Jobs explica


Teresa Ribeiro,
 

JOBS

Como não me interesso por tecnologia Steve Jobs nunca foi um guru que me apaixonasse. Dele sabia apenas que era um génio intratável e chegava-me. Mas ver um biopic não dá trabalho, por isso sentei-me um dia destes no cinema para saber mais. Gostei da composição de Ashton Kutcher, não percebi porque a caracterização o manteve com cara de miúdo até ao fim e apesar de ter falta de conhecimentos para avaliar o que Matt Whiteley, o argumentista de Jobs, fez com a vida do criador da Apple, pareceu-me uma boa síntese, bem adaptada por Joshua Michael Stern.

Não me macei com demasiada informação tecnológica e da vida pessoal do ícone fiquei com todas as chaves para aceder ao que não foi dito e que, de longe, foi o que mais me interessou. Jobs não emociona mas é um filme generoso. Por um lado procura ser honesto com o biografado revelando-o, sem o julgar, em todas as suas facetas, por outro dá-nos a nós, comuns mortais, muita matéria de reflexão. 

Como pode um génio interessar-se seja pelo que for que esteja fora do seu universo mental se tem uma feira popular a funcionar 24h por dia na cabeça? Como escapará a sentimentos de superioridade quando constata, desde cedo na vida, que as suas capacidades estão muito acima da média? E nesse caso como poderá estabelecer com os outros relações que não sejam meramente instrumentais? E não manifestar desprezo pelas convenções sociais através de múltiplas excentricidades? E não acumular agressividade em bolsas que explodem se sofre de um atroz sentimento de solidão? Em suma, é possível a um génio não ser egocêntrico e socialmente disfuncional? E se não é, podemos enfim dizer dos génios que são todos iguais?

Foi nesta maçã que fiquei a roer, ungida de uma compreensão que antes nunca tinha sentido, de forma tão intensa, pelos génios deste mundo e do outro.

 

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Jobs (2013). Realz – Matt Whiteley. Argumento – Joshua Michael Stern. Intérp – Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad

4 comentários em “Jobs explica”

  1. Depois dos génios das lâmpadas, e agora dos génios de garagem, ficamos à espera que tirem os macaquinhos do sótão.

    As estórias da maçã, de Eva a Newton, passando por Hércules, só não maçam o mação, que em cobres cobra ser o macho, ou mago, da maçã.
    Apesar da nova dentada de 1984, ano de Orwell, não há cobra para cobrir os vermes num fruto que começou a ser abocanhado há milénios.

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