Bate, bate coração


Teresa Ribeiro,

Charlotte Rampling, aliás, Elizabeth Hunter, vai morrer, mas de barriga cheia. Só a saciedade lhe poderia estampar no rosto aquela mistura de serenidade e malícia que apesar da avançada idade ainda revela uma mulher atraente. Será possível amar a vida e os outros com a mesma intensidade? Esta é a questão de fundo do filme, que Charlotte se coloca. E como no leito de morte não vale a pena iludir a verdade, ela admite que não amou ninguém o suficiente. Ao constatá-lo sorri, auto-complacente, sem sombra de culpa.

Os filhos, Basil (Geoffrey Rush) e Dorothy (Judy Davis), que vivem noutro continente, vêm visitá-la. Ele é um actor decadente, ela divorciou-se de um aristocrata e vive de parca renda. Mal sucedidos e ressentidos com aquela ânsia de viver materna que sempre se sobrepôs ao amor que lhes era devido, ambos vêm para vê-la, enfim, morrer.

Baseado no romance “The Eye of the Storm”, de Patrick White, “O Coração da Tempestade”, do australiano Fred Schepisi, bate ao compasso desta mãe sexuada e hedonista: “Tudo o que levamos desta vida são os momentos inesquecíveis que vivemos. O resto são intervalos maçadores” (cito de cor), foi o seu lema de vida. Haverá filhos que perdoem numa mãe tanta volúpia e ausência de culpa?

Como todas as famílias infelizes, esta tem as suas especificidades, mas a contabilidade do deve e haver é um padrão comum a  todas. Ressentimento, ciúme, inveja, tudo o que dá sustento aos amores ínvios das famílias disfuncionais se expõe neste filme com esmero, no ambiente requintado da classe média alta. A elegância, de resto, é o pivot desta película de Schepisi. Nos décors, nos exteriores, filmados algures na costa australiana, nos sentimentos vis que se reprimem a elegância pontua, envolvente, sobretudo quando se passeia por Charlotte, pelos magníficos olhos que ganharam um dia direito ao epíteto The Look. 

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O Coração da Tempestade (The Eye of the Storm), realz: Fred Schepisi, intérpt: Charlotte Rampling, Geoffrey Rush e Judy Davis

14 comentários em “Bate, bate coração”

  1. Belo texto o teu, Teresa. Vou ter de ver o filme.
    Não há dúvida de que as famílias infelizes são uma fonte de inspiração inesgotável.
    E por falar em Tolstoy, parece que vem aí outro “Ana Karenina” para Setembro.

    1. Vai ver Ivone, que gostas. Quanto à Ana Karenina não vou perder, claro. Gosto muito da Keira. Esteve tão bem em Orgulho e Preconceito e em Expiação, ambos do Joe Wright, que as minhas expectativas são as melhores. Ainda por cima este filme tem brinde: o Jude Law 🙂

  2. “Olho da tempestade” é uma boa tradução para o titulo da película (só com base no seu texto)
    Amar a vida e os outros por igual. É daquelas que só ouvimos sair da boca de alguém no final da vida, sei disso pelos mais velhos, sempre gostei de falar com pessoas idosas ,e, até já ouvi dizer que também os mais novos quando estão perto da morte, falam desses assuntos.
    São exames de fundo. Questões como: amor, felicidade e legado são transversais a todo ser Humano, pena é só as encarar-mos com elas no fim da vida.
    Quanto ao legado. Não há filhos que perdoem um pai ou uma mãe, que para além dos erros mais superficiais, próprios de qualquer ser humano, ainda é infeliz e inconsciente desse estado. Pelo contrario, as vezes basta ser feliz para os filhos perdoarem.
    Não há dinheiro nem poder, nem moda ou preconceito que ensine uma pessoa a amar, o amor é só para quem tem a sorte de ele nos tocar no exacto momento em que estamos preparados para o receber.

    1. A felicidade é, de facto, um alibi que pode levar muitos filhos a perdoar certas faltas dos pais. Mas também é verdade que às vezes é exactamente a felicidade dos pais que os filhos menos perdoam.

      1. Ao longo de uma vida as ofensas as magoas e os perdões podem ser muitos, mas tudo tem um fim e neste fica apenas a memória dos que continuam vivendo, para estes o ultimo estado é o que mais marca os sentimentos por quem se foi.
        Não vi o “Coração da tempestade”, mas uma mãe consciente, uma mãe verdadeiramente humana, nunca é feliz com filhos falhados. Ou esta louca ou vai a caminho disso.
        Depois, segundo as suas palavras, ela orgulha-se de nunca ter amado verdadeiramente. É uma pessoa miseravel, pois nem amou seus filhos.

      1. Vou explicar melhor. Eu gosto de sentir os filmes, gosto que me deixem alguma impressão mais forte, para lá dos aspectos técnicos ou de estilo. Neste caso posso dizer que gostei de ver o filme. A família aristocrática dependente de uma mulher que, mesmo demasiado centrada em si, não deixa de ser o seu único pilar; filhos que carregam um forte sentimento de rejeição desculpando um comportamento semelhante ao da mãe; todos são muito bem retratados e, como dizes, de forma muito elegante. Mas, no conjunto, senti a falta de qualquer coisa no filme e é por não saber qual é que não sei se, mesmo gostando de o ver, gosto do filme. (Esta explicação não adiantou grande coisa, apercebi-me agora depois de ler o que escrevi, mas…)

        1. Eheheh ( a risota é para o reparo que fizeste ao que escreveste). A unanimidade só é alcançada por uma casta de filmes a que este, obviamente, não pertence, apesar de ter gostado muito de o ver.

  3. Fiquei a pensar num embate entre hedonismo, inatamente, egoísta e o ‘papel’ de progenitora que tanto acarreta. Imagino que nem todas as mães consigam obter uma plena felicidade na busca de tal em proxy.

    Se for por aí o enredo, admito que me deixa curioso.

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