Comprei bilhete com antecedência para um acontecimento cinematográfico – a estreia em Lisboa, numa sessão única, da cópia recentemente restaurada do filme As Portas do Céu, apresentada há dois meses, no Festival de Veneza, pelo realizador Michael Cimino. Não exagero ao utilizar a expressão acontecimento cinematográfico: trata-se de um filme quase com estatuto mítico por vários motivos. Desde logo por ter uma aura equivalente à de O Quarto Mandamento / The Magnificent Ambersons, de Orson Welles, quatro décadas depois.
Cimino era em 1980, ano da estreia desta longa-metragem, um dos mais célebres cineastas do planeta depois de ter sido galardoado com o Óscar, dois anos antes, pelo excepcional – do ponto de vista da qualidade cinematográfica e da controvérsia que suscitou – O Caçador, talvez o mais polémico filme de sempre sobre a guerra do Vietname. Tal como sucedeu com Welles logo após ter estreado Citizen Kane, quando se tornou o realizador-estrela da RKO, a então próspera United Artists deu a Cimino liberdade total para rodar o filme seguinte, que foi precisamente este. Um projecto megalómano, desmedido, descomunal, bigger than life, que conduziu o histórico estúdio à falência e condenou o incómodo cineasta a uma longa travessia do deserto.
Tal como sucedeu com a película de Welles, tornada quase irreconhecível pelos executivos da RKO à revelia do realizador depois de lhe ter sido dada carta branca para filmar o que quisesse e como entendesse, também esta foi severamente amputada, acabando por circular em cópias adulteradas de 141 ou 149 minutos, que suprimiam segmentos decisivos. A versão original, de 219 minutos, foi praticamente retirada de circulação logo após o fiasco da estreia e do coro de críticas negativas que recebeu nos Estados Unidos: duas gerações de espectadores jamais puderam vê-la.
Felizmente, ao contrário do que sucedeu com o segundo título da filmografia de Orson Welles, cuja montagem original se perdeu para sempre, neste caso foi possível recuperar Heaven’s Gate sob a supervisão do próprio Cimino. É um notável trabalho de restauro que faz inteiro jus à magnífica fotografia de Vilmos Zsigmond, agora restituída ao esplendor original.
Comprei o bilhete no início da semana antecipando uma provável enchente hoje à tarde no Monumental, onde seria possível ver o filme em ecrã grande, como merece – iniciativa meritória do Festival de Cinema de Lisboa e Estoril, que decorre até amanhã com a exibição de películas de Luis Buñuel, Otto Preminger, Brian de Palma, Monte Hellman, Lindsay Anderson, François Ozon, Hou Hsiao-Hsien, Bernardo Bertolucci, Alain Resnais, Stephen Frears e Abel Ferrara, entre outros realizadores.
Afinal, nesta sessão única, a sala estava praticamente vazia: este filme de culto, debatido na proporção inversa à das oportunidades de ser visto, passou quase clandestino numa Lisboa preguiçosa e distraída, que esbanja sucessivas oportunidades para se cultivar e abrir horizontes – oportunidades que os residentes noutras zonas do País bem gostariam de disfrutar.
Três horas e meia de exibição que passaram muito mais depressa do que supus. É uma oportunidade rara, assistirmos à segunda vida deste western atípico que nos revela a face negra do sonho americano – um filme maldito, perseguido desde o primeiro dia por um rasto de controvérsia, amado por um punhado de críticos e renegado pela poderosa indústria de Hollywood. Com deslumbrantes cenários naturais rodados no estado de Montana, uma banda sonora inesquecível e um elenco de luxo – Kris Kristofferson, Christopher Walken, John Hurt, Sam Waterston, Isabelle Huppert, Jeff Bridges, Joseph Cotten (outra coincidência: foi ele o actor eleito de Welles e protagonista de Citizen Kane e The Magnificent Ambersons), Brad Dourif, Mickey Rourke e Willem Dafoe (este no seu primeiro papel em cinema).
Só foi pena a sala quase vazia. Um sinal da crise, que não é apenas financeira – é também de hábitos culturais. A Sétima Arte clássica, vocacionada para a exibição em sala, vai morrendo aos poucos, mês após mês, ano após ano. Um dia, talvez não muito distante, haveremos todos de lamentar o encerramento do último cinema do nosso bairro, da nossa vila, da nossa cidade, do nosso país.
Demasiado tarde, como é costume.


Sinais dos tempos. Acontece-me constantemente, hoje em dia, ir ao cinema em salas praticamente vazias. É verdade que, normalmente, não procuro os filmes mais comerciais, mas mesmo nesses os espectadores rareiam cada vez mais. As salas vão-se deteriorando sem restauro nem limpeza e hão-de fechar as portas aos poucos, como dizes. Para quem, como tu e eu, gosta de ver cinema sem ser num écran de televisão, é uma lástima.
Acontece-me o mesmo, Ana. Com a excepção do último James Bond, onde havia fila até à porta, frequento salas de cinema cada vez mais vazias. Choca-me esta falta de exigência cultural por parte de um público, o de Lisboa, que usufrui de excelentes espectáculos e nem sempre os aproveita – privilégio que não está ao alcance da quase generalidade do País, onde a oferta cultural é incomparavelmente mais escassa.
Ver um filme destes – com a importância que teve e tem na história do cinema contemporâneo – estrear uma cópia restaurada em sessão única numa sala quase vazia do centro de Lisboa com acessos fáceis, ao princípio de uma tarde de sábado e com bilhetes a quatro euros (muito abaixo da média do circuito comercial comum) é decepcionante.
Confesso que sou uma das pessoas que quase deixou de ir ao cinema (sendo que a minha média chegou a ser superior a uma vez por semana). Não tenho paciência para as pipocas, para os comentários, para sistemas sonoros onde a qualidade é confundida com volume, para salas de paredes finas onde por vezes se está a ouvir o filme do lado, etc, etc. Já para não falar do preço dos bilhetes que, podendo não ser exagerado em termos absolutos, faz com que duas ou três pessoas vejam os filmes em casa por muito menos dinheiro (e de forma legal).
Mas é verdade que um comportamento como o meu tem custos. De resto, tenho de admitir que gostaria de ver um filme como “As Portas do Céu” (que, para já, parece ter saído em blu-ray apenas nos EUA) num grande ecrã. Eu que, ao contrário de ti, nem tenho nada contra a Isabelle Huppert…
Meu caro JAA:
Aqui não havia pipocas nem ruídos de fundo ou laterais, os telemóveis mantiveram-se em silêncio, o preço era 50% abaixo do bilhete para o último James Bond que tinha e tem salas cheias. Acontece apenas que os supostos destinatários deste filme não trocam o plasma ou o DVD ou o computador por uma deslocação ao cinema. Só isso.
Muitos deles são os primeiros a choramingar e a rasgar vestes quando uma sala de cinema fecha de vez. São também esses os primeiros a carpir mágoas quando encerra mais um jornal. Santa hipocrisia: quase todos deixaram há muito de comprar jornais e apenas lêem notícias via internet.
Mas não era sobre isto que te queria falar. Era sobre a Isabelle Hubert. Pois, mudei de opinião a respeito de. Por causa de. Nem sei explicar como. A verdade é que nunca a tinha visto numa interpretação, como hei-de dizer? Comment on-dit? É isso. Tão boa. Boa mesmo.
Direi mesmo mais: belle toujours.