Sem título
De vez em quando, surge-me a oportunidade de fazer, com a minha irmã médica, uma viagem ao estrangeiro. Ela fá-lo sob o pretexto de participar num ou noutro congresso com interesse para a sua especialidade e vai aprendendo coisas importantes. Eu faço-o na condição de acompanhante de congressista e vou aprendendo coisas importantes, também: no meu caso, não sobre o «estado da arte» ou da investigação, mas, conversando com ela – e são conversas longas e saborosíssimas! – sobre certas perspectivas da vida. A minha irmã defende, desde há muito, a tese de que o homem é um boneco, uma espécie de marioneta comandada pelo grande cordão da sua herança genética e pelos cordões mais ou menos estreitos da educação familiar e social. Ou seja, que o homem não tem, verdadeiramente, qualquer liberdade na sua acção, na medida em que a «massa» de que é feito o força, em cada específico contexto, à reacção ou resposta que apresenta. Não se trata, aqui, de dar suporte aos que consideram que a culpa dos crimes de um criminoso é da sociedade que não soube integrá-lo no seu seio. Trata-se, sim, – se bem entendo – de, sem desresponsabilizar o criminoso pelos seus crimes, compreender que esse mesmo criminoso nunca deixaria, por imperativos da sua própria natureza íntima, de os praticar, as circunstâncias propícias sobrevindo. Esta ideia tem encaixe naquela outra, que oiço frequentemente expressa pelos arautos da ciência, de que a vida é um mero conjunto aleatório de transformações bioquímicas, das quais tanto pode resultar uma amiba, como um ser humano complexo, produtor de pensamento. Esta ideia não nega um Criador, como não nega o céu e as estrelas, as estações do ano e a interdependência do todo. Não nega, tão pouco, as virtualidades do raciocínio e da imaginação das pessoas, incluindo a teorização sobre valores e a pregação sobre comportamentos éticos. Mas já nega que as pessoas se atenham aos valores e à ética por coerência com as suas teorizações e pregações, mas apenas porque a sua índole «físico-química» se concilia com elas. E a realidade parece confirmá-lo: afinal, tudo indica estarem em maioria as criaturas que, teorizando e pregando sobre valores e ética, prevaricam contra ambos em cada passo que dão sobre a Terra.
Vem isto para dizer que eu, mais um dos triliões de «bonecos» que povoam o nosso planeta, desafiada pela Ana Vidal e pelo Pedro Correia para escrever um «post» «delituoso», pressenti imediatamente, no entrechoque envaidecido dos meus neurónios, que não tinha como não «delituar». Mas porque posso teorizar, e porque a minha formação profissional me preparou para isso, remato estas singelas linhas com as razões nobres que me ilibam – e restituem a ilusão da liberdade. Elas são a minha grande amizade pela Ana, a minha grande simpatia pelo Pedro e pela equipa dos autores do «Delito de Opinião», e o enorme prazer que tiro das minhas visitas diárias ao seu blogue.


Obrigada, Pedro e «Delituosos». É sempre um prazer prevaricar… ou, pelo menos, pisar o risco. 😉
O prazer é todo nosso, Luísa. Gosto muito de vê-la por cá.
Faço minhas as palavras do Pedro, Luísa. Parabéns pelo texto que nos trouxe.
Obrigada, João. 🙂
Excelente texto, cara Luísa, que só é pena não vir acompanhado de uma das suas magníficas fotografias.
Parabéns!
Vou sugerir ao Pedro que numa próxima oportunidade prepare uma série idêntica a esta para fotógrafos “bloguistas”. Nessa altura a Luísa poderá trazer-nos as suas fotografias. Com o Miguel Marujo já são dois.
Quanto ao texto, excelente.
Como co-arrendatário do espaço, fico satisfeito por saber que os responsáveis pelo envio dos convites não se enganaram nos códigos postais. E que os leitores estão a tirar o devido partido dos textos.
Obrigada, Sérgio. 🙂
Pois esqueci-me da fotografia, Torquato. Ela foi muito gentilmente sugerida, mas eu é que ainda não aprendi a pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Se me concentro numa, as outras varrem-se-me… ;-)))
Obrigada.
“Esta ideia não nega um Criador, como não nega o céu e as estrelas, as estações do ano e a interdependência do todo.”
A ideia de que não somos livres é muito mais eficaz na negação do Criador do que a ideia da nossa natureza biológica, passo a redundância.
Pois que é o livre arbítrio se não o alibí de Deus?
A forma de justificar que Ele, omnipresente e omnipotente, deixe tanto mal acontecer.
“É o homem que faz mau uso desse dom supremo que é a liberdade de escolher entre bem e mal”, dizem-no, se bem os entendo, os teólogos.
Mas se demonstradamente somos menos livres do que isso, ou deus tem culpa do mal ou está ausente em parte incerta.
Há quem entenda, L. Rodrigues, que nós, criaturas humanas, estamos para Deus como as bactérias que povoam os nossos interiores estão para nós. Sabemos que elas existem, mas não as conhecemos «pessoalmente», nem temos mão nelas. E serão elas livres, na sua condição bacteriana? Confesso-lhe, em todo o caso, que não sei bem o que seja liberdade. Nunca a senti senão no domínio muito abstracto do pensamento e, ainda aqui, na condição pura, espontânea e imaginativa – ou «natural» – de criança. 🙂
“o homem é um boneco, uma espécie de marioneta comandada pelo grande cordão da sua herança genética e pelos cordões mais ou menos estreitos da educação familiar e social”
Isso será em grande parte verdade, de facto, para as mulheres, e portanto está bem que a sua irmã (que é mulher!) assim teorize. A maior parte das mulheres é de facto totalmente comandada pela sua educação familiar e social. Já de boa parte dos homens não se pode dizer o mesmo.
Luís, obrigada pelo seu comentário e pelo seu humor. :-)))
Ó Luís Lavoura, mas que rentrée em grande no DO, hein?
Há muito tempo que não ouvia (ou lia) um disparate tão descaradamente machista como este!
Então os homens não são condicionados pela educação familiar e social?? Muito bem, muito bem… Mas, já agora, diga-me lá quem é que os educa familiar e socialmente… não serão as mulheres, esses pobres seres eternamente condicionados?
Não vejo em que é que o meu comentário seja machista. Afirmar que há diferenças psicológicas entre homens e mulheres não é machista.
Eu não afirmei que os homens não sejam condicionados pela sua educação. Afirmei que as mulheres são em geral comandadas por essa educação; os homens são condicionados, mas não são, geralmente, comandados. Espero que a Ana perceba a diferença entre ser condicionado por e ser comandado por.
E eu espero (ou melhor, esperava…) que o Luís percebesse a diferença entre condicionamentos sociais e diferenças psicológicas entre homens e mulheres. Mas parece que nenhum de nós consegue isso do outro, pois não?
Querida Luísa, gostei muito de ler – desta vez aqui no DO – mais um dos seus tranquilos (mas nem por isso menos acutilantes) ensaios sobre a lucidez.
Reclamo só, como o nosso caro Torquato, pela falta de uma bela fotografia das suas, daquelas que nos lavam os olhos.
Um beijo!
Ana, sabe que, nestes domínios, a minha posição de princípio é acreditar em tudo e no seu contrário. Ainda assim, faço por acreditar com um bocadinho mais de força – porque me conforta – na existência de uma Bondade infinita e de um desígnio Providencial. Afinal, como alguém escreveu um dia, o erro não está em eu acreditar nessa Bondade e nesse desígnio, mas estaria em eles não existirem.
Obrigada pelo convite e pelas suas palavras. 🙂
Pois é… nesse caso, acrescento a prudência à lucidez e não se fala mais nisso!
😉
Faço eco da reclamação do Torquato da Luz. Faltou uma daquelas cheias de luz absolutamente… vivas. No mais, apreciei muito o texto, Luísa, apesar de um certo desconforto que senti, relevado da sua teorização. Brilhante, de resto. Parabéns e «delitue» muito que sabem sempre bem delitos como os seus 🙂
Estas teorizações, Nelson, só servem para me ajudar a relativizar um bocadinho as coisas. Tenho de combater a tendência para me ver no centro do mundo. ;-D
Obrigada! 🙂
Não me parece necessário combater isso, Luísa: quando estamos a observar o mundo à nossa volta, somos o centro do mundo.
Que bom vê-la por aqui, Luisa! Volte sempre e, como já foi dito, traga também uma das suas excelentes fotografias.