Inception


eventhorizon,

Ao contrário do que o Pedro defendeu nesta crítica, não considero que o filme Inception, de Christopher Nolan, seja, fundamentalmente, “pirotecnia visual”. Convém lembrar que, de todos os géneros cinematográficos, a ficção científica será porventura aquele que melhor explora as potencialidades da tecnologia – efeitos especiais, imagens geradas por computador, câmaras, enfim, um sem-número de truques de encher o olho. Diria mesmo: a ficção científica é o género que vive e desenvolve os efeitos especiais. Sem essa pirotecnia, sem esses “truques”, clássicos como 2001: A Space Odyssey, Star Wars, Alien, Blade Runner ou Matrix não teriam sido possíveis no seu tempo. É evidente que há filmes que fazem dos efeitos especiais o seu único expediente (e que por isso são, por norma, fracos), o que não é manifestamente o caso de qualquer um destes que mencionei; como, na minha opinião, não é o caso de Inception, filme que considero utilizar com mestria a tecnologia disponível para contar e explorar a complexa história que desenvolve ao longo de mais duas horas. Essa “pirotecnia visual” permitiu ao realizador, aliás, criar com mestria algumas cenas visualmente icónicas, que talvez venham a inspirar outras produções num futuro próximo.

 

No entanto, e ao contrário dos clássicos acima mencionados, Inception não me satisfez por completo. Globalmente, considero o filme muito bom, bastante acima da média, com algumas cenas a revelar assomos de um talento ímpar (a cena de Paris, de que o Pedro fala, é uma delas); faltou porém aquele rasgo de génio que poderia ter dado a este filme o estatuto de clássico, pelo menos dentro do género. Dito de forma mais simples: é bom, mas não justifica o hype. Até porque em nenhum momento se pode considerar groundbreaking.

Inception não explora por completo o potencial que a história tem – ou antes, creio que não o explora da melhor forma. É demasiado “action-oriented”, creio; um filme cuja trama se desenvolve, na sua maioria, em sonhos – literalmente – devia ser mais “fantasy-oriented”. Para ilustrar este ponto cometo o erro (pelo qual me desculpo já) de fazer uma comparação: no filme Paprika, longa metragem de animação japonesa do (infelizmente) falecido Satoshi Kon, encontramos um filme que parte de uma premissa muito similar – a possibilidade de entrar nos sonhos de alguém, e de cruzar esses sonhos – para recriar uma trama que transporta o espectador para um mundo verdadeiramente onírico. Ou seja: vivo, delirante, absurdo, frequentemente non-sense, difícil de controlar, repleto de impulsos inconscientes primários – para quem quiser recorrer a Freud. Em Inception, isso não acontece: não fica claro o mecanismo de projecção dos sonhos (em Paprika, a tecnologia é explicada), e todo o ambiente “sub-consciente” é perfeitamente controlado. Os mecanismos de defesa da mente são lineares, consistindo essencialmente em multidões enfurecidas (no caso de mentes “destreinadas”) ou em homens/militares armados (no caso de mentes “preparadas”). Todos os cenários são “reais”, pelo que a fusão com a realidade se torna vagamente decepcionante. Entre as várias camadas do sonho, muda o ambiente, mas todos os diferentes cenários continuam a ser perfeitamente racionais, e mesmo as alterações que neles podem ser feitas (recordar cenas iniciais) mantém uma racionalidade algo decepcionante – o que, a meu ver, não funciona se falamos de um “mundo” que, voltando a Freud, é absolutamente irracional. Para além disso, o filme falha ao não explorar outros aspectos que creio serem interessantes, como a tecnologia de infiltração nos sonhos, a criação dos “cenários”, e, mais uma vez, por não dar largas à imaginação num mundo feito à medida dela.

Isso, contudo, não faz de Inception um mau filme, bem pelo contrário; apenas impede que cumpra aquilo que a primeira meia hora promete. De qualquer maneira, a passagem entre as várias camadas de sonhos está feita de uma maneira muito engenhosa, e que inevitavelmente causará simpatia junto de quase todos os espectadores – afinal, quem nunca acordou sobressaltado a pensar que ia cair? -, o que é visível sobretudo na transição “ascendente”. Ainda que, com a excepção do protagonista Cobb (Leonardo DiCaprio), as personagens não estejam desenvolvidas como poderiam estar, há que destacar alguns desempenhos: o de DiCaprio, o de Ellen Page como Ariadne, e sobretudo o de Tom Hardy, no papel de Eames, que rouba várias cenas e dá ao filme um toque de descontracção que, em alguns momentos, é muito necessário. E o enredo em si, não sendo absolutamente original (uma vez mais, ver Paprika), é bastante interessante, e consegue ser bastante complexo sem se perder no labirinto que cria. Simplesmente não explora todos os caminhos, ou pelo menos alguns caminhos que poderiam ter sido bem mais interessantes.

Creio ser essa a diferença entre um filme muito bom e um clássico. Como disse uma amiga, Inception promete muito, mas não cumpre. Ou, como bem disse o Pedro, com toda a razão, passou ao lado de uma obra-prima. É pena, de facto – ainda assim, Inception é bastante mais do que a prima do mestre-de-obras, passe a expressão. Merece ser visto agora no cinema, e novamente quando estiver disponível no circuito comercial – decerto há muitos detalhes que vão sobressair.

 

Como não gosto das estrelinhas, dou-lhe 7,5 em 10. Já a Paprika, filme que muito recomendo, dar-lhe-ia 9 em 10 (este entrava direitinho para o meu top 15).

 

(Já agora, Pedro: a ficção científica normalmente faz-se acompanhar de outro género, ou por outros géneros. Thriller, acção, comédia, drama, terror – enfim, a lista seria quase ilimitada -, acabam por ser subgéneros recorrentes da ficção científica. Na minha opinião, essa transversalidade é um dos vários aspectos que tornam fascinante a ficção científica cinematográfica, e também literária)

3 comentários em “Inception”

  1. Já sabia que ias gostar do filme. Ainda bem que não perdeste oportunidade de o ver numa sala de cinema, onde os filmes de que nós gostamos merecem ser vistos. Eu vi-o numa sala totalmente só para mim: não havia nenhum outro espectador, o que diz quase tudo sobre os actuais hábitos de consumo dos portugueses e diz também muito sobre a crise económica que afugenta muitas pessoas das salas (o que não evita o contínuo aumento dos preços dos bilhetes, algo que de todo não entendo). Como se infere das leituras cruzadas dos nossos textos, “vimos” dois filmes muito diferentes, o que nada tem de mal, antes pelo contrário: cada vez sou mais alérgico às unanimidades. De acordo, no entanto, com várias observações que aqui deixas, com destaque para a grande qualidade do desempenho de Ellen Page (uma actriz que, apesar disso, me deixa a sensação de estar algo deslocada neste filme) e para as cenas que Tom Hardy rouba sistematicamente, dando sempre a sensação de fazer resvalar o filme para um registo de comédia que não é, de todo, o objectivo do realizador.
    Haveria ainda bastante para dizer, mas por enquanto fico-me por aqui.

    1. Não diria que tenhamos visto dois filmes muito diferentes, Pedro, ou pelo menos tão diferentes quanto isso.

      Não fiquei com a sensação de que a Ellen Page estava deslocada – já a Marion Cottilard… Sim, o objectivo do realizador pode não ser a comédia (não é, certamente), mas o personagem do Tom Hardy acaba por funcionar muitas vezes como “comic relief”, sendo que nesta expressão o destaque vai para a parte do “relief”.

      Gostei bastante do filme, sim, mas não consigo deixar de pensar que poderia ter sido um filme incomparavelmente melhor. Lá está: saí da sala a apenas a achar que tinha visto um bom filme; nada sequer remotamente parecido ao que senti quando, em 2007, saí da mesma sala de cinema (literalmente, do El Corte Inglés) após ter visto Blade Runner pela primeira vez, na versão “final cut” – e falamos de um filme que, em 2007, tinha “só” 25 anos (eu tinha 22!).

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *