Estrelas de cinema (11)


Pedro Correia,

 

QUANDO A VINGANÇA DÁ LUGAR AO PERDÃO

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Passamos demasiado tempo imersos na cultura da vingança, do olho-por-olho, do salve-se quem puder, para atentarmos na virtude do perdão. A própria palavra – perdão – tem hoje ressonâncias obsoletas, como algo irremediavelmente ultrapassado. E o cinema contemporâneo, espelho fiel da mentalidade dominante, traz-nos quase invariavelmene histórias de vingança. De cá-se-fazem-cá-se-pagam.

Pensei nisto enquanto via Os Descendentes, de Alexander Payne, surpreendente candidato a melhor filme de 2011 por designação da Academia de Hollywood. E surpreendente precisamente por se revelar contra a cultura dominante: é um filme terno, que sugere e não impõe, que prefere o sussurro ao grito e nos fala em linhas e entrelinhas da importância dos laços humanos num mundo que se vai desumanizando a olhos vistos.

Este era já um traço que percorria filmes anteriores de Payne, como Confissões de Schmidt e Sideways: o da revalorização dos pequenos gestos do quotidiano, indispensáveis para a construção de uma sociedade mais amena, mais amável, mais tolerante e tolerável.

Não desvendo a trama nem necessito disso para acentuar a notável capacidade de ludíbrio do realizador, que a todo o instante parece encaminhar o filme para um clássico enredo em torno de um ajuste de contas e afinal opta pelo rumo menos previsível, à margem das convenções de género – ao ponto de nunca sabermos bem se estamos perante um drama ou uma comédia. A indefinição, neste caso, contribui para o inesperado fascínio deste filme sem personagens exemplares nem pirotecnia tecnológica que confirma Alexander Payne como excelente director de actores, militante de um cinema onde o indivíduo se sobrepõe às organizações colectivas e o ser humano se sobrepõe à máquina.

É talvez desconcertante para alguns que tudo isto se passe no luxuriante Havai com os seus cenários de bilhete postal. Mas como o próprio narrador (George Clooney, numa admirável interpretação que lhe valeu também uma designação para o Óscar) nos adverte logo de início, ao apresentar-nos a mulher há 23 dias em coma, também neste cenário de paraíso ocorrem tragédias, o que nos deve servir de especial aviso.

Nós, cinéfilos, até já sabíamos, embora talvez andássemos esquecidos: é o Havai que surge como cenário desse magnífico filme de amor e guerra chamado Até à Eternidade (Fred Zinnemann, 1953). E nenhum paraíso está imune à semente do mal. Pearl Harbor aconteceu precisamente ali.

 

Os Descendentes (The Descendants, 2011). De Alexander Payne. Com George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie, Beau Bridges, Judy Greer, Matthew Lillard.

30 comentários em “Estrelas de cinema (11)”

  1. Pedro, vi o filme com os olhos despertos de que entende o desentendimento com os adolescentes, por isso vi-o como mãe e não espectadora e tudo é entendido ou sentido de outra forma. Gosto de cinema, muito, mas não sou especialista. Longe disso. Ou me toca ou não. Simples. Há coisas que me fazem alguma diferença, como o texto, a banda sonora, a forma como a história se constrói se não for previsível, pequenas coisa de quem já viu muitos filmes e tem gosto nisso. Este, Os descendentes, é um filme sobre a recuperação de uma família, de relações entre mais velhos e mais novos, entre a tradição e o consumo (a questão do terreno) e ainda sobre a morte como parte da vida, não uma parte escondida, mas visível, intensa e marcante. Como tudo, sobre o bem e o mal que, tal como escreves, existe sempre, mesmo no paraíso. Bem hajas. beijos

  2. Se o João Carvalho vê esta foto do Clooney vem já a correr fazer uma montagem e colocar a foto dos 9 anos do rapaz, com franja e óculos enormes.Ui ui

  3. Pedro, como escrevi, o filme não me convenceu. Não é piegas – a palavra pegou, mas já a utilizei há dias quando explanei sobre o dito – mas há algo de falso, de postiço que me esfria.
    Não aprecio Clooney, o glamouroso entorpecedor de corações que, julgo eu, se devia dedicar aos anúncios da Nespresso ou a comédias ligeiras.
    Talvez seja esse o problema. Tenho algo de semelhante com Brad Pitt, que também não aprecio.
    Estou como a nossa Ivone. Quando se vê muitos anos Visconti, estes candidatos não pegam.
    Mas quem sou eu? Apenas uma amante de cinema. Do muito bom…

      1. Ó Pedro então compreendes que a exigência se torna muito maior. Fazer do Burt Lancaster um actor, só mesmo o Visconti. E o mesmo para o Stuart Granger.
        Esta é que é a diferença. Tás a ver o Clooney a fazer Il Gattopardo?
        Este piqueno devia ficar pelos anúncios do café ou do touro de gelo, ao qual cortam partes vitais. Aí o “malandro”, até convence!

        1. Helena: se o Burt Lancaster fez ‘O Leopardo’, julgo que o Clooney também o faria. Bastaria o Visconti a dirigir. Essa para mim, de qualquer modo, é uma questão irrelevante. Nesse filme quase só tive olhos para a Claudia Cardinale: sem ela, ‘O Leopardo’ nunca teria sido o que foi. Interrogo-me que actriz poderia fazer hoje esse papel.

  4. Pedro

    Interessante a sua perspectiva do filme. Por vezes também vejo que as duas dimensões, drama e comédia, se confundem na vida real, em doses mais ou menos suportáveis.
    A cena mais intensa, a que me abanou pelo menos, foi a da despedida final.
    E a cena que mais me inspirou, a da decisão em relação ao território herdado.
    (Também não resisti a esse pensamento: Num paraíso destes e não se conseguem divertir…)
    Ana

    1. Esse é um aspecto interessante do filme, Ana: o paraíso só existe enquanto tal para quem não desfruta dele. Na vida real, como sabemos, as coisas também se passam quase sempre assim.

    1. O texto merece o like. Inteiramente de acordo. Vários like’s, aliás.
      O filme é que, do meu modesto ponto de vista, não!

  5. Vi duas vezes a apresentação deste filme no cinema e não me entusiasmou nada. Pareceu-me, pela amostra, uma lamechice com cenários bonitos. Mas confio no teu gosto e conhecimento cinéfilo, por isso irei vê-lo sem receios. Aliás, com o Havai e o Clooney, pelo menos a estética está garantida.

  6. Também tinha visto o trailer e não me convenceu. Ainda bem que passei por aqui [Boa nôte]. Gostei imenso de ler o que escreveu, Pedro Correia.
    Clooney e Hawai até à eternidade num cinema perto de mim. Em tempos de pieguices que mais pode uma mulher desejar?! É já amanhã. LOL
    Thanks

    http://www.washingtonpost.com/lifestyle/style/the-descendants-casts-hawaii-in-new-light/2011/11/17/gIQAeECgVN_gallery.html#photo=1

    http://www.washingtonpost.com/lifestyle/style/the-descendants-casts-hawaii-in-new-light/2011/11/17/gIQAeECgVN_gallery.html#photo=3

  7. “Passamos demasiado tempo imersos na cultura da vingança, do olho-por-olho, do salve-se quem puder, para atentarmos na virtude do perdão. A própria palavra – perdão – tem hoje ressonâncias obsoletas, como algo irremediavelmente ultrapassado. ” Muito bonito… Não vi o filme e agora fiquei curiosa. Mas o que interessa é que concordo com a sua passagem – sabe bem ver coisas menos “violentas”, porque sabe bem viver longe desta “violência” toda. Que não é física, na maior parte das vezes, claro, mas maça e mói tanto… cansados da guerra, haja pausa para algo diferente.

  8. Ainda não tinha vindo aqui. Gostei do filme e também da tua leitura. De facto o cinema é um veículo poderosíssimo de transmissão dos valores que estão a dar. Acabamos a meter pela goela abaixo sempre as mesmas receitas, de tal maneira que nem sempre conseguimos identificar e assimilar correctamente as mensagens que não seguem o padrão a que estamos habituados. “Os Descendentes” não é um filme tão ligeiro como parece.

    1. Pois não, Teresa. Arrisco até dizer que é daqueles filmes que ganham com uma segunda ou mesmo terceira leitura – isto é, vale a pena revê-lo. Acontece-me, aliás, muito com os filmes de que gosto: volto a vê-los logo a seguir.

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