Esperança


Teresa Ribeiro,

 

Os filmes da chamada idade de ouro do cinema português sempre me fascinaram. Com eles tive acesso ao Portugal pobrezinho, saloio e pacato que só conhecia das histórias que os meus pais  e avós me contavam. O país anacrónico dos namoros de janela, tão diferente das referências que o cinema de Hollywood me dava, em criança, sobre o que era a vida nos anos 30 e 40, revelou-se-me nas cenas românticas de O Pátio das Cantigas. A pobreza endémica do Portugalito das cerzideiras e apanhadeiras de meias colou-se desde cedo no meu imaginário às rábulas inesquecíveis de António Silva e Vasco Santana, sempre a fazer de pelintras cheios de expediente, em filmes como A Canção de Lisboa, O Costa do Castelo, A Menina da Rádio e O Leão da Estrela.

Já nem sei quantas vezes revi cada um desses filmes, mas quando os apanho a passar na televisão muitas vezes deixo-me levar embalada pelas falas que tão bem conheço. Falam-me da tal época intangível e eu fico ali, hipnotizada, a absorver a hermenêutica. “Chapéus há muitos, seu palerma”, a chico-espertice. “Ai chega, chega a minha agulha”, as trapaças. “A casa dos pobres tem mais alegria”, o elogio da pobreza.

A cada regresso àquelas imagens percebo melhor qual a matriz dos meus familiares mais idosos, a sua relação com o dinheiro, a relutância que sempre tiveram em gastá-lo. No país onde se palmilhavam meias e viravam casacos não se desperdiçava nada. As mobílias, os tapetes e os casamentos eram para a vida. Quem não era pobre era “remediado” e quem era remediado não gastava, poupava.

A cena em que o motorista Daniel (Curado Ribeiro em O Costa do Castelo) propõe à família adoptiva da Luisinha (Milú) levar para a ceia um queijo e uma aguardente, suscitando o espanto dos circunstantes pela excentricidade de tão generosa oferta sempre me impressionou. Tão pequenos que nós éramos e tão acomodados nos revelávamos na nossa pequenez.

Assimilada até aos ossos, nesses tempos a imobilidade social cortava cerce a ambição dos mais desfavorecidos. Ou se emigrava, ou se sobrevivia. Mudar de vida não era fácil. Restava aquela alegre resignação do Simplício Costa (António Silva em Costa do Castelo), do Vasco Leitão (Vasco Santana em Canção de Lisboa) e do Rufino (Ribeirinho em O Pátio das Cantigas) ou então o triste fado. Dois estados de alma, acalentados pelo antigo regime, que reflectiam a mesma ausência de esperança. 

Com a crise económica europeia há quem vaticine um regresso ao passado, mas jamais qualquer recuo nos levará àquele conformismo: a ambição que entretanto aprendemos a ter, já ninguém nos tira. E a ambição embora possa, quando frustrada, gerar revolta e violência é uma forma de esperança.

Resolução de ano novo ou o filme que mais vezes não vi


escafandro,

Em Julho de 2007, Rogério Casanova escrevia no mais-morto-que-comatoso Pastoral Portuguesa: Ainda não li Falling Man, e posso assegurar que se trata de uma não-leitura compulsiva. Aliás, é um dos livros que mais vezes não li nos últimos tempos. Desde que a encomenda da Amazon chegou já o devo não ter lido umas seis ou sete vezes, sempre com um enorme prazer. Casanova, sportinguista frágil como qualquer outro de nós (qualquer outro de nós, sportinguistas, entenda-se), tentava proteger-se da desilusão que seria comprovar a existência de mais um DeLillo abaixo das suas – dele, Casanova, que as suas, leitor, nem consigo imaginar – expectativas. Eu, que li Falling Man e, apesar de não o classificar entre os melhores DeLillo (experimentem Ruído Branco), fiquei convencido de que não teria usado melhor o meu tempo lendo qualquer coisa alinhavada pelo José Rodrigues dos Santos, experimento reacção similar com A Estrada. Não o livro de Cormac McCarthy mas o filme baseado no livro de Cormac McCarthy. Permitam-me que explique.

 

Li o livro, na versão original, ainda antes de McCarthy se tornar conhecido por, afinal, não só aceitar dar entrevistas como dar entrevistas à Oprah. Num understatement incontornável (o inglês é para que possam comprovar que eu seria mesmo capaz de ler o livro no original), posso dizer-vos que ADOREI o livro. Adorei-o a ponto de não me envergonhar de usar maiúsculas ao escrever que o adorei. Li-o, reli-o, fiz-lhe festinhas. E depois soube que, lá pela Hollywood do Michael Bay, tinham decidido fazer um filme baseado nele. Ora eu também gosto de filmes. Gosto tanto, aliás, que gosto até mesmo dos que foram rodados antes de Deus inventar as cores ou a fala humana (num àparte, deixem-me confessar sempre ter achado estranho que Deus tivesse inventado a música de piano antes de dar voz às pessoas mas suponho que isso só demonstra que os Seus desígnios – de Deus, não seus, leitor, nem do Casanova, por muito divino que tanto você como ele se possam considerar – são mesmo insondáveis, conforme alguém, num filme sonoro qualquer – A Vida de Brian? –, terá exclamado um dia). Mas a notícia apavorou-me tanto como qualquer aparição do Ministro das Finanças na televisão. Filmar A Estrada? Como? Onde? Por quem? Mais importante: porquê? A minha reacção imediata foi prometer a mim mesmo que não o veria antes do momento em que obtivesse a certeza absoluta de não sair desiludido ou a Alzheimer me tivesse atacado o suficiente para eu não me recordar do livro. Fui apanhando notícias sobre o filme aqui e ali (Viggo Mortensen, até que não era mal pensado; John Hillcoat, melhor ainda) e, quando o trailer saiu, espreitei. Recuei, horrorizado. E depois não só não vi o filme como dei cabo dos dentes ao rangê-los de cada vez que passava junto a um cinema exibindo o cartaz. Sobrevivi a essas semanas difíceis (mesmo você, caro leitor, que não me conhece, terá de admitir que sou mais resistente do que pareço), A Estrada, o filme, lá acabou por sair de exibição e eu passei uns meses de paz e alegria.

 

E depois saiu o DVD. E depois o DVD entrou em promoção. E depois eu não resisti e comprei o DVD (por acaso foi o Blu-ray, que não quero não apreciar A Estrada só por faltar definição ao apocalipse). E isso foi há cerca de um ano e eu ainda não vi A Estrada. Não o vi em Janeiro e em Fevereiro e em Março de 2011. Tornei a não vê-lo em Abril e em Maio e em Junho. No Verão não o vi várias vezes. E fiz questão de voltar a não vê-lo no Outono e no início do Inverno. Tenho-o aqui ao meu lado enquanto escrevo isto. A capa mostra o Viggo a proteger o miúdo com o braço direito, o revólver na mão esquerda; na parte inferior, o selo de qualidade Selecção Oficial do Festival de Veneza 2009 – a melhor recomendação possível, se considerarmos apenas festivais de cinema ocorridos em cidades banhadas pelas águas do Adriático. Atrás, na ficha técnica, a indicação realizado por John Hillcoat – e eu adorei (em minúsculas) A Proposta (cujo argumento, já agora, foi escrito por um senhor chamado Nick Cave). Mas nem assim. Quase um ano e eu ainda estou para enfiar o disco no leitor (que também está aqui, a meros três metros, por baixo do televisor). Chateia-me, esta incapacidade. Consolo-me um pouco pensando que mais vale tê-lo comprado demasiado cedo do que ser obrigado a fazê-lo depois do fim do euro. Foi um investimento, digo-me. Tal como no caso de outros filmes e séries que, por falta de tempo, ainda não vi. Ou no dos livros. Em vez de mandar os poucos euros que tenho para uma conta na Suíça, converto-os em entretenimento para usufruto futuro. Tem lógica, não? Infelizmente, quando o assunto é A Estrada, nem assim me consigo convencer.

 

E é por isso que decidi fazer do visionamento de A Estrada, o filme, a minha resolução de ano novo. Antes de 2012 acabar, eu hei-de ver este filme.

 

Não me parece que seja hoje. Mas tenho tempo. O ano até é bissexto.

“Drive”


discutindoopinioes,

Há actores que brilham por estes dias. Ryan Gosling é um deles. Chamou-me a atenção em Half Nelson, e no Blue Valentine levou-me, com a extraordinária Michelle Williams, às lágrimas. Em Drive, filme que vi ontem, Gosling é um altruísta invulgar – a real hero, como o título de uma das canções da banda sonora –, embora na perspectiva de outra personagem ele seja apenas um homem que faz uma coisa estúpida: protege uma mulher casada, em vez de dormir com ela. No desempenho deste ofício protector, os gestos enigmáticos do condutor, onde vislumbramos a violência e a raiva que serão as suas armas, carregam o peso de uma vida com poucas coisas boas, com poucas coisas memoráveis. Pois: o cinema volta a estabelecer uma relação entre a condução e o desgosto da existência, o que se confirma no final, quando nada mais há a fazer senão conduzir. Adorei. 

 

  

Melancholia


claudiakover,

Nunca pensei gostar tanto de um filme no qual (independentemente de ser ou não o seu foco) um planeta ameaça embater na Terra. 

Fotografia perfeita. Enquadramentos perfeitos. Cores perfeitas. Música perfeita. História fantástica. 

 

Um americano em Paris


Luís Menezes Leitão,

 

O novo filme de Woody Allen, Midnight in Paris, é absolutamente brilhante. Ao contrário dos outros realizadores americanos, Woody Allen é um apaixonado pela cultura europeia, pelo que não admira que tenha decidido começar a filmar em cidades europeias. O seu filme é todo ele uma homenagem a Paris, uma das mais extraordinárias cidades do mundo, a meu ver só suplantada precisamente pela sua Nova Iorque. Mas temos a surpresa de encontrar no filme uma citação constante dos grandes vultos da cultura americana, que como ele também passaram por Paris. Mas a grande demonstração do filme é que a magnífica cidade de Paris suplanta todas as obras. Como uma personagem diz no filme, não há obra humana, seja sinfonia, romance ou pintura, que consiga suplantar uma grande cidade.

Volta, Woody, e espero que estejas perdoado


Ana Vidal,

Estou zangada com o novo Woody Allen, aquele que diz com indiferença: “Filmar em Lisboa? Por que não? Desde que me paguem…” Não gostei dos últimos filmes europeus, nem sequer dos tão celebrados Match Point e Vicky Cristina Barcelona. Cada um é para o que nasce. Sinto falta de vê-lo como actor e, como realizador, vejo sempre um peixe fora de água. Da sua água. Gostava era de vê-lo de volta aos seus cenários de excepção: a cidade de Nova Iorque e ele próprio, num eterno exercício de genial narcisismo masoquista, a descascar contradições até ao tutano num sofá de psiquiatra com vista para Times Square ou Central Park. Não é má vontade: a cada novo filme tenho dado um tímido mas esperançoso benefício da dúvida, e todos me têm decepcionado mais ou menos por igual.

 

Mas com este filme que se anuncia aqui, e a avaliar pela sinopse, a minha esperança renasce uma vez mais. Talvez não seja um good old Woody, mas tem pelo menos os ingredientes certos para uma receita “à antiga”. Vamos ver.

Habemus Papam


Sérgio de Almeida Correia,

Foi capa da L’Espresso. Para Alessandra Mammì é só o mais belo filme de Moretti. Considerado por Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do quotidiano “Il fatto”, como uma obra genial, o filme que hoje estreia em Itália de um realizador de excepção é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias, pelos corredores do poder e pela solidão. Ou o drama de um Papa que depois de eleito para o trono de S. Pedro se confronta consigo próprio, com as suas fraquezas e as suas dúvidas. Michel Piccoli regressa no principal papel. Definitivamente uma obra a não perder. 

Estrelas de cinema (6)


Pedro Correia,

 

TODOS OS HOMENS SÃO PECADORES

****

 

O Americano é um filme que coloca os espectadores perante um dilema moral: poderemos julgar alguém pelos seus actos sem conhecermos as suas motivações? Estamos aqui perante uma situação limite: praticamente nada sabemos da personagem principal, começando pelo seu verdadeiro nome, a não ser que cometeu um crime brutal. E no entanto damos por nós a recear pelo destino desta figura aparentemente execrável, destituída de qualquer escrúpulo, contratada para matar.  Assalta-nos aqui um novo dilema moral, ainda mais perturbante: será lícito defendermos um assassino?

Este é um filme onde a duplicidade impera, desenrolado entre as paisagens gélidas da Suécia no Inverno e o aconchego meridional de Itália. Um filme onde a beleza do cenário contrasta de forma quase chocante com o carácter sombrio de quase todas as personagens, sem excluir sequer o sacerdote que se revela demasiado ansioso por libertá-las do pecado, ouvindo-as em confissão. “Todos os homens são pecadores, padre”, diz-lhe – numa das cenas mais memoráveis – um quase irreconhecível George Clooney, que o realizador aposta em apresentar como um homem destituído de qualquer glamour hollywoodesco. Aposta arriscada mas obviamente ganha: todo o filme gira em torno deste homem atormentado por fantasmas íntimos que jamais descortinaremos. Damos por nós a tentar interpretar pistas atrás do seu olhar impenetrável e dos seus enigmáticos silêncios. Nada dele sabemos no início, quase nada dele saberemos à beira do fim.

Quem diria que este Clooney confinado ao seu refúgio de silêncio, condenado a jogar a vida num tiroteio à semelhança dos cowboys de Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, que a televisão do café da aldeia exibe, é o mesmo actor que ainda há pouco surgiu nos ecrãs como a exuberante e tagarela figura central do filme Nas Nuvens? Este não é o menor dos contrastes que O Americano propicia. Anton Corbijn, conhecido por ter filmado os Joy Divison, sabe que o cinema vive sobretudo de atmosfera visual – e neste aspecto é igualmente bem sucedido, embora nos interroguemos por vezes se a deslumbrante paisagem dos Montes Abruzos não se impõe em excesso às personagens de film noir que nela se movimentam, anulando de algum modo o impacto negativo de todos os seus crimes e todos os seus pecados – por pensamentos, palavras, actos e omissões. E se o paralelo final com a Viagem a Itália, de Rossellini, parece algo forçado, na cena da procissão, já a personagem da prostituta, com as suas ressonâncias bíblicas, tem pleno cabimento neste filme que a todo o tempo nos coloca perante desafios no plano moral.

Quem não é pecador que atire a primeira pedra.

 

O Americano (The American, 2010). De Anton Corijn. Com George Clooney, Thekla Reuten, Violante Placido, Irina Björklund, Paolo Bonacelli.

Quando a notícia vira espectáculo


Pedro Correia,

 

Os programadores televisivos portugueses – e já não falo dos nossos exibidores cinematográficos, pois essa é uma guerra há muito perdida – só podem andar muito distraídos. Se não andassem, já teríamos certamente visto num dos canais de TV em sinal aberto a reposição dessa obra-prima do cinema que é O Grande Carnaval (The Big Carnival), de Billy Wilder. Vem mesmo a propósito dessa história fascinante, que o mundo por estes dias acompanha com atenção, dos 33 mineiros chilenos soterrados a 700 metros de profundidade, no deserto do Atacama.
Algo nesta história me faz lembrar irresistivelmente o enredo do filme de Wilder, que tem Kirk Douglas como protagonista. Também no filme um homem fica soterrado no subsolo, vivendo dias de profunda ansiedade na expectativa de ser socorrido. E também esse acontecimento, algures num lugarejo perdido do Novo México, ganha repercussão nacional.
O filme funciona como uma poderosa crítica à imprensa sensacionalista no seu afã de encontrar “histórias com interesse humano” que possam vender papel. Douglas é um jornalista sem escrúpulos, chamado Chuck Tatum, que converte o drama do indivíduo encurralado debaixo da terra num grande espectáculo para consumo de massas. Mobiliza todos os meios que imagina para puxar à lágrima fácil e fazer acelerar a pulsação dos leitores. Chegando ao extremo de subornar algumas autoridades para retardar o resgate, de modo a que o filão não se esgote demasiado depressa.
A história acaba mal, como cedo pressentimos, neste filme que devia ser visto e debatido em todos os cursos de jornalismo. Porque aqui se traça uma fronteira nítida entre jornalismo como serviço público, que jamais pode existir sem parâmetros éticos, e a contrafacção noticiosa, que manipula factos ao sabor de estratégias de baixo comércio, vigarizando o público.
É um filme que interpela a consciência dos jornalistas – e de todos os consumidores de informação. Infelizmente, tornou-se um filme “invisível”: quem nunca o viu numa das antigas “noites de cinema” da RTP ou numa ocasional exibição na Cinemateca passa ao lado desta corrosiva sátira de Wilder, um cineasta que tinha uma visão desencantada do jornalismo. É pena. Porque o Chuck Tatum d’ O Grande Carnaval não passou de moda: ele continua aí, a criar mau “espectáculo” que faz passar por notícias. Se dependessem dele, os mineiros do Atacama tardariam o mais possível a ser socorridos. Para fazer render a história.  E apelar mais ao drama. E chafurdar ainda mais na lama.

 

Imagem: Kirk Douglas em O Grande Carnaval (1951)

Inception


eventhorizon,

Ao contrário do que o Pedro defendeu nesta crítica, não considero que o filme Inception, de Christopher Nolan, seja, fundamentalmente, “pirotecnia visual”. Convém lembrar que, de todos os géneros cinematográficos, a ficção científica será porventura aquele que melhor explora as potencialidades da tecnologia – efeitos especiais, imagens geradas por computador, câmaras, enfim, um sem-número de truques de encher o olho. Diria mesmo: a ficção científica é o género que vive e desenvolve os efeitos especiais. Sem essa pirotecnia, sem esses “truques”, clássicos como 2001: A Space Odyssey, Star Wars, Alien, Blade Runner ou Matrix não teriam sido possíveis no seu tempo. É evidente que há filmes que fazem dos efeitos especiais o seu único expediente (e que por isso são, por norma, fracos), o que não é manifestamente o caso de qualquer um destes que mencionei; como, na minha opinião, não é o caso de Inception, filme que considero utilizar com mestria a tecnologia disponível para contar e explorar a complexa história que desenvolve ao longo de mais duas horas. Essa “pirotecnia visual” permitiu ao realizador, aliás, criar com mestria algumas cenas visualmente icónicas, que talvez venham a inspirar outras produções num futuro próximo.

 

No entanto, e ao contrário dos clássicos acima mencionados, Inception não me satisfez por completo. Globalmente, considero o filme muito bom, bastante acima da média, com algumas cenas a revelar assomos de um talento ímpar (a cena de Paris, de que o Pedro fala, é uma delas); faltou porém aquele rasgo de génio que poderia ter dado a este filme o estatuto de clássico, pelo menos dentro do género. Dito de forma mais simples: é bom, mas não justifica o hype. Até porque em nenhum momento se pode considerar groundbreaking.

Inception não explora por completo o potencial que a história tem – ou antes, creio que não o explora da melhor forma. É demasiado “action-oriented”, creio; um filme cuja trama se desenvolve, na sua maioria, em sonhos – literalmente – devia ser mais “fantasy-oriented”. Para ilustrar este ponto cometo o erro (pelo qual me desculpo já) de fazer uma comparação: no filme Paprika, longa metragem de animação japonesa do (infelizmente) falecido Satoshi Kon, encontramos um filme que parte de uma premissa muito similar – a possibilidade de entrar nos sonhos de alguém, e de cruzar esses sonhos – para recriar uma trama que transporta o espectador para um mundo verdadeiramente onírico. Ou seja: vivo, delirante, absurdo, frequentemente non-sense, difícil de controlar, repleto de impulsos inconscientes primários – para quem quiser recorrer a Freud. Em Inception, isso não acontece: não fica claro o mecanismo de projecção dos sonhos (em Paprika, a tecnologia é explicada), e todo o ambiente “sub-consciente” é perfeitamente controlado. Os mecanismos de defesa da mente são lineares, consistindo essencialmente em multidões enfurecidas (no caso de mentes “destreinadas”) ou em homens/militares armados (no caso de mentes “preparadas”). Todos os cenários são “reais”, pelo que a fusão com a realidade se torna vagamente decepcionante. Entre as várias camadas do sonho, muda o ambiente, mas todos os diferentes cenários continuam a ser perfeitamente racionais, e mesmo as alterações que neles podem ser feitas (recordar cenas iniciais) mantém uma racionalidade algo decepcionante – o que, a meu ver, não funciona se falamos de um “mundo” que, voltando a Freud, é absolutamente irracional. Para além disso, o filme falha ao não explorar outros aspectos que creio serem interessantes, como a tecnologia de infiltração nos sonhos, a criação dos “cenários”, e, mais uma vez, por não dar largas à imaginação num mundo feito à medida dela.

Isso, contudo, não faz de Inception um mau filme, bem pelo contrário; apenas impede que cumpra aquilo que a primeira meia hora promete. De qualquer maneira, a passagem entre as várias camadas de sonhos está feita de uma maneira muito engenhosa, e que inevitavelmente causará simpatia junto de quase todos os espectadores – afinal, quem nunca acordou sobressaltado a pensar que ia cair? -, o que é visível sobretudo na transição “ascendente”. Ainda que, com a excepção do protagonista Cobb (Leonardo DiCaprio), as personagens não estejam desenvolvidas como poderiam estar, há que destacar alguns desempenhos: o de DiCaprio, o de Ellen Page como Ariadne, e sobretudo o de Tom Hardy, no papel de Eames, que rouba várias cenas e dá ao filme um toque de descontracção que, em alguns momentos, é muito necessário. E o enredo em si, não sendo absolutamente original (uma vez mais, ver Paprika), é bastante interessante, e consegue ser bastante complexo sem se perder no labirinto que cria. Simplesmente não explora todos os caminhos, ou pelo menos alguns caminhos que poderiam ter sido bem mais interessantes.

Creio ser essa a diferença entre um filme muito bom e um clássico. Como disse uma amiga, Inception promete muito, mas não cumpre. Ou, como bem disse o Pedro, com toda a razão, passou ao lado de uma obra-prima. É pena, de facto – ainda assim, Inception é bastante mais do que a prima do mestre-de-obras, passe a expressão. Merece ser visto agora no cinema, e novamente quando estiver disponível no circuito comercial – decerto há muitos detalhes que vão sobressair.

 

Como não gosto das estrelinhas, dou-lhe 7,5 em 10. Já a Paprika, filme que muito recomendo, dar-lhe-ia 9 em 10 (este entrava direitinho para o meu top 15).

 

(Já agora, Pedro: a ficção científica normalmente faz-se acompanhar de outro género, ou por outros géneros. Thriller, acção, comédia, drama, terror – enfim, a lista seria quase ilimitada -, acabam por ser subgéneros recorrentes da ficção científica. Na minha opinião, essa transversalidade é um dos vários aspectos que tornam fascinante a ficção científica cinematográfica, e também literária)

Estrelas de cinema (4)


Pedro Correia,

 

PRIORIDADE À PIROTECNIA

* *

Confesso ter cada vez menos paciência para filmes cheios de pirotecnia visual, onde tem de “acontecer” qualquer coisa de 30 em 30 segundos e em que a “acção” é um objectivo que parece esgotar-se em si mesmo. Filmes como o tão elogiado A Origem, talvez a mais propagandeada longa-metragem do ano. É uma espécie de cruzamento de géneros, meio thriller meio ficção científica, com um Leonardo di Caprio cheio de energia a comandar o elenco. Poucos filmes me irritaram tanto, nos últimos meses, como este. Desde logo por ver desperdiçado o talento de Marion Cotillard, provavelmente a melhor actriz de cinema da sua geração, num papel secundário que não exige quase nenhum dos atributos que a têm distinguido. E sobretudo por perceber como uma boa ideia pode ser desperdiçada por uma produção apostada em gastar todo um cardápio de efeitos virtuais, transformando cada cena no equivalente a uma árvore de Natal cheia de luzinhas.

A boa ideia é esta: o aproveitamento da tecnologia pode levar pessoas pouco ou nada escrupulosas a manipular os sonhos dos outros. Uma ideia que exigiria um pouco mais de interiorização, algum desenvolvimento das características psicológicas das personagens em vez deste frenesim constante num filme que se prolonga por duas horas e meia. E no entanto há por vezes cenas arrebatadoras, deixando antever que nas mãos de outro cineasta, mais virado para a arte e menos para a indústria, A Origem poderia ser um filme bem diferente. Refiro-me, por exemplo, às cenas em que Di Caprio e Ellen Page caminham numa Paris onírica, feita à dimensão dos sonhos que teimam em tornar-se realidade. Christopher Nolan – autor de Memento e A Insónia – opta pela via mais fácil, privilegiando a trepidação e a violência.

Pode ter descoberto o caminho para uma boa receita de bilheteira, mas passou ao lado de uma obra-prima. Foi pena.

 

A Origem (Inception, 2010). De Christopher Nolan. Com Leonardo di Caprio, Ken Wanatabe, Joseph Gordon- Levitt, Marion Cotillard, Elle Page, Tim Hardy, Gillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine.

A verdade versus o azeite


jmmcc,

Quando acabei de ver A Verdade e Só a Verdade (Nothing But the Truth, de 2008) dei por mim a pensar por que motivo o filme não acaba bem. Concluí que a verdade não tem de ser sempre como o azeite — e muitas vezes não é.

A crítica (internacional) não foi especialmente favorável ao filme. Os mais rancorosos disseram que “misturava”, a partir de certa altura, emoções e dúvidas de consciência com deontologia e exercício profissional. Como se uma boa história em torno do comportamento de pessoas comuns tivesse de alhear-se da própria complexidade do ser humano — e da massa íntima de que são feitos os retratados, por maioria de razão.

Quando a jornalista Rachel Armstrong (Kate Beckinsale) do ‘Capital Sun-Times’ divulga o que era para se manter como segredo de Estado — de evidente interesse público, pelos sombrios contornos políticos, pela gravidade dos factos e pela avaliação do carácter dos decisores de topo envolvidos — e é ameaçada pelas autoridades judiciais e confrontada com a prisão por não divulgar a sua fonte de informação, só há mesmo duas saídas: ou é um “heróico” déjà vu que vai acabar com a vitória do bem e da razão sobre o mal e a força do poder, ou é um argumento assumidamente realista e o caso não poderá ter um desfecho fácil.

Supostamente baseado em casos reais (ou num caso real de 2005, pelo menos), a narrativa do realizador Rod Lurie, também ele um crítico de cinema, desemboca intencionalmente num mar de dificuldades que são óbvias, ao invés de meter a martelo umas quantas ingenuidades facilitadoras que nada teriam que ver com a realidade tantas vezes tenebrosa dos nossos dias, aquela em que a protecção das fontes de informação do jornalista faz parte dos princípios mais pantanosos do jornalismo de investigação — um campo da actividade que entrou em declínio quando mais necessário era (e é). Misturar sentimentos em debate a um guião assim tão actual é apenas valorizar o lado humano de uma reflexão sobre liberdade de expressão e direito à informação.

Com o poder político e o sistema judiciário de mãos dadas, o primeiro confortavelmente recolhido enquanto o segundo se faz representar pelo “procurador especial” Patton Dubois (Matt Dillon), nomeado com uma máquina para arrasar os meios que lhe tolherem os fins, as normas do regime democrático estão viciadas. As armas são desiguais e ninguém que se queira sério pode desenhar a vitória da cidadania com os simples recursos de que os cidadãos dispõem (jornalistas incluídos, claro).

Não é difícil conservar escondida a verdade que for controlada pela conjugação de poderes, quando estes atropelam o princípio da separação das águas e violam a regra segundo a qual o seu exercício deve ser feito em nome do povo. Nem o azeite é para aqui chamado, nem a verdade há-de vir acima — pelo menos, em tempo útil — em tais condições.

A vitória é impossível e a luta desigual é inglória? Nem por sombras: a vitória está na resistência, na abnegação, no sacrifício do bem-estar. Mesmo quando a consciência é abalada por dúvidas próprias da fragilidade humana, ainda é ela que pode garantir a vitória. E deter o poder continuará a ser uma coisa efémera, por muito que os investidos tudo façam para prolongar a estadia — mais por obscuros interesses pessoais e menos pela transparência da missão de serviço público.

A família no início e fim de tudo


Pedro Correia,

 

A família continua a ser matéria-prima essencial da ficção cinematográfica, como os filmes exibidos entre nós em 2009 bem demonstraram, na linha de uma sólida tradição dramática do cinema clássico. Algumas das melhores longas-metragens que pudemos ver no ano passado tiveram a família como eixo central da narrativa, nas suas diversas facetas e em variados registos, da comédia ao drama. A busca desesperada de uma mãe que perdeu um filho (A Troca, de Clint Eastwood), a insuperável dor do luto (Incendiário, de Sharon Maguire), o desgaste da rotina conjugal (Revolutionary Road, de Sam Mendes), o complexo de Édipo revisitado ao som de partituras clássicas (no incompreendido Tetro, de Francis Ford Coppola). As quatro paredes domésticas como cenário dos mais complexos dramas psicológicos (O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, e Duplo Amor, de James Gray). A cegueira física como metáfora da diluição do amor (Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar). As memórias dolorosas suscitadas por um repasto familiar nesse filme assombroso que é Um Conto de Natal, de Jean-Paul Roussilon). A velhice nostálgica mas ainda sorridente (Almoço de 15 de Agosto, de Gianni di Grigorio). Uma inesperada catarse provocada pelo desamparo da viuvez (no fabuloso Gran Torino, de Clint Eastwood, sem dúvida já uma das obras mais marcantes da década).

 

 

Filmes muito diferentes mas com características comuns. Este é um cinema que valoriza o argumento, que acentua a espessura psicológica das personagens, que sente um especial fascínio pelas subtilezas do diálogo. E é fundamentalmente um cinema de actores, que nos fornece sobretudo um excepcional naipe de interpretações femininas. Como esquecer o olhar dilacerado de Angelina Jolie n’ A Troca – até à data o melhor papel da sua carreira? Impossível ficar indiferente à revolta interior da deslumbrante Michelle Williams nas cenas fulcrais de Incendiário ou à transfiguração de Anne Hathaway numa inspirada actriz dramática em O Casamento de Rachel. E quem supõe que o cinema é uma arte em declínio deverá reparar no subtil jogo de alterações fisionómicas que acompanha a evolução da personagem de Kate Winslet em Revolutionary Road.

A família: eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também.

 

 

Imagens:

1. Anne Hathaway e Rosemary DeWitt, em ‘O Casamento de Rachel’

2. Mathieu Amalric e Catherine Deneuve, em ‘Um Conto de Natal’

3. Gwyneth Paltrow e Joaquin Phoenix, em ‘Duplo Amor’

 

Estrelas de cinema (3)


Pedro Correia,

   

 

A FESTA DA MÚSICA NA SÉTIMA ARTE

* * * * *

 

As notícias da morte do cinema musical eram francamente exageradas, como havia sido demonstrado por filmes como Moulin Rouge (Baz Luhrmann, 2001) e Chicago (Rob Marshall, 2002). O género regressa agora aos ecrãs com Nove, prodigiosa recriação – em termos libérrimos – de 8,5, de Federico Fellini (1963). Com um elenco de luxo, onde se destaca o desempenho de Daniel Day-Lewis, que se transfigura em cada papel que encarna.
Outra longa-metragem já clássica do musical surgiu também como homenagem à película de Fellini: All That Jazz, de Bob Fosse (1979). Mas Nove supera-a na qualidade da partitura e da ficha artística. Temas como ‘Take it All’, ‘Folies Bergères’ e ‘Cinema Italiano’ conferem ao seu autor, Maury Yeston, um estatuto que o aproxima dos grandes nomes da época de ouro da MGM. Irving Berlin, Cole Porter, Jerome Kern e Harold Arlen teriam certamente gostado de compor este naipe de canções, capaz de electrizar qualquer plateia. A aposta fica totalmente ganha quando Fergie, vocalista dos Black Eyed Peas, dá corpo e voz a ‘Be Italian’, a mais espectacular canção deste filme, que recria (e amplia) o musical homónimo estreado em 1982 na Broadway.

Nove (Nine, 2009) é uma explosão festiva, em que todos os actores cantam e dançam. Day-Lewis, no papel de Guido Contini, um cineasta mitómano, prisioneiro da fama e em manifesta crise de inspiração. Marion Cotillard (noutro fabuloso desempenho, atestando a justiça do Óscar conquistado em 2008 por La Vie en Rose), no papel da sofrida mulher do realizador. Penélope Cruz, cada vez mais transbordante de talento, como amante de Guido. Nicole Kidman (a musa), Kate Hudson (a jornalista) e Judi Dench (a colaboradora mais próxima e confidente do cineasta) são outras actrizes superiormente dirigidas por Rob Marshall, que confirma aqui os atributos já revelados em Chicago (Óscar de melhor filme de 2002). E a homenagem à Sétima Arte, que Nove também é, culmina com a entrada em cena de Sophia Loren – a melhor ponte entre duas cinematografias de excepção – a italiana e a norte-americana – e várias gerações de intérpretes.
“Be a singer be a lover / pick the flower now before the chance is past / be Italian  / be Italian / live today as if it may become your last.”
Saímos da sala a trautear esta letra, como noutros tempos saíamos ao som de ‘Singin’ in the Rain’, ‘America’ ou ‘That’s Entertainment’. Como se George Sidney e Vincente Minnelli ainda estivessem em actividade e o leão da Metro não tivesse deixado há muito de rugir.

 

Nove (Nine, 2009). De Rob Marshall. Com Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson.

Xanadu e Kane: realidade e ficção


jmmcc,

File:XanaduConstructionCitizenKane.jpg

A propósito do que o Pedro Correia comentou aqui, deixo-vos este momento da construção de Xanadu, o lugar ficcionado de Charles Foster Kane, a figura central do filme de Orson Welles Citizen Kane (com Orson Welles e Agnes Moorehead, de 1941), com a sua mansão acastelada a dominar ao fundo. Xanadu e o nome de Kane têm servido, desde então, para apontar os excessos e as loucuras que sempre rodeiam e fazem parte da vida de algumas celebridades endinheiradas. Foi o caso de Michael Jackson, por exemplo, com o seu Neverland Ranch. Também a propriedade de Bill Gates é conhecida por Xanadu 2.0, com a alusão ao mundo da informática associada à grandeza.

Trair nem sempre é mau


Pedro Correia,

 

 

Há muito tempo que um dos romances capitais do século XX, O Zero e o Infinito, não é reeditado em Portugal. Quando isso ocorrer, temo que suceda com esta obra-prima de Arthur Koestler o que tem acontecido com tantos filmes e tantos livros nos anos mais recentes: ser brindado com um anódino e insosso título de tradução literal, como agora é moda, roubando toda a beleza poética da tradução simbólica. Com isto quero dizer que certos títulos portugueses de obras de autores estrangeiros têm uma identidade própria, constituindo uma espécie de segunda pele da qual ninguém devia desapossá-los, sob pena de se repetir o sucedido com o romance Wuthering Heights, de Emiyl Brontë, que na clássica tradução portuguesa ficou imortalizado com um belíssimo nome: O Monte dos Vendavais. Traduções muito posteriores, e já contemporâneas, baptizaram-no das mais diversas formas – d’ O Monte dos Ventos Uivantes a O Alto dos Vendavais. Uma diferença tão gritante que nem é preciso assinalar qual destas versões é a melhor.

 

Segundo um velho aforismo, “traduzir é trair”. Mas não necessariamente. A tradução pode até superar o original. No caso dos filmes, se é manifesto o mau gosto da versão brasileira d’ O Padrinho, de Francis Ford Coppola (a que os nossos irmãos de idioma chamaram O Poderoso Chefão), já Citizen Kane, de Orson Welles, melhorou na transposição para a nossa língua: O Mundo a Seus Pés é infinitamente superior a Cidadão Kane, que seria a tradução literal, pela qual neste caso os brasileiros optaram. E se é ridículo o nome com que o Brasil brindou The Sound of Music (A Noviça Rebelde), podemos dizer que o tradutor português também neste caso melhorou o título original, chamando-lhe Música no Coração.

Certos títulos célebres de filmes de Hollywood chegaram-nos, curiosamente, por influência francesa: foi o caso de O Comboio Apitou Três Vezes, que no original se chamava High Noon. Fez-se bem, em Paris e cá, em evitar a tradução literal. Em E Tudo o Vento Levou (Gone With the Wind, no original), o E Tudo faz muita diferença – para melhor. São inúmeros os exemplos de títulos portugueses que se sobrepuseram aos originais no cinema – de O Crepúsculo dos Deuses (para Sunset Boulevard, de Billy Wilder) a Os Amigos de Alex (para The Big Chill, de Lawrence Kasdan), que até cunhou uma expressão que passou a ser generalizada. Quem disse que um bom tradutor não pode criar?

 

É por isso que receio a próxima versão portuguesa d’ O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, no original), um livro que me marcou tanto. Não gostaria que lhe sucedesse algo semelhante a The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, que João Palma-Ferreira magnificamente traduziu para Uma Agulha no Palheiro e agora, com esta nossa mania de mudar o nome a tudo, se denomina À Espera no Centeio, o que não atrai ninguém. Ou o fabuloso O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, que na nova versão da Antigona (que até é uma editora de que gosto muito) se intitula A Quinta dos Animais. Eu sei que assim é mais fiel ao original. Mas quem elege a fidelidade como suprema virtude? Se assim fosse, o Alex nunca teria amigos…

 

ADENDA: Ler Cabra Cega / Drôle de Jeu: capas. De António Pais, no Fim de Semana Alucinante.

Os filmes das nossas vidas (5)


Ana Vidal,

Para mim, um bom filme tem de ter, acima de tudo, uma boa história. Imediatamente a seguir, uma boa representação. E só depois, tudo o resto: realização, fotografia, som, cenários, figurinos, etc. Os aspectos técnicos de um filme não me prendem muito nem me empolgam, provavelmente porque não percebo o suficiente do assunto para que isso aconteça. Digamos que só reparo neles quando são excepcionalmente bons ou ostensivamente maus, o que já diz tudo sobre a minha capacidade crítica. Dêem-me um bom argumento, defendido por bons actores, e está garantida a minha paixão.

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf? é um bom exemplo disso. Está entre o Teatro e o Cinema, ou não fosse este argumento uma autêntica obra prima de Edward Albee, um dos grandes dramaturgos americanos e mestre em tramas de labirintos psicológicos. E é esse despojamento de artifícios o que mais me apaixona no filme, porque, dispensando aparentemente tudo o que é acessório, não nos deixa escapatória ao colete de forças em que se vai transformando, a cada minuto que passa. E no entanto, o filme foi nomeado para TODOS os Oscares do ano em que concorreu (1967), façanha ainda hoje única na história do cinema. Das 13 nomeações ganhou 5, nas seguintes categorias: Melhor Actriz (Elizabeth Taylor); Melhor Actriz Secundária (Sandy Dennis); Melhor Direcção de Arte – Preto e Branco; Melhor Fotografia – Preto e Branco e Melhor Figurino – Preto e Branco. As outras 8 nomeações: Melhor Filme; Melhor Realizador; Melhor Actor; (Richard Burton); Melhor Actor Secundário (George Segal); Melhor Montagem; Melhor Banda Sonora; Melhor Argumento Adaptado e Melhor Som.

 

Albee convida-nos – ou obriga-nos, melhor dizendo – a um perturbante mergulho no abismo da intimidade de um casal maduro, desgastado e em queda livre. O meio intelectual a que pertencem não serve de bálsamo, mas antes de agravante, aos argumentos de ambos, sofisticadamente ácidos e letais. É uma luta de galos condenada a um desfecho trágico, por entre jogos de sedução e perversidade próprios de quem se conhece profundamente e se compraz numa auto-destruição lenta, torturante, sádica e falseada até à exaustão. A parada é alta, muito alta. O confronto é generosamente regado a álcool, tornando ainda mais terríveis as acusações, ainda mais expostas as fracturas, ainda mais patéticas as fragilidades, ainda mais desesperadas as tentativas de salvação. Somos arrastados para um sorvedouro de emoções que nos tira o ar dos pulmões, impotentes voyeurs diante de um espectáculo íntimo em que nos sentimos simultaneamente intrusos e cúmplices. Cúmplices de Martha e de George, à vez, ou de ambos, por percebermos que o cimento que une um casal nem sempre é feito de nobreza ou de beleza, mas não deixa por isso de ser cimento. E também cúmplices dos atónitos e manipuladíssimos Honey e Nick, dois jovens a quem as ilusões de um eterno romantismo conjugal são arrancadas de uma só vez e a sangue frio, pelo aterrador espelho de um possível (provável?) futuro. Uma simples e inocente visita de cortesia, após uma festa, transformada num pesadelo que os marcará para o resto da vida.

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf? é o esplendor e a miséria da condição humana vista à lupa, à nossa disposição durante uma hora e meia. E nada nos perturba mais do que aquilo que nos serve de espelho. Nas palavras do próprio Edward Albee, “o Teatro do Absurdo serve para que possamos mergulhar um pouco mais nas nossas próprias loucuras e deixar de ver as dos outros com tanta supresa”.

 

 

Bette Davis e James Stewart (e também James Mason, ao que consta) chegaram a estar indicados para encarnar este casal psicótico, mas a escolha final da arrasadora dupla Taylor-Burton – casados na vida real por duas vezes e protagonistas de guerras e reconciliações antológicas – confere ao filme um misticismo especial e uma insubstituível chancela de realidade. A bela Elisabeth Taylor deixou-se engordar e desfigurou-se para melhor servir esta personagem devastada pela vida e pelo álcool, o que lhe valeu, além do Óscar, o respeito de quem não a considerava como actriz. Richard Burton, por excelência um homem do Teatro, está magistral no papel do frustrado George. E também os novos – Sandy Dennis e George Segal – parecem ter nascido para aqueles papeis. A tensão do texto foi de tal ordem que Sandy Dennis, grávida de poucos meses no início das filmagens, abortou espontaneamente.

 

Finalmente, last but not the least, o realizador: na sua primeira obra, Mike Nichols assina uma verdadeira peça de arte. E estava inspirado, já que logo no ano seguinte realizou outra – The Graduate – outro dos filmes da minha vida.

 

Nota: Republico hoje este post em memória de Liz Taylor.

Estrelas de cinema (2)


Pedro Correia,

 

MORANGOS SEM AÇÚCAR

* * * *

É uma das mais interessantes películas que chegaram já este ano a Portugal. Passou praticamente despercebida na estreia em Lisboa devido às actuais contingências da distribuição. Mas felizmente consegui vê-la numa cidade de província, onde o cineclubismo permanece vivo. Refiro-me ao filme A Onda, de Dennis Gansel – uma singular incursão numa turma do ensino secundário que funciona como retrato exemplar da sociedade alemã actual. Tudo se passa nas aulas de Autocracia, em que o professor – muito mais vocacionado, de início, para leccionar Anarquia, uma disciplina alternativa – opera uma verdadeira revolução pedagógica na sala, acabando por se tornar vítima do seu próprio sucesso. Numa cena crucial, que serve de chave a todo o filme, o professor Rainer Wenger pergunta aos estudantes que o ouviam, ainda entediados: “Acham que seria possível a repetição de uma ditadura na Alemanha?” A resposta surge em coro: negativa. Mas o rodar dos dias – e das aulas – demonstra como esta percepção é profundamente errada: muitos de nós, a qualquer momento, ficamos disponíveis para aplaudir um projecto ditatorial, seja de direita ou de esquerda. Ninguém está imune ao ovo da serpente.

Gansel assina um excelente trabalho, protagonizado por um conjunto de actores ainda adolescentes. A Onda é um filme que nos interpela, que nos incomoda. Não conseguimos ficar indiferentes à sua perturbante mensagem: nenhuma sociedade democrática está definitivamente implantada – a democracia é uma conquista de todos os dias. Eis um tema que gostaria de ver abordado numa obra de ficção portuguesa. Infelizmente, quando se trata de pôr adolescentes nas telas, ainda não passámos da fase Morangos com Açúcar.

 

A Onda (Die Welle, 2008). De Dennis Gansel. Com Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelf, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz.