Os programadores televisivos portugueses – e já não falo dos nossos exibidores cinematográficos, pois essa é uma guerra há muito perdida – só podem andar muito distraídos. Se não andassem, já teríamos certamente visto num dos canais de TV em sinal aberto a reposição dessa obra-prima do cinema que é O Grande Carnaval (The Big Carnival), de Billy Wilder. Vem mesmo a propósito dessa história fascinante, que o mundo por estes dias acompanha com atenção, dos 33 mineiros chilenos soterrados a 700 metros de profundidade, no deserto do Atacama.
Algo nesta história me faz lembrar irresistivelmente o enredo do filme de Wilder, que tem Kirk Douglas como protagonista. Também no filme um homem fica soterrado no subsolo, vivendo dias de profunda ansiedade na expectativa de ser socorrido. E também esse acontecimento, algures num lugarejo perdido do Novo México, ganha repercussão nacional.
O filme funciona como uma poderosa crítica à imprensa sensacionalista no seu afã de encontrar “histórias com interesse humano” que possam vender papel. Douglas é um jornalista sem escrúpulos, chamado Chuck Tatum, que converte o drama do indivíduo encurralado debaixo da terra num grande espectáculo para consumo de massas. Mobiliza todos os meios que imagina para puxar à lágrima fácil e fazer acelerar a pulsação dos leitores. Chegando ao extremo de subornar algumas autoridades para retardar o resgate, de modo a que o filão não se esgote demasiado depressa.
A história acaba mal, como cedo pressentimos, neste filme que devia ser visto e debatido em todos os cursos de jornalismo. Porque aqui se traça uma fronteira nítida entre jornalismo como serviço público, que jamais pode existir sem parâmetros éticos, e a contrafacção noticiosa, que manipula factos ao sabor de estratégias de baixo comércio, vigarizando o público.
É um filme que interpela a consciência dos jornalistas – e de todos os consumidores de informação. Infelizmente, tornou-se um filme “invisível”: quem nunca o viu numa das antigas “noites de cinema” da RTP ou numa ocasional exibição na Cinemateca passa ao lado desta corrosiva sátira de Wilder, um cineasta que tinha uma visão desencantada do jornalismo. É pena. Porque o Chuck Tatum d’ O Grande Carnaval não passou de moda: ele continua aí, a criar mau “espectáculo” que faz passar por notícias. Se dependessem dele, os mineiros do Atacama tardariam o mais possível a ser socorridos. Para fazer render a história. E apelar mais ao drama. E chafurdar ainda mais na lama.
Imagem: Kirk Douglas em O Grande Carnaval (1951)


Um grande filme, dos que não passa de moda. Como quase todos os do Billy Wilder . Pode ser que a RTP2 se lembre de fazer um novo ciclo com o realizador.
Gostava bem que isso acontecesse, Sérgio. Mas o melhor é esperarmos sentados.
Boa, compadre. Grande apelo e grande desapego, que é o que importa.
Não conheço nenhum filme tão cáustico para o jornalismo, compadre. Ainda mais actual nos dias que correm do que quando se estreou. Como refiro no texto, este filme devia ser analisado em todos os cursos de comunicação social.
Pedro,
O Hoje Macau publica, na edição de hoje, um cartoon magnífico sobre esta matéria.
Julgo que não está ainda disponível online (eu não consigo encontrar).
Mas, se tiver oportunidade, vale a pena tentar ver.
Pedro, vá-se preparando para um escrever também aqui. Será um dos próximos a pisar a nossa passadeira vermelha.
Será um prazer.
E um grande desafio.
Não me lembro de tê-lo visto. Mas cai como sopa no mel do jornalismo sensacionalista actual. Por cá nem precisamos de soterrados, temos a Casa Pia que dá pasto farto para esse tipo de “jornalismo”.
Todo o jornalismo é tendencialmente tablóide nos dias que correm, Ana. Pensei isso ao ver as fotos que o vetusto ‘Times’ publicou na primeira página, durante o Mundial da África do Sul, da Sara Carbonero junto à baliza espanhola, onde estava o namorado, Casillas.
Infelizmente parece que sim. É irresistível, aumenta as vendas…
Um clássico! E do grande Billy ainda por cima (o Billy é o único guru a cujo clube aceitaria pertencer)
Faço minhas as tuas palavras.