Cuidadinho com as opiniões


Pedro Correia,

 

O director de Informação da RTP, segundo leio no 24 Horas, acaba de emitir um documento interno que pretende impor normas aos jornalistas da estação pública sobre a utilização de blogues e redes sociais na Internet.

Passo a citar alguns excertos:

– "Nada do que fazemos no Twitter, Facebook ou Blogues (seja em posts originais ou em comentários a post de outrem) deve colocar em causa a imparcialidade que nos é devida e reconhecida enquanto jornalistas."

– "(…) Deverão deixar em branco a secção de perfil de Facebook ou outros equivalentes, sobre as preferências políticas dos utilizadores."

– "Ter particular atenção aos ‘amigos’ friends do Facebook e ponderar que também através deste dado, se pode inferir sobre a imparcialidade ou não de um jornalista sobre determinadas áreas."

– "Meditar sobre o facto de 140 caracteres de um twit poderem ser entendidos de forma mais deficiente (e geralmente é isso que acontece!) do que um texto de várias páginas, o que dificulta a exacta explicação daquilo que cada um pretende verdadeiramente dizer."

Sob uma linguagem aparentemente melíflua, o que está em causa neste conjunto de orientações assinadas por José Alberto Carvalho é uma restrição de um direito constitucional – o direito de opinião. Sendo inaceitável que os jornalistas se vejam impedidos de emitir opiniões políticas em páginas pessoais de que disponham na Internet, o facto de estas normas passarem a vigorar numa empresa pública de comunicação social constitui uma agravante. Gostaria de ver o Conselho de Redacção da RTP pronunciar-se sobre esta matéria. Infelizmente, como revela também o 24 Horas, a RTP está há seis meses sem Conselho de Redacção, o que é outro facto inaceitável.

Resta-me, portanto, aguardar uma posição da ERC, sempre tão vigilante noutras matérias. E, já agora, também dos deputados que integram a Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República.

24 comentários em “Cuidadinho com as opiniões”

    1. Não entendi a analogia que faz entre funções oficiais de diplomatas ou militares com bloques e redes sociais na Internet, de carácter pessoal. Defende a compressão da liberdade de expressão?

      1. Defendo precisamente o contrário. Jornalistas são cidadãos e portanto habilitados a fazer uso pleno das suas prerrogativas de liberdade de expressão, não o são também diplomatas, militares e juízes no âmbito dos seus bloques e redes sociais na Internet, de carácter pessoal?

        1. Inteiramente de acordo. Seria, aliás, uma inconstitucionalidade formal e material proceder de outra maneira. Há aliás embaixadores – e destaco o nosso representante em Paris, Francisco Seixas da Costa – que mantêm blogues pessoais, de grande audiência, exercendo o seu direito de expressão de uma forma que muito me agrada. Devemos insurgir-nos sempre que esta liberdade ameaça ser condicionada, como começa a suceder na RTP. Qual será o passo seguinte? A proibição de filiação partidária dos jornalistas?
          Nada disto pode passar sem um firme protesto.

          1. Só espero que quando os que agora estão no poder saírem e forem substituídos pelo PSD ou PSD-PP, os que agora defendem estes critérios, não passem depois a defender que militares, diplomatas e juízes devem manter, mesmo nos seus blogues pessoais, um dever de reserva em nome das mesmas regras de constitucionalidade formal e material…

            Quanto aos jornalistas, eles que são frequentemente desmentidos pelos factos (veja-se o caso dos 10.000 euros) e se fundam em fontes pouco investigadas (veja-se o caso das escutas a Belém) e não se coíbem de expressar nos seus jornais as pessoais opções partidárias (veja-se Helena Matos em o Público), porque diabo se não haveria de permitir as mesmas liberdades nos seus blogs privados?

          2. Já vi que é homem de pouca ou nenhuma fé na esquerda: dá como certo que o PS será substituído por PSD e CDS, excluindo portanto o PCP e o BE. Os jornalistas devem poder ter as opções políticas que entenderem. Não ter opção nenhuma, como o director de Informação da RTP parece exigir nas normas agora divulgadas, é um disparate completo. Seria negar ao jornalista o exercício da cidadania.

          3. Faça por favor uma leitura mais aprofundada daquilo que escrevi e não limite ao jornalista os critérios que definiu.

            Esquerda e direita…são conceitos demasiado redutores. Aprecio as fotos a preto e branco enquanto peças de arte mas para fazer ciência prefiro recorrer a suportes de cor.

  1. .. fico perplexa com este tipo de notícias. Por um lado apela-se a uma liberdade que não nos custou conseguir .. por outro escrevem-se e assinam-se documentos em tudo parecidos com aquilo de que falava o meu Pai.

    “Sou pela liberdade, sou contra a opressão, e isto é simples, é humano, é evidente – disse!
    E não me chateiem mais. “
    Vergílio Ferreira, in ‘Estrela Polar’

    é isto. Não me chateiem mais, parece-me bom argumento ;))

  2. Pedro:

    Pelos vistos vamos caminhando para o pensamento único desde que esse não diga mal do “chefe” está tudo bem pois caso contrário é melhor seguir as pisadas do J. A. Carvalho.
    Uma pergunta inocente. Vivemos em democracia?
    Quem quiser que responda…

  3. Um director directivo
    de ideias castradoras,
    não sendo intelectivo
    nas razões orientadoras.

    A liberdade carenciada
    nesta abjecta democracia,
    tem sido tão depreciada
    por tanta “merdocracia”.

    A bovinidade colectiva
    é uma marca cultural,
    de uma sociedade defectiva
    para com esta elite visceral.

  4. Na interpretação de José Alberto Carvalho as ‘diatribes’ dos jornalistas da RTP são graves “delitos de opinião”.
    Mas como o ‘Delito de Opinião’ é bom… as directivas do apresentador de notícias é simplesmente uma forma totalitária de exercer CENSURA.
    Razão tinha uma senhora que esta manhã, no café, dizia para amiga: “Já viste, o José Alberto Carvalho agora que está velho, gordo e feio passou a puxar o cabelo para a frente para tapar a careca e a usar lentes de contacto…”.

  5. Todos nós cidadãos devemos poder, sem qualquer constrangimento, expressar as nossas opiniões. Tal como diz é um direito constitucional. O único limite está na explicitação do facto de se estar a dar uma opinião. No caso dos jornalistas, pela importância que têm na formação da opinião dos outros, importa que fique bem claro, no que escrevem/dizem, o que é notícia e o que é opinião. Desde que tal aconteça a imparcialidade relativamente aos factos estará sempre assegurada.

  6. É patético.
    Mais valeria que o jornalismo fosse exercido como nos USA, onde quem informa ou comenta é assumidamente desta ou daquela inclinação.
    Jogo limpo = fica tudo muito mais transparente, é mais honesto e é sobretudo muito mais humano.

  7. A RTP só tem razão de existir se o seu jornalismo for isento, objectivo e independente. Ora, esta credibilidade nunca será atingida se os seus jornalistas andarem pela Internet a mandar umas bocas. José carvalho está no caminho certo.

    1. Você reduz a liberdade de expressão a «mandar umas bocas», o que é esclarecedor. Também defende uns ‘safanões a tempo’, como o outro, a quem emitir opiniões políticas?

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