê-lo envolvido também nas discussões para a eleição do novo presidente do Sporting.

Ontem à noite, num canal televisivo, lá vimos o professor Fernando Rosas – um dos quatro fundadores do Bloco – perorando numa dessas tertúlias televisivas a propósito, vejam lá, da eleição do novo Papa. Começou logo, sem rodeios, por declarar-se ateu – o que em princípio não o recomendaria a estar presente num debate entre quatro pessoas sobre a Igreja: num país que tem vários milhões de católicos, certamente não foi por falta de alternativas que ele ali estava. Se o mesmo critério for aplicado num futuro debate sobre o próximo líder do Bloco de Esquerda (Deus conserve a liderança bicéfala de Catarina Martins e João Semedo por muitos e bons anos), não ficarei surpreendido por ver em estúdio alguém que esteja para a política como Rosas está para a religião.

 

O que disse neste debate o mais famoso ex-fumador de cachimbo da esquerda portuguesa? Nada que não se previsse: o Bloco impõe o seu caderno reivindicativo em todas as circunstâncias – e como tal, enquanto “cidadão do mundo”, Rosas apressou-se a enunciar o seu ao Papa, chefe de uma religião em que não crê.

Para merecer a indulgência do ilustre historiador, o ex-arcebispo de Buenos Aires terá de cumprir a agenda bloquista em matéria religiosa, isto é: pronunciar-se contra o “capitalismo selvagem e a irracionalidade neoliberal”, assumindo-se como “um Papa dos oprimidos”.

Mas, despido de paciência evangélica, Rosas não perde tempo a lançar um anátema sobre o sucessor de Bento XVI, do alto da consabida superioridade moral que serve para qualquer militante bloquista encarar o mundo. Ele, que duas horas antes talvez nem tivesse alguma vez ouvido falar em Jorge Mario Bergoglio, já estava ali na pantalha a dardejar o seu verbo inflamado contra o pontífice recém-eleito: “O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura.”

 

Se tivesse esperado um pouco mais, se soubesse informar-se melhor antes de se pronunciar sobre o que ignora, o professor Rosas teria lido a declaração de Adolfo Pérez Esquivel, o prestigiado Nobel da Paz argentino, que em declarações à BBC não deixa lugar a dúvidas: “Bergoglio não teve nenhuma ligação à ditadura.” 

Abalará esta declaração as flamejantes certezas dos censores morais? Certamente que não. Podem proclamar-se ateus, como Fernando Rosas, mas adoram pregar no púlpito. Nunca se enganam e raramente têm dúvidas.

Simplesmente Francisco


Pedro Correia,

Mal acabei de ver o novo Papa assomar ao balcão da Basílica de São Pedro, lembrei-me de um dos seus predecessores: Albino Luciani, patriarca de Veneza, que passou à história como o efémero João Paulo I, pontífice por 33 dias.

Também ele apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele.

 

 

As primeiras palavras que dirigiu à multidão foram as mais inesperadas, por serem tão simples: “Boa noite.” Passou logo ali uma corrente afectiva entre quem falava e quem ouvia: muitos dirigentes políticos deviam aprender com momentos destes – em comunicação não é preciso inventar nada, basta ir à essência das ideias e das palavras. A roda já foi inventada há muitos milhares de anos…

 

Jorge Mario Bergoglio – argentino de 76 anos, jesuíta, filho de um imigrante italiano, diplomado em Engenharia Química – é o primeiro titular do Vaticano oriundo do continente americano, o maior viveiro de fiéis católicos do planeta. Vivia num modesto apartamento em Buenos Aires, deslocava-se em transportes públicos, cozinhava as suas próprias refeições, aprecia tango, gosta de ver jogos de futebol e de encorajar os jovens a descobrir Cristo entre os pobres.

Escolheu um nome simples, sem antecedentes no trono de Pedro e portanto sem numeração. Simplesmente Francisco. Como Francisco Xavier, o santo missionário que deixou o coração em Goa. Como Francisco de Assis, que se despojou de todos os bens materiais para melhor servir os outros.

Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós.

Francisco, ainda sem a estola papal, começou por pedir que rezassem por ele – outro gesto de inequívoca humildade que me fez lembrar Luciani, o pontífice do sorriso que tão cedo se apagou. E depois, como se estivesse ainda mal refeito da surpresa, afirmou: “Foram buscar-me ao fim do mundo…”

Que o santo de Assis o ilumine na peregrinação iniciada agora. E que no fim da caminhada saiba dizer também, como o outro Francisco disse: “Primeiro faz-se o necessário, depois o que é possível e de repente estamos a fazer o impossível.”

Habemus Papam.

Habemus Papam.


Luís Menezes Leitão,

 

Era difícil os cardeais terem escolhido para Papa alguém mais diferente de Bento XVI. Enquanto Ratzinger era um intelectual, avesso a multidões, Bergoglio demonstrou logo na sua primeira aparição pública que se movimenta nelas como um peixe na água. Foi impressionante a empatia que criou junto das centenas de milhares de fiéis que enchiam a Praça de São Pedro. E, embora tivesse pedido duas orações pelo Papa Emérito Bento XVI, ficou claro para todos que a partir deste momento é ele e só ele quem enverga o anel do pescador e que as coisas vão mudar muito no Vaticano. A escolha do nome Francisco é todo um programa de reorientação da Igreja no sentido de missionação universal e de apoio aos pobres, em contrariedade precisamente ao nome de Bento que representava antes a tradição intelectual da unidade da Europa em torno da Igreja. Não é por acaso que Bergoglio tinha sido o preferido no anterior conclave por aqueles que se opunham à escolha de Ratzinger. Com Francisco I a Igreja Católica vai abandonar o seu eixo romano e andar pelos confins do mundo onde os cardeais foram buscar o novo Papa.

 

É impossível ignorar o peso político que tem a escolha de um novo Papa. Embora Estaline tivesse uma vez perguntado quantas divisões tinha o Vaticano, é evidente que é enorme a influência de alguém que é o chefe religioso de centenas de milhões de pessoas. E, ou muito me engano, ou, ao contrário de Ratzinger, este novo Papa vai ter uma intervenção pública constante de defesa dos mais desfavorecidos perante a crise económica que assola o mundo. Há uma nova realidade no Vaticano com que os governantes mundiais passam a ter que contar.

What if?


Ana Vidal,

Por estes dias, a Capela Sistina é uma espécie de Clube do Bolinha: “Minina não entra”. Talvez para compensar, os purpurados usam saias de rendinhas, chapéus engraçados e sapatos de cetim encarnado.

Enfim, faites vos jeux, senhores cardeais. Para vos iluminar, aqui fica este conclave… de sol. What if God was one of us, hein?


Um bispo voando sobre um ninho de cucos


Rui Rocha,

Está um pobre de Cristo com os olhos e os ouvidos postos no Vaticano, sempre em estado de prontidão, à espera de um sinal do Espírito Santo, de uma manifestação do Divino, de uma inspiração do Altíssimo, e eis que a roda dos milagres aponta, pasme-se, para Bragança. Ali nos fazendo ver não um, mas uma catrefada deles. O primeiro consistiu, nada mais, nada menos, no facto de o Bispo de Bragança-Miranda ter voado. Literalmente, não na acepção mística. E sem bater as asinhas. Não muito, é certo. Coisa de 2 ou 3 metros, dizem os que viram e não foram poucos. O segundo no de D. José Cordeiro ter saído ileso de uma aterragem que, tudo somado, teve os seus melindres. O terceiro, mas seguramente not the least, no de o representante do Gabinete de Comunicação da Diocese ser o padre Fernando Calado. O quarto no de este, apesar disso, ter falado. Na ocasião, para esclarecer integralmente o assunto. O quinto no de o nosso Cordeiro de Deus, apesar de toda a pobreza e contrição que prega e vai recomendado, ter encontrado financiamento suficiente para se fazer transportar num Passat CC, sabendo nós, louvado seja o Senhor, ao preço a que está o dinheiro. O sexto no de o voo do Bispo contribuir decisivamente para a revitalização do sector automóvel potuguês. Se formos a ver, foi o Clio do leigo para a sucata e o Volkwagen do Bispo para o estaleiro. Tudo material que fica carecido de substituição. O sétimo no de a Sagrada Família, utilizando como  utilizava, um burro como meio de transporte, sem ABS, airbags ou rodas direccionais, ter conseguido sempre escapar a qualquer acidente. O último no de se terem salvo do embate um ninho de cucos e os seus condóminos, coisa que, não sendo verdade, ajuda muito a compor o título.

Que se linche o teu irmão


Pedro Correia,

Por muito menos, este senhor proclamou-se vítima de um linchamento. Agora, estando sob mira pública um irmão na fé, e sem o menor assomo de caridade cristã, ei-lo a acender a fogueira num tema onde todas as precauções são devidas sendo a natureza humana o que é e tendo provocado os assassínios de carácter que já provocou. Repare-se no nível intelectual desta argumentação: “Ouvi que ele tinha tido um comportamento dessa ordem.” E desta, que inverte o ónus da prova: “Não possuo quaisquer elementos que provem que isso não é verdade.”

Se não é linchamento, imita bem. Sobretudo após o categórico desmentido do visado, a quem não pode ser negado o direito à defesa. E do louvável acto de contrição já assumido por outro interveniente na polémica.

Merece forte penitência por tão ruim pecado, senhor bispo.

 

O comentário da semana


Pedro Correia,

«Quando S. Jerónimo introduz a designação “Lucifer”, transforma a expressão “portador da luz”, que antes se aplicara a Cristo, no pior inimigo dos homens e de uma concepção de Deus.
O povo irá aprender a temer o “Demo”, que é afinal o próprio povo, e ainda “Lucifer” que era designação de Cristo – ou seja iria ter como principal inimigo aquele que traria a luz, que libertaria o povo das trevas.

(… quem quiser, pode continuar a ler aqui:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/05/mayday.html)

É claro que etimologicamente se dirá que “demónio” vem de “daimon”, e nesse caso será de procurar aí a raiz “democrática”, que iludindo dar voto a todos, coloca todos os votos empilhados numa pirâmide zarolha.

Também etimologicamente não se dirá que “diabo” significaria “rico”… mas já se disse em tempos idos.
Por isso, o povo teme a ira dos diabos (ricos, mafarricos), e para isso confia que os “ricos” o protejam do “demónio”, ou seja, de si próprio. Algo em que estão implicitamente de acordo, porque os “ricos” também não querem ser vítimas do “demónio”-povo.

A ideia é que para que o povo seja ordeiro, cordeiro, há um sacrifício “cabrão”, que Abraão fez, e que veneramos em nome da Paz-coa (coar é filtrar, digamos, uma paz filtrada).
Acrescenta-se que “venerar” virá de Vénus que, enquanto estrela da manhã, é Lucifer, pois anuncia a alvorada.

Uns são ovelhas, e os pastores temem ser bodes expiatórios, porque se os pés-de-cabra abrem portas, também os denunciam na figura de “cabrões”. Isso e os chifres, cifras que se traduzem em cifrões.

Mas, como diria o outro, são tudo trocadilhos… e por isso, se não há pressão, qual é a pressa?
Não se passa nada!»

 

Do nosso leitor Da Maia. A propósito deste texto da Ana Vidal.

Mais um sinal do altíssimo?


Teresa Ribeiro,

Os escândalos sexuais parecem não querer abandonar a Santa Madre Igreja. Se o que o jornal italiano La Repubblica publicou ontem é verdade, Bento XVI fez bem em resignar. Este escândalo não é para octogenários com insuficiência cardíaca, mas pode e deve ser matéria de reflexão para o senhor que se segue. Quem sabe não será esta série de casos um sinal do altíssimo para se acabar de vez com o celibato obrigatório dos padres.

Recalcamentos sexuais estão na origem de muitos comportamentos desviantes e, ao contrário do que a Igreja sustenta, dificultam a concentração e diminuem o rendimento no trabalho.

A douta ignorância


Ana Vidal,

Quem me conhece sabe como sou crítica em relação à igreja católica. Sou cristã por opção, mas isso não significa que aprove aquilo que os católicos fizeram ao longo dos tempos com a mensagem original de Cristo, admirável e verdadeiramente revolucionária. Tudo foi deturpado por razões bem humanas (mas indesculpáveis), trocando a liberdade e a responsabilidade individual que era proposta aos homens pela disciplina do medo, instaurada através da terrível mas eficaz fórmula “pecado-culpa-castigo”. E assim tudo regressou de novo a terrenos mais seguros para quem gosta de exercer poder sobre os outros, aqueles outros que, por sua vez, preferem uma cartilha de pecados e virtudes por onde possam guiar os passos sem risco de excomunhão. Enfim, esta é uma pacífica mas insanável divergência que discuto habitualmente com amigos católicos desde que penso pela minha cabeça. Sou lúcida, curiosa e rebelde demais para não questionar dogmas impostos, para não querer saber o que esteve na sua génese, para não rejeitá-los se me parecem absurdos, desactualizados ou injustos.


Mas, se condeno a manipulação, condeno-a em todas as frentes. Tanto quanto as imposições irritam-me as críticas acéfalas, baseadas numa ignorância desonesta ou preguiçosa que tem como única intenção armar escândalo e alimentar ódios fáceis. Já não bastava sermos todos especialistas em macro-economia, agora também somos todos teólogos e doutorados em latim.

Este vídeo – que se refere a um hino Pascal supostamente demoníaco – foi posto a circular na net e tornou-se viral num ápice, exactamente como se pretendia. O título já diz tudo, para quem nem sequer o trabalho de o ouvir quiser ter. Mas, goste-se ou não da igreja católica, goste-se ou não de Bento XVI e da atitude que tomou, é de uma pobreza confrangedora perorar sobre aquilo de que não se percebe patavina só para fazer coro com a maioria. Para o que também a mim pareceu estranho à primeira impressão, procurei e encontrei explicações de quem entende alguma coisa do assunto. E descobri que Lucifer, em latim, significa apenas “portador de luz”. A palavra está assim presente em varias orações da Igreja, em latim, e não se aplica evidentemente ao Diabo. Lucifer era o maior de todos os Anjos e não perdeu o nome apesar de abandonar Deus, de tal maneira que esse nome foi dado a muitos cristãos dos primeiros tempos e até existe um S. Lucifer. Em suma, descobri que a tradução apressada (se não propositadamente deturpada) que aparece no video, está longe de ser a mais correcta.


Gosto de argumentos, não de batotas.

 

Ela estava lá


Pedro Correia,

 

Saber latim possibilitou à jornalista Giovanna Chiri, da agência italiana Ansa e credenciada no Vaticano, um dos furos mediáticos mais relevantes de que há memória: presente ontem de manhã numa cerimónia no Vaticano que parecia pouco apelativa, do ponto de vista jornalístico, ela testemunhou (e entendeu) as palavras de Bento XVI e poucos minutos depois, às 11.46 (hora local), transmitia ao mundo a grande novidade em primeira mão: a primeira renúncia de um Papa desde 1415 – o ano da início da expansão portuguesa, no reinado de D. João I, com a conquista de Ceuta.

Dois méritos revelados nesta história, tão significativa, tão exemplar – e que acaba por constituir notícia dentro da notícia muito mais relevante da saída de cena do dirigente supremo da Igreja Católica. O mérito da cultura, do conhecimento, da aprendizagem de línguas – mesmo de uma língua considerada “morta” como o latim. E o mérito de estar no local e poder escutar de viva voz estas palavras de Bento XVI ainda tão recentes mas já com tanta relevância muito para além das fronteiras do universo religioso: “Cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro.”

Um jornalista nunca deve desvalorizar à partida a possibilidade de uma boa história. Porque a história acontece quando menos se espera. E às vezes até se escreve com H maiúsculo, como ontem sucedeu.

Non habemus Papam


Pedro Correia,

 

Vi, ao vivo, três Papas. Paulo VI em Roma (1978), João Paulo II em Lisboa (1982), Bento XVI também em Lisboa (2010). Sempre associados a um magistério que só terminaria com o desaparecimento físico de qualquer deles. Nunca imaginei que fizesse sentido a expressão “Papa demissionário”.

Já faz, desde esta manhã.

Num tempo em que qualquer irrelevância se torna manchete, eis-nos perante uma verdadeira notícia. E se o romance As Sandálias do Pescador, de Morris West, antecipou em década e meia o pontificado de Karol Wojtyla, o homem que emergiu da igreja do silêncio, a renúncia de Joseph Ratzinger era de algum modo prenunciada há dois anos num filme visionário: Habemus Papam, de Nanni Moretti.

Ficção e vida entrelaçadas, tornando ainda mais insondáveis os desígnios de Deus.

Mal passado, por favor


enlil,

 

Afinal em que ficamos?

Quando um bispo profere uma diatribe contra o capitalismo, a esquerda aplaude a mãos ambas.

Quando Isabel Jonet, talvez com excessiva candura, diz a mesma coisa embora a partir de outro ângulo, cai o Carmo e Trindade.

Um das razões porque o actual Papa merece toda a consideração ideológica de quem se lhe opõe, é porque ele, brilhante teólogo, colocou as coisas em pratos limpos: a Igreja Católica nunca se acomodou nem se acomodará aos princípios do Iluminismo. Alguns desses princípios, aliás de vincada índole protestante, são a legitimidade da acumulação da capital – os judeus, lembram-se? –, a certificação do esforço individual, a bondade da progressão social.

Além da Fé e da Esperança, a Caridade integra o motto do catolicismo. A frugalidade, a temperança, são os valores que devem levantar-se contra o consumismo desenfreado. A parcimónia e a modéstia opõem-se à especulação e ao enriquecimento, os quais, cegam a virtude e roçam a imoralidade. A gratidão e a obediência, são barreiras à propensão capitalista para o tumulto e àquela nefasta espécie de inquietação social que faz os homens quererem sempre ter mais do que já têm. Sim, quanto mais conservador é o discurso clerical, mais se assemelha às bandeiras de uma certa esquerda portuguesa. Tão arreigado quanto isto é o pior da herança salazarista que persiste em não desaparecer, tão amplo quanto isto é o arco nacional contra a livre iniciativa.

Isabel Jonet limitou-se a reiterar os valores morais que sempre defendeu, os quais costuma pôr em prática com boa-fé e boa-vontade. Para quem nunca os partilhou, embora considere louváveis os resultados, qual é a surpresa?