1. Enquanto capelão das forças armadas, e como tal inserido na hierarquia militar com a patente de major-general, deve o bispo Januário Torgal Ferreira continuar a prestar lealdade a um Governo que, nas suas próprias palavras, é “profundamente corrupto”?
2. Os chefes dos três ramos das forças armadas revêem-se de algum modo nestas declarações e, em caso negativo, romperão o silêncio para dizerem o que pensam?
3. Sendo o estado português laico o que justifica a manutenção em funções de um bispo católico das forças armadas?
4. Em nome da necessidade de conceder equidade de tratamento às diversas confissões religiosas, garantia decorrente do artigo 13º da Constituição da República, não deveria a hierarquia militar incluir igualmente nas fileiras castrenses, talvez também com o posto de major-general e respectivo “suplemento de condição militar”, um rabino, um imã, um bonzo e um xamã?

1. Não deve. Qualquer dia há-de parecer o Louçã.
2. Custa-me a crer que se revejam e custa-me a crer que rompam o silêncio.
3. Nada.
4. Devia. Ou melhor: devia dispensar D. Januário e deixar o resto como está.
Ou passar o bispo a bonzo. Alguém daria pela diferença?
Essa sua primeira pergunta parece-me sugerir um método, potencialmente muito eficaz, de reduzir de forma muito substancial o número de funcionários públicos: trata-se simplesmente de os convencer a pedir a demissão do seu cargo sempre que entendam que existe corrupção num dado governo de Portugal.
Espero que a esta hora o sereníssimo proto-purpurado já tenha debitado junto da instância competente, isto é, o Ministério Público, tudo quanto sabe sobre a “profunda corrupção” de que diz ter conhecimento, naturalmente acompanhado de provas irrefutáveis. Tendo certamente presente o preceito bíblico: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo, 20:16)
A brincar (apesar dos tempos não serem para brincadeiras) vou ali buscar quatro cadeiras para esperar pela resposta a cada uma das questões.
A Omertà não vive só na nação do Silvio.
Abraço
Instale-se bem que a espera será muito prolongada, Outside. Melhor um divã do que as cadeiras, mesmo sendo quatro. Abraço.
Acordão do Tribunal Constitucional:
… ” Enquanto não for materialmente possivel haver equidade com as outras religiões… “4 do PSD contra 3 do PS ” – acordam e aconselham que se corte na ração do vinho de missa e nas hóstias … Já que constitucionalmente´, não podemos cortar a lingua do Capelão-mor da FA… embora vontade não nos falte!…”
Relactor: “Reservado”
Ia escrever sobre isto, mas já que o fizeste tu acrescento só mais duas perguntas:
– Sendo D. Januário de opinião que o anterior governo era “um grupo de anjos”, será que já está a tratar da canonização de São Sócrates?
– Se D. Januário acha que “o Islão é compatível com a liberdade e até com a democracia”, porque não se converte a essa doce religião em vez de continuar a representar uma igreja e um país de que diz “ter vergonha”?
Bom, ele já tinha começado as críticas no tempo de Sócrates:
http://www.tvi.iol.pt/videos/13285245
Acho que a única novidade agora é o carácter pessoal das críticas, falando em KKK, diabinhos negros, etc…
O pessoal começa a ficar farto de ver as restrições não atingirem os detentores da maior riqueza.
D. Januário sentiu-se porta-voz desse descontentamento, terá sido só isso?
O problema é que se há interesses pessoais, é mais fácil vê-los nos visados, do que em D. Januário… que interesse ele teria em fazer afirmações gratuitas?
Da Maia, entendamo-nos: eu tenho o maior respeito e admiração por membros da igreja que se mantêm independentes e críticos do poder. Mais: este é o momento certo para a igreja manifestar as suas opiniões críticas, já que há desigualdades gritantes e cada vez mais pessoas vivem com sérias dificuldades. Acresce que a igreja tem toda a autoridade para perorar em assuntos de cariz social, cuidando como cuida, há séculos, dos mais desprotegidos.
Dito isto, acho completamente disparatadas as atoardas do bispo, porque são óbvios recados políticos (pior: partidários) e não uma posição independente e credível de alguém que se quer isento. Francamente, tenho a sensação de que o senhor não está no seu melhor, mentalmente falando.
Eu tenderia a concordar, mas a Igreja não se afastou.
Bastava dizer que não subscrevia, mas não o fez, falou em opiniões pessoais não partilhadas por todos os bispos.
Soa a pouco… vejamos se o Cardeal Patriarca se manifesta, ou também se cala.
Nada até agora, pelo menos que eu tenha dado por isso. O que é preocupante… a Igreja/Instituição concorda com o que ele disse? Tem medo de enfrentar a língua do bispo incontinente? Não percebo.
E segue mais uma. Se eu disser, no melhor estilo januariotorgalês, que a hierarquia da Igreja Católica é “profundamente pedófila” terei direito à bênção apostólica de tão ilustre prelado?
Provavelmente sim, se ele for coerente no seu gosto pelas generalizações.
E se tiver o seu gangue (seu, dele).
Só volto prà tropa se houver um Mullah…e tem de gritar muito alto, que eu sou um bocadinho surdo.
Mulás não sei. Mas antes, na tropa, havia mulas.
Isso é verdade.Até por acaso, davam já nessa época, dois coiçes no telhado…sempre com enorme “consideração”,claro, por “donos” tão arregimentados…
Desses quadrúpedes o que há a esperar é isso mesmo: coices.
O processo de branqueamento de Sócrates encontra-se em marcha. E como as pessoas têm fraca memória, talvez resulte. Afinal, para muita gente, quem faz a m… acaba por ser mais tolerável do que quem tem de a limpar.
E no entanto, JAA, até o ex-ministro socialista Augusto Santos Silva disse esta noite na TVI 24 que as declarações do bispo “são manifestamente excessivas”.
1. Esse problema é pior nos funcionários que duvidam da honestidade dos dirigentes, seja deste ou de governos anteriores. Colocar-se-ia ao nível das instituições policiais e militares de forma complicada.
2. O problema mais grave parece ser a posição da Igreja. Não subscreveu, mas também não condenou… isso tem uma mensagem implícita.
3. e 4. O exército lida com a morte, que tem problemas morais e religiosos associados. Também é habitual haver padres associados a hospitais. A implantação do catolicismo nas tropas justifica o bispo, mas é verdade que isso torna o exército menos laico…
É complicado, porque ter um exército assumidamente sem ligações morais, também não me agrada.
Afinal, os valores morais do cristianismo são os humanistas, que definem a nossa civilização.
A posição do bispo fazendo apenas eco de um sentimento de injustiça popular é demasiado extremada.
A sua ligação às Forças Armadas é um detalhe político, ele não fez as denúncias nessa qualidade.
Mas, o silêncio da Igreja não augura nada de bom…
Se for uma questão orçamental, como especulou o Luís Naves, então faz parte de contas secretas, e não abona nenhum dos envolvidos.
Se tiver sido motivado por algo pior… então é mesmo mau!
Eu não acredito neste tipo.
Não me agradou muito saber que o nome dele estava entre os primeiros do manifesto contra a privatização da RTP, já que o nome “Torgal Ferreira” está demasiado ligado ao Grupo RR, e não só.
Há muitos bordados escondidos nas rendas vitalícias…
Não há coincidências, como dizia a outra.
Repito o que escrevi noutro lado:
E não se pode dar o caso do Bispo não estar a passar bem da cabeça?
Alguma coisa ao jantar não lhe caiu bem.
Se sua bestialidade tem provas dessa profunda corrupção, que denuncie e ajude a castigar os meliantes.
Aqui para nós, o homem fez “tilt” e agora faz como o papagaio, repete o que ouve.
Pior ainda: ouve o que repete.
Caro Pedro, gostava que lesse o que escrevi sobre o assunto mo meu blogue: njos.html
http://pontevertical.blogspot.pt/2012/07/a
Abraço.
Já li. Compreendo a sua indignação.
Um abraço.
Prefiro o xamã.
E eu opto pelo bonzo.
Eu não entendo como é possível este senhor proferir afirmações deste calibre, sem apresentar provas junto das autoridades de eventuais casos de corrupção que conheça
Talvez seja inimputável.
1. O bispo das forças armadas presta lealdade ao governo? Ou ao Estado português? Ou ao presidente? Pergunto apenas, como não fiz serviço militar isto escapa-me. E se a lealdade não é ao governo mas ao estado, não está nos seus deveres apontar aquilo que está mal (claro que não o deveria fazer aos jornais, no entanto)?
2. Têm que responder? A declaração vincula-os? Mais uma vez, não sei como funciona esta questão das hierarquias, especialmente se a posição é por inerência.
3. Como o João Carvalho aponta: nada. É bom que a direita finalmente também comece com estas perguntas. Por outro lado, se internamente as forças armadas quiserem ter tal posição, não sei como é que isso poderia ser defensável do ponto de vista da constituição.
4. Relativo ao ponto 3. O ideal, como escreve o João Carvalho, é acabar com esta posição e deixar tudo muito quietinho. Toda a gente nas forças armadas deve ter acesso à confissão religiosa que entender desde que isso não interfira com o seu trabalho (mesmo regime que nos hospitais, na minha opinião). Fora isso…
Façamos então um pequeno exercício intelectual, caro João André.
‘Mutatis mutandis’, imaginemos que o bispo castrense tinha proferido as seguintes declarações:
«Todos os portugueses residentes na Holanda são profundamente corruptos. São um conjunto de diabinhos negros. Eu não acredito nesses tipos, que têm o seu gangue.»
Deixemos de lado o ‘kitsch’ da expressão “diabinhos negros” e vamos ao que interessa – a expressão “profundamente corruptos”. Você – católico ou não, para o caso não interessa – encolheria os ombros e diria, como diz, que o bispo tinha-se limitado a “apontar o que está mal”, portanto sem necessidade de referir eventuais casos concretos, evidências, concretizar?
Julgo que não.
Julgo que reagiria, como ontem reagiu o ex-ministro socialista Augusto Santos Silva no mesmo canal. Quando disse que “são declarações manifestamente excessivas” e “o Governo não é constituído por pessoas corruptas”.
Estamos a comentar uma entrevista televisiva do bispo das forças armadas (algo à partida ferido de anacronismo) em horário de grande audiência equivalendo-se aos desabafos de um barbeiro ou um taxista, sem desprimor para estas duas classes profissionais, que nem costumam ser presença assídua nas televisões.
Lembre-se das lições da história, João. Lembre-se do que fizeram os ‘camisas negras’ de Mussolini na década de 20 ao criticarem da forma mais populista, demagógica e generalizada os políticos legitimamente eleitos pelo povo. Depois deu no que deu. Lá e em muitos outros locais, pois estas coisas pegam-se. Para ‘despegá-las’ foi apenas preciso… uma guerra mundial.
Caro Pedro, creio que está a confundir as coisas. Os portugueses residentes na Holanda não têm qualquer influência na Igreja Católica (seja directamente ou através de pressões e diálogos políticos) nem nas Forças Armadas. Eu posso indignar-me com tudo o que os bispos dizem e nada posso fazer em relação a isso. Não posso, por exemplo, complicar a vida a Torgal Ferreira ao lhe retirar um automóvel, mudar-lhe o gabinete, trocar as chaves do mesmo, cancelar o reembolso de despesas, etc. Não quero dizer que o ministro da defesa o faça ou fizesse, apenas que ele poderia tornar a vida de Torgal Ferreira difícil e eu, tal como 99,999% dos portugueses residentes na Holanda, não posso.
Quanto a ser insultado, sou-o o suficiente por ter saído do país. E em alguns casos até compreendo os insultos. O que faço? Vivo com eles. Que solução. Já como jovem fui insultado por governos uns atrás dos outros. Fiz o que pude para os combater (ou as opiniões veículadas). Regra geral perdi as guerras, malgrado algumas batalhas ganhas. O que fiz no fim? Segui em frente.
O que está em causa não são insultos. São opiniões. Dadas à bruta? Sim, sem dúvida. Só que, até ver, isso é um direito de Torgal Ferreira. Tal como é um direito do governo (ou de membros do governo) de processar Torgal Ferreira por difamação. Vir, como o ministro fez, implicar que Torgal Ferreira não deveria dar opiniões por ser bispo das Forças Armadas, isso já demonstra algo mais grave que um bispo com incontinência verbal: um ministro sem espírito de encaixe (e pouco espírito democrático, mas deixemos isso como opinião minha).
No fim, as minhas perguntas continuam: o bispo deve lealdade ao governo ou ao estado? A mim parece-me que são coisas diferentes. A opiniões dele vinculam alguém? Parece-me que não. Mudando o seu argumento, os argumentos de um taxista também não vincula os outros profissionais.
Por fim, também me parece que um estado laico não deveria ter qualquer bispo nas Forças Armadas. Deve dar acesso a todas as confissões religiosas, evidentemente (e na maior parte dos casos falamos de católicos), mas não dar uma posição de relevo a ninguém em especial.
Acho piada é que, um caso que seria tão simples de resolver com uma declaração de “infelizmente o bispo pensa assim, obviamente que lamentamos” ou algo do género pareça causar tanto incómodo. É uma opinião. Isto é assim tão doloroso?
Caro João, você coloca o assunto no plano da liberdade de expressão. Eu não o coloco a esse nível: entendo que não está – nem poderia estar – em causa a liberdade de expressão. Se houvesse algum problema de liberdade de expressão em Portugal – onde a toda a hora, a todo o momento, toda a gente critica quem muito bem entende – o próprio bispo Januário não seria certamente, como é, um dos campeões de entrevistas no País: ou muito me engano ou ele fala mais do que todos os restantes membros da conferência episcopal portuguesa juntos.
O que está em causa é esta expressão concreta: o Governo “é profundamente corrupto”. Expressão tão absurda, tão infundamentada, tão desproporcionada, tão irrazoável, como seria da minha parte eu dizer que todos os bispos católicos são “profundamente pedófilos”. Estamos ao mesmo nível de conteúdo difamatório. Com a agravante, no caso do bispo, de revelar um profundo desprezo por instituições que – concordemos ou não – resultam do voto democrático, como aliás o Rui Rocha já aqui assinalou, num outro texto.
Esta profunda falta de tolerância do bispo Januário atinge, no limite, os próprios eleitores que optaram por este Governo e não por nenhum outro. Merece por isso, não tenho a menor dúvida, ser duramente criticado também no plano político. Não por acaso, até destacados socialistas apressaram-se a demarcar-se das declarações do bispo. Já citei anteriormente o ex-ministro Augusto Santos Silva. Cito agora Francisco Assis. “É evidente que as declarações são excessivas. Censuro este tipo de linguagem. Temos que ter cuidado na preservação das instituições democráticas liberais. Claramente, aqui ultrapassou-se uma fronteira. Não é forma de se pronunciar sobre o Governo do País”, disse ontem (na TVI 24) o ex-líder parlamentar do PS.
Acresce a isto, naturalmente, o facto de D. Januário se manter vinculado a duas instituições onde prevalece uma cadeia hierárquica. A que interessa no plano do Estado, que é a instituição militar não poderia funcionar de outra maneira, goste-se ou não. É uma instituição que está, nos termos da Constituição da República, submetida ao poder civil, como aliás sucede em qualquer país democrático. Ninguém obriga o bispo a ser capelão-mor das forças armadas: pode renunciar a qualquer momento. Não pode é ser major-general para uns efeitos e não ser para outros.
(Já agora: se um grupo de oficiais golpistas procedesse dentro da mesma lógica, derrubando ‘manu militari’ um governo eleito por sufrágio universal mas alegadamente ilegítimo por ser “profundamente corrupto”, o capelão-mor dar-lhes ia a sua bênção apostólica?)
P. S. – Gosto de debater ideias com leitores, como em regra sucede consigo: julgo que as caixas de comentários dos blogues servem também para esse efeito (e aqui no Delito, como bem sabe, temos até esta originalidade de eleger semanalmente um comentário para a página principal).
Até por isso, gostaria de entender algo que escreveu e que não percebi. Por que motivo há de você ser – ou sentir-se – insultado por ter saído do País (embora sem sair sequer do espaço Schengen, que permite a livre circulação de centenas de milhares de pessoas, equiparadas em direitos e deveres, o que constitui uma óbvia conquista civilizacional)?
Eu vivi dez anos longe do País e nunca me senti insultado: pelo contrário, foi uma longa experiência de vida que me abriu muito os horizontes. Sou filho e neto de homens que viveram e trabalharam longe de Portugal e nunca considerei isso uma menorização, muito antes pelo contrário: para mim é motivo justificado de orgulho.
3. Havendo capelães das Forças Armadas, é natural que estes estejam submetidos, na hierarquia católica, a um bispo próprio. Isso é uma questão de organização interna da Igreja, com a qual o Estado, em princípio, nada tem (ou deveria ter) a ver.
4. As outras religiões nunca pediram, que eu saiba, para terem “capelães” nas Forças Armadas. Se não os querem ter, e se os soldados não solicitam que eles existam, não há razões para que o Estado imponha tal coisa.
Não há, definitivamente, pachorra para este “anjo”. O Sr. Bispo Januário, deverá confessar-se, cumprir penitência pelos ruídos desajustados que emitiu e quem sabe? … fazer um retiro espiritual. Para um “servo” do Senhor, que julgo ser o caso, mostra-se um pouco excitado e com um palavreado inadequado.
Deve comportar-se sob pena do Sr. Cardeal lhe puxar as orelhas.
Eu não acredito nesse tipo. Nem no outro.