Pope don’t preach


Teresa Ribeiro,

Coerente com a divisa “crescei e multiplicai-vos” o Papa puxou as orelhas aos crentes que optam por ter cães  e gatos em vez de filhos, acusando-os de comodismo. Percebo-o, está no seu papel. Mas se há ditame cristão injusto é esse que aponta a reprodução como um dever. Da multiplicação sem critério à procriação controlada deu-se um passo civilizacional gigante, pois optar por não ter filhos quando não se sente esse apelo ou fazer questão de os desejar em vez de simplesmente tê-los reflecte um apreço infinitamente maior pela vida humana.

Planeamento familiar à parte, essa modernice que tanto incomoda a Igreja, há ainda que levar em conta os efeitos da economia na vida dos casais em idade fértil. Eu sei que Francisco foi lesto a denunciar a “economia que mata”, mas cedendo à tão católica nostalgia dos tempos em que as pessoas se multiplicavam como animais, esqueceu-se que muitos dos casais que optam por cães e gatos podem só estar a adiar os bebés que planeiam ter, não por comodismo mas porque não os querem criar sem condições. Alguém os pode criticar por isso?

23 comentários em “Pope don’t preach”

  1. Com tantas crianças condenadas à fome e em muitos casos a uma morte precoce nos países pobres, talvez um apelo à adopção fizesse muito mais sentido.

  2. Bem, a quem não tem condições para ter bebés, ter cães ou gatos não irá ajudar grandemente, acho eu.

  3. Se acham que o caminho é a reprodução desenfreada, os padres devem dar o exemplo. Ou a moralidade só se aplica aos outros?

  4. “Alguém os pode criticar por isso?”

    Pode, especialmente quando se fala em “condições” como desculpa.
    Por essa ordem de ideias todas as Mães e País foram inconscientes ao terem filhos desde Adão e Eva até ao Sec: XX…
    Só os ricos deveriam ter filhos nesse século.

  5. É bem mais fácil ter um gato em casa do que um filho. Come, dorme, pede festinhas e lambe-se. Pode ficar sozinho todo o dia e só se manifesta ruidosamente quando anda à caça ou tem fome. Para além de que um pacote de biscoitos e um saco de areia são bem mais baratos do que um pacote de fraldas e uma lata de leite
    Um animal de estimação nunca substituirá a alegria de parir um filho, mas ajuda a suportar a solidão a quem precisa de companhia e não nos dá preocupações quanto ao seu futuro profissional ou pessoal.
    Na presente conjuntura em que sobreviver é uma aventura, será que o Papa Francisco, se fosse largado numa ilha deserta e tivesse que subsistir com o que pudesse arranjar com os parcos meios ao seu alcance, quereria ter por companheiro um gato ou um recém nascido ?

  6. Filhos, raramente é a hora ideal, fica ao critério de cada um …
    Com a quantidade de animais abandonados, também não me parece que seja uma boa ideia para ” dama de companhia ” !
    No entanto, relembro que Todos têm um animalzinho de estimação, maior ou mais pequeno, que faz companhia e nem dá assim tanta despesa!!!
    pois… é esse computador que está à sua frente.

    1. Ao contrário do que acontece em relação aos filhos e até aos animais, para se ter um computador em casa não faltam incentivos. Até porque não tê-lo já nem se equaciona.

  7. Tive 2 filhos e um Cão, cão que teve a vantagem de não ter período (imenso) de adolescência. Experiência a repetir, a do Cão…
    Maria Helena

  8. Teresa
    Eu não tenho espírito franciscano. Por isso os únicos animais com os quais coabitei foram os que os meus filhos me impuseram num passado longínquo.
    Sou católica mas tenho conflitos com a Igreja, Tantos quantos os que os filhos têm com os pais.
    Julgo que abordaste um tema muito importante – o da maternidade consciente – que precisa de ser amplamente discutido e sobre o qual ainda impendem preconceitos que têm de ser vencidos. Não por causa dos animais ou de quaisquer egoismos pessoais. Mas porque ser pai ou ser mãe é uma escolha para a vida com consequências sobre terceiros. Enquanto fazer sexo é uma necessidade biológica ou um direito ao prazer que implica apenas dois.
    Os novos padres – pena que sejam tão poucos – já olham para estes temas de modo muito mais tolerante. E o Papa sabe bem que os homens não são santos e que os santos pecaram muito porque eram homens.

    1. Pois é, Helena. O cristianismo, que nos ensina a respeitar e valorizar a vida como nenhuma outra religião, tem que resolver este paradoxo. Fomentar a reprodução sem critério não é a melhor via para a evolução humana.

  9. Mas que grande confusão para aí vai! Nada disso! Reveja tudo de novo; está a escapar-lhe algo fundamental.

    1. E tem razões para se assustar e também para bater neste modelo politico-financeiro que impede as pessoas de viver com um mínimo de desafogo para poder pensar em ter filhos, em vez de bater nos jovens casais que adoptam gatos e cães.

  10. O Papa estará a ser coerente com o seu papel de chefe da igreja católica e a doutrina desta. Com dois grandes méritos: o dessa coerência (a Igreja é estável na sua mensagem e lenta e bem ensaiada a sua evolução; quem nela se revê nela encontra por isso conforto na certeza) e o do seu poder ser afinal, por falta agora de melhor termo, “consultivo”. Fornece-nos propostas de conduta para a vida, mas trata-se disso mesmo: de propostas que somos livres de seguir. E não temos que o fazer como se num contrato de adesão: podemos temperá-las com a nossa consciência e ser católicos – ou cristãos, ou, sobretudo, Homens – com uma visão crítica. No limite, entre nós e Deus não há, não tem que haver, intermediação.

    Invoque-se o que se quiser em crítica às sua palavras, desde o facto destas partirem de um homem que pregando o valor da família se absteve de a constituir, à visão do sexo excluindo o que não seja a função reprodutora (uma vez mais, partindo de um homem que se terá abstido da experiência sexual – pelo menos a partir de dado momento na sua vida). Mas segue essa palavras quem quer e na medida em que o dite a sua consciência.

    Experimentemos tentar fazer isso com coisas tão aparentemente terrenas como os regimes fiscais e outras pérolas da obra humana que, esses sim interferindo drasticamente na nossa vida e até na nossa capacidade de gerar descendência, nos são impostos – que não propostos – por tantos homens avançadamente laicos e liberais de costumes.

    A “católica nostalgia” fica com quem a sente e a entende como um coerente guia para a vida. Segue-a quem nisso se reveja. E cabe-nos a nós, como a nossa consciência e discernimento (nossos e não da igreja ou de quem seja) o impuser, aceitar ter filhos para os criar e educar na pobreza, ou só os ter se os pudermos educar na posse dos meios que para tanto nos pareçam o mínimo essencial. A Igreja, ao menos, não nos impõe (já não impõe, pelo menos) a procriação: incentiva-nos a concretizá-la – no que é absolutamente coerente – nada mais. O estado – por entre evidentes progressos materiais na assistência, trombeteados com a fanfarra e a demagogia da praxe, e sonoros protestos sobre o carácter imperativo de um salto na natalidade (suponho, naquelas cabecinhas, que por nada mais do que um crescimento, a uns anos de distância, das receitas fiscais e parafiscais inevitavelmente associadas à nossa existência) – parece fazer o impossível para a impedir com dignidade.

    Deixemos pois o Papa falar que o escuta quem quer e na medida em que lho dite a sua consciência; e ao menos não é um catavento como muito e muito consagrado político e governante. E temamos sim quem nos governa e de facto condiciona irreversivelmente a nossa vida.

    Quanto ao resto, criei dois filhos, hoje jovens adultos, no convívio com animais de companhia (os animais, já agora, também criaturas de Deus). Como fui criado. E só me posso felicitar por essa opção. Conviver com animais torna-nos mais humanos, ensina-nos (ensina-lhes) redobradamente e desde cedo a responsabilidade para com a vida e o convívio com a adversidade, e revela-nos a verdadeira amizade incondicional. Bem poucos homens ou mulheres – e computador algum – no-la proporcionam.

    Costa

    1. O Papa Francisco tem-me inspirado o maior respeito e simpatia, Costa. Mas nesta comunicação não foi feliz, pois presumir que os jovens casais não têm filhos por comodismo, é injusto. Muitos apenas estarão responsavelmente a aguardar por melhores dias para assumir esse encargo.
      Ter um filho é uma enorme responsabilidade e a Igreja não devia desvalorizar isso. Nestes tempos tão difíceis para os jovens achei esta crítica completamente despropositada.

      1. Não discuto, creia, o seu desapontamento. E com filhos entre os vinte e os trinta anos, olho-os e penso que na idade de um deles já era marido, pai e independente dos seus avós. Bem me apercebo como isso por estes tempos é largamente impossível e não por indisponibilidade de princípio da parte deles para chamar a si responsabilidades. Mas sim porque, como bem escreve, aguardam responsavelmente melhores dias.

        Nem pense que concordo sempre com o que emana do Vaticano. Simplesmente parece-me que o Papa, mesmo que numa formulação infeliz, disse o que dele se poderia esperar que dissesse e sem surpresas. A Igreja e a sua doutrina são o que são e nem mesmo o mais informal dos Papas deixa de ser o seu chefe e pode deixar de ver no casamento e na procriação, como seu natural efeito, um pilar inquestionável. Mas segue-o, à letra ou com o distanciamento que a sua consciência e o seu caso concreto impõem, quem quer.

        Não creio que os casais que entendem não poder ainda ter filhos (ou que por razões legítimas os não queiram ter, agora ou noutra altura), desatem agora a procriar, haja o que houver, porque o Papa disse o que disse.

        Mas experimentem esses casais deixar de se curvar e obedecer submissos perante o estado e os seus caprichos insaciáveis, esses sim verdadeiros (e perenes, tudo o indica) dissuasores da independência dos jovens e da natalidade, e verão como pagam essa desobediência…

        Insisto, percebo o seu desapontamento.

        Costa

  11. Ter um bóbi, comprar-lhe comidinha, ir passeá-lo diariamente várias vezes, visitar regularmente o veterinário, ter as vacinas em dia, levá-lo ao instituto de beleza para ser lavadinho e penteado, deixá-lo num hotel de bobis quando se vai de férias e pô-lo numa escola para aprender a obedecer e a comportar-se, é uma coisa de jovens casalinhos mesmo danadinhos para terem um filhinho.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *