Em Julho de 2007, Rogério Casanova escrevia no mais-morto-que-comatoso Pastoral Portuguesa: Ainda não li Falling Man, e posso assegurar que se trata de uma não-leitura compulsiva. Aliás, é um dos livros que mais vezes não li nos últimos tempos. Desde que a encomenda da Amazon chegou já o devo não ter lido umas seis ou sete vezes, sempre com um enorme prazer. Casanova, sportinguista frágil como qualquer outro de nós (qualquer outro de nós, sportinguistas, entenda-se), tentava proteger-se da desilusão que seria comprovar a existência de mais um DeLillo abaixo das suas – dele, Casanova, que as suas, leitor, nem consigo imaginar – expectativas. Eu, que li Falling Man e, apesar de não o classificar entre os melhores DeLillo (experimentem Ruído Branco), fiquei convencido de que não teria usado melhor o meu tempo lendo qualquer coisa alinhavada pelo José Rodrigues dos Santos, experimento reacção similar com A Estrada. Não o livro de Cormac McCarthy mas o filme baseado no livro de Cormac McCarthy. Permitam-me que explique.
Li o livro, na versão original, ainda antes de McCarthy se tornar conhecido por, afinal, não só aceitar dar entrevistas como dar entrevistas à Oprah. Num understatement incontornável (o inglês é para que possam comprovar que eu seria mesmo capaz de ler o livro no original), posso dizer-vos que ADOREI o livro. Adorei-o a ponto de não me envergonhar de usar maiúsculas ao escrever que o adorei. Li-o, reli-o, fiz-lhe festinhas. E depois soube que, lá pela Hollywood do Michael Bay, tinham decidido fazer um filme baseado nele. Ora eu também gosto de filmes. Gosto tanto, aliás, que gosto até mesmo dos que foram rodados antes de Deus inventar as cores ou a fala humana (num àparte, deixem-me confessar sempre ter achado estranho que Deus tivesse inventado a música de piano antes de dar voz às pessoas mas suponho que isso só demonstra que os Seus desígnios – de Deus, não seus, leitor, nem do Casanova, por muito divino que tanto você como ele se possam considerar – são mesmo insondáveis, conforme alguém, num filme sonoro qualquer – A Vida de Brian? –, terá exclamado um dia). Mas a notícia apavorou-me tanto como qualquer aparição do Ministro das Finanças na televisão. Filmar A Estrada? Como? Onde? Por quem? Mais importante: porquê? A minha reacção imediata foi prometer a mim mesmo que não o veria antes do momento em que obtivesse a certeza absoluta de não sair desiludido ou a Alzheimer me tivesse atacado o suficiente para eu não me recordar do livro. Fui apanhando notícias sobre o filme aqui e ali (Viggo Mortensen, até que não era mal pensado; John Hillcoat, melhor ainda) e, quando o trailer saiu, espreitei. Recuei, horrorizado. E depois não só não vi o filme como dei cabo dos dentes ao rangê-los de cada vez que passava junto a um cinema exibindo o cartaz. Sobrevivi a essas semanas difíceis (mesmo você, caro leitor, que não me conhece, terá de admitir que sou mais resistente do que pareço), A Estrada, o filme, lá acabou por sair de exibição e eu passei uns meses de paz e alegria.
E depois saiu o DVD. E depois o DVD entrou em promoção. E depois eu não resisti e comprei o DVD (por acaso foi o Blu-ray, que não quero não apreciar A Estrada só por faltar definição ao apocalipse). E isso foi há cerca de um ano e eu ainda não vi A Estrada. Não o vi em Janeiro e em Fevereiro e em Março de 2011. Tornei a não vê-lo em Abril e em Maio e em Junho. No Verão não o vi várias vezes. E fiz questão de voltar a não vê-lo no Outono e no início do Inverno. Tenho-o aqui ao meu lado enquanto escrevo isto. A capa mostra o Viggo a proteger o miúdo com o braço direito, o revólver na mão esquerda; na parte inferior, o selo de qualidade Selecção Oficial do Festival de Veneza 2009 – a melhor recomendação possível, se considerarmos apenas festivais de cinema ocorridos em cidades banhadas pelas águas do Adriático. Atrás, na ficha técnica, a indicação realizado por John Hillcoat – e eu adorei (em minúsculas) A Proposta (cujo argumento, já agora, foi escrito por um senhor chamado Nick Cave). Mas nem assim. Quase um ano e eu ainda estou para enfiar o disco no leitor (que também está aqui, a meros três metros, por baixo do televisor). Chateia-me, esta incapacidade. Consolo-me um pouco pensando que mais vale tê-lo comprado demasiado cedo do que ser obrigado a fazê-lo depois do fim do euro. Foi um investimento, digo-me. Tal como no caso de outros filmes e séries que, por falta de tempo, ainda não vi. Ou no dos livros. Em vez de mandar os poucos euros que tenho para uma conta na Suíça, converto-os em entretenimento para usufruto futuro. Tem lógica, não? Infelizmente, quando o assunto é A Estrada, nem assim me consigo convencer.
E é por isso que decidi fazer do visionamento de A Estrada, o filme, a minha resolução de ano novo. Antes de 2012 acabar, eu hei-de ver este filme.
Não me parece que seja hoje. Mas tenho tempo. O ano até é bissexto.


Jaa, não podia concordar mais contigo. Adorei o livro. O filme não vi:) beijos e bom ano
Hmmm, porque é que eu já desconfiava? 😉
(Apesar de, deixa-me realçar, a tua abordagem ser bastante diferente.)
Ah, e Bom Ano.
Conseguiu outra vez impressionar-me. Desculpe ter que fazer isto – afagar-lhe o ego desta forma vergonhosa – logo no início do ano, mas tem mesmo de ser.
O texto acima é magnífico. Não só avança com uma estupenda sugestão de leitura como nos autoriza a não ler e não ver de forma activa. Tenho o mesmo problema.
A diferença entre nós, em termos de dotes de escrita é óbvia e o meu próximo parágrafo, que aborda o mesmíssimo tema – livro+filme – claramente o demonstrará.
Também eu li o livro, embora na sua versão traduzida, e fiquei completamente rendida. Enquanto o lia, tinha filme a acenar-me, mas como tenho muita dificuldade em ler livros depois de ver o filme, resisti. Todavia, sempre com o objectivo de o ver assim que possível. Não fiquei desiludida.
É um filme extraordinário, se considerar-mos que o livro assenta, quase exclusivamente, na descrição de ambientes e no discurso interno das personagens. Viggo Mortensen está irrepreensível.
Por isso, deixe-se levar porque vale mesmo a pena ver o filme.
Obrigado, CSS. Ia dizer-lhe que não tem de se desculpar por me afagar o ego mas a verdade é que tem: ele inchou de tal forma que estou a escrever com os braços estendidos e, ainda assim, mal chego ao teclado. 😉
Quanto ao filme, ainda bem que me diz que é bom. Vindo de alguém que leu o livro, ajuda bastante. Começo a pensar que o conseguirei ver antes do Verão.
Por acaso não li o livro, mas vi o filme e GOSTEI. Aconselho a ver.