Se algum filho da puta vier dizer aqui que "os médicos também adoecem e morrem, conforme os coveiros também dão enterros razoáveis, portanto helooow!, qual é o problema?" que fique sabendo que não lhe respondo, que apago o c… do comentário e que, a seguir, rezarei para que esse filho da puta se desgrace e cague torrencialmente sangue, derivado a um divino e grosso toro que lhe penetre a anilha, tão fundamente como puder ser – este é um excerto de um longo post assinado por Besugo, um veterano da blogosfera, médico de profissão. Assumidamente perturbado pela notícia de um cancro que afectou uma sua colega, queixa-se de, entre outras coisas, trabalhar pelo menos, 24 horas por semana – seguidas – na urgência.
A seguir, vêm os comentários. Destaco este: Deste seu post, é só substituir a palavra médico por professor/a e doente por aluno (pesem embora as devidas diferenças). Talvez a partir deste simples exercício lhe seja mais fácil avaliar o que me vai na alma. E este: Cheguei a casa estafado de dois dias de trabalho infernal. Como tu, servidor público, do mundo da Justiça. Li-te e arrebitei. No total são 22, na sua maioria de felicitações, identificando-se com o tom do autor do post.
Convido-os a ler tudo, apesar do tudo, aviso já, ser constituído por um longo chorrilho de impropérios. O interesse está na reflexão que nos propicia tão inusitado desabafo. Há ódio nestas linhas, uma raiva infinita que é fruto de muito ressentimento contra os "utentes". Isto é preocupante e dá muito que pensar.

Um absurdo. Ressalvo: se meio mundo anda a passar-se, é altamente provável que isso tenha correspondência em todas as profissões e na própria blogosfera.
O problema é contarmos com profissões que era suposto serem como que sacerdócios, na dedicação, senso e entrega à causa dos outros. Temos de nos pôr a pau e ser mais selectivos, porque os riscos estão a crescer desmesuradamente. O médico em apreço que se trate, para provar do seu próprio xarope.
Leio o Besugo há anos (já, já tinha lido o desabafo) e gostava de viver na Régua para o ter como médico. O interesse é tal que já pedi a família e amigos do Douro, alguns médicos, que me descodificassem aquele extraordinário nick.
O João dê uma volta pelo Blogame Mucho e pelo Gravidade Intermédia e julgo que me dará razão.
Ok, lá irei.
Assim à sorte, João, que eu não tenho muito jeito para estas coisas equiem.html
http://chumo.blogspot.com/2009/01/um-boi-o-r
Obrigado por me ter facilitado a vida, porque estes dias têm sido de fraca disponibilidade. Assim de repente, achei um bocado surrealista. Mas gostei: é um deambular um tanto vadio, mas muito de autor.
Permita-me que exponha uma suspeita: este para onde fez o favor de me dirigir é de um médico; o é mecionado pela Teresa Ribeiro neste ‘post’ não é de um médico. Cheira-me.
O Besugo é médico na Régua. Durante anos esteve no Blogame Mucho a três, para o fim só ele lá escrevia e depois de um longo silêncio reencontrei-o no Gravidade Intermédia a solo.
No post aqui linkado, acho que ele se passou. Às vezes passa-se. Principalmente com o Sporting. O post anterior tinha aquele laço rosa da campanha do cancro da mama e dizia mais ou menos isto: Vai correr tudo bem.
Os meus lá do Douro julgam saber quem ele é e dizem-me que é uma excelente pessoa.
A questão é: quantos médicos andam a precisar de se tratar? Se algo se infere daqui é que o sistema está profundamente errado e anda a afectar médicos e utentes. Sou muito crítica em relação ao desempenho dos médicos. Entendo que se não têm vocação para lidar com gente, que se dediquem à veterinária. Mas também penso que não podem trabalhar sem condições. Essas horas infinitas de trabalho inimperrupto, por exemplo, não deviam ser permitidas. São um risco para a saúde dos médicos e dos próprios utentes.
Está deprimido, o tipo. Devia ir ao médico.
O pior, Javali, é se o médico que vai consultar também está deprimido.
O que há mais é profissionais que têm de adiar sistematicamente a resolução dos seus problemas pessoais por falta de tempo. Com a agravante de que têm de andar com a cara alegre, porque dependem de patrões que não lhes perdoam a falta de profissionalismo que é andar de trombas no escritório. Esta cultura é transversal, por isso não me comovem as lamúrias dos médicos, dos professores e dos juristas. So what? Também faço directas a trabalhar e, ao contrário dos médicos, que empocham bem por cada banco que fazem, não ganho um tostão a mais pelas noites que não durmo. Cumprimentos.
A mim, assusta-me este desabafo.
Assusta-me, ainda, que aquele médico destile a sua raiva sobre os doentes quando sabe, ou deveria saber, que sem eles não teria aquela profissão.
Mais, assusta-me que como profissional que é, ou deveria ser, não coloque as questões superiormente. Ou colocou? O quê fez para criticar e pedir que as coisas mudassem? É director de serviço, segundo diz. Logo, terá muita, alguma, capacidade de contribuir para a mudança.
Depois, se a raiva que ele destila tem como causa o que aconteceu a uma colega sua, é pertinente que se pergunte: que raiva devem ter os amigos e familiares dos outros doentes?
Será uma raiva legitimidada, obviamente, atentos os critérios daquele senhor.
Portanto, vamos todos enraivecer-nos!!
Há um filme agora em cartaz, intitulado ‘O Dia da Saia’, que recomendo. Tem precisamente a ver com este tema da ‘gota de água’ que um dia chega e faz transbordar o copo. No caso, é uma professora que ultrapassa os limites do suportável, após anos de insultos e enxovalhos, e sequestra uma turma inteira. Acontece em todas as profissões – e, naturalmente, acontece também com os médicos. Pior ainda quando acontece em profissões que envolvem armas de fogo, como sucede com frequência com os polícias.
Lembras bem. Os polícias têm a agravante de andar armados. Felizmente que isto não é como nos States, se não desconfio que ja andaria para aí mais gente aos tiros. Impressionou-me muito a prosa transtornada do Besugo, mas também ler aqueles comentários, de profissionais diferentes a responderem-lhe “amen”. Cruza isto com o aumento no país do consumo de anti-depressivos e ansiolíticos e obténs um quadro interessante…
Mas o homem acha que não fica doente??? Coitado está meio lunático…
Os médicos estavam habituados à constante reverência dos doentes. Agora estranham, porque felizmente as coisas estão a mudar e as pessoas já os vêem como profissionais como quaisquer outros e cobram-lhes a incompetência quando ela se manifesta. E exigem boas maneiras, que é o que se exige a qualquer um. E respeito que é o que merece um ser humano, sobretudo na doença. Não gostam? Habituem-se!
Tenho os ouvidos um bocado endurecidos para médicos, professores, juristas, enfermeiros, juízes, etc..
Qual será a proporção do stress dos médicos e enfermeiros que decorre de há 4 anos lhes terem dito para lavar mãos – nenhum, todo, algum?
E o stress dos professores? Também terá um contributo de todos terem que trabalhar até depois das 15h? E ter que se preocupar com o serviço que o colega não fez?
E os enfermeiros ainda estão stressados porque a bata não é branca ou porque alguém lhes disse que não podem usar no serviço brincos, fios e relógios?
E os juízes será que estão stressados porque têm que pagar pelos erros grosseiros?
A falta de ética, de brio e de profissionalismo dá nisto: queixas que caem em saco roto – porque o saco está roto; gasto; consumido; cansado e de algibeiras vazias.
Há quem se sente em cima da bola e se queixe que não há futebol e há quem meta as mãos na massa sem pedir nada.
Li por alto o post e achei horroroso.
O médico tem problemas laborais e, aparentemente, pessoais, e põe-se a disparar em todas as direções, de forma irracional, mas com especial ódio sobre os seus utentes. A chamar filho da puta a todos e mais alguns, como se todos esses utentes tivessem culpa dos seus problemas.
Os utentes do médico não têm culpa de que ele seja obrigado a trabalhar muitas horas seguidas. Tembém não têm culpa de que a mulher do médico esteja com um problema de saúde grave. Também não têm culpa de que o médico não tenha realizado os testes que deveria a tempo e horas – e nem é certo que tais testes tivessem despistado o problema de saúde. Os utentes não têm cumpa de nada disso. Mas, os utentes do médico têm o direito de querer ser bem atendidos, independentemente de o médico andar com problemas ou não. Certamente, os utentes do médico têm o direito de que ele não vá para a internet chamar-lhes “filhos da puta” por atacado.
Enfim, um caso muito triste. Lamento muito os problemas do médico, mas nada justifica este tipo de reação.
Leu por alto e não percebeu nada.
Impressionou-me imenso este desabafo descontrolado e raivoso contra os utentes e também os aplausos nos comentários. Talvez seja só uma fúria passageira, mas mesmo assim não me inspira a mínima confiança na profissão que está em causa. Sou filha de médica e toda a minha vida assisti a um enorme respeito pelos doentes (que era retribuído), para além de um autêntico sacerdócio que se traduziu no tratamento e assistência a populações pobres que não tinham quase nunca com que pagar as consultas. Uma vida difícil? Muito, mas também muito compensadora a outros níveis. Penso que essa noção de missão, mais do que profissão, se está a perder. E é gravíssimo que assim seja: há profissões especiais, que requerem capacidades e perfis especiais, quer queiramos ou não. O que leio neste post, para além da frustração da falta de condições para exercer a profissão com qualidade, é a frustração da própria escolha da profissão. E isso é preocupante.
Não vou espreitar e, confesso, não me dá que pensar. O homem (bem sei que se trata de um médico) não está bem e precisa de tratamento, pelo que li deste seu post. Mas, por favor, não generalizem. Um médico não são médicos. Ou melhor, vou lá e vou enviar o link do blogue à Ordem dos Médicos, assim é que é. Estes casos não vão lá só com conversa, leitura e comentários.
Fiquei bastante triste ao saber (e vir ler) dos comentários que o que escrevi há uns dias desencadeou neste blogue. Que, aliás, leio há muito.
Peço apenas uma coisa: aceitem o facto de um homem (seja qual for a sua profissão – no caso falava de mim, portanto da minha) poder ter momentos em que uma profunda tristeza, um grande cansaço e muita revolta o levam a desabafar em textos, provavelmente mal escritos, se calhar com alguns impropérios, mas que o faz, exactamente por isso, apenas e só no seu blogue. Dêem, pelo menos, o benefício da dúvida a quem. E nunca no seu trabalho, que exerce o melhor que sabe há bastantes anos. A menos que nenhum dos senhores tenha momentos de algum desespero, ou, em os tendo, evite passá-los para o papel – como se se exorcizasse.
Se for assim que continuam a pensar, depois desta explicação – que aliás já dei lá, no meu cantinho – resta-me pedir desculpa a quem se sentiu ofendido. E em lugar de escrever, nesses momentos de dor, fazer como faço, afinal, quase sempre: desabafar apenas com a mulher e os filhos.
Desculpem, mas penso sinceramente que não mereci tão severo julgamento.
E fico, acreditem, sinceramente triste com isto tudo.
Não vi aqui um julgamento, meu caro. Houve, sim, apreciações severas, mas isso é natural e legítimo. De resto, quando escreveu o que escreveu, estava em sua ‘casa’, tinha esse direito. Não deixa de ser estranho, mas é muito mais razoável agora, que entendeu vir aqui explicar e desculpar-se. Por mim, não era preciso tanto: estaria entendido com muito menos. Todos temos os nossos dias. Como dizia o outro: É a vida.
Abraço.
O que posso dizer, Besugo? Percebe-se que o texto do seu post reflecte uma situação de enorme tensão – que aliás especifica e eu citei – mas também muito ressentimento acumulado, que numa hora de maior desespero se soltou. Foi isso que me impressionou enquanto… utente. Perguntei-me quantos são os médicos que se revêem nas suas palavras e considerei esta sua explosão um sintoma de que algo vai mal entre doentes e médicos do SNS. É importante reflectirmos nisto todos, porque, está visto, há muita tensão acumulada de parte a parte.
De resto, subscrevo o que João Carvalho já aqui disse. Palavra por palavra.
Eu não me senti ofendido, caro Besugo. Apenas preocupado. Não vou enveredar por explicações. Esqueça a parte final do meu post.
O Besugo não esqueceu, Mike. tml
http://agualisa6.blogs.sapo.pt/1566031.h
Sigo há muito o Besugo. O post em causa tem que ser contextualizado. Quer nas suas causas quer no seu estilo muito próprio. É um homem bom, com uma enorme sensibilidade, um escritor único e que muito gostaria o ter como médico.
Mas quanto às suas qualidades, o mucho aí está para lhe tirar o retrato.
.
Encontrei há relativamente pouco tempo o besugo, ainda no Blogame Mucho. Raramente comento e sempre como anónima porque sou preguiçosa. Mas toda a minha preguiça não me impede de vir aqui partilhar convosco um dos posts mais extraordinários que já li na blogosfera, ou fora dela (sim, que não é todos os dias que alguém nos dá o privilégio de olhar para dentro dele). E se algum dos senhores disser que não gostaria de ser acompanhado por um besugo assim na sua rampa inclinada, eu não acredito:
“…
Hoje morreu. Ia dizer “morreu-me”, mas já não. Aprendo tarde, mas ainda aprendo.
Ela morreu, sim.
E morreu-lhes a eles, ao homem e aos três filhos, que lhe abraçaram o corpo e lhe beijaram a face como se as lágrimas do fim fossem loção que oleasse despedidas.
A mim, não. A mim não me morreu.
Limita-te, besugo, para já, a acompanhar as rampas inclinadas dos outros. Aprende: tu só acompanhas.
Até sentires que começas a descer a tua – olha, pode ser de repente, besugo, pode ser como foi com o Rui, o teu colega que foi hoje a enterrar, podes até nem dar muita fé da rampa, da ladeira, besugo lorpa.
E, quando isso te chegar a ti, que tenhas alguém que te chore em cima uma loção qualquer de adeus.
…”
http://chumo.blogspot.com/2009/01/mal-ou-a o-menos-mais-ou-menos-este.html
frequento o Gravidade Intermédia há bastante tempo, pelo que aquele texto de desespero não me chocou, há lá tantos outros que dizem da personalidade do autor, da paixão e da sensibilidade que põe no que faz.
Todos temos os nossos dias não e os nossos momentos de desespero e quando se lida com a vida e a morte penso que não serão menos frequentes que em qualquer outra actividade profissional.Não percebi bem a força das zurzidelas que li por aqui, mas a julgar pelos comentários já há alguns arrependimentos.
Nem parece coisa deste blog…
O que não parece coisa deste blog, Maresia? O post do Besugo, mesmo que escrito sob forte tensão, revela que nem tudo vai bem entre os médicos e os utentes do SNS. Ou acha que daquele texto se pode inferir outra coisa? E assim sendo considerei, sim, relevante comentar e trazer à discussão o que li. Não me arrependi. Não tenho nada do que me arrepender. Apenas correspondi, creio que com a devida simpatia, ao comentário que o Besugo aqui nos deixou.
Como não costumo ler este blogue (o que não é um julgamento, é que simplesmente nunca vim cá parar), não posso dizer se “é coisa deste blogue ou não”. Mas ler o post do besugo em termos de relações entre “médicos e utentes do SNS” é extremamente redutor, como o é chamar utente a um doente. É óbvio que tanto a Teresa Ribeiro (que eu leio pela primeira vez, note-se) como a grande maioria dos comentadores aqui se sentem infinitamente mais confortáveis a discutir os problemas dos utentes do que dos doentes. É por isso que os posts do besugo incomodam, porque ele não fala de utentes, fala de doentes, que umas vezes estão dum lado da secretária, outras vezes estão, ou fatalmente estarão, do outro lado. É também por isso que estamos mais pobres, mas muito mais pobres, agora que o besugo parece ter decidido que não estamos em tempos para abrir a bata e o peito e falar de doentes e da sua doença mortal, que é a vida. Falemos pois de utentes, como mandam as regras de bem viver em sociedade.
“…Contudo, isso não encontra eco nos utentes (prefiro cada vez mais chamar-lhes assim, uma vez que – cada vez mais – disso não passam, mesmo que muito doentes)” – este é um excerto do post que citei do Besugo, cara IsabelPS. Vale como respsta ao seu comentário.
Fair enough.
Mantenho o que disso, porque faz parte da hipérbole desse post, acho eu. Mas reconheço que é uma interpretação minha.
Já não há Gravidade Intermédia, IsabelPS.
Seremos todos utentes deste triste país e desta triste blogosfera.
Citando a Sofia Loureiro da Costano “Defender o quadrado” (outro blog aonde fui parar pela primeira vez exclusivamente por causa deste besugo):
“Transformar esse grito de dor num texto de desvario de um indivíduo doente, de alguém que não respeita os doentes e que é perigoso, de alguém que merece ser desprezado porque teve a fraqueza e a força de se confessar em público, isso sim, eu acho muito preocupante.”
Ela acha preocupante, outros ficarão extremamente aliviados por agora entrar tudo nos conformes da conformidade
São as contradições no nosso tempo:
Critica-se Saramago por não saber descodificar as alegorias bíblicas e por outro lado julga-se e condena-se o besugo ignorando que a sua escrita não deve, nem pode, ser lida “literalmente”.
Só os seus seguidores habituais sabem o que perdem.