Receio já ter falado superficialmente nisto uma vez. No entanto, como não localizo, fica-me a esperança de nunca o ter feito no DO. A história é verdadeira.
Tenho uma ideia relativamente nítida do meu avô materno, que morreu de repente era eu ainda um garoto. Sei que era médico, que era muito viajado, que fez muita clínica gratuita a muita gente que não tinha meios, que possuía uma biblioteca vastíssima, que comprava livros atrás de livros e que era um humanista, no sentido de se interessar pelas coisas mais variadas, por quase tudo. Sei também que muitos diziam que era dedicadíssimo ao estudo e à actualização do seu exercício profissional e que esse exercício era tão avançado quanto possível, até muito avançado para a época.
Do seu perfil perante a vida e o mundo, sei ainda que esteve uma vez presente (por convite específico, presumo) numa sessão maçónica, mas que recusou integrar-se por detestar rituais. Contudo, era convictamente republicano e laico.
Escreveu e publicou um espesso livro de memórias e viagens; deixou outro por acabar, quando morreu. Interessava-se muito pelo conhecimento de diferentes religiões e dizia achar alguma pureza na essência do Budismo.
Pela minha avó (e pela família, talvez), casou pela Igreja. As duas filhas receberam educação católica e era normal levar a família à missa de domingo. Ficava no carro ou ia tomar um café e levava todos de volta para casa. E lembro-me de o ver na igreja, quase perfilado em sentido do princípio ao fim, sempre que ia ao casamento de alguém.
Sobre o fenómeno de Fátima – e é apenas aqui que quero chegar, para não maçar mais os leitores com estas memórias pessoais e desinteressantes – tinha uma posição muito pragmática que não escondia e que se resume assim: "Fátima não faz mal a ninguém. Como congrega valores que são genericamente os valores que todos cultivamos, Fátima até faz bem. Agora, milagres… Milagre, para mim, seria uma pessoa não ter um braço e regressar a casa com o braço que lhe faltava."
Eis, portanto, um homem esclarecido e culto que se declarava laico e que respeitava as sensibilidades dos outros sem confrontos desnecessários e gratuitos. Um homem que seria incapaz de pensar que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e, menos ainda, de apoucar quem acreditasse de outra maneira.
Em suma: há uns que sabem respeitar, há outros que não passam sem achincalhar. Estes são os que confundem ter o direito de com ser necessário. Porque ser crítico e ter modos não são coisas incompatíveis.

Boa, João.
Aliou a recordação a uma lição de vida.
É uma pena que não escreva mais vezes sobre as suas memórias pessoais.
Agradeço-lhe, meu caro. As minhas memórias são desinteressantes ou não são diferentes das de toda a gente.
Sugiro-lhe que consagre de vez um nome como comentador, para que possamos distinguir os nossos interlocutores.
Há intolerância à crítica nos dois lados da barrcada, João. Daí estas discussões serem sempre muito viscerais. Até os ateus, que se reclamam de maior racionalidade na defesa do seu pensamento têm reacções demasiado acesas. Também acho que devias escrever mais sobre as tuas memórias pessoais. Gosto muito de te ler.
Fico todo babado, Teresa. És correspondida, como sabes. Obrigado.
Excelente sugestão da Teresa. Assino por baixo.
Aqui há uns anos uns tipos acharam que um cometa que ia a passar era a nave que os levaria para a eternidade. Em consequência, vestiram umas túnicas e suicidaram-se.
A relação destas pessoas com aquelas ideias absurdas é provavelmente semelhante às que ligam a maior parte dos crentes à maior parte das religiões.
Apesar de ter por aquelas pessoas o mesmo respeito básico que qualquer ser humano me merece antes de me demonstrar que estou errado, tenho, teria e terei zero respeito por disparates desta natureza.
A diferença para a maior parte das religiões tradicionais é apenas uma questão de grau.
Respeito muito mais, como o seu avô, o budismo que tem a capacidade de dizer: “Se a ciência provar errado um ensinamento do Budismo, o Budismo terá que mudar.” Palavras do Dalai Lama.
Diga lá, com franqueza: V. gosta sempre de se pendurar na lateralidade dos temas, não é?
Com simpatia lhe digo: porque não te vestes tu, diz o roto ao nu.
Obrigado pela simpatia, Paulo.
Suspeito é que o João Carvalho muda o centro do alvo conforme a direcção dos comentários.
Veja bem, L.Rodrigues, o Budismo no meu texto era um detalhe muito afastado do essencial que escrevi. Certo?
Certo, mas isso também era um aparte no meu comentário que, na sua substância, tentava demonstrar com um exemplo algo extremo que há ideias (nomeadamente religiosas) que não podem ser respeitadas (e corrija-me se o respeito não era o centro do seu post.)
No fundo a minha posição, nesta história toda, é que só a confusão entre ideias e identidade permite considerar ofensiva uma crítica dirigida às ideias e não às pessoas, por muito cáustica que seja.
Dizer que fulano é estúpido é algo diferente de dizer que uma certa ideia defendida por fulano é estúpida.
Fulano não vai concordar, claro. Mas se assim não for, o debate de ideias fica contaminado à partida (e aqui vai mais uma lateralidade) como é disso um bom exemplo a guerra entre o criacionismo e a Biologia a que assistimos do outro lado do Atlântico.
Discordo e a coisa fica esclarecida. O que nos divide é que eu respeito sempre, por muito absurda que me pareça certa posição, desde que seja uma opinião de consciência e individual.
Há um meio termo? Acho que há, mas também já vi que não estamos de acordo. É que, se parecer importante ou até necessária uma intervenção em matéria de consciência e individual, eu defendo que ela seja feita pela via pedagógica, por exemplo, e não pelo achincalhamento ou outra atitude eventualmente ofensiva. Esta, de resto, tem duas desvantagens: eriça o adversário o tende a extremar posições; ninguém gosta de ser ofendido.
Em conclusão: nenhum de nós é estúpido, mas corremos o risco de nos faltar lucidez e expormos uma ideia estúpida. Ora, se fosse eu, V. diria calmamente que a minha ideia é estúpida. Ao contrário de mim, que não o faria consigo, por não afrontar os outros com modos que não desejo para mim.
É simples, portanto. Ficamos assim?
Com certeza.
Na verdade não discordamos nesse ponto. Eu não me viro para a minha mãe a dizer-lhe, mesmo com toda a ternura que me merece, que aquilo em que acredita é um disparate.
Mas se ela me lesse aqui, paciência. Ao contrário das pessoas, não creio que as ideias tenham sentimentos para serem poupadas. Mesmo que milhões as considerem queridas.
Faço portanto uma diferença entre debater as convições de uma pessoa concreta, ou questionar em abstracto geral. Não discuto a fé da minha mãe, mas a ideia de que ter fé é só por si bom.
Ora bem. O que não é propriamente achincalhar nem insultar. Portanto, V. não faz o que Saramago faz. E é a atitude dele que me eriça.
Excelente texto meu caro, quase que vislumbrei o meu próprio avô nesta prosa, o ar enfadado dele, enquanto aguardava, lendo, para matar a tarde, “O Diário de Lisboa”. Eu, um pirralho curioso, à porta da igreja, cuscava as notícias que sobejavam. Já ele, sei-o hoje, aguardava meramente o regresso da mulher que o tinha escolhido para marido: a minha avó, provavelmente, parecida com a sua, também ela uma mulher com “m” em caixa alta.
Sem dúvida. Grato pelas suas palavras.
Acordo com vontade de ser várias pessoas:)
Mas…sugestão aceite.
Finalmente. Hehe…
Espero sinceramente, que não seja para mim “o direito de”, João.
Longe de mim, Leonor. A tua escrita serena e sensata é reconfortante. Se há algo que me inspira não é o pleno acordo, mas o convite à reflexão que nos amplia a mente para eventuais novas conclusões.
🙂
Ainda bem.
A história recorda-me de alguns casamentos católicos em que participei como convidado, recorda-me da minha posição de discreto assistente mas não participante, respeitando a opção dos protagonistas.
Recorda-me também das pressões de que uma criança, por sinal minha filha, foi alvo no colégio e na família chagada para que se deixasse baptizar. Vejo-me ajoelhado aos pés dela, junto ao sofá onde estava sentada sem conseguir ainda chegar com os pés ao chão e perguntar-lhe se queria mesmo ser baptizada. Disse-me que sim (que mais podia fazer? Tinha 3 anos e muita festa prometida), baptizaram-na. Não participei na cerimónia, fui por isso alvo de muitas criticas. A criança tem hoje 19 anos, equilíbrio, responsabilidade cívica e tino que numa certa fase até me assustou, tive medo ter ter uma ‘croma’ por filha. O tempo passou e felizmente fez as pequenas asneiras a que tinha direito, professa hoje os mesmos valores humanos que eu, ateu, professo e nunca deu à religião mais do que a pressão social dela exigiu quando a inocência dos seus 3 anos viu no baptizado uma bela festa.
Er… Só uma dúvida: na família “chagada”, de chaga, ou na família “chegada”, de próxima?
Tem dias…e gralhas também. Onde se lê:…que eu, ateu, professo…, leai-se ‘ateu, confesso’
“Ateu professo” tem a sua graça…
Hehe…
Você, Paulo Quintela, saiu do seu caminho e deu-se ao trabalho de me “cuscar”, coisa que, naturalmente, me desconfiou, ou não fosse neto de quem sou, produto duma cultura humanista, ou talvez esteja equivocado e apenas me interesse por Corto Maltese.
Mas enfim, permaneça agnóstico, firme, irredutível; já eu, para além de ser um devoto leitor do “delito” («tem dias») também me agrada imenso cuscar o que escrevem outras pessoas que valem a leitura,
abraço.
Será hoje o Dia Nacional dos Avôs?
Não entendi o sentido que pretendeu dar ao ‘cuscar’, quer esclarecer-me? Esca+pou-me completamente.
Quanto ao resto sou firme mas não irredutível, se o fosse não debatia, limitava-me a escrever no meu blog com a funcionalidade dos comentários desligada. Limito-me a expressar com liberdade aquilo que penso, de resto, como qualquer teísta o faz.
E o Paulo Quintela recorda-me as minhas filhas a querem o 2 em 1 (baptizado e comunhão) aos 8 anos. Sem pressões da família chagada ou chegada, mas com o desejo de pertença ao grupo dos amigos do colégio católico que frequentavam. Em anos sucessivos lá tratei dos baptizados, que o abade das Antas transformou em epopeias (o Carlos aqui do Delito, se ler isto, percebe logo) e o colégio das comunhões. A súbita religiosidade foi sol de pouca dura. Acho que se esfumou, mal as festas acabaram.
O padre das Antas? Há mais quem perceba, Maloud.
O homem (paz à sua alma) era um tratado:)))
Hehe…
Não só percebo, como recordo algumas animadas conversas que o meu pai tinha com ele.
Concordo que era uma “figura”( nunca me esqueço da Avé Maria que ele nos obrigava a rezar no final da catequese, para pedir a vitória do FCPorto ao domingo) e uma senhora muito devota que anda lá por casa e não falta à missa das 11 nas Antas, conta umas histórias muito interessantes.
Muito interessante, Paulo. Sei o que isso é. Uma criança não tem capacidade de escolha consciente e o meio que nos cerca faz-se sentir. Em contrapartida, só para que possamos dormir melhor, nada garante que mesmo como adultos estejamos senhores de uma verdade tão ampla que nos permita a escolha acertada. Tudo permanece relativo, afinal.
Felizmente tudo permanece relativo, o que nos permite de algum modo aproximarmos-nos da ‘felicidade’ mas a verdade é que raramente crianças inscritas no Benfica ao nascerem passam em adultos a ser adeptos do FCP ou vice versa. Coisas do marketing, a banca faz o mesmo, nalgumas faculdades o cartão de aluno que permite o acesso à biblioteca está ligado ao cartão de multibanco da CGD…há muitas formas de condicionar os ‘clientes’.
É certo o que diz: no fundo, não pertencer ao grupo não é fugir à cultura que nos cerca. Também é certo quie V. está muito mais compreensivo e calmo do que ontem, nestas matérias. Hehe…
Só toco Jazz com jazzistas, quando a musica me dão é clássica, tendo a responder no mesmo tom. Até os ateus são humanos por estranho que lhe possa parecer.
Humanos? A sério? Curioso… Nunca tinha pensado nisso…
João, não sei já tinha falado nisto aqui aqui no DO, eu é que não tinha tido a oportunidade de o ler. Ainda bem que repetiu a dose:)))
Obrigado, Ariel. Se já tinha, foi noutro contexto e só de raspão.
Gostei imenso de ler, João. Tal como já foi referido também assino por baixo no “escreva mais assim” se lhe apetecer 🙂
E remata lindamente, criticar e ter maneiras tem a ver com a maneira de ser; não com o saber usar meia dúzia de ironias próprias ao achincalhamento do alheio.
Não posso estar mais de acordo, Catarina. E obrigado pelas suas palavras.
Gostei muito de ler a história do seu avô, João, mas permita-me discordar de uma coisa. Aquele joelhódromo não deve fazer nada bem às articulações:)))
Não deve, não. Mas deve fazer bem a quem acredita, Maloud. Quem o faz, não anda a fazer mal ao seu semelhante e consegue gerir a vida para ter tempo para reflectir nos seus valores, sejam eles quais forem. A introspecção só faz bem.
Concordo que deve fazer bem a quem acredita, João, mas nem vou dizer como sinto Fátima, desta vez mesmo por uma questão de respeito e para não chocar ninguém.
Entendido, Leonor. Provavelmente, nem temos uma opinião muito diferente.
Eh eh eh
Será João?
Será, João?
A falta que faz uma vírgula 🙂
Entendo-a sempre facilmente, com ou sem vírgulas. À Saramago, a bem dizer. Hehe…
(Sim, sou pouco compreensivo no que toca ao que referiu e a coisas do género. Guardo a compreensão apenas para quem acha que assim é que está de acordo com as respectivas consciências, já que são atitudes individuais.)
João ,obrigada por partilhar esta história da sua vida com todos nós. 🙂
Sou eu que agradeço o seu comentário, Ana, que só aceito como um cumprimento.
Caro João:
Depois de alguns dias ausente, em que muita coisa se escreveu sobre os comentários infelizes do nosso Nobel (acho que ele quer que se diga Nobél), que só agora li e, por isso, não pude comentar, eis que aqui nos trazes uma história simples mas edificante acerca de um homem pleno, que era o teu avô materno. A educação que terá tido e a tolerãncia que terá sabido cultivar ao longo da sua vida, são precisamente tudo aquilo que Saramago não teve nem soube cultivar. As diferenças são por isso abissais e, como dizem os ingleses ‘to be a man of well and taste, is not for everyone’. O direito a criticar nada tem a ver com o direito a insultar e provocar. Infelizmente, nem todos podem ter bom senso e bom gosto.
Um abraço.
Creio que é isso mesmo, Luís. Ainda bem que reapareceste.
Grande abraço.
Esta história que aqui nos relataste, trouxe-me à memória também a vida do meu avô materno. Ele era o único farmacêutico (numa terreola aonde, então, não havia nenhum médico – anos 20 e 30) e por isso, a ele lhe foram solicitados muitos cuidados de saúde que ele, tal como o teu, dispensava gratuitamente a quem não lhos podia pagar, inclusivamente com a medicação necessária que levava da sua farmácia. Segundo me contavam a minha mãe e tias, chegava a fazer deslocações de dezenas de quilómetros a cavalo (não tinha carro) para, graciosamente, acudir aos infelizes que tinham necessidade da sua ajuda e que, ao tempo, parece que eram muitos. Era um João Semana, portanto. Além disso, era também político da terra (foi presidente da Câmara) e, contaram-me também, que quase desgraçou económicamente a família com estes seus altruísmos, pois, naquele tempo, ser político significava, além de nada se receber, ainda gastar algum do que se tinha com estas actividades. Ia a Lisboa, de cartola e com a sua melhor fatiota, a expensas suas, para pedir melhorias para o seu concelho, nomeadamente a implantação da luz eléctrica, do telefone e até a construção de um aeródromo que servisse o Porto, que depois, muito mais tarde, viria a ser feito em Pedras Rubras. Muito parecido com os políticos de agora, não é verdade?
Temos de concluir – decididamente- que o mundo dos nossos avós já não existe e que também já não existem homens como eles. E é uma pena.
De repente, parece que instituímos hoje aqui o Dia Nacional dos Avôs.
Já não existe esse mundo, ainda tão próximo e já tão longe. Com vantagens e desvantagens, Luís.
O Dia dos Avós comemorou-se a 26 de Julho, João. É uma data que apenas se começou a assinalar há meia dúzia de anos em Portugal e que, com grande desgosto dos actores da sociedade de consumo ainda não criou raízes em Portugal.
Gostei do texto, porque nele revi os meus avós. Nenhum deles era praticante e ambos aceitavam a religiosidade das suas mulheres. Só que cada um à sua maneira. Enquanto o avô paterno era tolerante e compreensivo, o avô materno tecia considerações pouco abonatórias à Igreja Católica que ilustrava com exemplos práticos.
Gostava igualmente dos dois, porque em ambos compreendia a razão de serem assim. Mas isso era no tempo em que eu era tolerante…
Sim, sim. Eras um intolerável tolerante antes de seres um perigoso esquerdista ateu.
Eu sei quando é o dia ‘comercial’ dos avós, mas este nosso teria a vantagem de não ser para consumo material.
Obrigado pelo teu comentário, Carlos.
Excelente testemunho sobre um homem são e lúcido.
Obrigado por dizê-lo assim, meu caro.
A tolerância exemplar de… uma história verdadeira
A tolerância exemplar
é um sinal de elevação,
sem ter que propalar
a sua genuína erudição.
São histórias verdadeiras
sem truques publicitários,
fugindo das brincadeiras
de pensamentos sectários.
Sempre atento, meu caro. Fico grato.
Obrigada por partilhar uma das suas memórias.
Eu não conheci o meu avô materno, morreu em 1950, eu não era nascida; a minha avó falava-me muito nele e encontro muitas semelhanças com o seu avô.
O meu avô tinha uma fábrca de calçado (aqui não há semelhança), casou, pela igreja, com a minha avó, mas contestava muito a religião. Era muito amigo do padre da freguesia, e uma das coisas em que tinham grandes discussões era por a missa ser em latim. “Porquê em latim se a maioria das pessoas não sabe ler ou escrever? O padre está lá xiripitátá dominus bobiscum e as pessoas estão a rezar o terço. Com a missa em latim não podem participar”. A respeito de Fátima, eu concordo com ele, aquilo não passa de um engodo para arrecadar fortunas, mas respeitamos quem tem fé e quem vai a Fátima, mesmo a pé.
O meu avô praticava e não pregava a religião e, nisso, graças a Deus, eu saio a ele.
Muito bem, Virgínia. Assim partilhamos avôs e não só: partilhamos memórias que são também vidas e histórias de vida.
Sem querer abusar da tua paciência, gostaria de saber, como a Leonor, se por acaso o “ter direito de” se aplica a mim. Sinceramente, espero que não.
Eu acho que era a mim e outros como eu. Não me incomoda. Ás vezes é “necessário” lembrar que temos “direitos” exercendo-os. A falta de uso tende a marginalizar o acto.
Não se deite a adivinhar, L.Rodrigues, e não se faça vítima, vá lá. O que V. diz sobre «necessário» e «direitos» é metido mesmo a martelo.
O tratamento que tenho dado ao tema refere-se especificamente a Saramago. Posso ser injusto sem querer, mas não me passaria pela cabeça tratar mal um dos nossos prezados e costumeiros comentadores, como é o seu caso. Por muito que a discórdia nos oponha. Entendidos?
Não me senti vítima, de todo, caro João Carvalho. E aqui prometo deixar as nossas discórdias para um outro post e um outro assunto, não me esquecendo no futuro de sublinhar as concordâncias. É que isto de comentar só para protestar acaba por nos corroer a imagem.
Combinado.
Sinceramente, não! Hehe…
Nem entendo a dúvida, porque não consigo imaginar-te a achincalhar o próximo, por muito desabrido que fosses na abordagem a um qualquer assunto.
Achincalhar não é realmente meu hábito, João, mas reconheço que sou muitas vezes desabrido. Nisso herdei os genes do meu avô materno, conhecido no Porto inteiro pelo seu mau feitio, quando lhe pisavam os calos ou lhe queriam enfiar alguns barretes.
Herdei pouco da bondade e tolerância do avô paterno. Tenho pena, mas não me deram oportunidade de escolha…
Definitivamente, um perigoso esquerdista ateu e desabrido. Vá lá. Já encontrei pior…
Se assim sou, o devo ao mal que a Igreja me fez e, principalmente, ao que vejo continuar a fazer em todo o mundo Uma instituição que proclama o amor e protege alguns dos seus agentes assassinos , delatores e pedófilos, não me merece qualquer respeito. Como não me merecem qualquer respeito padres e outros militantes da sotaina que se comportam com pessoas humildes e tementes a Deus, como verdadeiros exploradores e agiotas
Não vou aqui contar casos escabrosos que conheço, mas um dia que esteja contigo terei o maior prazer em contar-te alguas histórias. Se estiveres interessado, claro, mas como já li nesta caixa de comentários que não consideras os ateus humanos, talvez não estejas interessado em falar comigo e conhecer o lado negro e podre da Igreja Católica. Não a do tempo da Inquisição, mas a actual.
Infelizmente, o fanatismo cega as pessoas, mas na verdade já vi pior.
Gostei imenso de ler as tuas memórias e junto-me ao coro: faz isso mais vezes. O teu avô lembra-me a minha mãe, uma geração depois. Não na falta de fé mas em tudo o resto.
Só respeita os outros quem aprendeu a fazer isso. Não é o caso de Saramago, pelos vistos. Pior para ele.
Passei o dia a estranhar a tua ausência. Finalmente, sinto-me aliviado e de bem com a vida. Vou já celebrar com um verdelho. Obrigado, Ana.
Tive um dia complicado. Mas ainda venho a tempo de brindar com esse verdelho. À nossa!
Os amigos vêm sempre a tempo. À nossa!
O que é que eu posso dizer depois de 64 comentários? Gostei muito, balhamedeus!
:)))))))
Os amigos nunca estão atrasados, Maria do Sol. Nem precisa de dizer. Ter vindo aqui é já uma recompensa. Obrigado.
João
Gostei muito desta sua memória do seu avô materno que me deixou nostálgica.
Tenho saudades de pessoas assim, cultas e consistentes, que revelavam maturidade e tolerância, valores praticamente em extinção no nosso país.
Sim, tenho muitas saudades porque os valores agora em voga não contemplam a amabilidade e a generosidade entre os homens…
Obrigada.
É um gosto grande merecer essas suas palavras, Ana. Sou eu que agradeço.
Adorei e li deliciada!
Vi-me quase na mesma época, com algumas memórias semelhantes e outras apenas passadas por outros. Ou acabadas de ler.
Um espírito brilhante, o respeito que deveríamos exigir a cada um de nós, já que ao ler isto tudo por aqui abaixo, nem em poucas linhas as pessoas evitam ser contundentes. Porque para além do cristão, do agnóstico, do budista e outros quejandos, existe o “estar”, o respeitar, a tolerância, os sentimentos, o que de forma popular, chamamos de “bom coração”.
No fundo, a nossa vida deveria ser orientada como ser humano e não com etiquetas ou bandeiras. e aqui está o exemplo mais puro disso mesmo.
Parabéns, sugiro a continuação …
Como sabes, tentando sempre cumprir com o que é correcto, independentemente de ser cristão por opção (o que também existe, creia-se …), adoro este pensamento: há duas formas de ver a vida; uma, é acreditar que não existe milagre; a outra, é acreditar que todas as coisas são um milagre”.
Lembraste muito bem.