Estrelas de cinema (4)


Pedro Correia,

 

PRIORIDADE À PIROTECNIA

* *

Confesso ter cada vez menos paciência para filmes cheios de pirotecnia visual, onde tem de “acontecer” qualquer coisa de 30 em 30 segundos e em que a “acção” é um objectivo que parece esgotar-se em si mesmo. Filmes como o tão elogiado A Origem, talvez a mais propagandeada longa-metragem do ano. É uma espécie de cruzamento de géneros, meio thriller meio ficção científica, com um Leonardo di Caprio cheio de energia a comandar o elenco. Poucos filmes me irritaram tanto, nos últimos meses, como este. Desde logo por ver desperdiçado o talento de Marion Cotillard, provavelmente a melhor actriz de cinema da sua geração, num papel secundário que não exige quase nenhum dos atributos que a têm distinguido. E sobretudo por perceber como uma boa ideia pode ser desperdiçada por uma produção apostada em gastar todo um cardápio de efeitos virtuais, transformando cada cena no equivalente a uma árvore de Natal cheia de luzinhas.

A boa ideia é esta: o aproveitamento da tecnologia pode levar pessoas pouco ou nada escrupulosas a manipular os sonhos dos outros. Uma ideia que exigiria um pouco mais de interiorização, algum desenvolvimento das características psicológicas das personagens em vez deste frenesim constante num filme que se prolonga por duas horas e meia. E no entanto há por vezes cenas arrebatadoras, deixando antever que nas mãos de outro cineasta, mais virado para a arte e menos para a indústria, A Origem poderia ser um filme bem diferente. Refiro-me, por exemplo, às cenas em que Di Caprio e Ellen Page caminham numa Paris onírica, feita à dimensão dos sonhos que teimam em tornar-se realidade. Christopher Nolan – autor de Memento e A Insónia – opta pela via mais fácil, privilegiando a trepidação e a violência.

Pode ter descoberto o caminho para uma boa receita de bilheteira, mas passou ao lado de uma obra-prima. Foi pena.

 

A Origem (Inception, 2010). De Christopher Nolan. Com Leonardo di Caprio, Ken Wanatabe, Joseph Gordon- Levitt, Marion Cotillard, Elle Page, Tim Hardy, Gillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine.

10 comentários em “Estrelas de cinema (4)”

  1. Também me deu a sensação que poderia ter ido mais longe. Os conceitos em si estão bons e mesmo algumas das cenas de acção estão interessantes (a sala a rodopiar…), mas as personagens estão relativamente pouco desenvolvidas e a ideia perde-se em si mesma.

    Ainda assim é um filme mais interessante que a maioria do que vai aparecendo nas salas de cinema. Vi-o bem, sem bocejos, e ainda que pudesse ter sido melhor tem sempre um condão especial: o de fazer pensar um pouco. A conclusão do pensamento pode não ser brilhante, mas já é mais do que aquilo que a maioria dos filmes nos cinemas vão oferecendo…

    1. Pois é, meu caro: o padrão médio de qualidade vai baixando, o que nos força a diminuir também de algum modo a bitola crítica. Este filme irritou-me particularmente pela diferença acentuada entre o que promete e o que acaba por oferecer.

  2. Deve ter sido a primeira crítica ao filme de que gostei. Quem sou eu para falar de cinema? Só posso dizer que já não gosto de ir ao cinema e que ver filmes é, por vezes, um martírio.
    Enaltecem-se efeitos visuais, em detrimento do talento puro e cru do artista. Uma sucessão louca e rápida de efeitos não me suscita qualquer tipo de sentimento, talvez sono, ou vontade de fechar os olhos. Enquanto um grande plano de um bom actor, numa cena onde deposita toda a sua emoção, acompanhada de boa música, é uma delícia que apela a todos os sentidos.

    1. Como referi, Helena, pareceu-me demasiado óbvia a opção ‘industrial’ do realizador, que desbarata uma boa ideia e perde uma excelente oportunidade de construção de personagens credíveis. A meio do filme já me sentia cansado só de ouvir o Di Caprio tão ofegante, a galgar países e continentes.

  3. Ainda não vi (sou muito preguiçoso para ir ao cinema). Já me falaram muito bem do filme, e também já li e ouvi críticas menos positivas. Enfim, quero ver se consigo ir ao cinema num destes dias para resolver isso. À partida, a premissa de Inception fez-me pensar num outro filme de ficção científica, intitulado Paprika – de animação japonesa, do qual conheço a história apesar de não ter visto mais do que alguns fragmentos. Bom, boa ideia, vou ver os dois e depois falo sobre isso.

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