Um estudo da Universidade Católica revela que existem menos católicos em Portugal (86,9% da população há 12 anos contra 79,5% actualmente). Em comentário de circunstância, o porta voz da Conferência Episcopal declarou a propósito que o essencial é a qualidade e não a quantidade. Se a qualidade se mede pelo compromisso dos católicos com os ritos e actividades da igreja, os resultados não são, todavia, muito animadores. Na verdade, mais de metade são católicos nominais (nunca vão à missa) ou praticantes ocasionais ou irregulares (vão à missa até 11 vezes por ano). Entretanto, o dado mais contundente no que diz respeito ao afastamento progressivo da população da matriz católica encontra-se no quadro em que se analisa a posição religiosa por escalão etário:
Há menos católicos e os católicos são cada vez menos jovens
Rui Rocha,
No escalão até 24 anos, apenas 61% dos inquiridos se dizem católicos. E no escalão entre 25 e 34 anos os católicos são menos de 70%. Isto é, não só a ICAR está a perder fiéis, como revela uma progressiva incapacidade de cativar o interesse das pessoas à medida que a sua idade baixa. Não faltarão explicações para o facto. Pela minha parte, atrevo-me a sugerir que a ICAR nunca poderá constituir uma proposta atractiva para uma população que, nascida em liberdade e educada num contexto em que a igualdade da mulher se tornou inquestionável, não encontra na proposta católica mais do que o reconhecimento relutante e, aparentemente, a contragosto, dessa realidade. A retórica católica sobre a protecção dos mais fracos não se compreende, hoje em dia, se não incluir, mais do que a tolerância perante essa igualdade, um compromisso forte no sentido do seu reconhecimento e da sua promoção ali onde ela ainda faltar.


Só para informar que o grupo dos católicos é constituído maioritariamente por pessoas do sexo feminino. E que a tendência se vem acentuando.
Sim, eu sei disso. Seria interessante conhecer a divisão por sexos em cada um dos escalões etários. Sem esse dado, não me parece surpreendente tendo em conta a penetração da ICAR nos mais idosos e a maior longevidade das mulheres.
O facto de a maioria dos católicos praticantes serem mulheres não quer dizer que a Igreja não tenha uma visão subtilmente machista. De facto, verifica-se frequentemente que as mulheres têm opiniões tão ou mais machistas do que as dos homens.
Ademais, creio que mais homens iriam à igreja se quem oficiasse a missa fosse uma mulher. Se calhar, algumas mulheres gostam de ir à igreja precisamente porque encontram lá um homem.
Ainda não tive acesso aos dados em bruto do estudo (espero que não fiquem fechados…), mas antes de tirar conclusões “precipitadas” era bom… alguns cuidados metodológicos
1. Comparar este estudo com alguns outros internacionais que se fazem regularmente, também em Portugal (ISSP, ESS, EVS).
2. Reconhecer a necessária humildade dos instrumentos: estes estudos por amostra apresentam discrepâncias de ano para ano muito significativas.
3. Dar-se conta que os estudos internacionais não costumam incluir as ilhas (que, previsivelmente, dão maiores scores aos índices de catolicismo); suponho que neste da UCP as ilhas estão incluídas
4. Comparar bam as idades dos respondentes. Este estudo da UCP usa maiores de 15, o ESS também… mas a maioria usa maiores de 18.
Quanto à questão das idades… isso verifica-se desde sempre (excepção para a geração nascida antes dos anos 30: possivelmente influência da 1ª república e/ou dificuldades de locomoção e saúde). Analisando sondagens com várias vagas (EVS que faz cada 9 anos, por exemplo) verificamos que existe uma perda geracional (como indicado pelo Rui Rocha) mas também uma recuperação a partir dos 40 anos. Seria preciso ver qual o grau de “diminuição” dos escalões mais novos comparando com outras séries.
Quanto ao peso das mulheres, também valeria a pena fazer um drill-down. Na vaga de 2010 do ESS (o último disponível) os homens têm scores mais altos que os das mulheres (nascidos depois de 90).
Quanto ao significado de tudo isto… acho que a maior parte dos comentadores e jornalistas está a passar ao lado de um intenso debate dentro da Igreja. Há uma linha mais de “qualidade” (Bento XVI teoriza bem isso e apela à capacidade de viver em minoria) e outra mais “sociológica” que por inércia tenta manter um retrato de sociologia religiosa desenhado nos anos 30 e 40.
Parece que recentemente a diocese de Viseu (presumivelmente um dos distritos mais católicos do país) fez uma contagem das pessoas que vão à missa e concluiu qualquer coisa como 20% da população vai à missa. Esse resultado é muito inferior ao deste estudo, no qual cerca de 40% das pessoas disseram que iam à missa.
É preciso saber diferenciar entre aquilo que as pessoas dizem que fazem e aquilo que elas de facto fazem. Parece que ser católico praticante é como fazer sexo – mais pessoas dizem que fazem do que aquelas que realmente fazem.
A mim parece-me que os resultados deste estudo são altamente favoráveis à religião católica, a qual é bem menos professada em Portugal do que o estudo sugere.
Esta discrepância entre censos e inquéritos é habitual. Há alguma literatura a tentar explicar o que se passa mas as conclusões são frouxas. Em portugal e um pouco em todo o lado os valores que se obtêm quando se fazem censos religiosos são sempre inferiores aos dos inquéritos. Alguns dizem que os dados dos censos são mais credíveis. Outros objectam com 2 argumentos:
a) o censo é montado e implementado por não profissionais. Os erros sãos empre enviezados para baixo; praticamente não há possibilidade de erros para cima
b) a ausência de alguém no dia exacto do censo pode distorcer uma prática habitual (que será captada pelo auto-report do inquérito).
Além disso é natural que o censo de Viseu tenha valores mais baixos que a média nacional. Há dioceses em que os efeitos da secularização progressiva parecem claramenet superados enquanto noutras (interior norte) são muito intensos.
Há 80 anos todas as pessoas que eu conhecia eram católicas (ou pelo menos diziam: “graças a Deus”; “se Deus quizer”; “ai minha nossa Senhora”; “valha-me Deus”; etc.; etc..)
O que aconteceu? Mudaram de religião? Tornaram-se ateus? Na Europa protestante aconteceu algo equivalente?
Tinha curiosidade em saber isso.