O Papa esquecido


Pedro Correia,

 

Pela minha vida já passaram cinco Papas. Vi três deles: Paulo VI em Roma, João Paulo II e Bento XVI em Lisboa. Não estive ainda com o Papa Francisco e João Paulo I teve um mandato tão breve – e hoje tão esquecido – que mal chegou a exercer o magistério como condutor da Igreja Católica. Ele que dizia preferir, acima de tudo, ser “catequista de paróquia”.

Recordo a emoção generalizada – no mundo católico e não só – quando Albino Luciani foi apresentado urbi et orbi como sucessor do Trono de Pedro, a 26 de Agosto de 1978, adoptando um nome composto – e quebrando assim uma regra ancestral – em homenagem aos seus predecessores imediatos, João XXIII e Paulo VI. Recebeu logo o cognome de “Papa do Sorriso” pelos modos afáveis que revelou ao assomar à varanda da Basílica, no Vaticano.

Deixou um rasto efémero e meteórico na Igreja – mas uma memória indelével em quantos o viram sorrir naquele dia estival, contrastando com a gravidade solene do antecessor. É de João Paulo I que me lembro com frequência quando vejo ou escuto Francisco: sinto-os irmanados pelo mesmo espírito fraterno e caloroso. E nunca deixo de me emocionar com as últimas palavras do Papa Luciani – que visitara Fátima em 1977, como patriarca de Veneza – proferidas perante uma assembleia de católicos italianos a 27 de Setembro de 1978.

“O povo da fome interpela de maneira dramática o povo da opulência. A Igreja estremece perante este grito de angústia. (…) Ninguém tem a prerrogativa de usar em exclusivo um bem em seu benefício, além do necessário, quando existem pessoas que morrem por não ter nada.”

Horas depois o sorriso apagou-se para a eternidade, envolto em silêncio e mistério: caía o pano nos austeros aposentos do Palácio Apostólico. O pontificado de João Paulo I durou só 33 dias.

0 comentários em “O Papa esquecido”

  1. Meu caro Pedro
    A minha vantagem sobre ti, foi ter visto João XXIII. Poder dizer que se viveu o tempo suficiente – mais do que suficiente, dirão alguns – para ter tido quatro Papas vivos na sua vida, é obra!

    1. É obra, sim, Helena. No que me diz respeito, cada qual me transmitiu uma impressão diferente, mas sempre intensa.
      João XXI, que já não pude conhecer, foi sem dúvida um dos mais carismáticos e ousados Papas.
      Ainda hoje, navegando na Rede, deparei com o memorável Discurso da Lua pronunciado pelo ‘Papa Bom’ na noite do dia da abertura do Concílio Vaticano II:
      https://www.youtube.com/watch?v=O0Ah9ftdD8A

  2. Parece que vocês estão um pouco enganados. Eu tenho 61 anos e conto sete Papas na minha vida: Pio XII (+1958), João XXIII (+1963), Paulo VI (+1978), João Paulo I (+1978), João Paulo II (+2005), Bento XVI e Francisco… Concretamente lembro-me da morte de João XXIII e de ler no “Século”: “os sinos dobram a morte do Papa João” (eu andava na 2.ª classe…) e de ver na TV a “coroação” de Paulo VI. João Paulo I não está tão esquecido assim. Foi um pontificado curto, sim, mas com aspectos que explicam João Paulo II ou Francisco, como Paulo VI se explica em Bento XVI… Pelo menos deu para conhecermos o seu livro “Illustrissimi”. Uma pérola… Já agora, conheci pessoalmente João Paulo II e Joseph Ratzinger… Nada mau!…

  3. Caro Pedro Correia.
    Agradeço-lhe a recordação e palavras que partilhou.
    Por razões privadas, no Santuário apenas dois familiares.
    Marquei o dia no meu blogue com duas fotografias, das várias que tirei no Santuário há pouco mais de dois meses; à minha maneira, significo com uma delas a vida e os degraus a subir, e com a outra a Luz.
    António Cabral

  4. Dadas as semelhanças que o Pedro Correia aponta entre João Paulo I e Francisco, podemos indagar por que razão Francisco não teve, ainda, o triste fim que calhou em sorte a João Paulo I.
    Será talvez sinal de algum progresso no Vaticano.

  5. Uma nota referente às palavras transcritas de João Paulo I: ele proferiu-as, sim; mas estava a citar Paulo VI, no documento Populorum Progressio.

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