Ela estava lá


Pedro Correia,

 

Saber latim possibilitou à jornalista Giovanna Chiri, da agência italiana Ansa e credenciada no Vaticano, um dos furos mediáticos mais relevantes de que há memória: presente ontem de manhã numa cerimónia no Vaticano que parecia pouco apelativa, do ponto de vista jornalístico, ela testemunhou (e entendeu) as palavras de Bento XVI e poucos minutos depois, às 11.46 (hora local), transmitia ao mundo a grande novidade em primeira mão: a primeira renúncia de um Papa desde 1415 – o ano da início da expansão portuguesa, no reinado de D. João I, com a conquista de Ceuta.

Dois méritos revelados nesta história, tão significativa, tão exemplar – e que acaba por constituir notícia dentro da notícia muito mais relevante da saída de cena do dirigente supremo da Igreja Católica. O mérito da cultura, do conhecimento, da aprendizagem de línguas – mesmo de uma língua considerada “morta” como o latim. E o mérito de estar no local e poder escutar de viva voz estas palavras de Bento XVI ainda tão recentes mas já com tanta relevância muito para além das fronteiras do universo religioso: “Cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro.”

Um jornalista nunca deve desvalorizar à partida a possibilidade de uma boa história. Porque a história acontece quando menos se espera. E às vezes até se escreve com H maiúsculo, como ontem sucedeu.

8 comentários em “Ela estava lá”

  1. Custa-me um tanto a crer que ninguém soubesse da renúncia de Bento XVI, ou ao menos a pressentisse, e com fundados motivos. E porquê? Porque o Papa terá uma agenda, certamente sobrecarregada, e como é que procederia quanto a todos os compromissos com datas posteriores a 28 de Fevereiro (a pouco mais de 15 dias do anúncio da renúncia)? Invocaria sistematicamente a sua debilidade para não os aceitar? Aceitá-los-ia condicionalmente, mas sabendo no íntimo que não iria estar presente? Não parece plausível…

  2. Parece que nos seminários portugueses já não ensinam latim. Daqui a uns tempos, um cardeal português não entenderá um Papa que use o latim.
    O atraso e o analfabetismo chega a todo o lado.

  3. Pedro, ainda há quem vá contra a corrente. No liceu católico das minhas filhas o latim é língua obrigatória assim como o exame de proficiência Latinum (aliás sem o qual não se pode seguir direito ou medicina em muitas faculdades alemãs).

    Aliás, não apenas o latim é valorizado como também o ensino da Moral, da Ética e da Bíblia ( que mesmo para um não crente é um referencial cultural). Bem sei que estou a falar de uma escola católica privada, mas conheço excelentes exemplos no ensino público.

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