A moda da stand-up comedy tomou conta deste país, decididamente. De repente, tornámo-nos um povo de cómicos, debitando piadas em qualquer palco, com qualquer público que se preste a ouvir-nos. Já não bastava as estrelas da canção que todos os pais portugueses julgam ter em casa, e que promovem com a convicção inabalável de chegar a ver lançadas no estrelato internacional as suas pequenas Madonnas, agora descobrimos a nossa veia de comediantes. Sobram-nos os motivos e os temas, é certo, sobretudo no que toca ao humor negro. Mas falta-nos quase sempre aquela dose mínima de sofisticação, de ironia e de subtileza que faz dos ingleses os reis da graça inteligente. Há excepções, evidentemente, mas essas são conhecidas e reconhecidas. A maioria é um desastre.
Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota (registo em que éramos bons, pelo menos) com uma confrangedora colagem ao humor que aprendemos – mas não apreendemos – com a infindável repetição de séries americanas. Que também as há óptimas, não duvido. Mas que não nos basta passar a beber café por uma caneca, comer hamburgers com ketchup e andar em casa de meias de lã com sola de borracha para nos transformarmos em genuínos Seinfeld’s, disso também não tenho a menor dúvida. Chega a ser deprimente o desfile de mediocridade de hordas de aspirantes a “cómicos” nos canais televisivos, absolutamente seguros do seu talento, como se a comédia não fosse a mais difícil e ingrata das artes de palco.
O fenómeno é irreversível, e já ultrapassou há muito as fronteiras do razoável. Relato-vos um caso que presenciei, há pouco tempo, numa missa de sétimo dia. Sim, é verdade: a “piadomania” também já chegou à igreja, e manifesta-se nas alturas mais inconvenientes. Perante uma assembleia consternada por uma morte prematura, duríssima, o padre resolveu fazer-se engraçado. Disse, entre outras inacreditáveis patetices, que rezava o terço a caminho de casa, a conduzir: “Uma ave-maria e uma aceleradela, uma santa-maria e um pé no travão”, acompanhando esta descrição edificante com um gesto de braços e um estalar de dedos que lembrava o vira do Minho. Ainda estávamos mal refeitos da surpresa e já outra graçola vinha a caminho, no elogio fúnebre: “O … era um artista. Fez muito do que se pede a um homem para que deixe memória na sua passagem por esta vida. A mim, por exemplo, falta-me tudo: nunca escrevi um livro, nunca plantei uma árvore e nunca tive um filho. Pelo menos até agora… ainda!” E sublinhava o “ainda!” com um sorriso malandreco e um inclinar de cabeça, como a sugerir que tencionava tratar nessa mesma noite de colmatar a lacuna. Toda a homilia que se seguiu foi no mesmo tom de stand-up comedy, perante uma plateia contrita pela total ausência de tacto numa ocasião daquelas.
Devo acrescentar que nada tenho contra o casamento e a sequente procriação dos padres católicos. Pelo contrário, penso que uma conjugalidade autorizada poderia talvez contribuir para contrariar as estatísticas da desertificação de vocações. Mas esta declaração em tom de piada fácil, completamente deslocada do contexto, deu-me vontade de vaiar o padre-humorista ali mesmo, como se faz aos maus actores que mais valia fossem aprender o muito honrado ofício de pedreiro.


Ana
Os aspirantes a cómicos ainda se conseguem aceitar. Com a falta de empregos, enfim… vai-se justificando. Mas, tal como a situação que relatou, inaceitável é termos ministros , que não sendo patetas, mas aspirantes a carrascos, fazem humor nas situações mais aberrantes e dramáticas para muitos de nós. Todos os dias, e parece que também com o tal sorriso malandreco que faz parecer quererem também eles colmatar lacunas, nos vão reduzindo a pó e nos fazem sentir desolados e revoltados. A manhã está triste. Eu também e comigo estão milhões, infelizmente. Não é deste humor que precisamos!
Sofia,
Os políticos portugueses sofrem, na sua grande maioria, de uma falta de sentido de humor que explica muita da impopularidade que têm junto dos eleitores. Some isso à falta de mundo, de educação e de cultura – é confrangedor o nível médio, não há como negá-lo – e é praticamente garantido que qualquer aventura humorística será arriscadíssima. Sobretudo nas actuais circunstâncias, esmagados como estamos por medidas que nos deixam à beira da miséria. A manhã está triste, tem razão, tão triste como o país. Precisamos de muito mais do que humor para podermos sorrir outra vez, mas ao menos que não nos impinjam humor de quinta categoria para tapar o sol com a peneira.
MOTE
Que eu fosse enfim desgraçado
Escreveu do Fado a mão;
Lei do Fado não se muda:
Triste do meu coração!
(Bocage)
Bocage é um notável exemplo de humor nacional, Anónimo. Devia ser mais lido…
E fartou-se de mudar as leis do Fado, como grande homem que era. 🙂
Sadino
(…)
Já me calo, cruel, já não prossigo
Nestes vãos desafogos da amargura;
Assaz desperdicei meus ais contigo;
Desperdiçá-los mais será loucura;
Mas treme, treme, ainda que te escondas;
O Raio vingador penetra as ondas.
Faltos de alento os dois aqui pararam,
Um para o outro olhando,
Em silêncio a chorar continuando,
E depois que esgotaram
De infrutuosas lágrimas o peito,
Se foram recolher no tôsco leito.
(Bocage)
Bons sonhos, Ana.
Obrigada. 🙂
Percebo o incómodo, Ana. Pior que essa só a prestação de um padre que me ficou na memória pela ostensiva indiferença com que conduzia uma missa de corpo presente. Até o nome do defunto trocou. Apeteceu-me bater-lhe.
Há bom e mau em todas as profissões, mas os padres não são exactamente “profissionais”. Têm responsabilidades acrescidas e características que são completamente incompatíveis com a vida que escolheram. A insensibilidade é uma delas. Essa situação que contas é inaceitável.
Há tempos, numa das mais conhecidas e frequentadas igrejas de Lisboa, e também numa cerimónia fúnebre, ouvi incrédulo o padre falar de milagres, referindo o caso de uma caneta de estimação que julgava ter perdido e que ao fim de muito tempo lá lhe apareceu onde menos contava. E concluia que devíamos acreditar sempre…
Pois. Milagres de um deus menor, talvez… 🙂
Havia quem conseguisse – e era esse o tom dominante – um brejeiro. que conseguia ser interclassista e que evitava a boçalidade.
Hoje, predomina a piada de caserna. O país não se democratizou: degradou-se.
De acordo, c., embora eu acredite que também se democratizou. O problema é que o fez nivelando por baixo.
Penso exatamente como a Ana no que diz respeito à stand-up comedy que por aí prolifera. É basicamente, e quase totalmente, medíocre. Excelente análise. Quanto ao padre bem, inenarrável. Podia ter graça, o relato aqui feito, não fosse a total ausência de bom senso do dito tal nas circunstâncias que descreveu. 🙂 ou 🙁 ?
É mais 🙁 , AE.
Neste caso, o bom senso estava ao nível do humor.
A igreja portuguesa reproduz – e em alguns casos adianta-se – ao clima de degradação do país.
Nisso já não estamos de acordo. A igreja católica, salvo tristes exibições individuais como esta, tem uma actuação digna e batalha activamente contra a degradação do país. Pelo menos em termos económicos, prestando um apoio social imprescindível quando o “estado social” falha em toda a linha como nos tempos que correm. É justo reconhecê-lo: se não fosse a igreja católica, os pobres deste país estariam numa situação bem mais difícil.
A Igreja não é uma ong assistencial. Tem obrigação de ser muito mais do que isso. E de não ser cobarde, quando não foi socratina por convicção.
Infelizmente, di-lo a minha experiência, não faltam padres que fazem homilias completamente despropositadas, de tal forma que roçam o ofensivo.
Sugiro que antes de as pessoas encomendarem uma homilia escolham sempre cuidadosamente o padre que a vai oficiar. Se não, arriscam-se a ficar pior do que estavam antes.
As homilias não se encomendam, Luís Lavoura. E o padre que oficia os serviços fúnebres é, salvo raras excepções, obrigatoriamente o da paróquia a que o morto pertencia. Tudo depende da qualidade desse padre, portanto.
As missas de sétimo dia, os serviços fúnebres, os casamentos, etc, tudo isso são missas por encomenda. Ninguém é obrigado a ter missa no seu funeral.
O que eu digo é que se deve conhecer o padre que vai oficiar a missa, saber se ele dá sermões razoáveis. Se o padre fôr mau, mais vale não arriscar, pagar-lhe uma missa para se sair dela mal disposto.
Em certos casos, pode-se conhecer um padre bom e pedir-lhe para ser ele a (co-)oficiar a missa. A missa de sétimo dia do meu pai foi co-oficiada pelo padre da paróquia e por um outro padre que era afilhado do meu pai.
São encomendadas as missas, não as homilias. E sim, em certos casos (e desde que o padre da paróquia concorde) é possível ter outro padre a coadjuvar. Mas essa não é a regra.
Bem, devemos em todo o caso reconhecer que a performance do clérigo terá correspondido à vontade de Deus.
Quero acreditar que Deus tem desígnios mais nobres para as ovelhas do seu rebanho, Rui…
E esta estava claramente confusa, sem saber se queria ser ovelha, o cão ou mesmo o lobo.
Quem apregoa que a rua e as manifestações não resolve nada, devia acima de tudo esforçar-se cada vez mais em ajudar quem mais necessita.
Não pondo em causa a crença de ninguém, pergunto-me o quanto poderia ter sido feito com o que se gastou na construção da nova catedral em Fátima.
Percebo o que diz, o argumento do fausto escusado é tentador e ninguém mais do que eu o costuma usar, acredite. Traduzir todos esses gastos aparentemente supérfluos em ajuda pura e simples parece a solução mais lógica. Mas não é bem assim, é mais complexo do que isso. Fátima acolhe milhões de peregrinos por ano, tem de ter estruturas para os receber.
Além disso, a igreja católica é censurável em muitas frentes, mas uma coisa que faz bem desde sempre é o apoio social aos mais carenciados. Nesse capítulo tem toda a autoridade para falar, ainda que não se concorde (e também eu não concordo muitas vezes com o que ouço vindo de lá).
A razão do do meu comentário não é de modo algum colocar em causa o trabalho da igreja, o qual sem qualquer margem de dúvida é dos mais meritórios que existe.
Claro que Fátima acolhe milhares de peregrinos, que devem de ser respeitados e ter condições, e precisa de infra-estruturas.
Mas continuamos a ter as grandes cerimónias ao ar livre, como o 13 de Maio, onde a procissão das velas é feita no exterior.
O meu ponto é que para as restantes cerimónias, aquelas que não são realizadas no recinto exterior a antiga basílica seria suficiente, ainda que tivesse que ser sujeita a obras de melhoria, o que permitiria uma grande poupança canalizada para outros fins, para os quais a Igreja está especialmente voltada.
Não tenho como contradizê-lo, Utópico. Não sei se a antiga basílica era suficiente ou não, não vou a Fátima há anos, pelo menos em dia de enchente. Olhe, resta-me a razão estética: na minha opinião, a antiga basílica é feíssima, já a nova tem uma arquitectura muito mais interessante e leva mais do dobro das pessoas. Mas eu sei que, financeiramente, este argumento não vale nada. 🙂
Há muitos anos um padre disse, na missa de uma bisavó minha que morreu no início de Janeiro: “Então, continuação de Boas Festas”… Já não me lembro se foi humor voluntário ou involuntário, mas partilho o fastio face a humoristas em barda, tendência que acaba por contagiar o cidadão comum no dia-a-dia. Entendamo-nos: adoro piadas, rir faz-me lindamente ao corpo e à alma, fazer rir faz-me bem também ao ego, mas há conversas que sabe bem ter em tom sério, a dois ou sem grupo, sem que as interrompa a piada fácil, por vezes pavloviana, que corta o raciocínio e o fruir da troca de ideias. Louvor ao blogue e à bloguista que combinam seriedade e humor em proporções adequadas e momentos definidos para cada qual. Até breve.
Obrigada, Ouvinte. Ninguém gosta mais de rir do que eu, mas tudo tem os seus momentos, não é?
“Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota”… Conheço bastantes Ingleses e Escoceses e posso garantir que brejeirice e piadas ordinárias não lhes faltam. Têm também uma fixação com qualquer com fezes. Há muito mais Benny Hills do que o Yes Prime Minister deixa entrever.
Bem sei, Vasco, eu sou uma incondicional da Britcom. Mas eles têm o nonsense que tempera tudo, e a nós falta quase sempre esse precioso retoque final…
(O Benny Hill foi o grande inspirador do Herman José, sabia? Nota-se bem a influência, aliás.)