
Como é que a mesma Igreja que tanto vigia e reprime a sexualidade pode ao mesmo tempo ser cúmplice destes crimes? Sempre me chocou esta santa e intolerável duplicidade.

Como é que a mesma Igreja que tanto vigia e reprime a sexualidade pode ao mesmo tempo ser cúmplice destes crimes? Sempre me chocou esta santa e intolerável duplicidade.
As igrejas, em especial a católica romana, comportam-se como organizações empresariais. Têm uma marca, têm estratégias de redução de danos, têm investimentos nos mercados, só lhes falta mesmo fazerem análise diária das entradas e saídas de crentes mas lá chegarão…
E aquela inconveniente expressão “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” onde se poderá encaixar no meio de tudo isso? Aceitam-se sugestões.
uma montra de horrores é o que vem por aí com esses cinco volumes, Teresa. E o pior de tudo é que não vislumbro como compensar essas 400 crianças, como fazê-las esquecer, ajudá-las de alguma forma ..
O que os homens fazem com a palavra de Deus e ao abrigo dela é de facto, nestes casos e em outros, repugnante.
🙁
Repugnante é a expressão adequada, Catarina.
Não é “a igreja”, mas os membros desta que encobriram os crimes. Não vejo em que é que o Arcebispo de Braga, por exemplo, tem culpas no cartório.
Também não percebo a declaração no jornal “os paroquianos irão ficar chocados e questionarão a sua fé”. Mas que tem a Fé a ver com isto? Foram homens que pecaram, cometeram esses crimes, pelo que terão de ser julgados pelas normas penais (e canónicas) correspondentes. Assim como ninguém irá questionar a sua portugalidade pelo caso Casa Pia, ou nenhum belga porá em causa o seu país pelos crimes de Dutroux (embora possa por outras razões).
A subtil diferença é que estes crimes foram ocultados para proteger a Igreja, pelos que falam em nome desta.
Nem o caso Casa Pia nem o caso Belga foram abafados para não dar má imagem do país, pelos que falam em nome do país.
Se foram ocultados, como é que se veio a saber? Da mesma forma, como é que a Igreja. no seu todo, reconheceu a culpa de membros seus envolvidos em crimes iguais nos Estados Unidos? E o Caso Casa Pia não andou anos e anos a ser abafado, só se sabendo por denúncias e investigações? Este tipo de crimes são por norma “subterrâneos”, e só ao fim de certo tempo é que vêm à tona.
Se se acha que um membro da Igreja tem mais culpas do que um vigilante do estado, então a pena devia ser maior. Só que isso acarretaria o reconhecimento pela lei de que um clérigo tem responsabilidades morais e espirituais diferentes dos restantes cidadãos, o que contrariaria a separação entre o estado e as igrejas.
Tenho de concordar, João. É isso, Teresa.
João Pedro, claro que a fé não tem nada a ver com isto. A Igreja é obra dos homens e não de Deus. Quanto ao facto de não se poder tomar o todo pelas partes também estou de acordo. Esse é um princípio que fica bem aplicar em todas ou quase todas as circunstâncias. Mas neste caso as cumplicidades partiram de destacados membros da hierarquia, portanto de altos representantes da Igreja e vendo a coisa nesta perspectiva não me parece abusivo colocar a questão nos termos em que a apresentei.
A Igreja reprime a sexualidade, mas nunca a castigou. Os padres nunca foram castigados por ter vida sexual, em particular, por terem filhos com paroquianas, prática bem conhecida e nunca castigada, ao longo dos séculos.
A Teresa pode considerar isto hipócrita, mas eu diria que não é. O facto de a Igreja desaconselhar os padres de terem sexo não implica necessariamente que os vá castigar quando o têm.
Quanto à pedofilia, ela é atualmente considerada um crime horrendo mas, durante muito tempo, contemporizava-se com ela, tal como ficámos a saber cá em Portugal com o caso Casa Pia. Tal como há outras práticas horrorosas com crianças, como o trabalho infantil, que no passado eram toleradas, e até incentivadas.
É assim o mundo.
Tenho de concordar, Luís. Por muito que nos choque, Teresa, há uma imensidão de situações condenáveis que nos chocam e que também envolvem crianças. Os homens que actuam mal podem estar na Igreja (onde até talvez se sintam mais protegidos do olhar da sociedade) ou em qualquer outro lugar.
Em geral, a Igreja actua pela via do perdão e não da condenação. A condenação existe na ordem social, através da Justiça. À Igreja não cabe denunciar à sociedade, mas antes apelar a quem se desvia e tentar acompanhar o regresso à virtude; ou, se possível, evitar os desvios.
No mais, o ser humano não é diferente por abraçar este credo ou aquela causa: ou é bom, ou é mau, ou é assim-assim. As virtudes e as fraquezas, grandes e pequenas, estão em toda a Humanidade.
João,
Isso seria tudo muito bonito, se os padres e restantes membros do clero não gozassem de um estatuto especial junto das populações.
Ainda há quem conte coisas ao padre, em confissão, que não conta a mais ninguém (nem a um médico, a um amigo, ao conjugue, ou a um familiar).
É claro que há situações horríveis que envolvem crianças e que não têm nada a ver com a igreja. O problema é quando a igreja usa as suas influencias e o seu poder para *ocultar* e *proteger* quem cometeu esses actos! Mudar padres de paróquia, sistematicamente, porque estes tinham abusado de crianças, escondendo-os, em lugar de os excomungar imediatamente e aplicar as tais “penas canónicas” (e civis)?! Isto não é hipocrisia?! Isto não está errado?! Mas é preciso esperar que uma coisa seja considerada crime para condená-la?!
E que raio de “clarividência” têm os membros do clero para se julgarem superiores aos restantes humanos (porque supostamente têm o “número de telemóvel de deus”), mas no que toca a bons e maus costumes, a comportamentos aceitáveis e não aceitáveis, andam sempre a reboque da sociedade? Porque é que a igreja nunca se manifestou vigorosamente contra a escravatura? Porque é que só quando o resto da sociedade a começou a abolir e a abominar, é que vieram dizer “ah e tal, sim sim, isso é muito mau”?
Porque é que será que eu tenho a sensação que a sessão de desculpas infindáveis (pela inquisição, ao galileu, aos judeus até, salvo erro, etc) que joao paulo ii começou e que bento xvi continuou se vão repetir daqui a muitos anos, em relação aos gays, em relação à utilização de contraceptivos? Porque é que tenho a sensação que um dia destes a icar vai seguir os passos da igreja anglicana e vai deixar finalmente que os padres possam casar e ser pessoas normais?
A duplicidade de critérios está lá, sim. E a hipocrisia também. Além do mais, dado o poder de sugestão que a igreja ainda tem na maioria das sociedades ocidentais, os seus membros têm que ter redobrado cuidado com os seus actos, atitudes e palavras. Podem ser apenas humanos, “bons, maus ou assim assim”, com as suas “virtudes e fraquezas”, mas se se auto-proclamam representantes do seu deus, têm que se comportar à altura.
E a desculpa do “ah e tal mas a pedofilia não era crime” não cola, mas isso era tema para mais um “testamento” igual a este 😉
Luís,
Aí está o problema. A igreja anda sempre a reboque do resto da sociedade. Nunca vi a igreja na vanguarda das alterações sociais. Direitos da mulher? Casamento entre raças? Escravatura? Pedofilia? Em nenhum nestes assuntos se notou por parte da igreja um décimo sequer da energia que actualmente utiliza contra os contraceptivos, por exemplo… Mas depois quando a própria sociedade muda, como é natural, lá vem a igreja a reboque, dizer que afinal aquilo é muito bom e afinal assim é que deus quer…
Para quem se diz representante de um deus omnisciente, e justo e bom e outras coisas fofas, a igreja deixa um bocadinho a desejar…
xtremis, deixaste aqui um par de postas fofas e mais do que isso. Fizeram-me lembrar o mcdonalds e o porque começou a vender saladas e peitos de frango.
Em nenhum nestes assuntos se notou por parte da igreja um décimo sequer da energia que actualmente utiliza contra os contraceptivos, por exemplo”
Isso não é verdade. O cristianismo acabou com a escravatura no império romano (e com outras coisas, como os galdiadores) e se não acabou na era moderna, muito contribuiu para isso. Veja-se a obra dos jesuítas por esse mundo fora, por exemplo. Leia-se S. Pauloe veja-se a importância que as mulheres tiveram.
já quanto à igreja anglicana, lamento dizer-lhe, mas a igreja católica parece estar a roubar-lhe terreno.
Ora, ora, Luís Lavoura. Essa “prática bem conhecida e nunca castigada” simplesmente não existe para a Igreja. É claro que é também uma das suas mais bem conhecidas manifestações de hipocrisia.
Sei lá porquê lembrei-me, a propósito destas suas considerações, do caso da menina brasileira de nove anos que foi engravidada pelo padrasto e abortou (até porque essa gravidez poderia por em perigo a sua vida). Lembra-se de qual foi a reacção da Igreja? Quiseram logo excomungar os médicos e a mãe da menina que decidiram fazer a IVG. Para isto já há castigo. Como podem ter a mão tão pesada nuns casos e tão leve noutros?
A Igreja não pode ter dois pesos e duas medidas e sobretudo não pode autojustificar-se afirmando que “assim é o mundo”.
Se há coisa que eu abomino, em qualquer pessoa, é ela pregar uma coisa e fazer o oposto. O moralismo sonso então deixa-me cega. Com membros da Igreja, por maioria de razão é um nojo, como nojento além de criminoso, é encobrir práticas continuadas de abusos sexuais de menores desprotegidos à sua guarda. Já o sexo praticado entre membros da Igreja adultos é um problema de consciência, do foro íntimo e da coerência de cada um. É lamentável que a Igreja, continue oficialmente a tratar o tema como um tabu, não permitindo o casamento dos padres. Só dá porcaria.
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Be my guest, Mdsol 🙂
Concordo, Ariel. E também concordo com o fim do celibato dos padres, que só ajuda a aumentar a tensão sexual (não são eunucos, que eu saiba…) e facilita as práticas escondidas, incluindo as menos ortodoxas. Não acredito que o casamento dos padres acabasse com os desvios, mas pelo menos deixava tudo mais às claras.
E não posso concordar com o João: se é verdade que os membros da igreja (qualquer uma) são iguais a qualquer outro cidadão aos olhos da lei, não podemos esquecer de que o não são “aos seus próprios olhos”. Se se auto-denominam condutores de um rebanho, as responsabilidades têm de ser correspondentes. Ou seja, maiores do que as do rebanho.
Já cá me faltavas. Vou desiludir-te: não estamos propriamente em desacordo, porque reconheço sem custo o óbvio, que é a linha de conduta espedífica que um padre aceita e assume (e, por oposição, o “moralismo sonso” de que fala a Ariel e que tem reflexos perversos na sociedade católica e, talvez, não só essa fatia).
Recordo-te, contudo, que esse debate abrange a perspectiva da Igreja, ao passo que aqui estava a debruçar-me no caso social e criminal. Por isso é que optei por lembrar mais acima que os padres são, perate a sociedade e a lei, exactamente os mesmos seres humanos que somos todos.
Ariel, só tarde e a más horas comecei a ler estes comentários. O seu deu-me particular prazer, porque me revejo em cada uma das suas palavras!
Ana (irrita-me as vezes estas respostas aos comentários não ficarem na devida ordem. Grrr). Só agora li o que escreveste e como é óbvio também o subscrevo.
E não é que o João concorda connosco?! Ena! Ena! Que bela surpresa! (Eh!eh!eh!)