Excessos pouco redentores


Sérgio de Almeida Correia,

Tenho acompanhado com um misto de curiosidade e espanto a viagem de Bento XVI a Portugal. 

Ainda com a imagem bem fresca na minha memória de João Paulo II e da viagem que fiz a Roma e ao Vaticano no ano que antecedeu o seu desaparecimento, confesso que tenho olhado para o pontificado de Ratzinger com uma grande desconfiança. O seu papel enquanto guardião da doutrina oficial e a forma como tem conduzido a Igreja desde que assumiu o seu comando em nada contribuíram para afastar esse estado de espírito. 

A imagem do Papa, para além daquilo que é transmitido pelo próprio nas suas fugazes aparições, textos e discursos, é muitas vezes a que resulta do que é transmitido pelos seus adjuntos e secretários e da forma como as suas mensagens são filtradas até chegarem ao exterior. E é exactamente por aqui que as coisas têm claudicado. Sucessivos escândalos, declarações evasivas e pouco esclarecedoras sobre os mesmos, uma certa complacência com os poderosos e um perdão sempre pronto em relação a situações de extrema gravidade deram alimento às vozes que fazem do ataque às religiões e, em especial, ao catolicismo, uma bandeira de afirmação no contexto mundial. 

A Igreja perdeu força e protagonismo com Bento XVI mas parece que aos poucos começa de novo a recuperar a sua influência e a resgatar uma credibilidade que tão mal tratada tem sido.

A melhor prova dessa recuperação é dada pelas corajosas palavras que proferiu no voo que o trouxe até Lisboa. Ao condenar de forma tão clara e directa os erros cometidos, ao afirmar e reconhecer que os maiores inimigos da Igreja estão dentro dela, Bento XVI assume de novo o protagonismo e garante que está atento ao que se passou e está a passar. Essa é a maior e melhor mensagem de esperança e de confiança no futuro que poderia transmitir.

Como católico e cidadão esse é um estímulo poderoso para o trabalho futuro. A fortificação do espírito numa muralha ética, a coragem de enfrentar os desafios, o ser capaz de olhar para dentro e de ajuizar qual o melhor caminho a seguir, percebendo que é a Igreja que terá de se adaptar aos novos tempos, e não o contrário, é o papel e o que se espera de um líder com a dimensão religiosa e política do sucessor de S. Pedro.

Mas o conforto que isso me dá não me descansa o espírito noutras vertentes.

Percebo e reconheço a importância e o interesse para todos da viagem a Portugal de Bento XVI, numa altura de crise internacional e interna, num momento em que todos os esforços serão sempre insuficientes e ficarão aquém do necessário para minorar o sofrimento de muitos milhões, mas tenho muita dificuldade em aceitar alguns excessos, venham eles de onde vierem.

Dou de barato as complicações estradais, a tolerância de ponto decretada pelo Governo ou os milhares que foram gastos na preparação da visita e no alindamento de Lisboa. Estou certo de que os católicos portugueses não chorarão a contribuição que os seus impostos irão dar para as despesas da visita, embora qualquer pessoa de bom senso e no seu perfeito juízo possa pensar que setenta e cinco milhões de euros para serem “derretidos” em três dias é uma verba excessiva para com a contenção, e a discrição, que a fé também reclama e de que a Igreja deveria ser a primeira a dar exemplo.

Incomoda-me a ostentação excessiva, a forma bajuladora e até certo ponto subserviente como as instituições da República e os seus titulares se comportam nalgumas cerimónias públicas; o tempo dado pelos canais públicos de rádio e de televisão à visita, e, em especial, determinado tipo de manifestações que apenas servem para rebaixar o evento, o seu interesse ecuménico e político e conferir natureza folclórica àquilo que era suposto ser sério. A oferta de camisolas de equipas de futebol em pleno Terreiro do Paço é um exemplo disso mesmo.

Seria bom que momentos como esse, e que eu sinceramente espero não ver repetidos, não servissem para desvalorizar a importância desta visita e que, naquilo que ainda falta cumprir, as instituições da República e os seus titulares não se comportassem como meros serventuários da Santa Sé ou dos secretários de Bento XVI. Tudo o que é excessivo é contraproducente. Tudo o que é forçado é ridículo. A Igreja e a República não podem em momento algum ser confundidas e seria bom que isso não passasse despercebido. Para bem de uma e de outra instituição.  

14 comentários em “Excessos pouco redentores”

  1. Um excelente texto para uma oportuníssima reflexão, Sérgio.

    Parte menor, deixa-me lembrar-te que Bento XVI tem tratado de calar sem delongas e sem publicidade todos os “porta-vozes” recentes que foram sucessivamente contribuindo para o atabalhoamento de explicações míopes. O que me parece encaixar no que muito bem consideras.

  2. Parece-me que aborda de forma coerente os principais aspectos suscitados pela visital de Bento XVI a Portugal. Se me permitir, faço das suas as minhas palavras.

      1. Sempre atento.
        Poderia ser…mas evito fazer contracções abusivas e pouco perceptíveis (para os mais distraídos…eheh).

  3. Excelente análise, que subscrevo. Só no episódio da camisola divergimos. Não me incomodou – e nada tem a ver com as minhas simpatias clubísticas, como é óbvio. Para mim foi, tão só, um momento de descontração, que não deve ser valorizado.

  4. “Estou certo de que os católicos portugueses não chorarão a contribuição que os seus impostos irão dar para as despesas da visita”

    Os católicos não chorarão, é certo. Mas os não-católicos chorarão. E é bom lembrar que atualmente, a avaliar pelas assistências às missas (menos de um quinto da população de Portugal), os católicos são já bem minoritários.

    1. Por esse prisma (tributário) até poderia ter alguma razão. Mas se olharmos para a rápida adesão dos “não-católicos” à tolerância de ponto – vi muçulmanos nas imagens do Terreiro do Paço – e à forma como alguns mais dados ao ateísmo, ao agnosticismo e à astrologia se aproveitaram das dificuldades logísticas para não irem trabalhar, não sei se estará correcto.
      E quanto às missas, penso que isso não tem qualquer significado. A começar por mim, que normalmente entro nos templos fora da hora das missas, para poder estar tranquilo e em paz, e não me considero por isso menos praticante ou atento ao que me rodeia do que os (sem ofensa) “papa-missas”.

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