A família continua a ser matéria-prima essencial da ficção cinematográfica, como os filmes exibidos entre nós em 2009 bem demonstraram, na linha de uma sólida tradição dramática do cinema clássico. Algumas das melhores longas-metragens que pudemos ver no ano passado tiveram a família como eixo central da narrativa, nas suas diversas facetas e em variados registos, da comédia ao drama. A busca desesperada de uma mãe que perdeu um filho (A Troca, de Clint Eastwood), a insuperável dor do luto (Incendiário, de Sharon Maguire), o desgaste da rotina conjugal (Revolutionary Road, de Sam Mendes), o complexo de Édipo revisitado ao som de partituras clássicas (no incompreendido Tetro, de Francis Ford Coppola). As quatro paredes domésticas como cenário dos mais complexos dramas psicológicos (O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, e Duplo Amor, de James Gray). A cegueira física como metáfora da diluição do amor (Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar). As memórias dolorosas suscitadas por um repasto familiar nesse filme assombroso que é Um Conto de Natal, de Jean-Paul Roussilon). A velhice nostálgica mas ainda sorridente (Almoço de 15 de Agosto, de Gianni di Grigorio). Uma inesperada catarse provocada pelo desamparo da viuvez (no fabuloso Gran Torino, de Clint Eastwood, sem dúvida já uma das obras mais marcantes da década).
Filmes muito diferentes mas com características comuns. Este é um cinema que valoriza o argumento, que acentua a espessura psicológica das personagens, que sente um especial fascínio pelas subtilezas do diálogo. E é fundamentalmente um cinema de actores, que nos fornece sobretudo um excepcional naipe de interpretações femininas. Como esquecer o olhar dilacerado de Angelina Jolie n’ A Troca – até à data o melhor papel da sua carreira? Impossível ficar indiferente à revolta interior da deslumbrante Michelle Williams nas cenas fulcrais de Incendiário ou à transfiguração de Anne Hathaway numa inspirada actriz dramática em O Casamento de Rachel. E quem supõe que o cinema é uma arte em declínio deverá reparar no subtil jogo de alterações fisionómicas que acompanha a evolução da personagem de Kate Winslet em Revolutionary Road.
A família: eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também.
Imagens:
1. Anne Hathaway e Rosemary DeWitt, em ‘O Casamento de Rachel’
2. Mathieu Amalric e Catherine Deneuve, em ‘Um Conto de Natal’
3. Gwyneth Paltrow e Joaquin Phoenix, em ‘Duplo Amor’




Hum, o transformers também tem uma família e a ligação de um homem a um chaço (conta como família?). Eu diria que todos estes filmes têm em comum a comida, em todos eles alguém come…
Hum. Profunda reflexão. Com essa deixou-me esmagado.
E a comida tem a ver com família, a comunhão, a partilha. Cozinhar para alguém é um acto prenhe de afectos e carinho. Está tudo ligado.
Agora fiquei mesmo com apetite, Leonor. Vou jantar.
Não pensei que o post se desse a essas pretensões… “tiveram a família como eixo central”, qual? o Gran Torino? porque há uma viúva? a troca tem como eixo central a família? o tetro porque são o que são? e porque não o progresso, a angústia e a criação? é perfeitamente redutor… consigo ver o drama da família como eixo central de todos os filmes onde exista uma ligação de sangue…
Sem dúvida. Aliás todos nós, seres humanos, formamos uma grande família. E gostamos de jantar. Eu próprio estou neste momento a fazer o meu jantar.
Aplaudo a lucidez do tema escolhido e da forma como foi transformado em texto associado à Sétima Arte. Gostei deste post. Bastante!
Um abraço, Mike. Vou continuar a escrever sobre cinema. É algo que me dá muito mais prazer do que escrever sobre política.
Pedro, não tem escolha possível. Exigimos que escreva sobre ambos os temas. Abraço.
Os vossos desejos são ordens.
Abraço.
Desisto, então, tolhido pela falta de fôlego da minha reflexão,e mais, dou o braço a torcer, acabei de ver o doubt e o antichrist
Não desista por causa de umas brincadeiras em dia de Carnaval. As suas reflexões são sempre bem-vindas. Quanto ao ‘Anti-Cristo’, lamento, mas não vou ver: sei que me estragará o apetite. Apesar da Charlotte Gainsbourg, de que gosto tanto. Ou por causa disso mesmo.
“Oldboy”, de Kim Ki-Duk, também é sobre a família, apesar de não pertencer à fornada de 2009. “Feios, Porcos e Maus”, de Ettore Scola, também. “Ninguém Sabe”, de Hirokazu Kore-Eda, pode caber neste exercício. Se a família é “o eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida”, vale a pena encaixar estas nessa cosmologia. Há-de haver para ali algum resquício de luz, lá isso há-de.
Do que você se foi lembrar… “Feios, Porcos e Maus” é um dos filmes da minha vida, de uma excelente década do cinema italiano. Confesso que ando com alguma saudade de um certo cinema ‘social’ que marcou essa época quando os efeitos especiais e o culto do artifício não estavam tanto em voga.
Da tua e da minha: “Feios, Porcos e Maus” é um dos meus filmes de culto. E os filmes italianos, talvez mais do que quaisquer outros, focam a família e as relações de sangue nas suas infinitas cambiantes, porque é uma matéria infindável de análise. Outros bons exemplos disso: “Rocco e os seus irmãos” e “O Leopardo”. Mas há muitos outros.
E como as conversas são como as cerejas, lembrei-me de outro (nórdico, desta vez) também excelente, sobre este mesmo tema: “A Festa”, de um realizador dinamarquês de que não me lembro o nome.
Ah, e gosto muito de ler-te sobre cinema…
És uma querida…
Gostei muito de ler isto, compadre.
São filmes que naturalmente recomendo, compadre. Filmes que nos ficam a perdurar na memória. Todos eles, cada qual a seu modo.
Pedro
O que eu gostei deste post! É certo que não vi todos estes filmes, ainda me faltam alguns, mas dos que já vi na minha vida, é mesmo assim, “na vida e no cinema”.
Embora tenha sempre disponível o link da “tag” cinema, gostava muito de replicar este post n’as_coisas_essenciais. Posso?
Ana
Faça favor, Ana. Assim que possa, passo por lá.
Obrigada, Pedro.
Ana