O Papa esquecido


Pedro Correia,

 

Pela minha vida já passaram cinco Papas. Vi três deles: Paulo VI em Roma, João Paulo II e Bento XVI em Lisboa. Não estive ainda com o Papa Francisco e João Paulo I teve um mandato tão breve – e hoje tão esquecido – que mal chegou a exercer o magistério como condutor da Igreja Católica. Ele que dizia preferir, acima de tudo, ser “catequista de paróquia”.

Recordo a emoção generalizada – no mundo católico e não só – quando Albino Luciani foi apresentado urbi et orbi como sucessor do Trono de Pedro, a 26 de Agosto de 1978, adoptando um nome composto – e quebrando assim uma regra ancestral – em homenagem aos seus predecessores imediatos, João XXIII e Paulo VI. Recebeu logo o cognome de “Papa do Sorriso” pelos modos afáveis que revelou ao assomar à varanda da Basílica, no Vaticano.

Deixou um rasto efémero e meteórico na Igreja – mas uma memória indelével em quantos o viram sorrir naquele dia estival, contrastando com a gravidade solene do antecessor. É de João Paulo I que me lembro com frequência quando vejo ou escuto Francisco: sinto-os irmanados pelo mesmo espírito fraterno e caloroso. E nunca deixo de me emocionar com as últimas palavras do Papa Luciani – que visitara Fátima em 1977, como patriarca de Veneza – proferidas perante uma assembleia de católicos italianos a 27 de Setembro de 1978.

“O povo da fome interpela de maneira dramática o povo da opulência. A Igreja estremece perante este grito de angústia. (…) Ninguém tem a prerrogativa de usar em exclusivo um bem em seu benefício, além do necessário, quando existem pessoas que morrem por não ter nada.”

Horas depois o sorriso apagou-se para a eternidade, envolto em silêncio e mistério: caía o pano nos austeros aposentos do Palácio Apostólico. O pontificado de João Paulo I durou só 33 dias.

Como por milagre


Pedro Correia,

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Há dias houve um ínfimo mas muito mediático clamor numa fracção da ala bloquista do grupo parlamentar do PS contra a concessão da “tolerância de ponto” decretada pelo Governo aos funcionários públicos a 12 de Maio, dia da chegada do Papa Francisco a Fátima. Pretexto invocado: tal medida fere o princípio da “laicidade do Estado”, que andou esquecido na recente Sexta-Feira Santa, feriado obrigatório em Portugal sem um sussurro de indignação daqueles deputados. Como se tal princípio fosse de geometria muito variável. 

Curiosamente, em nenhum momento vi os referidos parlamentares preocupados com uma consequência imediata da mais recente decisão governamental: acentuar a chocante desigualdade registada num país que funciona a duas velocidades – a da administração pública e a da economia privada. Com esta a ter salários mais baixos, jornadas laborais maiores, aposentações mais tardias e sobretudo o espectro do desemprego sempre presente, enquanto vai financiando a primeira, domínio exclusivo das “tolerâncias de ponto”.

Devia assim António Costa ter procedido de maneira diferente com alguém que o falecido ex-Presidente Mário Soares afirmava “idolatrar” e a jornalista Teresa de Sousa considera “mais inspirador do que qualquer líder europeu”? Não. Porque este Francisco que está prestes a desembarcar em solo português como peregrino católico não merece menos do que o seu predecessor Bento XVI, que em 2010, quando cá esteve, levou o primeiro-ministro José Sócrates a decretar medida idêntica – alargada aliás à tarde de 11 de Maio em Lisboa e à manhã de 14 de Maio no Porto.

Apesar de eu presumir que alguns deputados socialistas talvez pensem assim, pois em 2013  recusaram subscrever um voto de congratulação da Assembleia da República pela ascensão ao trono de São Pedro do ex-arcebispo de Buenos Aires, primeiro Papa não-europeu em 1200 anos.

Alguns deles, como por milagre, são bem capazes de estar agora com ele em Fátima.

Santa Páscoa!


Teresa Ribeiro,

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Dedico este post aos católicos que são assim, como a criatura de Deus que aparece na foto, quando vêm à discussão assuntos polémicos sobre a sua Igreja e que rilham os dentes quando lhes falam do seu Papa Francisco,”esse ‘comuna’ que só veio desestabilizar”.

Em tempo de Páscoa, por favor meditem nas palavras do padre Anselmo Borges, que transcrevo a partir da entrevista que deu ao Expresso, para esta última edição, e cuja leitura integral recomendo:

“É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”; “A Igreja é misógina”; “A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. É preciso acabar com as vidas duplas” (a propósito do celibato obrigatório dos padres); “A hierarquia vive na ostentação e não se bate pelos direitos humanos”; “Este Papa é um cristão no sentido mais radical, não é apenas baptizado, ele segue Jesus”. 

São críticas velhas, mas quando vêm de um homem da ICAR com a sua envergadura intelectual, têm outro valor.

Para reflectir neste feriado


Pedro Correia,

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Procissão do Corpus Christi em Lisboa, com a presença do Rei D. Manuel II (1908)

 

É o dia certo para aplaudir outra medida do Governo. Esta tem uma importância acrescida no plano simbólico, o que a torna ainda mais digna de realce. E – tal como a do Simplex 2016, que saudei aqui – também tem um impacto directo na vida dos portugueses. Refiro-me à reposição das quatro datas do calendário laboral que haviam sido retiradas em 2012 da lista dos feriados nacionais – sem uma justificação plausível, sem resultar de imposição dos credores externos que tutelavam as nossas finanças públicas, sem sequer um estudo de impacto orçamental que as tornasse credíveis no estrito plano contabilístico. Foi um erro lapidar do anterior Executivo: nos momentos de crise, há que fazer um apelo reforçado aos valores comunitários que estes feriados de algum modo celebram.  “Uma coisa completamente tonta”, como na altura salientou Marcelo Rebelo de Sousa.

Sendo justo e acertado o aplauso a António Costa por ter anunciado de imediato o regresso ao bom senso neste domínio, não pode passar sem um severo reparo crítico a atitude pusilânime da hierarquia católica, que há quatro anos acedeu sem um sussurro de protesto à supressão do Dia do Corpo de Deus e do Dia de Todos os Santos – datas solenes do calendário litúrgico e com longa tradição de prática votiva entre nós – da lista de feriados oficiais.

Assistia plena razão à Igreja, no plano institucional e moral, para reclamar contra o banimento oficial das duas festas cristãs que forçou até uma troca de documentos diplomáticos entre Lisboa e o Vaticano por incluir matéria contida na Concordata, tratado internacional celebrado entre o Estado português e a Santa Sé. Mas optou pelo silêncio, como se lhe fosse indiferente a opinião da cidadania católica e não entendesse o grave precedente que aquela decisão governamental abria no equilíbrio sempre delicado entre um Estado aconfessional e uma sociedade com matriz religiosa.

Esse perturbante silêncio de então contrasta de forma chocante com o alarido actual em torno das previstas alterações ao modelo dos contratos de associação celebrados entre o Ministério da Educação e algumas dezenas de estabelecimentos escolares, parte dos quais geridos pela Igreja. Apetece perguntar como Jesus no Evangelho: “O que vale mais? O ouro ou o santuário que tornou o ouro sagrado?” (Mateus, 23-17)

Matéria que justifica meditação neste dia que volta a ser feriado.

Não, não, senhores Bispos


Rui Rocha,

Estão enganados. O cartaz do Bloco de Esquerda não ofende crentes nem não crentes só por o serem. Ofende a inteligência. De quem quer que a tenha. Por isso, melhor seria se guardassem a indignação para a utilizarem, por exemplo e para não irmos mais longe, contra instituições que promovem uma visão do mundo em que cabe às mulheres um papel de obediência e subordinação.

“Servir a personas, no a ideas”


Pedro Correia,

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 Foto AFP

 

Acompanho em directo, através do canal televisivo Cubavisión, a homilia do Papa Francisco na missa campal realizada na Praça da Revolução, coração da Havana comunista.

Uma homilia notável, de que destaco estas palavras, que ecoam as de Jesus mencionadas no Evangelho de São Marcos (9,30-35): “Quien quiera ser el primero, ser el más importante, que sea el último de todos y el servidor de todos. Quien quiera ser grande, que sirva los demás y no que se sirva de los demás. Servir significa, en gran parte, cuidar la fragilidad. Servir significa cuidar de los frágiles de nuestras familias, de nuestra sociedad, de nuestro pueblo. Son personas de carne y hueso, con su vida, su historia y especialmente con su fragilidad, las que Jesús nos invita a defender, a cuidar y a servir. (…) Nunca el servicio es ideológico, ya que no se sirve a ideas, sino que se sirve a las personas. (…) Quien no vive para servir no sirve para vivir.”

Entre os que o escutavam, na primeira fila da imensa multidão ali concentrada, estava Raúl Castro.

Em contrapartida, o Padre Marina De Cascais é muito asseado


Rui Rocha,

Por mim, agora ficou tudo muito claro, ó Padre Marina De Cascais. Se na Idade Média só sabiam produzir fogo a partir do atrito entre duas pedras ou pauzinhos, não seria de esperar que os cristãos de então ateassem fogueiras com fósforos, isqueiros ou maçaricos. Aliás, se dispusessem de maçaricos, esses cristãos provavelmente nem precisariam de fogueiras, não é? Da mesma forma, se por absurdo vivêssemos numa sociedade ainda poluída com um certo bafio machista, certamente não seria justo pedir à Igreja Católica que negasse o papel subalterno da mulher. Ou, para irmos um pouco mais atrás na história, se por acaso os romanos tivessem tido em determinado momento o hábito de sacrificar cristãos na arena do Coliseu, é evidente que seria abusivo interpretar tais práticas à luz das regras dos jogos de sociedade em que gostamos de entreter, agora, os nossos serões.

Tudo como as mães, menos celebrar missa


Rui Rocha,

Depois de há uma semana ter mostrado ao mundo como se pode instrumentalizar de forma cretina o drama de uma criança para promover uma cruzada, o Padre Portocarrero de Almada decidiu agora dedicar uma crónica ao tema da exploração das mulheres trabalhadoras. O cerne da questão estará, na palavra do bondoso sacerdote, na hostilidade e desconfiança com que as entidades patronais encaram a maternidade. Está bem visto e é verdade. Aliás, se dúvidas houvesse, aí teríamos o exemplo das irmãzinhas dos conventos do Estado do Vaticano que, afastadas que estão da condição da maternidade por chamamento e voto de castidadade, gozam de imediato de uma assinalável paridade de tratamento face aos bispos, arcebispos e cardeais purpurados. Percebe-se assim o notável grito do padre tão pio em favor das mulheres: que as mães possam ser tudo o que quiserem profissionalmente e que as suas filhas possam fazer tudo, como as mães. Tudo menos, naturalmente, celebrar missa.

O evangelho dos marginalizados


Pedro Correia,

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«Amados irmãos novos cardeais, com os olhos fixos em Deus e na nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal maneira que os cristãos – edificados pelo nosso testemunho – não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a seguir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor se não acolhermos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de maginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade.»

 

Palavras de Francisco no remate da homilia da missa com os novos cardeais em Roma, a 15 de Fevereiro. Palavras que fazem qualquer católico orgulhar-se deste Papa, eleito há dois anos – data que amanhã se comemora.

Nesse mesmo dia 13 de Março de 2013 escrevi no DELITO sobre o cardeal Bergoglio: «Apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele».»

À medida que o tempo passa, cada vez encontro mais motivos que corroborem a excelente impressão inicial transmitida por este homem que foram «buscar ao fim do mundo», como o bispo de Roma disse dele próprio nessa sua primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedro.

 

E, a propósito, é para mim cada vez mais incompreensível o sectarismo de certa esquerda portuguesa, que recusou associar-se ao voto parlamentar de congratulação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos. PCP, Bloco de Esquerda, ‘Verdes’ e seis deputados do PS – Pedro Delgado Alves, Mário Ruivo, Miguel Coelho, Isabel Moreira, Elza Pais e António Serrano – dissociaram-se desse singelo voto, que se limitava a isto: «A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

Alguns deles – os comunistas – não hesitaram meses depois em colocar-se ao lado da feroz ditadura norte-coreana, também num voto parlamentar. Amarrados ao seu persistente dogmatismo, entre o pontífice capaz de cruzar continentes apregoando a libertadora mensagem de Cristo e Kim Jong-un, preferem o tirano de Pyongyang, que condena todo um povo à servidão.

Deviam, também eles, meditar sobre a homilia papal que invoca o evangelho dos marginalizados. Com “disponibilidade total para servir os outros” como “único título de honra” do humanismo cristão. Contra todos os cálculos, contra todos os riscos, contra todos os medos.

Prazeres de Canelas


Rui Rocha,

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Prazeres sai da casa caiada na Rua do Frengo exactamente 30 minutos antes do início da missa. O nevoeiro da manhã esbate o contorno da sua silhueta austera que se move, em passos ligeiros, sobre o chão empedrado das ruelas do centro de Canelas. Veste-se sempre de forma modesta e decente. Mais ainda ao Domingo. A saia tapa o joelho e um pouco mais. A camisolinha de malha comprada na feira de Espinho cobre os braços e a parte de baixo do pesoço. Os sapatos são rasos, como devem ser. Não ambicioneis coisas altas, mas acomadai-vos às humildes, lera nas Escrituras. Dobra a última esquina antes de avistar a Igreja. Olha, como sempre faz, para a Rua do Padre Costa que se desenha à sua esquerda. Um santo, o Padre Costa. Merecia outro reconhecimento. Prazeres não consegue reprimir um suspiro que contém, na sua imensa fragilidade, uma infinita piedade por todas as malfeitorias sofridas, aqui, agora e sempre, pelos justos da Igreja. Retoma imediatamente a compostura. O dia não está para desfalecimentos. Apressa o passo apesar dos cansaços que lhe desafiam os movimentos. As camisolas pretas tinham dado mais trabalho do que previra. O mais difícil fora escolher frase. De tantas que lhe vieram à cabeça, Deus quis que acabasse por escolher aquela: Cristo foi traído – Quem o traiu retirou as consequências.  Direitinha ao Bispo do Porto: pega lá que já almoçastes. E o ensaio dos cantos… Minha Nossa Senhora! Mas, no final, a Laida, a Tona, a neta do Tobias e a Micas tinham decorado as falas: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. Os dados estão lançados. Vão ficar com as orelhas a arder, os vendidos que forem à missa. Quando chega ao adro da Igreja faltam dez minutos para a homilia. Um olhar em redor confirma que já lá estão os que devem estar. Com gestos rápidos, abre o saco de ginástica da Puma e distribui as camisolas. As do coro ensaiado também já estão prontinhas. A tensão sobe enquanto o nevoeiro se dissipa. Dois minutos depois, o gajo chega. Acompanhado pela GNR, todo borrado de medo mas a dar ares de galifão. Os vendidos entraram na Igreja a passo. Deus lhes perdoe. Ouvem-se vozes, afinadas e pias, em cântico: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. As camisolas já vestidas nos corpos dos que, na primeira fila, gritam e empurram. Prazeres sorri. Um trabalho bem feito. O melhor ainda está para vir. Não perdes pela demora galifão. Quarenta e cinco minutos depois, termina a missa. As mesmas camisolas, os mesmos cânticos. O padreca tenta sair, escoltado pela GNR. Prazeres vai buscar forças não sabe a que santo e grita-lhe com quantas forças o Senhor lhe dá: badalhoco, tem apresentação, corta o cabelo e a barba! A pequena cruz com um Cristo que traz ao peito salta e faz-lhe um lanho no pescoço. O padreca desaparece do adro no carro onde foi metido à pressa pela GNR. O resto do Domingo passa-se do jeito que Deus quer, interrompido aqui e ali pelo regozijo provocado pelas imagens do triunfo sobre o padre Albino que passam nos telejornais da RTP. O relógio da igreja bate as 10 da noite. Prazeres apressa de forma quase imperceptível as orações. Depois de assegurar que a porta do único quarto de cama da casa onde vive sozinha está fechada, dirige-se ao roupeiro onde guarda uma pequena caixa escondida num fundo falso de uma gaveta. Afasta o rosário que trouxe de uma viagem da paróquia à Terra Santa e, enquanto aconchega contra o peito uma fotografia do padre Roberto, murmura com a voz a tremer: ah meu sacana, que ainda me fazes perder…

Santo António de Macau


Sérgio de Almeida Correia,

“Reza a tradição ter sido S. António alistado em Macau como soldado em 1623, ano em que veio de Goa incorporado com mais cem soldados portugueses no primeiro presídio militar, que acompanhou o primeiro governador, D. Francisco de Mascarenhas.

S. António como soldado, aqui começou por receber o seu soldo de seis reis por mês, mas em 9 de Maio de 1780 foi-lhe suspenso o soldo, já que o Senado recebeu instruções para que cada fortaleza tivesse uma guarnição real de vinte soldados. O padre Manuel Teixeira refere: “Por coincidência começou a cidade a sofrer contínuos desastres que o povo ingénuo logo atribuiu ao desacato feito ao Santo, que fora substituído por um soldado de carne e osso.”Por tal razão, a 17 de Setembro de 1783, o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria solicitou ao Senado a renovação da matrícula de Santo António. E Luís Gonzaga Gomes complementa: “a 27 de Dezembro de 1783, tendo há três anos experimentado a cidade contínuas infelicidades atribuídas ao facto de a vereação passada ter dado baixa de soldo ao glorioso St.º António, que o recebia, anualmente, como soldado, desde que houve presídio militar nesta cidade, por motivo de cada guarnição de fortaleza ter sido reduzida, em 9 de Maio de 1780, a vinte soldados efectivos, o Senado, reconhecendo a necessidade da protecção dese Santo, resolveu dar-lhe outra vez alta, com o vencimento do soldo de capitão, e com o título de Capitão da Cidade.”

Não só foi promovido a capitão, com um ordenado de cinco pardaus, mas o Senado mandou-lhe pagar os salários atrasados. O que veio a acontecer a 12 de Junho de 1784, quando o Senado pagou o soldo dos três anos e um mês que estava em falta como soldado, 93 taéis, 7 mazes e 5 codrins e como capitão recebeu no mesmo dia 49 taéis, 1 maz e 4 caixas de soldos vencidos em 7 meses e 26 dias.

Nos anos 50 do século XX, o soldo do capitão St.º António era de seis mil patacas por ano. Numa publicação de 1956 encontra-se o seguinte: “No dia 16 de Junho, à tarde, acomissão administrativa do Leal Senado fez a entrega de $ 120 000 correspondente ao soldo anual vencido pelo capitão desta cidade, Santo António de Lisboa. A importância reverte a favor do cofre do “Pão dos Pobres”.

St.º António foi em Macau soldado entre 1623 e 1783 e capitão entre 1783 e 1973, tendo assim prestado serviço militar nesta cidade durante 350 anos.”- José Simões Morais, in O Soldo de Santo António, Hoje Macau, 13/06/2014

Pope don’t preach


Teresa Ribeiro,

Coerente com a divisa “crescei e multiplicai-vos” o Papa puxou as orelhas aos crentes que optam por ter cães  e gatos em vez de filhos, acusando-os de comodismo. Percebo-o, está no seu papel. Mas se há ditame cristão injusto é esse que aponta a reprodução como um dever. Da multiplicação sem critério à procriação controlada deu-se um passo civilizacional gigante, pois optar por não ter filhos quando não se sente esse apelo ou fazer questão de os desejar em vez de simplesmente tê-los reflecte um apreço infinitamente maior pela vida humana.

Planeamento familiar à parte, essa modernice que tanto incomoda a Igreja, há ainda que levar em conta os efeitos da economia na vida dos casais em idade fértil. Eu sei que Francisco foi lesto a denunciar a “economia que mata”, mas cedendo à tão católica nostalgia dos tempos em que as pessoas se multiplicavam como animais, esqueceu-se que muitos dos casais que optam por cães e gatos podem só estar a adiar os bebés que planeiam ter, não por comodismo mas porque não os querem criar sem condições. Alguém os pode criticar por isso?

Uma data especial!


fiodeprumo,


Hoje gostaria de ter estado nas celebrações de santificação de João XXIII e de João Paulo II. Pela primeira vez dois Papas são santificados ao mesmo tempo que um Papa e o seu antecessor assistem juntos a tal cerimónia.

A fé é algo que se não discute. Ou se tem ou não se tem. Mas para um crente não ter fé não o dispensa de lutar por ela. Sei do que falo, porque os meus Pais deixaram ao meu critério essa escolha. Por isso, apenas fui baptizada aos 19 anos e de forma muito consciente. A fé não foi, portanto, algo que tenha nascido comigo. É, sim, algo por que luto diariamente, que todos os dias me faz confrontar comigo própria, que guia os meus passos e que, julgo, me torna uma pessoa melhor. Mas percebo quem não tem fé e admiro quem, sem esse suporte, vive a sua vida com a maior dignidade.

Talvez por tudo isto, gostaria muito de ter assistido a estas cerimónias. Mas já me dou por feliz de ter vivido o tempo suficiente para, através da televisão, ter podido assistir a elas neste mês de Abril de tão más recordações.

Eu sei que estas palavras só tocam uma parte daqueles que me lêem. Mas o testemunho também serve para que aqueles que não acreditam possam entender aqueles que crêem.

Nihil obstat


Rui Rocha,

Já está. O Papa Francisco declarou hoje santos João XXIII e João Paulo II perante centenas de milhares de fiéis de todo o mundo. Pelo visto, à cerimónia assistiram 98 delegações de Estados e organizações internacionais, incluindo 24 chefes de Estado e monarcas, do Rei de Espanha a Robert Mugabe. Sei como são tortuosos os caminhos do Senhor, mas talvez fosse caridade cristã informar o Presidente do Zimbabué que o Vaticano ainda certifica santos mas já não vende indulgências. São tradições que se perdem e é pena. Imagine-se, por exemplo, o jeito que não daria por estes dias às crianças do Corno de África aquela coisa da multiplicação dos pães. O certo é que houve milagres, embora de outra natureza. São João Paulo II fez, só à sua conta, dois. E São João XXIII cometeu um. Temos portanto dois Papas e milagres temos três que é, como se sabe, a conta que Deus fez. Pelo que, se recorrêssemos à estatística que é uma outra forma de produzir milagres (veja-se a já estafada questão dos dois frangos comidos por um só mas que estatisticamente divididos por dois dão um frango a cada um), sairia a coisa à média de milagre e meio por Papa hoje santificado. Mas a manipulação, de números ou outra, não é para aqui chamada. Os milagres agora certificados em folha azul de vinte e quatro linhas foram devidamente analisados, estudados, escrutinados e finalmente reconhecidos por uma comissão de sábios e peritos lúcidos e independentes que aplicou no processo, Deus me perdoe, verdadeiro rigor científico. Veja-se o caso, por exemplo, de um dos milagres de São João Paulo II. Floribeth Mora Dias tinha um aneurisma que a medicina não podia curar. A 1 de maio de 2011, às duas da manhã na Costa Rica, esta católica acompanhou pela televisão a beatificação do Papa polaco, apesar de habitualmente não conseguir “acordar normalmente” e voltou a adormecer. “Às oito da manhã ouviu uma voz no quarto que lhe dizia “levanta-te”, recordou. Apesar de estar sozinha, voltou a ouvir “levanta-te, não tenhas medo” e identificou a origem do apelo numa revista comemorativa da revista de João Paulo II, com o Papa polaco na capa, com as mãos levantadas. E pronto, macacos me mordam se não estava curada sem necessidade daquelas mezinhas que o Bruxo de Fafe obriga os seus clientes a emborcar. Natureza diferente têm os outros dois milagres papais. Para que não se diga que santos da casa não os fazem, a cura dirigiu-se desta vez a membros da própria Igreja. João Paulo II curou a freira Marie Simone Pierre que sofria de Parkinson. E João XXIII salvou a religiosa  Caterina Capitani de morrer devido a uma perfuração gástrica hemorrágica. Ora aqui confesso a minha decepção. Apesar de maravilhosos, estes dois milagres, não desfazendo, parecem-me poucochinho. Noto que João Paulo II e João XXIII conseguiram curar as religiosas das suas doenças mas, apesar dos seus imensos poderes, foram incapazes de as fazer celebrar missa.

Os cobóis já andam aos tiros


Teresa Ribeiro,

Francisco, no seio católico, não é um nome, é um manifesto. Ao adoptá-lo, Bergoglio sabia que ia provocar o primeiro sobressalto não só na hierarquia, mas nos católicos que se identificam com ela. Em pouco tempo demonstrou também que a escolha do nome do frade, que foi perseguido e ostracizado pela Igreja, não foi um acto isolado de provocação. A cada gesto tem incomodado todos os que se habituaram a fazer do catolicismo uma coreografia e da relação com Deus uma estética ou um pretexto para o exercício narcísico da auto-indulgência.

Não por acaso se diz como piada que “Cristo foi o primeiro comunista da História”. A doutrina que vem nos evangelhos e que ele tem usado como palavras de ordem contra o poder financeiro e a injustiça social está a irritar quem espera da religião apenas uma caução moral para o que faz na sua vidinha. E quanto mais o mundo, não só o católico, mas também o cristão em geral se rende aos seus encantos, maior é a desconfiança da casta que não se revê nesta apologia dos ditames esquerdóides de Jesus. 

Sempre mais descomplexados na sua relação com o dinheiro, os cristãos americanos gritam aos quatro ventos o que os seus confrades europeus, entre os quais muitos tugas, resmungam em surdina: Este Papa é marxista!

O ridículo pode matar muita gente, mas nunca os americanos da direita trauliteira.

Ler também:

 

 www.rushlimbaugh.com/daily/2013/11/27/it_s_sad_how_wrong_pope_francis_is_unless_it_s_a_deliberate_mistranslation_by_leftists

Uma questão de (falta de) fé


Pedro Correia,

 

«Sair em direcção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem sentido.»

Papa Francisco, na exortação apostólica A Alegria do Evangelho

 

Barack Obama, de visita ao Vaticano, pede ao mundo para “ouvir a voz do Papa”. É um apelo desnecessário: o mundo escuta a voz de Francisco. O mundo católico, o mundo agnóstico, até o mundo ateu.

“O Bispo de Roma, que os cardeais encontraram no fim do mundo, verifica que a situação dos povos que se mantiveram mais ou menos ligados ao seu ministério não lhe deixa esquecer a que enfrentou na maior parte da sua vida de sacerdote”, destaca Adriano Moreira.

O socialista Pedro Silva Pereira, também católico assumido, não esconde a sua admiração pelo argentino que “já logrou uma proeza notável: fez renascer a esperança na renovação da Igreja Católica”.

Mário Soares, que nunca foi católico, confessa ter como “ídolo” o chefe da Igreja Católica.

Francisco Louçã, descrente em matéria religiosa, elogia a “clareza do discurso” do Sumo Pontífice e não tem dúvidas pelo menos nisto: “É um Papa alegre e não encontramos nele outro calculismo que não seja o da sinceridade.”

Até a inabalável esquerda.net adverte: “Seria um erro que as forças progressistas ignorassem as mudanças no Vaticano.”

 

Perante tudo isto, surpreende-me ainda hoje que em Março de 2013, quando a Assembleia da República aprovou um voto de saudação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos, três forças políticas tenham recusado associar-se a esta congratulação: BE, PCP e Verdes. Uma recusa partilhada por seis deputados do PS, o que ainda mais me surpreende.

Foram 30 parlamentares no total — alguns deles revelando mais intolerância pelo representante máximo da religião com maior número de fiéis do globo do que pelo ditador da Coreia do Norte.

Tanto mais surpreendente quanto o inócuo texto que recusaram aprovar se limitava a isto: “A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo sumo pontífice.”

 

Todo o mundo é composto de mudança. Interrogo-me quantos de entre eles não estarão hoje arrependidos de não terem votado de outra maneira. Francisco — o líder mundial mais procurado no Google e mais presente no Twitter, a mais influente personalidade do planeta segundo a Fortune, eleito Pessoa do Ano pela Time — ensina que “os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis”.

Interrogo-me quantos deles não diriam hoje, como disse Obama no momento em que se avistaram: “É maravilhoso conhecê-lo. É uma grande honra. Sou um grande admirador seu. Muito obrigado por receber-me.”

 

Foto: Saul Loeb

Não basta olhar: é preciso ver


Pedro Correia,

 

As primeiras impressões são as que mais contam. Releio o que escrevi faz hoje um ano, aqui no DELITO, sobre o recém-eleito Papa Francisco. Nunca tinha ouvido falar do cardeal Jorge Mario Bergoglio. Aquelas linhas foram redigidas de forma espontânea por efeito exclusivo do que acabara de ver e escutar, em directo do balcão principal da Basílica de São Pedro, tal como centenas de milhões de pessoas um pouco por todo o globo.

“Há-de receber os grandes do mundo, há-de ter reis e presidentes a pedir-lhe a bênção, há-de escutar incontáveis ovações. Mas hoje, no balcão da basílica, parecia não ambicionar nada mais do que ser irmão de todos nós”, escrevi então. Os 12 meses entretanto decorridos só reforçam essas primeiras impressões, atestando a profunda autenticidade do sucessor de Bento XVI, um Papa que chegou “do fim do mundo”, como ele disse de si próprio.

Francisco — como preferiu chamar-se em homenagem ao santo de Assis, príncipe supremo do despojamento e da humildade, é hoje uma das raras personalidades que gozam da simpatia generalizada à escala universal com o seu jeito afável mas desassombrado. Realmente inconfundível.

 

Recordo-me bem desse fim de tarde de 13 de Março de 2013. E também das lamentáveis atoardas que nos dias imediatos alguns por cá se apressaram a divulgar sobre o novo chefe da Igreja Católica, apontando-o sem sombra de hesitação como cúmplice da tenebrosa ditadura argentina. Com aquele automatismo típico das “redes sociais”, em que se dispara primeiro e se reflecte depois, logo os ecos da atoarda se propagaram. E nem o desmentido categórico de uma voz autorizada, a do Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquível, bastou para travar a torrente de impropérios.

Destacou-se nesta lamentável missão o professor Fernando Rosas, que como historiador tinha a obrigação de ser mais criterioso na selecção das suas fontes. Utilizando o púlpito televisivo em que costuma perorar, na TVI 24, surgiu a dizer coisas como esta: “O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura.”

 

Curiosamente, nunca mais ninguém reincidiu nestas atoardas. Pelo contrário, Francisco é hoje mencionado como referência por alguns daqueles que há um ano, sem o conhecerem, se apressaram a denegri-lo antes de passarem a confessar-se seus admiradores. Invocam o Papa Francisco, utilizam-no como fonte de autoridade moral, repetem com ele que “esta economia mata”.

Falharam por completo nas primeiras impressões. Por arrogância intelectual e humana, por aversão atávica à Igreja, por estarem condicionados pelo preconceito.

E falharam sobretudo por olharem sem ver. Porque o Francisco de hoje era já aquele que assomou à varanda na Praça de São Pedro, intitulando-se não Papa mas mero bispo de Roma e pedindo com humildade aos fiéis para rezarem por ele.

Humildade que nunca abandonou de então para cá.

Com a força inequívoca do seu exemplo, digno de um genuíno discípulo de Jesus, tornou-se fonte de inspiração para todos, partilhem ou não da sua fé.

Mau Maria


Teresa Ribeiro,

Não é por acaso que o culto mariano tem um papel fulcral na liturgia católica. A tolerante Virgem Maria toda ela doçura e perdão sempre me pareceu a intermediária ideal numa religião que caminhou na História ao lado do poder temporal. Jesus, ao invés, é incómodo. Não por acaso há quem lhe chame, por provocação, “o primeiro comunista da História”. Francisco, que os sectores mais conservadores da Igreja acusam de populismo, pauperismo e demagogia tem fundamentado os seus discursos reformistas na mensagem de Cristo que consta dos evangelhos. Mas para algumas criaturas de Deus invocar a cada passo a fonte doutrinária de uma religião que tem raiz revolucionária é inquietante. Da mensagem essencial habituaram-se a apreciar a música, não necessariamente a letra, pois que esta, na sua génese como agora, se destina a pôr em causa o status quo.

Estes estetas de alma conservadora, capazes de matar pelo direito à vida, odeiam quando o discurso papal resvala para a qualidade de vida.