A verdade versus o azeite


jmmcc,

Quando acabei de ver A Verdade e Só a Verdade (Nothing But the Truth, de 2008) dei por mim a pensar por que motivo o filme não acaba bem. Concluí que a verdade não tem de ser sempre como o azeite — e muitas vezes não é.

A crítica (internacional) não foi especialmente favorável ao filme. Os mais rancorosos disseram que “misturava”, a partir de certa altura, emoções e dúvidas de consciência com deontologia e exercício profissional. Como se uma boa história em torno do comportamento de pessoas comuns tivesse de alhear-se da própria complexidade do ser humano — e da massa íntima de que são feitos os retratados, por maioria de razão.

Quando a jornalista Rachel Armstrong (Kate Beckinsale) do ‘Capital Sun-Times’ divulga o que era para se manter como segredo de Estado — de evidente interesse público, pelos sombrios contornos políticos, pela gravidade dos factos e pela avaliação do carácter dos decisores de topo envolvidos — e é ameaçada pelas autoridades judiciais e confrontada com a prisão por não divulgar a sua fonte de informação, só há mesmo duas saídas: ou é um “heróico” déjà vu que vai acabar com a vitória do bem e da razão sobre o mal e a força do poder, ou é um argumento assumidamente realista e o caso não poderá ter um desfecho fácil.

Supostamente baseado em casos reais (ou num caso real de 2005, pelo menos), a narrativa do realizador Rod Lurie, também ele um crítico de cinema, desemboca intencionalmente num mar de dificuldades que são óbvias, ao invés de meter a martelo umas quantas ingenuidades facilitadoras que nada teriam que ver com a realidade tantas vezes tenebrosa dos nossos dias, aquela em que a protecção das fontes de informação do jornalista faz parte dos princípios mais pantanosos do jornalismo de investigação — um campo da actividade que entrou em declínio quando mais necessário era (e é). Misturar sentimentos em debate a um guião assim tão actual é apenas valorizar o lado humano de uma reflexão sobre liberdade de expressão e direito à informação.

Com o poder político e o sistema judiciário de mãos dadas, o primeiro confortavelmente recolhido enquanto o segundo se faz representar pelo “procurador especial” Patton Dubois (Matt Dillon), nomeado com uma máquina para arrasar os meios que lhe tolherem os fins, as normas do regime democrático estão viciadas. As armas são desiguais e ninguém que se queira sério pode desenhar a vitória da cidadania com os simples recursos de que os cidadãos dispõem (jornalistas incluídos, claro).

Não é difícil conservar escondida a verdade que for controlada pela conjugação de poderes, quando estes atropelam o princípio da separação das águas e violam a regra segundo a qual o seu exercício deve ser feito em nome do povo. Nem o azeite é para aqui chamado, nem a verdade há-de vir acima — pelo menos, em tempo útil — em tais condições.

A vitória é impossível e a luta desigual é inglória? Nem por sombras: a vitória está na resistência, na abnegação, no sacrifício do bem-estar. Mesmo quando a consciência é abalada por dúvidas próprias da fragilidade humana, ainda é ela que pode garantir a vitória. E deter o poder continuará a ser uma coisa efémera, por muito que os investidos tudo façam para prolongar a estadia — mais por obscuros interesses pessoais e menos pela transparência da missão de serviço público.

6 comentários em “A verdade versus o azeite”

  1. Também fiquei com vontade de ver o filme, João.
    E gostei muito de o ler sobre um assunto que me é caro. Quando o Estatuto da OA foi revisto defendi a consagração da incompatibilidade entre o exercício simultâneo da actividade de jornalista e de advogado. Constatei, na altura, que existia alguma confusão a nível das regras sobre segredo. Ao contrário do que muita gente por aí pensa, os jornalistas não estão sujeitos à obrigação de segredo profissional relativamente a todos os factos conhecidos no exercício da profissão, como acontece com os advogados. Os jornalistas estão, pelo contrário, deontologicamente vinculados a revelar tudo o que saibam e seja relevante para formação da opinião pública (é assim, não é?). É-lhes vedado, apenas, revelar a identidade das fontes.
    A minha opinião sobre a incompatibilidade não mereceu o acolhimento da maioria. E o resultado é o que se tem visto… Enfim…

    1. É bom saber o que aqui nos conta, Nicolina. Se o Pedro (nosso comum amigo) ler isto há-de certamente dizer melhor do que eu que não está vedado ao jornalista revelar as fontes, mas que pode e deve fazer de acordo com a sua vontade e o que tiver acordado com as próprias fontes.
      A sua posição na OA revela uma lucidez a que a OA não está em grande parte muito habituada e em outra parte muito interessada, tanto quanto me parece.

      1. Na altura (2002/2003) tentei documentar-me sobre as regras deontológicas dos jornalistas, mas não encontrei nada específico sobre este problema, designadamente algo que me ajudasse a raciocinar melhor. Gostaria muito de saber mais. O que sei é muito pouco. Já reparei que o Pedro volta e meia escreve sobre estas matérias. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um post sobre «Watergate», de que gostei muito. Ainda bem que fala nisso, porque hei-de pedir-lhe que me dê umas «guide lines». É provável que o EOA volte, em breve, a ser tema de discussão. Dava-me jeito afinar a pontaria… 🙂

        1. Tenho a certeza absoluta de que o Pedro está entre os jornalistas que mais sabe sobre ética e deontologia do (no) jornalismo. E acho óptimo que queira estar bem informada (documentada) sobre o assunto e com a pontaria afinada para o momento certo.

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