Melancolia


Teresa Ribeiro,

Será que tudo o que o génio artístico produz é arte? A pergunta é retórica. Por maior que seja o seu talento também os génios que nos alimentam a alma têm dias maus. Se além de génios forem mentes perturbadas, uma situação que, como se sabe, anda muitas vezes a par, o risco de sermos contemplados com excrescências artísticas aumenta. Sempre que sou confrontada com obras assinadas por loucos consagrados que me são apresentadas como sendo de génio, mas que por um motivo ou outro me inspiraram uma profunda rejeição, fico a meditar nestas coisas. Aconteceu-me há dias, quando vi Melancolia, o último filme de Lars Von Trier.

Aquela angústia sufocante, que evolui em crescendo até ao final do filme, incomodou-me tanto que cheguei a ponderar abandonar a sala. Se o fizesse não seria a única naquela sessão. Convenhamos que a câmara permanentemente móvel contribuiu em partes iguais para o meu mal-estar. É uma moda, que começou por ter piada, mas que se está a tornar enjoativa. Quando vejo um filme, a menos que se justifique pela temática estar sempre consciente do meu papel de espectadora, gosto de entrar nele e de me esquecer de tudo à volta. Uma câmara aos saltos perturba-me esse entrosamento e cansa extraordinariamente o olhar.

Mas voltando a Melancolia: senti ao ver o filme que estava a participar de um delírio doentio. A linguagem que ali se falava não era a minha. Busquei nas minhas cavernas mais obscuras razões para me identificar com aquele terror primal mas não encontrei correspondência para aquilo. Porque “aquilo” deixou de ser partilhável a partir do momento em que se tornou demasiado pessoal. Dei comigo, incomodada, a espreitar para dentro da cabeça do Lars Von Trier, quando o que eu gosto, ah se gosto, é de espreitar para dentro da minha. Arte é apresentar ao mundo, com apurado sentido estético, um monólogo apavorado? Talvez, mas nesse caso pintem um quadro (adoro Van Gogh), componham (gosto de Schumann), escrevam (sou fã da Virginia Woolf), mas não façam nada que me retenha duas horas dentro de uma sala escura. É que fico mal disposta.

23 comentários em “Melancolia”

  1. Também saí “melancólico” depois de ver este filme. Sinceramente não pensei em sair da sala, mas saí do Monumental com sensações estranhas e verdade seja dita agora presto mais atenção à noticias sobre cometas e asteróides.
    Há certos passos do enredo que de facto não ligam.
    Sair com monólogos só com “A Estrada” mas isso foi por outras razões.
    Boa critica

    1. O tema é interessante, tem um grande potencial de angústia a explorar, mas há limites para tudo. Lars Von Trier ultrapassou largamente os meus. Obrigada, Nelson (em relação ao Fellini já não estamos em sintonia. Adoro “A Estrada”).

  2. Ah! Teresa como és saudável! Bem hajas, porque já me sinto menos só na Melancolia. Na dele, claro, porque com a minha posso eu bem.
    Ufa! Se não fosse economista e usasse o cociente preço bilhete/ prazer do filme, teria saído ao fim de uma hora. Assim, aguentei duas e fui beber Água das Pedras…

  3. Revejo-me por inteiro nas tuas palavras, Teresa. Achei esta ‘Melancolia’ simplesmente intragável. Há muito tempo que não sentia tanto desprazer a ver um filme. Nesse dia só eu sei porque não fiquei em casa.

  4. Enfim, convenceram-me a ir ver o filme.
    (A única maçada é os movimentos da câmara que me fazem dores de ouvidos).

  5. A sua crítica reflecte exactamente o que eu senti quando vi esta “obra de arte”. Acho que, se este filme é de génio, então, andam por aí muitas alminhas deprimidas e entregues à melancolia. Achei-o angustiante e não percebo como foi considerado o melhor filme europeu, o que só pode querer dizer que os europeus andam pelas ruas da amargura.

  6. Todos diferentes, todos iguais! Para mim, este é um grandes filmes deste ano (quase arriscaria dizer “o único”). 🙂
    Já o disse aqui (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3816030.html): as circunstâncias particulares que levam àquele ambiente sufocante são o que menos interessa no filme. Bastar-me-ia a primorosa representação e a estética – dois fracos meus, admito – mas o filme vai muito mais longe. E para mim valeu a angústia extrema, o incómodo e até a câmara aos saltos, que detestei tanto como tu. Foi para a cabeça perturbada de Lars Von Trier que espreitei? Foi com certeza, mas também para a minha, embora, felizmente, eu não ache que todos os homens são cobardes, que todas as mulheres são heroínas ou odiosas e que a espécie humana não tem qualquer saída. Mas gosto sempre de me deixar enredar na loucura alheia, sabendo que não é minha mas reflectindo sobre se ou quando ela me tocará um dia. Em suma, gostei muito do filme, eu que nem sou fã do Von Trier. Andei atormentada vários dias, mas já passou.

    1. Pois, lembro-me bem desse teu texto. Foi, de resto, um dos que eu li e contribuiram para aumentar as minhas expectativas. Em regra até costumamos estar de acordo, Ana. Também por isso estava convencida que deste Trier iria gostar (com ele nunca se sabe). A estética do filme não discuto: apuradíssima. Há planos deslumbrantes. Quanto à interpretação também estamos de acordo, mas o resto detestei ao ponto de fazer esforço para me manter na sala até ao fim. Foi visceral. Para o diabo a demência do Trier! Ele que se trate.

      1. Precisa de tratamento, lá nisso estamos de acordo…
        Olha, para compensar-te, uma dica de um filme do ano passado que vi este fim de semana (tinha-me escapado) e gostei imenso: “Incendies”. É um filme canadiano, que esteve nomeado para “melhor filme estrangeiro” nos óscares de 2011. Excelente filme. Viste?

          1. Acho que nunca te disse, mas por recomendação tua foi ver o “Pequenas Mentiras Contados aos Amigos” e adorei. Teria passado ao lado desse filme se não me chamasses a atenção para ele. Como vês já te tinhas redimido por antecipação 🙂

          2. Ah, que bom! Ainda bem que gostaste, esse filme encheu-me as medidas. Mas conheço quem tenha quase adormecido… 🙂 Nunca se sabe.
            Também eu já segui sugestões tuas e agradeço todas as tuas dicas. Geralmente estamos de acordo.

    2. Pois, eu aqui também estou contigo, Ana. Achei o “Melancholia” um filme absolutamente soberbo – precisamente pela angústia e pela sensação de vazio que deixa no final. Foi curioso vê-lo no cinema: quando acabou, ninguém na sala se levantou ou disse uma única palavra durante dois ou três minutos. Como se o próprio planeta tivesse realmente colidido na tela, e toda a gente estivesse a absorver o impacto.

      Não por acaso, um dos meus livros preferidos, e um dos melhores que li até hoje – Childhood’s End, de Arthur C. Clarke – fez-me sentir exactamente o mesmo no seu magnífico e desolador final.

      1. Tudo isto é muito subjectivo, já se sabe. O que para ti foi um magnífico e desolador final – “magnífico” e “desolador” são atributos que podem combinar lindamente – para mim foi simplesmente insuportável…

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