Não sei porquê, este diálogo vem-me com frequência à memória. É do filme A Última Fronteira (The Westerner, 1940), de William Wyler, e parece espantosamente simples e destituído de qualquer artificio. Mas tem vários níveis de leitura, além de revelar, só por si, um dos grandes atributos dos heróis do western – indivíduos de carácter, que preferiam ser donos do silêncio em vez de escravos das palavras. É, além disso, uma espécie de homenagem a Gary Cooper, uma das figuras míticas do cinema, que interpreta na perfeição o forasteiro deste filme – homem que alia o amor à terra a um indomável espírito de aventura, alguém de poucas falas e vistas largas, sempre em demanda de novos horizontes. Precisamente ao inverso dos políticos dos nossos dias.
A cena passa-se entre um juiz e Gary Cooper:
Juiz – De onde vens, forasteiro?
Gary Cooper – De nenhum sítio em particular.
Juiz – E para onde vais?
Gary Cooper – A nenhum sítio em particular.
Eram assim os heróis do Oeste. Sem raízes que os prendessem e prontos a lançar raízes em qualquer lugar. Aventureiros, na melhor expressão que podemos dar a esta palavra. Protagonistas de um tempo de pioneiros de que cada vez somos mais nostálgicos por termos a certeza de pertencerem a um mundo que já não há.
Martha Gellhorn suicidou-se aos 89 anos. Foi a única mulher que pediu o divórcio a Hemingway, a única que fez a vida que quis, deixando cinco anos de casamento para trás (de 1940 a 1945) e fazendo uma vida de correspondente de guerra durante 60 anos. Depois de um diganóstico de cancro e de estar quase cega, suicidou-se em 1998. Dizia ela que nada se comparava ao horror da guerra civil espanhol ou a Dachau, depois disso escreveu sobre muitos outros cenários de guerra. Sobre o amor, disse que o aborrecimento/tédio/rotina é o maior inimigo de todos. Poucos sabem quem ela é. Phillip Kaufmann fez um filme sobre esta mulher, com Nicole Kidman, Clive Owen a fazer do escritor excêntrico que escrevia de pé, bebia rum, achava que um grande escritor é sempre um mentiroso. É um filme que se vê quase como um documentário. Depois do filme, fiquei a pensar que o amor não morreu por monotonia da relação, morreu por causa da competição. Para o Senhor Hemingway era impossível ter uma mulher que fosse melhor que ele. E, tal como ele, muitos homens e mulheres vivem nesta fúria da competição, quando o casamento deveria ser sobre admiração, amor, companhia, compreensão mesmo no pior cenário. Eu nem sempre digo as coisas mais certas, já se sabe, portanto isto pode ser tudo uma grande tanga.
Como não me interesso por tecnologia Steve Jobs nunca foi um guru que me apaixonasse. Dele sabia apenas que era um génio intratável e chegava-me. Mas ver um biopic não dá trabalho, por isso sentei-me um dia destes no cinema para saber mais. Gostei da composição de Ashton Kutcher, não percebi porque a caracterização o manteve com cara de miúdo até ao fim e apesar de ter falta de conhecimentos para avaliar o que Matt Whiteley, o argumentista de Jobs, fez com a vida do criador da Apple, pareceu-me uma boa síntese, bem adaptada por Joshua Michael Stern.
Não me macei com demasiada informação tecnológica e da vida pessoal do ícone fiquei com todas as chaves para aceder ao que não foi dito e que, de longe, foi o que mais me interessou. Jobs não emociona mas é um filme generoso. Por um lado procura ser honesto com o biografado revelando-o, sem o julgar, em todas as suas facetas, por outro dá-nos a nós, comuns mortais, muita matéria de reflexão.
Como pode um génio interessar-se seja pelo que for que esteja fora do seu universo mental se tem uma feira popular a funcionar 24h por dia na cabeça? Como escapará a sentimentos de superioridade quando constata, desde cedo na vida, que as suas capacidades estão muito acima da média? E nesse caso como poderá estabelecer com os outros relações que não sejam meramente instrumentais? E não manifestar desprezo pelas convenções sociais através de múltiplas excentricidades? E não acumular agressividade em bolsas que explodem se sofre de um atroz sentimento de solidão? Em suma, é possível a um génio não ser egocêntrico e socialmente disfuncional? E se não é, podemos enfim dizer dos génios que são todos iguais?
Foi nesta maçã que fiquei a roer, ungida de uma compreensão que antes nunca tinha sentido, de forma tão intensa, pelos génios deste mundo e do outro.
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Jobs (2013). Realz – Matt Whiteley. Argumento – Joshua Michael Stern. Intérp – Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad
A propósito deste teu post, Teresa, e porque não há regra sem excepção, está neste momento em cartaz um filme onde qualquer mulher encontra três horas de justificada e doce vingança. Não é um filme novo, muito pelo contrário. Refiro-me à versão integral e recuperada de um dos grandes clássicos do cinema: Lawrence da Arábia. É um mundo de homens (há apenas duas aparições de mulheres, mudas, fugazes e insignificantes). Mais, é um mundo de homens em guerra, que resulta fatalmente em doses maciças de testosterona servidas com requinte e para todos os gostos: da loira beleza imaculada de Peter O’Toole à viril e sedutora aspereza de Omar Sharif. É a história de um homem e da sua utopia, da sua fuga à realidade, da sua atormentada circunstância e da sua catarse muito pessoal, vivida em cenários das mil e uma noites. A irresistível magia do deserto acrescenta a tudo isto a porção necessária de mistério e fantasia, para já não falar na magnífica fotografia e na banda sonora, épica como convém. Em suma, é um feliz regresso aos sonhos mais ousados da nossa adolescência, um mergulho repentino nesse tempo e espaço em que éramos só hormonas.
E antes que alguém me caia em cima pela superficialidade deste comentário sacrílego a um filme que é “muito mais do que um romântico bando de homens com vestes esvoaçantes, atravessando desertos sobre camelos”, concedo: sim, sim, eu sei, é também um documento histórico sobre uma época de convulsão e intriga política numa região ainda por desenhar, uma preciosa lição sobre a essência do mundo árabe, uma séria advertência aos perigos da ganância e do preconceito cultural, uma antecipação do fosso cavado irremediavelmente entre ocidente e oriente, blá, blá, blá, blá. Mas este post é uma piscadela de olho, não uma crítica ao filme.
Curiosamente, e ainda sobre o tema, o que há de mais perturbadoramente feminino no filme é o próprio Lawrence, e não me refiro só aos olhos azuis de Peter O’Toole.
É gira esta mulher. Gira não, linda. Sobretudo a boca. E os olhos. O nariz também é perfeito. Tem, de facto, um rosto muito bonito. Como se chama? Ah, sim, Olga. Olga qualquer coisa. Olga vai, Olga vem. De costas, deitada, em contraluz. Parece que é Kurylenko. A rir, de repente séria. Sim, chama-se OlgaKurylenko, é ucraniana e, agora me lembro, já foi uma bond girl.
O Ben Affleck quase não fala. Actores americanos raramente falam línguas estrangeiras, portanto enquanto a rapariga palra em francês, ele grunhe. Nada que atrapalhe os propósitos do realizador, que prefere ouvir a voz dela, prefere tudo dela. A correr, à chuva, ao vento, a fazer amor. Sempre ela. Meia hora tem piada. Diz que é um filme sobre o amor. Só se for do amor de Malick por ela.
Ando há anos a levar com doses maciças de fetichismo masculino. Calculo que à razão de mil pares de mamas por cada rabinho viril. Ainda há quem diga que o sexo não interfere com a produção artística.
As câmaras continuam a ser maioritariamente os olhos dos homens. Mas o Malick neste filme exagera. Leva à cena outra actriz, para que a triangulação se cumpra. É uma situação tão banal no cinema que tratá-la reduzindo a narrativa a elipses contínuas sobre paisagem metafórica parece pretensioso e preguiçoso, no entanto é o que ele faz. A outra actriz (Rachel McAdams) é uma fêmea estereotipada. Loira, mais peituda, beleza vulgar, o contraponto da menina ucraniana que o encantou. Pelo meio, vacilante e mudo o canastrão do Ben Affleck parece perfeito para fazer o papel de menino nas mãos das bruxas. Frágil, frágil perante tanta beleza. Tadinho.
A par deste enredo amoroso aparece também o caso de um padre (Javier Bardem) em crise vocacional a dar uma dimensão mais universal ao tema da complexidade do amor. Nada que convença. Porque no fim a Olga volta. De frente, de costas, de lado. Assim e ao contrário, em todas as estações. Se To the Wonder (em português, A Essência do Amor) era um filme para auto-satisfação, que petulância Terrence Malick, só porque é considerado um realizador de culto, tê-lo distribuído comercialmente.
Do que eu gostava mesmo nem era de estar assim de perna partida. Podia ser Verão e em Nova Iorque (lá está, a perna fazia falta), mas ainda não seria isso que contava.
Era de ser desperto por uma sombra durante a sesta e que da penumbra, uma brisa de futura princesa, viesse celebrar comigo com um vestido tão branco-e-negro como o debate entre a beleza e a virtude. Depois do beijo.
Nem pedia que me fosse servida ao domicílio a lagosta suada do “21” por um valete detrás da porta – que ela esfriasse na casca. E se dissesse que estava perfeita como sempre, seria sem sarcasmo nem tédio.
E mais posso jurar que em caso algum desdenharia da frivolidade do mundo, nem estaria disposto a trocar o luxo desta miragem loira por um par de botas e um jipe no Paquistão. Danem-se os vizinhos e a vida deles – será da idade?
Há duas espécies de velhos, os que admiramos por conseguirem avançar nos anos sem perder a elegância e a identidade e os que se degradam, constituindo no seu conjunto uma montra triste, que preferimos ignorar. Infelizmente os que soçobram constituem a maioria, por isso estão em todo o lado, na rua, nos prédios onde habitamos e até dentro das nossas casas. São velhos sem nome (os velhos, quando perdem a identidade, deixam de ter nome e passam a ser apenas “velhos”). Até os que nos estão mais próximos deixam de ser quem foram. Os pais e as mães que sucumbem à doença passam a ser vistos pelos respectivos filhos com olhos de vidro, sem foco. De repente a uma distância enorme, a que vai da vida activa ao mundo frágil e terminal da terceira idade. Quando são por estes lembrados nunca têm o rosto que ostentam mas o antigo, do tempo em que exerciam as suas funções afectivas de acordo com as expectativas.
Senilidade e decrepitude são palavras assustadoras, que cheiram a urina, por isso pensá-las é um exercício que evitamos. Vê-las à nossa frente, com a fisionomia de gente que amamos é uma agressão intolerável. Por isso muitos as fecham em jazigos com médico e serviço de enfermagem permanente.
Em “Amor”, Michael Haneke mostra-nos o que acontece às pessoas que perdem o nome. Sempre que sou forçada pela vida ou pela imitação da vida que é o cinema a olhar para onde não quero, lembro-me da inolvidável cena de Malcolm Mcdowell em “Laranja Mecânica”, de olhos arreganhados por pinças e preso a uma cadeira a ver cenas intermináveis de sexo para se curar. Neste filme, Haneke também nos obriga à visualização compulsiva da obscenidade que é a perda da autonomia e da dignidade na velhice através do desempenho magistral de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Mas a prova mais difícil de “Amor” tem como figura chave a personagem de Isabelle Huppert, que interpreta a filha do casal idoso. Em entrevista recente o realizador austríaco disse que ficou emocionado quando Huppert aceitou este papel, por ser tão pequeno. De facto são escassas as cenas em que a actriz aparece, mas a sua ausência é parte fundamental do enredo. Huppert somos nós. A indisponibilidade, o egoísmo, a imaturidade, a cobardia e a negação são nossas. E quando já de luto se senta sozinha na casa dos pais, é em nós que se instala o vazio.
Em poucas sessões tenho visto a plateia de uma sala de cinema permanecer sentada, em silêncio, até que as luzes se acendem e a ficha técnica chega ao fim. Não por acaso foi o que aconteceu quando fui ver este “Amor” implacável, inesquecível, de Haneke (onde a nossa Rita Blanco desempenha um pequeno papel), o filme mais premiado no Prémios do Cinema Europeu 2012, distinguido com os galardões de melhor filme europeu, melhor actor e melhor actriz e também vencedor da Palma de Ouro em Cannes, na edição deste ano. A não perder.
Fui ver ao cinema ver o filme Mata-os suavemente, com Brad Pitt, Ray Liotta e James Gandolfini. O filme é absolutamente espantoso, não apenas pelo trabalho extraordinário dos actores, mas principalmente pela forma como retrata uma América praticamente moribunda durante a grande crise de 2008. A história é sobre um assassino a soldo, que vai fazendo o seu trabalho enquanto o país assiste ao gasto de 800.000 milhões de dólares do orçamento americano para evitar a falência dos bancos. Vamos assistindo pelo caminho aos discursos de Bush, explicando que não gostava dessa decisão mas que era obrigado a tomá-la devido à irresponsabilidade dos banqueiros. Em contraponto surge a campanha eleitoral de Obama a prometer um futuro melhor, mas em que ninguém acredita, sabendo quais as consequências daquela decisão. Na altura não pude deixar de sorrir, pensando como é parecido o discurso actual dos políticos portugueses, lavando a sua consciência em torno do Orçamento de 2013, ao dizer que por muito mau que seja não têm outra alternativa senão aprová-lo.
O título original do filme “Killing them softly” é ambíguo. Remete em primeiro lugar para uma frase do assassino sobre os seus métodos de trabalho: “I like killing them softly, from a distance“. Os seus assassínios são, no entanto, brutais, nada tendo de suave. Mas ao mesmo tempo, enquanto no filme ouvimos os discursos dos políticos americanos temos igualmente a sensação que não se apercebem de que os seus cidadãos estão também a morrer (nada) suavemente em consequência das medidas que aprovam.
O filme tem uma cena que corresponde à maior crítica da América que alguma vez vi surgir num filme. Enquanto o assassino está discutir com o mandante o pagamento dos seus serviços, surge na televisão o discurso de vitória de Obama em Chicago, apelando à união de todos os americanos e exaltando a grandeza dos valores da América. O assassino comenta então que esses valores nunca existiram. O país tinha sido criado com base numa fraude de Thomas Jefferson, que embora proclamasse que todos os homens nasciam iguais, ele próprio era proprietário de escravos, alguns deles seus próprios filhos, que não se importava que vivessem na escravatura. Thomas Jefferson não passava assim de um snob rico, que não queria pagar os impostos que devia. E por isso na América não se podia esperar nada de ninguém: “This is America and in America you are on your own. America is not a country, it’s just a business“. Mas se a América é isso, o que será afinal a União Europeia?
Comprei bilhete com antecedência para um acontecimento cinematográfico – a estreia em Lisboa, numa sessão única, da cópia recentemente restaurada do filme As Portas do Céu, apresentada há dois meses, no Festival de Veneza, pelo realizador Michael Cimino. Não exagero ao utilizar a expressão acontecimento cinematográfico: trata-se de um filme quase com estatuto mítico por vários motivos. Desde logo por ter uma aura equivalente à de O Quarto Mandamento / The Magnificent Ambersons, de Orson Welles, quatro décadas depois.
Cimino era em 1980, ano da estreia desta longa-metragem, um dos mais célebres cineastas do planeta depois de ter sido galardoado com o Óscar, dois anos antes, pelo excepcional – do ponto de vista da qualidade cinematográfica e da controvérsia que suscitou – O Caçador, talvez o mais polémico filme de sempre sobre a guerra do Vietname. Tal como sucedeu com Welles logo após ter estreado Citizen Kane, quando se tornou o realizador-estrela da RKO, a então próspera United Artists deu a Cimino liberdade total para rodar o filme seguinte, que foi precisamente este. Um projecto megalómano, desmedido, descomunal, bigger than life, que conduziu o histórico estúdio à falência e condenou o incómodo cineasta a uma longa travessia do deserto.
Tal como sucedeu com a película de Welles, tornada quase irreconhecível pelos executivos da RKO à revelia do realizador depois de lhe ter sido dada carta branca para filmar o que quisesse e como entendesse, também esta foi severamente amputada, acabando por circular em cópias adulteradas de 141 ou 149 minutos, que suprimiam segmentos decisivos. A versão original, de 219 minutos, foi praticamente retirada de circulação logo após o fiasco da estreia e do coro de críticas negativas que recebeu nos Estados Unidos: duas gerações de espectadores jamais puderam vê-la.
Felizmente, ao contrário do que sucedeu com o segundo título da filmografia de Orson Welles, cuja montagem original se perdeu para sempre, neste caso foi possível recuperar Heaven’s Gate sob a supervisão do próprio Cimino. É um notável trabalho de restauro que faz inteiro jus à magnífica fotografia de Vilmos Zsigmond, agora restituída ao esplendor original.
Comprei o bilhete no início da semana antecipando uma provável enchente hoje à tarde no Monumental, onde seria possível ver o filme em ecrã grande, como merece – iniciativa meritória do Festival de Cinema de Lisboa e Estoril, que decorre até amanhã com a exibição de películas de Luis Buñuel, Otto Preminger, Brian de Palma, Monte Hellman, Lindsay Anderson, François Ozon, Hou Hsiao-Hsien, Bernardo Bertolucci, Alain Resnais, Stephen Frears e Abel Ferrara, entre outros realizadores.
Afinal, nesta sessão única, a sala estava praticamente vazia: este filme de culto, debatido na proporção inversa à das oportunidades de ser visto, passou quase clandestino numa Lisboa preguiçosa e distraída, que esbanja sucessivas oportunidades para se cultivar e abrir horizontes – oportunidades que os residentes noutras zonas do País bem gostariam de disfrutar.
Três horas e meia de exibição que passaram muito mais depressa do que supus. É uma oportunidade rara, assistirmos à segunda vida deste western atípico que nos revela a face negra do sonho americano – um filme maldito, perseguido desde o primeiro dia por um rasto de controvérsia, amado por um punhado de críticos e renegado pela poderosa indústria de Hollywood. Com deslumbrantes cenários naturais rodados no estado de Montana, uma banda sonora inesquecível e um elenco de luxo – Kris Kristofferson, Christopher Walken, John Hurt, Sam Waterston, Isabelle Huppert, Jeff Bridges, Joseph Cotten (outra coincidência: foi ele o actor eleito de Welles e protagonista de Citizen Kane e The Magnificent Ambersons), Brad Dourif, Mickey Rourke e Willem Dafoe (este no seu primeiro papel em cinema).
Só foi pena a sala quase vazia. Um sinal da crise, que não é apenas financeira – é também de hábitos culturais. A Sétima Arte clássica, vocacionada para a exibição em sala, vai morrendo aos poucos, mês após mês, ano após ano. Um dia, talvez não muito distante, haveremos todos de lamentar o encerramento do último cinema do nosso bairro, da nossa vila, da nossa cidade, do nosso país.
Vou directo ao assunto: detestei este filme do James Bond. Já tinha achado péssimo o anterior – uma espécie de Indiana Jones de série Z, sem nada que o distinguisse de um rasteiro filme de “acção” – mas este supera-o pela negativa, algo ainda mais de lamentar pois o realizador é um nome de prestígio, aliás já galardoado com o Óscar: Sam Mendes.
Bond sempre foi uma figura próxima do universo dos comics transposta para o cinema. Ou seja, algo que não deveríamos levar a sério. Mas no início havia ironia nas situações em que se encontrava o agente 007 e ele superava todos os embaraços muito mais pela astúcia do que pela força. Com Daniel Craig, passou a beber cervejola em vez de champanhe e martinis. Deixou de integrar a aristocracia da espionagem e transformou-se numa mera máquina de matar.
Adeus astúcia, olá força bruta. Quem aprecia arraiais de porrada para acompanhar baldes de pipocas e confunde o cinema com isto, deve gostar das descargas de “adrenalina” proporcionadas por tantos cadáveres trepassados a tiro, por tanto osso partido, por tanta labareda, tanta bomba, tanta pirotecnica visual.
Alguns de nós, os que crescemos a ver filmes do 007 e mantivemos através dos anos uma ligação afectiva a este imaginário por constituir um elo insuperável à nossa adolescência cinéfila, consideramos quase um sacrilégio ver o agente ao serviço de Sua Majestade convertido num clone de Steven Seagal ou do Van Damme. Sucede até o impensável neste Skyfall: Bond parece sempre mais interessado em jogar à pancada com homens do que em seduzir mulheres (as Bond girls estão aqui reduzidas à quota mínima). Ian Fleming, o criador do célebre agente secreto, deve ter dado saltos na tumba perante tamanha heresia.
E tudo isto, no fundo, serve para quê? Serve de veículo de propaganda da China.
Bond inicia as suas corridas alucinantes numa Istambul decrépita e termina-as numa Escócia que parece congelada no tempo – de passagem por Londres, mais cinzenta que nunca, sem sombra de glamour. Só Xangai brilha por contraste. Os breves minutos de imagens da capital económica chinesa com os seus arranha-céus ultramodernos exibidos neste filme como bilhetes postais funcionam como cartaz propagandístico ao nível planetário.
Mensagem subliminar: o sistema chinês funciona. Mesmo com capitalismo selvagem – ou por causa disso mesmo. Mesmo sem democracia nem direitos humanos – ou por causa disso mesmo. O Partido Comunista está no poder desde 1949 (há sessenta e três anos!) e nem é preciso mais nenhum, pois ele garante a aplicação do capitalismo melhor do que qualquer outro. Ali ninguém fala em “reformas estruturais” nem em “concertação social” nem em “estado-providência”, de resto inexistente. O novo nome do “estado social”, pelo menos na versão chinesa, é “crescimento económico” – e ei-lo ali, à vista de centenas de milhares de espectadores, naqueles postais nocturnos de Xangai a pretexto de uma longa-metragem com vasta audiência garantida.
Noutros tempos as películas de Bond costumavam publicitar carros ou relógios. Agora publicitam um sistema execrável. Vão de mal a pior.
Nota suplementar: Macau também figura neste Skyfall. É uma das cidades mais “cinematográficas” do mundo: posso garantir-vos pois vivi lá dez anos. Não admira, por isso, que já tenha sido alvo das atenções de tantos cineastas – incluindo Josef von Sternberg, Henry King e Orson Welles. Mas neste filme Macau resume-se a um imenso casino pós-moderno, com putas, assassinos a soldo e dragões-de-Komodo criados como rottweilers. E o vilão é um suposto português residente no Oriente que o espanhol Javier Bardem encarna numa boçal caricatura.
Motivos acrescidos para eu ter detestado este filme. Fuck you, Mr. Bond.
Skyfall. (2012). De Sam Mendes. Com Daniel Craig, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Judi Dench
Charlotte Rampling, aliás, Elizabeth Hunter, vai morrer, mas de barriga cheia. Só a saciedade lhe poderia estampar no rosto aquela mistura de serenidade e malícia que apesar da avançada idade ainda revela uma mulher atraente. Será possível amar a vida e os outros com a mesma intensidade? Esta é a questão de fundo do filme, que Charlotte se coloca. E como no leito de morte não vale a pena iludir a verdade, ela admite que não amou ninguém o suficiente. Ao constatá-lo sorri, auto-complacente, sem sombra de culpa.
Os filhos, Basil (Geoffrey Rush) e Dorothy (Judy Davis), que vivem noutro continente, vêm visitá-la. Ele é um actor decadente, ela divorciou-se de um aristocrata e vive de parca renda. Mal sucedidos e ressentidos com aquela ânsia de viver materna que sempre se sobrepôs ao amor que lhes era devido, ambos vêm para vê-la, enfim, morrer.
Baseado no romance “The Eye of the Storm”, de Patrick White, “O Coração da Tempestade”, do australiano Fred Schepisi, bate ao compasso desta mãe sexuada e hedonista: “Tudo o que levamos desta vida são os momentos inesquecíveis que vivemos. O resto são intervalos maçadores” (cito de cor), foi o seu lema de vida. Haverá filhos que perdoem numa mãe tanta volúpia e ausência de culpa?
Como todas as famílias infelizes, esta tem as suas especificidades, mas a contabilidade do deve e haver é um padrão comum a todas. Ressentimento, ciúme, inveja, tudo o que dá sustento aos amores ínvios das famílias disfuncionais se expõe neste filme com esmero, no ambiente requintado da classe média alta. A elegância, de resto, é o pivot desta película de Schepisi. Nos décors, nos exteriores, filmados algures na costa australiana, nos sentimentos vis que se reprimem a elegância pontua, envolvente, sobretudo quando se passeia por Charlotte, pelos magníficos olhos que ganharam um dia direito ao epíteto The Look.
…………………….
O Coração da Tempestade (The Eye of the Storm), realz: Fred Schepisi, intérpt: Charlotte Rampling, Geoffrey Rush e Judy Davis
É um filme de sempre. Será para mim o filme do corte do dedo, do Harvey Keitel nu, de uma Holly Hunter calada, sublime, de uma miúda a tentar perceber a vida, de uma ideia de mar e de perplexidade. A música? A música é eterna.
Natalie Portman destaca-se enquanto caminha, de cabeleira encarnada, no meio da turba. Na direcção oposta vem Jude Law. Um acidente fá-la desmaiar e acordar quase nos braços dele, um cliché que ameaça continuar a sê-lo, embora em versão pós-moderna, quando ao abrir os olhos ela lhe diz, com uma expressão atrevida: “Hello, stranger”. Mas este início de conto de fadas não dura o bastante para embalarmos. Closer (2004), de Mike Nichols, que vi em estreia no cinema em 2005, é um filme cáustico, duro, inclemente.
Há dias apanhei-o, por acaso, na cabo. Ia a meio, mas deixei-me ficar a vê-lo até ao fim, a reviver, como se fosse minha, a desilusão de Natalie, já outra, com cabelos compridos e escuros, a caminhar por entre a multidão ao som do Blower’s Daughter, de Damien Rice. “So it is…” começa ele a cantar, pianinho, antes de evoluir em crescendo para o desespero – “Can’t take my mind off of you” – para depois concluir num sussurro, que é mais uma confissão de derrota que de culpa, ” ‘Til I find someone new”.
Perto Demais (é este o título em português) do que não queremos ver ou ouvir acerca daquilo a que chamamos amor, tão perto que nos vemos, esta obra de Nichols fala-nos da nossa estrutural incapacidade para viver e ser feliz ao mesmo tempo. Através da teia que tece entre dois pares – Natalie Portman/ Jude Law e Julia Roberts/ Clive Owen – propositadamente dotados de uma beleza que lhes proporciona maior capacidade de sedução que o comum dos mortais, Patrick Marber, o autor do argumento (peça premiada) e do guião, revela a angústia residual do trepidante mercado do amor.
O tema é banal, mas o talento de Marber com as palavras e a perfeita execução dos quatro actores faz de Closer uma arena em que o desejo sexual, a desconfiança, o egoísmo e a má consciência se entrelaçam num nó tenso que nos aperta. Sendo um filme moral, “Perto Demais” não julga as personagens mas o universo que habitam, o universo de que nos apercebemos quando aos poucos voltamos a sentir os dedos apoiados no braço do sofá e uma moínha no peito e a luz do candeeiro a incidir num ângulo qualquer da nossa tristeza.
Brilham os olhos de Rita no escuro aquático do medo.
Orson Welles era demasiado inteligente para gostar de metáforas. Com ele era tudo literal. Donde o medo dela, nem é bem medo, será ansiedade?, diante de uma parede de vidro. Sabemos que é azul porque já ali estivemos, mas o que deles vemos é contra uma luz líquida e branca.
“Sigamos o cherne, minha amiga! Desçamos ao fundo do desejo”, segreda-lhe ele, enquanto de costas para que não lhe vejam os olhos, ou os dentes.
E Rita vibra e vê circular o cação, tão esguio na sua pele malhada, num sossego de águas transparentes (foi mesmo assim!):
“Em cada um de nós circula o cherne, quase sempre mentido e olvidado.” Diz ela o que lhe vem à cabeça loira.
Só no fim concordam que se podem beijar sem receio. Entrega-se Rita, multiplicadas Ritas. Vitória literal de Welles.
Fui ver a Meryl no filme sobre a Thatcher e afinal quem eu vi foi a Thatcher e não a Meryl. Nem os olhos lhe descortinei. Eclipsou-se atrás da personagem e deixou-me boquiaberta a pensar que depois de Mamma Mia eu achava que ela já não tinha como me surpreender. The oscar goes to her (I hope).
Fiquei, pois, com a Thatcher, a mulher de quem sempre tive uma visão unidimensional por força das circunstâncias. A sua imagem pública era muito forte, logo redutora e a minha trincheira política já nesse tempo era outra, o que naturalmente me condicionava o olhar.
Resumir a sua vida em duas horas de filme exige que se façam escolhas, mas Phyllida Lloyd (também a realizadora de Mamma Mia) não nos apresenta um biopic parcelar, desses que privilegiam claramente uma das facetas do biografado. A solução que ela nos apresenta é a menos radical, mas a mais arriscada, pelas óbvias dificuldades que coloca, na gestão do tempo e do volume de informação, fazer uma síntese com pés e cabeça.
O resultado é um esboço, tanto da figura pública como da persona que a explica. Inevitável. Quem espera ver neste filme a Maggie que se escondia por detrás da máscara de ferro, fica à espera de mais. Quem quer uma biografia política, desilude-se. Ainda assim não considero A Dama de Ferro um filme falhado, porque apesar de tudo dá-nos muito: uma narrativa com um ponto de partida inesperado, que é o da decadência do fim da vida, e um perfil psicológico que embora limitado, nos ajuda a perceber melhor a mulher que governou, durante onze anos, o Reino Unido.
Ainda que incipiente, o retrato humanizou a meus olhos a senhora que em tempos inspirou a minha ira enquanto trauteava, solidária com os mineiros em greve de fome, o Don’t Give Up, de Peter Gabriel. A dama a quem dedicaram covers de Maggie’s Farm, transformando o original de Bob Dylan num hino de ódio à sua política, era dura como todos os que sobem a pulso. E tal como a generalidade dos self made (wo)men, insensível aos queixumes dos mais desfavorecidos, porque não lhes reconhecia mais dificuldades do que as que teve para vencer na vida. Thatcher acreditava também no que fazia: “o medicamento é forte, mas o doente precisa dele”, argumentava, no auge da contestação às duras medidas que tomou para reabilitar a economia britânica. Afirmava também que estava na política “para fazer e não para ser”, uma atitude muito ética mas pouco sexy, que lhe valeu o afastamento dos seus pares.
Phyllida Lloyd deixa-nos também entrever o universo familiar de Maggie: as relações privilegiadas com o pai, que lhe incutiu a ambição e o orgulho, a distância em relação à mãe, a preferência pelo filho e a ligação ao seu Dennis. Sabemos isto tudo apoiados em cenas fugazes, curtas pinceladas de um quadro que ficará por completar, mas que ainda assim revela o carácter e a coragem de um ícone que passei, graças a este filme, a ver com cara de gente.
É, porém, a política que sai mais sacrificada neste biopic. Quem estiver mal informado perde-se no carrossel de imagens que ilustram os momentos mais marcantes do thatcherismo e jamais terá possibilidade de fazer uma avaliação. Esta é a maior fragilidade de A Dama de Ferro.
A Dama de Ferro (The Iron Lady), 2011. Realz: Phyllida Lloyd. Int.: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Susan Brown
Passamos demasiado tempo imersos na cultura da vingança, do olho-por-olho, do salve-se quem puder, para atentarmos na virtude do perdão. A própria palavra – perdão – tem hoje ressonâncias obsoletas, como algo irremediavelmente ultrapassado. E o cinema contemporâneo, espelho fiel da mentalidade dominante, traz-nos quase invariavelmene histórias de vingança. De cá-se-fazem-cá-se-pagam.
Pensei nisto enquanto via Os Descendentes, de Alexander Payne, surpreendente candidato a melhor filme de 2011 por designação da Academia de Hollywood. E surpreendente precisamente por se revelar contra a cultura dominante: é um filme terno, que sugere e não impõe, que prefere o sussurro ao grito e nos fala em linhas e entrelinhas da importância dos laços humanos num mundo que se vai desumanizando a olhos vistos.
Este era já um traço que percorria filmes anteriores de Payne, como Confissões de Schmidt e Sideways: o da revalorização dos pequenos gestos do quotidiano, indispensáveis para a construção de uma sociedade mais amena, mais amável, mais tolerante e tolerável.
Não desvendo a trama nem necessito disso para acentuar a notável capacidade de ludíbrio do realizador, que a todo o instante parece encaminhar o filme para um clássico enredo em torno de um ajuste de contas e afinal opta pelo rumo menos previsível, à margem das convenções de género – ao ponto de nunca sabermos bem se estamos perante um drama ou uma comédia. A indefinição, neste caso, contribui para o inesperado fascínio deste filme sem personagens exemplares nem pirotecnia tecnológica que confirma Alexander Payne como excelente director de actores, militante de um cinema onde o indivíduo se sobrepõe às organizações colectivas e o ser humano se sobrepõe à máquina.
É talvez desconcertante para alguns que tudo isto se passe no luxuriante Havai com os seus cenários de bilhete postal. Mas como o próprio narrador (George Clooney, numa admirável interpretação que lhe valeu também uma designação para o Óscar) nos adverte logo de início, ao apresentar-nos a mulher há 23 dias em coma, também neste cenário de paraíso ocorrem tragédias, o que nos deve servir de especial aviso.
Nós, cinéfilos, até já sabíamos, embora talvez andássemos esquecidos: é o Havai que surge como cenário desse magnífico filme de amor e guerra chamado Até à Eternidade (Fred Zinnemann, 1953). E nenhum paraíso está imune à semente do mal. Pearl Harbor aconteceu precisamente ali.
Os Descendentes (The Descendants, 2011). De Alexander Payne. Com George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie, Beau Bridges, Judy Greer, Matthew Lillard.
Será que tudo o que o génio artístico produz é arte? A pergunta é retórica. Por maior que seja o seu talento também os génios que nos alimentam a alma têm dias maus. Se além de génios forem mentes perturbadas, uma situação que, como se sabe, anda muitas vezes a par, o risco de sermos contemplados com excrescências artísticas aumenta. Sempre que sou confrontada com obras assinadas por loucos consagrados que me são apresentadas como sendo de génio, mas que por um motivo ou outro me inspiraram uma profunda rejeição, fico a meditar nestas coisas. Aconteceu-me há dias, quando vi Melancolia, o último filme de Lars Von Trier.
Aquela angústia sufocante, que evolui em crescendo até ao final do filme, incomodou-me tanto que cheguei a ponderar abandonar a sala. Se o fizesse não seria a única naquela sessão. Convenhamos que a câmara permanentemente móvel contribuiu em partes iguais para o meu mal-estar. É uma moda, que começou por ter piada, mas que se está a tornar enjoativa. Quando vejo um filme, a menos que se justifique pela temática estar sempre consciente do meu papel de espectadora, gosto de entrar nele e de me esquecer de tudo à volta. Uma câmara aos saltos perturba-me esse entrosamento e cansa extraordinariamente o olhar.
Mas voltando a Melancolia: senti ao ver o filme que estava a participar de um delírio doentio. A linguagem que ali se falava não era a minha. Busquei nas minhas cavernas mais obscuras razões para me identificar com aquele terror primal mas não encontrei correspondência para aquilo. Porque “aquilo” deixou de ser partilhável a partir do momento em que se tornou demasiado pessoal. Dei comigo, incomodada, a espreitar para dentro da cabeça do Lars Von Trier, quando o que eu gosto, ah se gosto, é de espreitar para dentro da minha. Arte é apresentar ao mundo, com apurado sentido estético, um monólogo apavorado? Talvez, mas nesse caso pintem um quadro (adoro Van Gogh), componham (gosto de Schumann), escrevam (sou fã da Virginia Woolf), mas não façam nada que me retenha duas horas dentro de uma sala escura. É que fico mal disposta.