TODOS OS HOMENS SÃO PECADORES
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O Americano é um filme que coloca os espectadores perante um dilema moral: poderemos julgar alguém pelos seus actos sem conhecermos as suas motivações? Estamos aqui perante uma situação limite: praticamente nada sabemos da personagem principal, começando pelo seu verdadeiro nome, a não ser que cometeu um crime brutal. E no entanto damos por nós a recear pelo destino desta figura aparentemente execrável, destituída de qualquer escrúpulo, contratada para matar. Assalta-nos aqui um novo dilema moral, ainda mais perturbante: será lícito defendermos um assassino?
Este é um filme onde a duplicidade impera, desenrolado entre as paisagens gélidas da Suécia no Inverno e o aconchego meridional de Itália. Um filme onde a beleza do cenário contrasta de forma quase chocante com o carácter sombrio de quase todas as personagens, sem excluir sequer o sacerdote que se revela demasiado ansioso por libertá-las do pecado, ouvindo-as em confissão. “Todos os homens são pecadores, padre”, diz-lhe – numa das cenas mais memoráveis – um quase irreconhecível George Clooney, que o realizador aposta em apresentar como um homem destituído de qualquer glamour hollywoodesco. Aposta arriscada mas obviamente ganha: todo o filme gira em torno deste homem atormentado por fantasmas íntimos que jamais descortinaremos. Damos por nós a tentar interpretar pistas atrás do seu olhar impenetrável e dos seus enigmáticos silêncios. Nada dele sabemos no início, quase nada dele saberemos à beira do fim.
Quem diria que este Clooney confinado ao seu refúgio de silêncio, condenado a jogar a vida num tiroteio à semelhança dos cowboys de Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, que a televisão do café da aldeia exibe, é o mesmo actor que ainda há pouco surgiu nos ecrãs como a exuberante e tagarela figura central do filme Nas Nuvens? Este não é o menor dos contrastes que O Americano propicia. Anton Corbijn, conhecido por ter filmado os Joy Divison, sabe que o cinema vive sobretudo de atmosfera visual – e neste aspecto é igualmente bem sucedido, embora nos interroguemos por vezes se a deslumbrante paisagem dos Montes Abruzos não se impõe em excesso às personagens de film noir que nela se movimentam, anulando de algum modo o impacto negativo de todos os seus crimes e todos os seus pecados – por pensamentos, palavras, actos e omissões. E se o paralelo final com a Viagem a Itália, de Rossellini, parece algo forçado, na cena da procissão, já a personagem da prostituta, com as suas ressonâncias bíblicas, tem pleno cabimento neste filme que a todo o tempo nos coloca perante desafios no plano moral.
Quem não é pecador que atire a primeira pedra.
O Americano (The American, 2010). De Anton Corijn. Com George Clooney, Thekla Reuten, Violante Placido, Irina Björklund, Paolo Bonacelli.

