Nem amor nem glória


Teresa Ribeiro,

Natalie Portman destaca-se enquanto caminha, de cabeleira encarnada, no meio da turba. Na direcção oposta vem Jude Law. Um acidente fá-la desmaiar e acordar quase nos braços dele, um cliché que ameaça continuar a sê-lo, embora em versão pós-moderna, quando ao abrir os olhos ela lhe diz, com uma expressão atrevida: “Hello, stranger”. Mas este início de conto de fadas não dura o bastante para embalarmos. Closer (2004), de Mike Nichols, que vi em estreia no cinema em 2005, é um filme cáustico, duro, inclemente.

Há dias apanhei-o, por acaso, na cabo. Ia a meio, mas deixei-me ficar a vê-lo até ao fim, a reviver, como se fosse minha, a desilusão de Natalie, já outra, com cabelos compridos e escuros, a caminhar por entre a multidão ao som do Blower’s Daughter, de Damien Rice. “So it is…” começa ele a cantar, pianinho, antes de evoluir em crescendo para o desespero – “Can’t take my mind off of you” – para depois concluir num sussurro, que é mais uma confissão de derrota que de culpa, ” ‘Til I find someone new”.

Perto Demais (é este o título em português) do que não queremos ver ou ouvir acerca daquilo a que chamamos amor, tão perto que nos vemos, esta obra de Nichols fala-nos da nossa estrutural incapacidade para viver e ser feliz ao mesmo tempo. Através da teia que tece entre dois pares – Natalie Portman/ Jude Law e Julia Roberts/ Clive Owen – propositadamente dotados de uma beleza que lhes proporciona maior capacidade de sedução que o comum dos mortais, Patrick Marber, o autor do argumento (peça premiada) e do guião, revela a angústia residual do trepidante mercado do amor.

O tema é banal, mas o talento de Marber com as palavras e a perfeita execução dos quatro actores faz de Closer uma arena em que o desejo sexual, a desconfiança, o egoísmo e a má consciência se entrelaçam num nó tenso que nos aperta. Sendo um filme moral, “Perto Demais” não julga as personagens mas o universo que habitam, o universo de que nos apercebemos quando aos poucos voltamos a sentir os dedos apoiados no braço do sofá e uma moínha no peito e a luz do candeeiro a incidir num ângulo qualquer da nossa tristeza.

8 comentários em “Nem amor nem glória”

    1. Já vi o filme mais do que uma vez. Há imensos jogos de palavras e surpresas no fim. A cena mais marcante é a do diálogo entre Portman e Owen, na sala privada do clube de strip, em que ele demonstra todo o seu desespero, perante o cinismo dela, tudo ao som algo tortuoso de “how soon is now”, dos Smiths.

  1. Cara Teresa, Já vi o filme inúmeras vezes e de cada vez a dureza dele me espanta, e me seduz. E eles (actores) são todos lindos… o que potencia a dureza/crueza. É como diz no texto: um bom filme, bons diálogos… e a incapacidade de confiar.
    Joana

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