Fui ver a Meryl no filme sobre a Thatcher e afinal quem eu vi foi a Thatcher e não a Meryl. Nem os olhos lhe descortinei. Eclipsou-se atrás da personagem e deixou-me boquiaberta a pensar que depois de Mamma Mia eu achava que ela já não tinha como me surpreender. The oscar goes to her (I hope).
Fiquei, pois, com a Thatcher, a mulher de quem sempre tive uma visão unidimensional por força das circunstâncias. A sua imagem pública era muito forte, logo redutora e a minha trincheira política já nesse tempo era outra, o que naturalmente me condicionava o olhar.
Resumir a sua vida em duas horas de filme exige que se façam escolhas, mas Phyllida Lloyd (também a realizadora de Mamma Mia) não nos apresenta um biopic parcelar, desses que privilegiam claramente uma das facetas do biografado. A solução que ela nos apresenta é a menos radical, mas a mais arriscada, pelas óbvias dificuldades que coloca, na gestão do tempo e do volume de informação, fazer uma síntese com pés e cabeça.
O resultado é um esboço, tanto da figura pública como da persona que a explica. Inevitável. Quem espera ver neste filme a Maggie que se escondia por detrás da máscara de ferro, fica à espera de mais. Quem quer uma biografia política, desilude-se. Ainda assim não considero A Dama de Ferro um filme falhado, porque apesar de tudo dá-nos muito: uma narrativa com um ponto de partida inesperado, que é o da decadência do fim da vida, e um perfil psicológico que embora limitado, nos ajuda a perceber melhor a mulher que governou, durante onze anos, o Reino Unido.
Ainda que incipiente, o retrato humanizou a meus olhos a senhora que em tempos inspirou a minha ira enquanto trauteava, solidária com os mineiros em greve de fome, o Don’t Give Up, de Peter Gabriel. A dama a quem dedicaram covers de Maggie’s Farm, transformando o original de Bob Dylan num hino de ódio à sua política, era dura como todos os que sobem a pulso. E tal como a generalidade dos self made (wo)men, insensível aos queixumes dos mais desfavorecidos, porque não lhes reconhecia mais dificuldades do que as que teve para vencer na vida. Thatcher acreditava também no que fazia: “o medicamento é forte, mas o doente precisa dele”, argumentava, no auge da contestação às duras medidas que tomou para reabilitar a economia britânica. Afirmava também que estava na política “para fazer e não para ser”, uma atitude muito ética mas pouco sexy, que lhe valeu o afastamento dos seus pares.
Phyllida Lloyd deixa-nos também entrever o universo familiar de Maggie: as relações privilegiadas com o pai, que lhe incutiu a ambição e o orgulho, a distância em relação à mãe, a preferência pelo filho e a ligação ao seu Dennis. Sabemos isto tudo apoiados em cenas fugazes, curtas pinceladas de um quadro que ficará por completar, mas que ainda assim revela o carácter e a coragem de um ícone que passei, graças a este filme, a ver com cara de gente.
É, porém, a política que sai mais sacrificada neste biopic. Quem estiver mal informado perde-se no carrossel de imagens que ilustram os momentos mais marcantes do thatcherismo e jamais terá possibilidade de fazer uma avaliação. Esta é a maior fragilidade de A Dama de Ferro.
A Dama de Ferro (The Iron Lady), 2011. Realz: Phyllida Lloyd. Int.: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Susan Brown


Ainda estou de boca aberta!!!! (Há algumas inconsistências histórico-políticas no filme que eu vi por defeito de profissão, mas com esta Meryl Streep é tudo secundário. Absolutamente imperdível).
Ainda não vi mas não tenciono perdê-lo, sobretudo para constatar uma vez mais como Meryl Streep é um verdadeiro camaleão. Depois de Mamma Mia (que suportei a custo e só por causa dela) e daquele incrível papel como Julia Child (o filme era fraquinho mas ela fez com que isso fosse completamente irrelevante), isto só para falar dos últimos filmes dela, acho-a capaz até de fazer de Hulk, se isso lhe der na cabeça.
Fiquei pasmada ao vê-la em Mamma Mia a cantar e a dançar sem receio de beliscar a imagem e o estatuto de grande senhora. Poucas o fariam. E saiu-se tão bem! Fiquei a admirá-la ainda mais.
Pois é Ana, de facto é mesmo isso, suporta-se tudo para ver aquela ” enorme ” mulher representar, já dei comigo a fazer isso mesmo, quando vou ver um filme com ela, nada mais interessa, só ” devorar ” atentamente, o mexer de todos os músculos faciais desta senhora e mergulhar no ” boneco ” com toda a atenção do mundo.
Á saída da sala, sei sempre que foi um tempo mal pago, pois a Merly vale ouro.
E ainda por cima é de uma simpatia e simplicidade contagiante, digo eu que já estive na sua presença, quando da deslocação, a portugal para a gravação da ” casa dos espíritos ” mas a senhora Close que a acompanhava na altura também não lhe fica nada atrás.
A Glenn Close é genial também. Teve azar em ter concorrido com a Meryl Streep este ano. Se não fosse isso, era bem possível que o óscar fosse dela.
Insuperável, Blonde. É a melhor actriz viva. Se dúvidas tivesse, depois deste filme fiquei esclarecida.
A Meryl Streep é avassaladora sempre mas insuperável neste filme. Merece o Óscar sem qualquer dúvida. Quase fiquei a simpatizar com a Margaret Thatcher que tanto odiei nos anos 80 e a quem nunca perdoei a morte de Bobby Sands.
Aconteceu-me o mesmo, Leonor 🙂
Somos raparigas da mesma ‘criação’ como se diz aqui pela aldeia 🙂
E sabes o que mais gostei na representação? A expressão do olhar de Meryl Streep tão bem apagada em detrimento de Margaret Thatcher. E gostei do lado feminista e vanguardista numa ‘direitona’ daquelas.
Os olhos, exactamente. Não foi por acaso que os referi no texto. São o mais difícil de esconder, por isso procuro-os sempre, quando me deparo com um actor bem escondido atrás de uma personagem. Regra geral encontro-os. É o rabo de fora do gato escondido. Mas esta camaleoa é excepcional. Fiquei mesmo feliz por vê-la ganhar o oscar.
Quanto à Thatcher, já percebi que reagimos ao mesmo da mesma forma. Não se esperava outra coisa de raparigas da mesma criação e da mesma trincheira 🙂
Eu estava de ” inter-rail ” e por acaso em Dublin, quando da morte de Bobby Sands e dos outros. Houve uns distúrbios,mas curiosamente muito irlandês, ali na República e católico, olhava para o IRA com mais medo e necessidade de silêncio do que com admiração. E por acaso nunca foi flôr cujo cheiro me agradasse. Tal como os cobardolas terroristas aqui do lado,os etarras, aos quais alguma da nossa querida imprensa chama de patriotas…
Aconteceu o mesmo comigo. Matar inocentes como meio para atingir fins políticos merece condenação lapidar. Sem atenuantes nem paliativos.
Gostei do filme e da apreciação que fazes dele, Teresa. Apesar de não o ter visto do mesmo modo, o que é natural: cada cabeça, sua sentença. Para mim é sobretudo um filme admirável sobre os limites e a contingência do poder. Talvez venha ainda a escrever sobre isto.
Sintonia total, claro está, quanto à avaliação do desempenho de Meryl Streep. Simplesmente excepcional.
Verdade, essa mensagem também está implícita no filme e valoriza-o, mas a meu ver não neutraliza as limitações que assinalei.