Amor


Teresa Ribeiro,
 

 

Há duas espécies de velhos, os que admiramos por conseguirem avançar nos anos sem perder a elegância e a identidade e os que se degradam, constituindo no seu conjunto uma montra triste, que preferimos ignorar. Infelizmente os que soçobram constituem a maioria, por isso estão em todo o lado, na rua, nos prédios onde habitamos e até dentro das nossas casas. São velhos sem nome (os velhos, quando perdem a identidade, deixam de ter nome e passam a ser apenas “velhos”). Até os que nos estão mais próximos deixam de ser quem foram. Os pais e as mães que sucumbem à doença passam a ser vistos pelos respectivos filhos com olhos de vidro, sem foco. De repente a uma distância enorme, a que vai da vida activa ao mundo frágil e terminal da terceira idade. Quando são por estes lembrados nunca têm o rosto que ostentam mas o antigo, do tempo em que exerciam as suas funções afectivas de acordo com as expectativas.

Senilidade e decrepitude são palavras assustadoras, que cheiram a urina, por isso pensá-las é um exercício que evitamos. Vê-las à nossa frente, com a fisionomia de gente que amamos é uma agressão intolerável. Por isso muitos as fecham em jazigos com médico e serviço de enfermagem permanente.

Em “Amor”, Michael Haneke mostra-nos o que acontece às pessoas que perdem o nome. Sempre que sou forçada pela vida ou pela imitação da vida que é o cinema a olhar para onde não quero, lembro-me da inolvidável cena de Malcolm Mcdowell em “Laranja Mecânica”, de olhos arreganhados por pinças e preso a uma cadeira a ver cenas intermináveis de sexo para se curar. Neste filme, Haneke também nos obriga à visualização compulsiva da obscenidade que é a perda da autonomia e da dignidade na velhice através do desempenho magistral de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Mas a prova mais difícil de “Amor” tem como figura chave a personagem de Isabelle Huppert, que interpreta a filha do casal idoso. Em entrevista recente o realizador austríaco disse que ficou emocionado quando Huppert aceitou este papel, por ser tão pequeno. De facto são escassas as cenas em que a actriz aparece, mas a sua ausência é parte fundamental do enredo. Huppert somos nós. A indisponibilidade, o egoísmo, a imaturidade, a cobardia e a negação são nossas. E quando já de luto se senta sozinha na casa dos pais, é em nós que se instala o vazio.

Em poucas sessões tenho visto a plateia de uma sala de cinema permanecer sentada, em silêncio, até que as luzes se acendem e a ficha técnica chega ao fim. Não por acaso foi o que aconteceu quando fui ver este “Amor” implacável, inesquecível, de Haneke (onde a nossa Rita Blanco desempenha um pequeno papel), o filme mais premiado no Prémios do Cinema Europeu 2012, distinguido com os galardões de melhor filme europeu, melhor actor e melhor actriz e também vencedor da Palma de Ouro em Cannes, na edição deste ano. A não perder.

 

12 comentários em “Amor”

    1. Infelizmente não tenho presente esse conto, para o comentar consigo. Quanto ao filme é belo, sim. Duro também. Mas merecemos plenamente a bofetada, porque o que esta sociedade faz a quem perde as suas capacidades – e agora não falo só sobre velhos – é obsceno.

      1. O “abafador” era uma figura macabra (sobretudo porque existiam mesmo), mas esse conto do Torga é belíssimo. Mas já não sei se não é ainda pior o que fazemos com os nossos velhos hoje em dia, como dizes. Ultimamente, as notícias sobre este assunto são cada vez mais arrepiantes.

  1. Aleluia! Há mais gente em casa, afinal! O Luís Menezes Leitão publicou um texto ontem mas, depois disso, só posts pré-programados – e os meus. Começava a senti que decorria uma greve e ninguém me avisara. 🙂

    Quanto ao filme, ainda não vi – quase não vou ao cinema – mas tenho muita curiosidade, até porque os filmes do Haneke são sempre fortíssimos. O teu texto é excelente.

    1. Eheh! A crise também pode ser entorpecedora. A quadra natalícia e o aproximar do fim de ano às vezes só “desajudam”.
      Não percas. Este Haneke vai tão fundo como os melhores filmes de Bergman. Obrigada pela nota final 🙂

  2. Que saudades eu tinha dos teus belos textos, Teresa! Vou ver o filme, sim, já estava com vontade de vê-lo e agora tenho mais ainda. Mesmo que saia de lá com um buraco no estômago e um peso na consciência. Porque é como dizes: Huppert somos nós todos, pelo menos enquanto não formos Trintignant.

  3. Teresa permiti-me reproduzir este teu excelente texto lá no meu Fio de prumo, com todos os créditos que te são devidos.

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