
A propósito deste teu post, Teresa, e porque não há regra sem excepção, está neste momento em cartaz um filme onde qualquer mulher encontra três horas de justificada e doce vingança. Não é um filme novo, muito pelo contrário. Refiro-me à versão integral e recuperada de um dos grandes clássicos do cinema: Lawrence da Arábia. É um mundo de homens (há apenas duas aparições de mulheres, mudas, fugazes e insignificantes). Mais, é um mundo de homens em guerra, que resulta fatalmente em doses maciças de testosterona servidas com requinte e para todos os gostos: da loira beleza imaculada de Peter O’Toole à viril e sedutora aspereza de Omar Sharif. É a história de um homem e da sua utopia, da sua fuga à realidade, da sua atormentada circunstância e da sua catarse muito pessoal, vivida em cenários das mil e uma noites. A irresistível magia do deserto acrescenta a tudo isto a porção necessária de mistério e fantasia, para já não falar na magnífica fotografia e na banda sonora, épica como convém. Em suma, é um feliz regresso aos sonhos mais ousados da nossa adolescência, um mergulho repentino nesse tempo e espaço em que éramos só hormonas.

E antes que alguém me caia em cima pela superficialidade deste comentário sacrílego a um filme que é “muito mais do que um romântico bando de homens com vestes esvoaçantes, atravessando desertos sobre camelos”, concedo: sim, sim, eu sei, é também um documento histórico sobre uma época de convulsão e intriga política numa região ainda por desenhar, uma preciosa lição sobre a essência do mundo árabe, uma séria advertência aos perigos da ganância e do preconceito cultural, uma antecipação do fosso cavado irremediavelmente entre ocidente e oriente, blá, blá, blá, blá. Mas este post é uma piscadela de olho, não uma crítica ao filme.
Curiosamente, e ainda sobre o tema, o que há de mais perturbadoramente feminino no filme é o próprio Lawrence, e não me refiro só aos olhos azuis de Peter O’Toole.

Ora aí está: fui (re)ver o filme, projectado em condições excelentes de visão, audição e conforto, num espaço central de Lisboa, e a sala estava… vazia. É um luxo haver esta obra-prima em exibição no circuito comercial, em cópia novíssima e restaurada primorosamente (e já se anuncia para o mesmo espaço outra obra-prima do cinema em versão restaurada, ‘Até à Eternidade’). Mas o público que supostamente deveria aparecer não aparece. As chamadas ‘elites culturais’, tão diminutas neste país, preferem fazer ‘downloads’ de filmes na Net e vê-los de pantufas, no sofá da sala. Depois, quando os cinemas fecham, por absoluta falta de público, vêm derramar lágrimas de crocodilos nos jornais e redes sociais.
Também fui revê-lo há dias. Um regalo, em todos os sentidos. A cópia restaurada está um primor, fico contente com a notícia de que tencionam fazer o mesmo com outros grandes filmes. Há filmes que têm de ser vistos no cinema, em écrã grande e banda sonora em pleno. É um crime reduzi-los ao tamanho de um televisor, por melhor que seja, e ainda mais a um computador.
Mas tiveste azar, ou eu tive sorte: fui ver o filme ao Corte Inglês (às 3 da tarde) e a sala estava praticamente cheia.
Há filmes que só devem ser vistos em sala, ecrã em formato muito grande. É o caso deste. Podemos vê-lo dez vezes em televisão: inútil, pois jamais ‘entraremos’ verdadeiramente no filme.
Vê-lo em cinema é uma experiência única, irrepetível, inigualável, que vale bem o preço do bilhete. Porque o filme nos acompanhará para sempre. Sucede com as maiores obras-primas, mas os filmes ‘intimistas’ não perdem em TV como sucede com este, onde o protagonista é o deserto – e a sua grandeza, e a sua majestade, e o seu silêncio e a sua maravilhosa imensidão. Isso não tem preço.
As imagens do deserto, no filme, são de cortar a respiração. Quem já passou por essa experiência pessoalmente (eu tive essa sorte) sabe que o deserto nunca mais nos sai da memória nem do coração. É uma paixão para sempre.
É um dos filmes, dos anos 60, se não estou em erro, que faz parte do meu imaginário. Se a memória não me falha, teria sido no Tivoli que o vi.
Vale a pena revê-lo agora, Anónimo. É daqueles que não decepciona.
Ah! Lawrence da Arábia, belo e irresistível olhar sobre o mundo da testosterona e das suas utopias. Cenários de encantar.
Quando adquiri o DVD o meu filho mais velho, a quem eu passei o gosto pelo cinema, comentou:” Boa, mãe, compraste mais um filme extraordinário. Brutal, mãe.” O meu filho tem quinze anos e sabe mais de cinema que muitos cinéfilos que bem conhecemos.
(também lhe disse que o que Peter O’Tool tem de mais belo neste filme não são os olhos azuis. “AH! Não?! Mãe, tu lá saberás.”Não preciso de dizer mais sobre o filme, pois não?)
Fico sempre espantada com o uso que eles dão à palavra “brutal”, Linda. Agora é sinónimo de “muito bom”. 🙂
De facto. Mas alegremo-nos, não foi “bué da nice”. E isso, face ao panorama dominante, é consolador. Antes uma moda de juventude, espera-se, do que a brutalização do nosso idioma, reduzindo-o a uma novilíngua,, uma amágama, puramente funcional – se tanto – como metodicamente está a acontecer. Incluindo, mas muito para lá dele, o AO90.
Quanto ao filme, quanta dessa nossa juventude o quererá ver, quanta, vendo-o, estará à altura dele, quanta terá pais (progenitores, será por estes dias idiotas mais politicamente correcto), que lhe revelem pérolas como essa?
Costa
Espero que muitos o façam, Costa. Este filme, além de belíssimo, é uma fonte de preciosas lições para a vida. E mesmo que não estejam à altura dele (como eu não estava, quando o vi pela primeira vez) alguma coisa sempre fica. No limite, e mesmo que não retenham mais nada, que a estética lhes fique na memória.
O “brutal” já dou de barato. Sei que é sinónimo de ‘MUITA BOM’, ou o seu inverso, mas alguma coisa há-de ficar. Já lá ficou.
Sem dúvida. Aliás, quando invoquei isso de estar à altura, entenda-se que não pretendia imaginar, numa criança ou adolesente, rigores e profundidades de análise.
Mas mesmo a estética que tão bem invoca carece, de quem a ela é exposto, um patamar mínimo de sensibilidade. Tenha-a o próprio ou a própria por si, ou seja ela oportunamente incutida por quem o ajude a crescer.
Infelizmente o que vejo por cá nada tem disso. De parte de uns e de outros. E mais o tempo passa, mais o embrutecimento se aprofunda e alastra (escrevo a ver imagens da saída do Estádio Nacional, no final do jogo de hoje: boçalidade a rodos; num breve instante, num dos relevantíssimos “directos” de Guimarães, um miúdo de seis, sete anos, festejava num berreiro de histeria, onde pontificou a palavra “cara…” – não, não foi o típico “carago” do vernáculo nortenho, foi a ordinarice – e aposto que isso será celebrado jubilosamente por quem por ele responda, como prova de que o menino se está a fazer homem).
Nós somos isso e, pior, com orgulho. Num imparável, irredimível, processo de estupidificação.
Ou então serei eu um presunçoso pessimista.
Costa
Não imagina como eu gostava de discordar de si nesse ponto. Infelizmente não posso, o que faz de mim, talvez, outra presunçosa pessimista.
A ideia de David Lean era ter um actor pouco conhecido no papel de Lawrence e a 1ª escolha foi Albert Finney .
Mas Finney não estava interessado em ficar preso ao contrato de longo prazo que lhe era exigido .
O filme só em 1967 (cinco anos depois da estreia em Beverly Hills) foi estreado no ecrã gigante do cinema Monumental , penso que o único ecrã por cá que “suportava” filmes em Super Panavision 70 .
Ainda bem que Finney não estava interessado. Não imagino que outro actor poderia fazer este papel melhor que o exquisitely british Peter O’Toole. 🙂
(também vi o filme no Monumental, assim como A Filha de Ryan, um dos filmes da minha vida)
Vi O Lawrece da Arábia no saudoso Monumental, o melhor cinema para vermos fimes como este com o seu “ecran gigante”, como lhe chamavamos naqueles tempos. Vi lá também o Ben-Hur, ou a Filha de Ryan, p. ex.
Quando o Tommy dos The Who saíu em filme em 1975, vi o filme num pequeno estúdio em Genève; uns meses mais tarde, o filme estreou em Lisboa nos 70mm do Monumental, e foi uma experiência completamente diferente, parecia outro filme.
Penso que já não existe nenhum cinema em Portugal com este tipo de ecran. O que é uma pena!
Uma pena mesmo, Alexandre. Mas o ecrã que o El Corte Inglês disponibiliza para este filme não é nada mau também, assim como a acústica da sala.
Que retorno ao passado me proporcionaste, Ana, com este post e respectivos comentários.
Também eu o vi no Monumental e à semelhança do que aqui se diz, o filme era bastante mais do que os olhos azuis de O’Toole, embora estes, na altura, me parecessem únicos!
Não o percas, Helena, vale a pena revê-lo. Até porque há várias cenas que são novidade, porque foram censuradas na época em que o filme estreou. Por exemplo, a da violação de Lawrence pelo general turco (apenas sugerida, e só para quem estiver atento), que não me lembro de ter visto antes.
Essa cena tinha sido amputada, de facto. É uma cena fundamental, que explica aliás todo a evolução do filme a partir daí. Aliás, se não me engano, é a primeira vez que ‘Lawrence da Arábia’ é exibido no circuito comercial português na versão integral desde o restauro de 1989 – ainda supervisionada por David Lean – que devolveu o filme à sua metragem inicial de 222 minutos (com os cortes impostos pela Columbia, em 1962, tinha ficado em 187 minutos).
A censura tinha idiotices imperdoáveis, para além de ser imperdoável a sua própria existência. Dizes bem, essa cena (que nem sequer é explícita) é essencial para se perceber o que se passa a partir dela. Ou seja, quem não leu Os Sete Pilares da Sabedoria foi até agora privado de interpretar o filme correctamente.
Aninha, tentarei rever esse filme o mais rápido que me for possível, e irei só; pois um homem que é homem não necessita de levar guarda-costas. Só a expectativa de me sentar ao lado de uma mulher que tenha uma justificada e doce necessidade de vingança faz encarquilhar-me os pêlos do peito.
Mulheres vingativas, por favor, sigam a recomendação de nossa Aninha!: atirem-se docemente para a sala de cinema.
Nesse caso, Anoniminho, tudo o que lhe desejo é que se sente ao seu lado a mais vingativa das mulheres. 🙂
Só agora te li, Ana. E devo dizer-te que subscrevo o que dizes. Tanto a inicial provocação como o “bla bla” em que te salvaguardas no fim. Coincidência: também eu, quando o vi pela primeira vez, há muitos anos, não estava à altura. Agora que o revi percebi isso muito bem. E foi um prazer redescobrir esta obra-prima. Da maravilhosa fotografia, ao desempenho extraordinário de Peter O’Toole. Como foi possível não ter ganho o oscar?!
🙂
Não sei qual foi a concorrência nesse ano, mas o oscar teria sido merecidíssimo.
Já lá fui, Aninha, e sentou-se. Pragas rogadas por mulheres são sempre ouvidas. Pois agora vou contar tudo quanto aconteceu:
Entrei pelo lusco-fusco da sala, uma luz tremeluzente projectava-se no ecrã, sentei-me e do meu lado direito esvoaçava um perfume que se anelava em minha garganta. Fiquei quietinho, passava um quarto de hora e uma saia cai aos pés da espectadora de onde provinha tal “prafume”.
Meu olhar fixou-se no pormenor da saia caída no chão da sala, meu coraçãozito tremelia, isto é, tremia e lia as intenções da prafumada. Nisto uma coxa roliça e anca generosa começa a invadir a minha geografia; em sobressalto começo a orar!!!:
Ó minha birge Maria, ó minha Senhora dos Navegantes, socorrei-me, esta pirata do meu lado prepara-se para abalroar esta barquita. Quer tomar conta do leme!!. Por favor, socorrei este pobre marinheiro das garras desta assaltante que me quer pôr à vela.
Terminava eu a oração e uma voz vinda de não sei onde dizia: Ao ódio e à vingança responde-se com amor, meu filho. Percebi que era a mãezinha do céu que me falava, e respondi: Tá bem, enfrentarei a fera como um verdadeiro mártir, responderei na moeda que me aconselha.
E nisto já a pirata estava por cima dominando meu frágil corpito, mas bravo de coração. Exclamava ela: Óóóó meu Petró Tola; respondi: Num sou eu, senhora, esse é o do ecrã. Óóóóó meu Rómar Xerife; também num sou eu, eu já fui desmobilizado há muito tempo e nunca ocupei esse posto na guerra, nunca fui xerife. É aquele do ecrã que procura.
Cale-se sua besta!!! Que lhe importa a si o que você não é!!!???
Tá bem, eu só procurava escalarecer. Num digo mais nada.
E lá continuou ela o abalroamento; e eu, convicto de que me devia oferecer ao martírio para aplacar o ódio e a vingança desta alminha, lá me mentalizei que nestas coisas de levar o amor nada melhor que um esforçozito de cooperação.
Olhe, Aninha, de tal forma me enpenhei que o que daí prá frente ocorreu se traduz em sons impronunciáveis. Ambos perdemos por completo a capacidade de falar.
Fica aqui postado para que todos possam seguir o exemplo deste mártir.
Ena, ena, grande epifania. Mas vejo que vou ter de passar a ter mais cuidado com as pragas que rogo… 🙂