Há quem tenha alergia à alegria


Pedro Correia,

 

Vários críticos de cinema acolheram da pior maneira Quem Quer Ser Bilionário? (Slumbog Millionaire), o filme de Danny Boyle agora contemplado com oito Óscares. Um pouco por toda a parte, neste tempo de grave crise económica, financeira e social, a película tem vindo a ser muito bem acolhida, cativando legiões de espectadores de todas as idades, culturas e condições sociais. Não custa perceber porquê: muita gente sente-se um pouco melhor depois de a ter visto. Em perfeito contraste com a generalidade das notícias que nos chegam ao domicílio, sempre com uma carga depressiva nas linhas e entrelinhas.

 

Brindar Quem Quer Ser Bilionário? com bola preta, como houve quem fizesse em Portugal, é pura desonestidade intelectual: significa um sinal de alerta aos espectadores, intimando-os a não verem este filme, assim remetido para a galeria dos piores de sempre com frases absurdas como esta: “Boyle nem sequer conhece a distância que permite criar uma verdadeira perspectiva sobre as coisas e limita-se aqui a oferecer-nos o Outro (o Oriente) como travesti do Mesmo (o Ocidente).” Felizmente a intuição dos espectadores – e a publicidade de bouche a l’oreille – pesa muito mais do que frases como aquela.

 

Talvez o motivo por que vários críticos detestam a película de Boyle tenha sido o mesmo de sempre: o mundo das cotações cinematográficas com chancela ‘artística’ costuma ser adverso aos filmes com final feliz. Um texto do Guardian, há dias, ajudava-nos a perceber a estranheza de alguns perante o Óscar de melhor filme a Slumdog Millionaire: das cinco longas-metragens em competição, esta era a única com happy ending. As outras falam-nos de um amor impossível (O Estranho Caso de Benjamin Button), do julgamento de uma carcereira nazi (O Leitor), de um ídolo da cultura gay que morreu assassinado (Milk) ou de um político que saiu de cena pela porta mais pequena da História (Frost/Nixon). Muitos críticos, ainda que inconscientemente, tendem a valorizar sobretudo o que termina mal. Em regra, o drama recebe mais estrelas do que a comédia. E também recebe mais Óscares: nos dois anos anteriores, os vencedores tinham sido Entre Inimigos (de Martin Scorsese) e Este País Não É Para Velhos (dos irmãos Coen).

 

Nada comparável ao filme agora vencedor. “Para onde quer que vão, os membros da equipa de Slumdog Millionaire parecem estar a divertir-se”, escreve Jeremy Kay no Guardian. E nós acabamos por nos divertir com eles – até na noite dos Óscares, a mais bem conseguida em muitos anos, isso se viu. Alguns não apreciam o estilo: em tempo de crise planetária, todo o indício de optimismo é punido com bola preta por quem sente alergia a qualquer forma de alegria.

Estrelas de cinema (1)


Pedro Correia,

 

 

NA EUROPA COMO NA AMÉRICA

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Vicky Cristina Barcelona é uma película sobre o desencontro de dois continentes separados por um largo oceano: a Europa e a América. E também uma homenagem pessoalíssima de Woody Allen ao Velho Mundo, onde passou a gostar de trabalhar, largando âncora da sua idolatrada Nova Iorque natal que ele tanto ajudou a imortalizar em filme.

Depois de Veneza, Paris e Londres, coube agora a vez à capital catalã, cujo Executivo abriu os cordões à bolsa na esperança de que o grande realizador norte-americano ajudasse a promover a imagem da cidade em contraponto à rival Madrid.

Se o Governo autonómico esperava uma colecção de bilhetes postais, cheios de tipicismo, enganou-se: Woody Allen limita-se a utilizar a cidade – e também a bela Oviedo, nas Astúrias – como pretexto para uma variação ao tema da permanente incompreensão entre homens e mulheres. Nova Iorque também surge esporadicamente neste filme – mas é uma Nova Iorque sem glamour, pragmática e materialista, rendida ao tecnicismo, em contraponto à boa Europa que sabe apreciar os prazeres da mesa e da cama.

 

 

 

Nesta homenagem de Woody ao continente que mais tem demonstrado amar a sua obra, a Europa sai claramente a ganhar. É pelo espanholíssimo Javier Bardem que Vicky e Cristina – uma loira, outra morena – se apaixonam. Mas a paixão só fugazmente é correspondida: Europa e América terminam de espaldas após um breve flirt que bem pode servir de metáfora aos complexos jogos políticos da vida real.

Bardem, melhor aqui do que no filme dos irmãos Coen que lhe valeu o Óscar em 2008, ganha a parada no campo da representação: chega e sobra para três actrizes ao mesmo tempo. Mas a grande revelação é Rebecca Hall, que também podemos ver num interessante papel em Frost/Nixon, igualmente em exibição. O mais convincente retrato psicológico desta película é precisamente o desta mulher dividida entre a razão e o coração. Scarlett Johansson, numa actuação sem chama, está muito distante do irrepetível desempenho em Match Point, também de Allen. E Penélope Cruz, num overacting apropriado à personagem que lhe foi entregue, de uma exuberância caricatural, só brilha nos diálogos em castelhano com Bardem, aliás um dos aspectos mais interessantes deste filme, em boa parte bilingue.

 

 

Woody Allen abandonou o bairrismo novaiorquino para se exibir como cidadão adoptivo da ancestral Europa, que ama e odeia os EUA em partes iguais. Felizmente para nós, continua a ser capaz de se reinventar em cada filme povoado de personagens credíveis e de histórias interessantes que mais tarde serão vistos como precioso documento de uma época. É este precisamente o caso de Vicky Cristina Barcelona, enésima longa-metragem sobre as eternas armadilhas do amor. Um tema inesgotável – em qualquer tempo, em qualquer lugar.

 

Vicky Cristina Barcelona. De Woody Allen (2008). Com Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Patricia Clarkson, Kevin Dunn, Rebecca Hall, Chris Messina.