Armindo.


vidabreve,

Nota: em Janeiro de 2006 publiquei no Franco Atirador o retrato de um pedófilo. O processo Casa Pia ocupava todas as manchetes, Cavaco Silva percorria o país em campanha eleitoral.  Aqui fica, para edificação dos leitores.

Um metro e setenta, oitenta e três quilos, quarenta e oito anos, bacharelato em económicas, casado, um filho de dezanove e uma filha de vinte e quatro anos, apartamento de cinco divisões em Benfica, BMW Série 3, segunda casa perto de Leiria. Armindo é sócio do SLB e frequentador do café “Arabesco”. Há um grupo de amigos no bairro, com quem vai ocasionalmente ao futebol. A mulher é professora primária, os filhos estudam arquitectura e comunicação social.

 

Armindo tem uma pequena empresa de contabilidade, no Conde Redondo. Uma ou duas vezes por semana fica a trabalhar até tarde, e no final de cada trimestre perde um domingo. Já acompanhou clientes ao Elefante Branco e ao Gallery, mas nunca consumiu – com excepção de uma preta que lhe custou cem contos em moeda antiga, mas foi a foda do século, com direito aos três pratos, embora sem recibo. Tem alguma pena que as putas não façam retenção na fonte, pois poderiam pagar-lhe em géneros.

 

Nas noites em que fazia serão acontecia-lhe passar com certo alheamento pelo Parque Eduardo VII, onde metia no carro o Raúl, quando estava livre, ou o pequeno Bernardo, que tinha nome de beto mas era do Casal Ventoso – embora as feições trigueiras e o cabelo à surfista não desmerecessem a baía de Cascais. Preferia o Raúl, porque era mais velhinho: como contabilista não lhe convinha ser acusado de cometer ilegalidades, já bastava o que bastava. Nessa altura ficou a saber muito da vida dos deputados e dos ministros.

 

Quando começou o processo Casa Pia, deixou-se de aventuras. Não acreditava que os miúdos se traumatizavam por causa de uma mamada – mas cautela e caldos de galinha, como dizia a sua mãe. Agora fica pelo Conde Redondo e guarda o telemóvel de dois ou três travestis a quem dá umas pinocadas quando lhe apetece. No fim de contas, são umas boas enrabadelas, sempre com preservativo (elas exigem!) e de costas viradas para a parede, pois nunca gostou de paneleiragens. É católico não praticante, alinha com o PSD e diz que vota em Cavaco Silva, para pôr na ordem esta bandalheira.

8 comentários em “Armindo.”

      1. Não serei um must de original, com toda a certeza, e similares haverá muitos. Mas se V. publica textos apenas para que os leitores deles gostem ou, se calem então, pelo menos, tire os comentários. Grande má onda, mesmo má onda, de resposta. Perfeitamente ao lado do bloguista que costuma ser.

          1. Deixe-se de coisas, não estou nem zangado nem “zangadinho, como de costume”. V. está a virar o bico ao prego. Tem aqui um mau texto, é a minha opinião. Eu meti-a aqui – é para isso que a caixa aqui está. Reaja como muito bem ou muito mal quer, também para isso que a caixa existe.

          2. Pois é. Agora já percebeu que não são só os comentadores que retorquem aos posts, também são os autores que respondem, se necessário no mesmo tom, aos comentários. É justo, e só não sei porque se perturbou tanto com a ideia: deve estar mal habituado.

          3. Disse-lhe que não gostei de um texto seu, e que o acho (ao texto) preconceituoso. V. responde-me, imbecilizando-me. V. acha que “é o mesmo tom”. Não é, é algo radicalmente diferente, como é óbvio e V. sabe-o muito bem. E é, acima de tudo, de alguém que não admite que se expresse o desgosto pelos seus textos. Mas a casa é sua, o tom é seu. Ou seja, o jogo é seu. Pelo que não vou aqui ficar para o tie-break, num bate-bola inútil a responder a sofismas.

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