O homem que sonhava ser pássaro


josegomesandre,

Um dia, Chuang Tzu sonhou ser uma borboleta, voando alegremente entre as flores do jardim, sem saber que era Tzu. Quando acordou subitamente, na pessoa que sempre imaginara ser, já não podia dizer com certeza se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta sonhando que era um homem. Lembrei-me desta história famosa ao ver “Birdman”, um filme que retoma este paradoxo a partir de uma impressionante rede de referências: a “peça dentro da peça” de Hamlet, o “quadro dentro do quadro” de Malevich, o “filme dentro do filme” de “Fala com Ela”, questionando o sentido da representação (“ser si mesmo noutro”? ou “ser outro em si mesmo”?) e, em última instância, levantando o maior mistério de todos: o que diabo é a realidade?

Senão, vejamos: o filme conta a história de uma peça cujo personagem principal vive uma crise de identidade, pois perdeu o amor e o reconhecimento que antes usufruíra; tal é o drama vivido pela personagem do próprio filme, um actor anteriormente famoso e agora velho e esquecido, representado por Michael Keaton, um actor anteriormente famoso e agora velho e esquecido, num filme sobre o teatro, uma arte anteriormente famosa e agora velha e esquecida, que usa uma técnica ilusória (um falso plano-sequência) para nos questionar sobre a linha ténue que separa o real e o irreal, a fama e o esquecimento, a glória e o fracasso.

E afinal de contas, que linha é essa? Como saber, recordando Descartes e Philip Dick, se não estou preso num sonho que julgo ser real? Como posso efectivamente saber que este mundo não é uma ilusão de alguém, que este eu que julgo real não é afinal um sonho de mim próprio num outro mundo, numa outra época?

Aprendemos, desde cedo, a separar o mundo do “faz-de-conta” da “realidade”. Mas neste mundo de simulacros, de realidades virtuais, redes sociais, ídolos com pés de barro, o que é ilusão ou realidade? Não são poucos os dias em que olho pela janela e desejo, ansiosamente, que talvez eu seja afinal apenas um pássaro, esvoaçando alegremente sobre Central Park, que sonha ser este homem que vos escreve.

Sessenta anos depois


fiodeprumo,

O jogo da imitação.jpeg

Fui hoje ver o “Jogo de Imitação” e dou por muito bem empregue o tempo que passei na sala onde o vi, pese embora tivesse ido a uma sessão em que ainda havia bons raios solares para aproveitar. 

Trata-se de um filme realizado pelo norueguês Morten Tyldum – o mesmo de “Headhunters-  que narra a vida de Alan Turing, o lendário génio da matemática que, ao decifrar os códigos nazis, terá ajudado a Inglaterra a ganhar a guerra. 

O elenco conta, entre outros, com os actores Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode e Mark Strong.

Num mundo que considerava a homossexualidade um crime, o protagonista acabaria perseguido pela sua orientação sexual, facto cuja crueldade é na película tratado com muita sensibilidade. 

Em 1954, dois anos depois de iniciar um a castração química, a que foi obrigado pelo governo inglês para não ir para a prisão, Turing foi encontrado morto na sua própria casa. A morte foi classificada como suicídio, embora muitos, como sua mãe, refutem a conclusão. 

Em 2009, depois de uma campanha liderada por John Graham-Cumming, o primeiro-ministro Gordon Brown faria um pedido oficial de desculpas em nome do Governo britânico, devido à maneira como Turing foi tratado e finalmente, em 24 de Dezembro de 2013, o matemático receberia o perdão da rainha Isabel II.  

Entre muitas outras coisas, os seus estudos serviram para abrir portas a uma das questões mais pertinentes da tecnologia da actualidade: a possibilidade teórica da inteligência artificial. 

Mais do que a narrativa histórica, o que me encantou no filme – que pessoalmente considero excelente – foram os retratos que ali são traçados e a evolução que o mundo fez nas seis décadas que se seguiram a todos estes acontecimentos. Era muito pequena nessa altura e vivia num país que não participou directamente no conflito. Mas lembro-me bastante bem da moralidade da época… 

Cumbarbatch tem um notabilíssimo desempenho e, sem conseguir explicar porquê, a sensação com que fiquei é a de que a personagem real se não afastará muito do magnetismo daquela que interpreta. 

O filme é tão bem feito que pode ter leituras variadas, o que não deixa de ser curioso. Tantas, que a minha, por exemplo, é diversa da do meu filho, num pormenor que faz toda a diferença na caracterização do protagonista e que não refiro aqui para não influenciar quem ainda não tenha visto a película. Se for o caso, vá rapidamente, porque vale mesmo a pena!

Boyhood na história do cinema


André Couto,

Boyhood é um filme que não vai andar nas bocas do mundo, é uma produção discreta, refinada, com orçamento baixo, condenada a não gerar grande receita de bilheteira. Mais um motivo para falar dele.

É produto do genial Richard Linklater e segue, em grande medida, o formato já adoptado na trilogia “Before Sunrise“, “Before Sunset” e “Before Midnight“, na medida em que foca o relacionamento humano com uma atenção sobre o amadurecimento das relações e o efeito do tempo. Tempo, aliás, é a palavra chave deste filme, que foi filmado em pequenos períodos ao longo de doze anos, durante os quais a evolução natural dos personagens foi acompanhando a narrativa, como retratado nesta imagem. 

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Não há, assim, cortes artificialmente induzidos, efeitos especiais ou máscaras. A evolução física é a evolução natural que registaram nas suas vidas e isso confere uma envergadura única ao filme. Envergadura também obtida em tudo o que é evolução do clima envolvente, a banda sonora que vai acompanhando hits dos últimos anos, passando de Sheryl Crow a Coldplay, a evolução dos computadores da Apple, começando com um dos primeiros iMacs e terminando com um MacBook, entre muitos pormenores históricos e políticos, que não vou desvendar. Nada ao acaso, garanto.

Implicou isto que, um dia, em 2002, Linklater olhasse para o pequeno Ellar Coltrane, ao tempo com seis anos, lhe adivinhasse potencial como actor, uma evolução psicológica e intelectual no sentido pretendido, falasse com os pais, e lhe colocasse nas mãos o projecto de uma vida: a realização de um filme ao longo de doze anos, até que fizesse dezoito. É fácil imaginar a incerteza e o risco que um projecto destes representou, em termos artísticos e de evolução do pequeno Ellar. O resultado, felizmente para nós, doze anos decorridos, às portas de 2015, é fantástico. Este filme é obrigatório, batendo ao pontos todos os blockbusters que vão dominar o cinema natalício.

Qual o critério para que um filme figure na história do cinema? Orçamento? Audiências? Impacto nos media? Naipe de actores? Podemos discutir isto horas a fio. Sempre me interessou mais a alma com que é realizado e interpretado, a mensagem transmitida, a forma como o drama emerge do écran e nos suga para dentro da história. Boyhood tem isto tudo, encanta ao longo de mais de duas horas e entra na galeria mais restrita de filmes que revisitarei ao longo dos anos.

No dia em que Manoel de Oliveira festeja 106 anos


Pedro Correia,

 

O melhor filme português de sempre

 

Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.

Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia ‘à portuguesa’, como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase “Chapéus há muitos”.

Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia – prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?

 

Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.

(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)

 

Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.

São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.

Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.

Texto reeditado

Viva a liberdade!


Luís Menezes Leitão,

 

Fui recentemente ver o filme Viva a Liberdade, que demonstra perfeitamente o estado que a esquerda actualmente atravessa na Europa. O filme relata a história do líder do partido de esquerda em Itália, que se vê absolutamente incapaz de fazer oposição ao governo de direita, começando a ser altamente contestado no seu partido. Em consequência, decide fugir para Paris, deixando o partido sem líder.

 

Os seus assessores resolvem, porém, ocultar a sua fuga, indo buscar o seu irmão gémeo para fingir que ele ainda estava no cargo. Só que o irmão gémeo é completamente louco, tendo acabado de sair do manicómio. Pois precisamente por ser louco, ele põe-se a fazer discursos de esquerda como alternativa para a crise, chegando ao ponto de citar Brecht perante uma multidão. O partido fica deslumbrado, o Presidente da República fascinado, as sondagens sobem em catadupa e o louco corre o risco de ser eleito chefe do Governo.

 

Moral a retirar deste filme: só um louco nesta época de crise é que se lembraria de fazer discursos de esquerda. E de facto quando pensamos na agenda para a década de António Costa, no discurso gongórico de Sampaio da Nóvoa, ou na liderança hexacéfala do Bloco de Esquerda, achamos que estamos no domínio da irracionalidade política. Mas como dizia Fernando Pessoa, sem a loucura o que é o homem? Mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?

 

Os tempos estão propícios para um canto de sereia.

Locke.


Luís Menezes Leitão,

 

O filme Locke, de Steven Knight, constitui uma verdadeira obra-prima, especialmente devido à magistral interpretação de Tom Hardy que literalmente transporta sozinho o filme. A técnica é antiga e já foi explorada em outros filmes como o magistral Três minutos de vida (Sorry, wrong number, 1948), de Anatole Litvak, com Barbara Stanwyck, ou o mais recente Cabine Telefónica (Phone Booth, 2002), de Joel Schumacher, com Colin Farrel. Tudo se passa ao telefone, objecto que ironicamente permite ao seu utilizador tentar controlar situações à distância, mas que ao mesmo tempo o aprisiona, pois não lhe permite largá-lo enquanto a acção decorre, podendo assistir impotente a verdadeiros dramas do outro lado do fio.

 

Locke é, porém, mais profundo que os outros dois filmes. Retrata um homem de sucesso, com uma carreira profissional sólida e um casamento feliz, que se vê num momento obrigado a pôr tudo em causa em virtude da necessidade de cumprir um dever moral. Embarca assim numa viagem de hora e meia pela autoestrada, deixando tudo para trás, mas ao mesmo tempo julga que pode manter as coisas sob controlo através do telefone que tem no carro. “Tenho de fazer isto, mas vou resolver as coisas”, é o que diz aos seus interlocutores. O seu poder de controlo à distância é, no entanto, muito limitado, como nos vamos apercebendo, enquanto acompanhamos em tempo real a sua viagem e o seu drama existencial. Como se disse na publicidade ao filme, trata-se de “Hamlet na autoestrada”. Magistral.

Under the Skin


eventhorizon,

 

(…) And somehow Johansson, Glazer and his cinematographer Daniel Landin transform how we think of this star. They’ve taken one of the most glamorous actresses of the modern era—a woman whose looks have been abstracted into hubba-hubba caricature in most films, and on awards shows—and ironically restored her earthliness by having her play a creature not of this earth. They’ve made her beautiful in a real way, with hips and blemishes and folds in her skin.

 

As palavras são do crítico Matt Zoller Seitz no portal de Roger Ebert a propósito do desempenho superlativo de Scarlett Johansson em Under the Skin, a terceira longa-metragem do britânico Jonathan Glazer e um dos filmes mais belos, estranhos, desconfortáveis e divisivos do ano. Com uma estética algo reminiscente de Kubrick, uma banda sonora tão evocativa como arrepiante da jovem Mica Levi e uma fotografia lindíssima (que nos últimos só talvez encontre igual no extraordinário Melancholia de Lars Von Trier), Under the Skin coloca Scarlett Johansson no papel de Laura, uma alienígena em pele humana que vagueia pela noite de Glasgow em busca de homens para seduzir – para fins que o filme mostra sem explicar, numa cena cuja beleza evanescente só pode ser comparada ao horror visceral que conjura. A interpretação de Johansson, com pouquíssimas palavras, revela-se perfeita do primeiro ao terceiro acto do filme – a sua aparência inocente e sedutora, a sua natureza predatória implacável, a sua confusão perante o que é, o que aparenta ser e o que não poderá ser. E acima de tudo a estranheza do que não é humano, do que não compreende o que é ser-se humano por mais que se tente misturar – um ponto de vista raríssimo, raramente arriscado e brilhantemente executado. Poucos extraterrestres da ficção científica cinematográfica são tão alienígenas como a Laura de Johansson, enganadora na sua forma humana; e poucos filmes do género conseguiram veicular a noção do outro com a mesma carga emocional. 

 

Under the Skin estreia hoje, e será sem dúvida um dos melhores filmes de 2014. 

Filmes de um dia inteiro


enlil,

 

Hitler: ein film aus Deutschland”, Hans-Jürgen Syberberg, 1978

 

“Le soulier de satin”, de Manoel de Oliveira, 1978

 

Entre os filmes que me dá mais prazer recordar – é para recordá-los que servem os filmes, depois do indispensável gosto imediato de os ver – estão aqueles que se poderiam denominar, à falta de melhor apelido, os “filmes compridos”.

Os “filmes compridos” não são lentos nem rápidos, embora a falta de pressa seja um gene muitíssimo comum a todos eles, o que leva algumas almas cândidas a raciocinar que se a cadeira tem pernas e o homem tem pernas, então a cadeira é um homem.

Os “filmes compridos” são aqueles que não cabem no nosso tempo, nós é que temos de caber no tempo deles. “Hitler” de Syberberg, com as suas incansáveis sete horas e meia, ou “Sátántangó” do melancólico magiar Béla Tarr, com igual duração, ou ainda “Le soulier de satin” (de Manoel de Oliveira, claro) que nos submerge durante sete horas, estão entre os exemplos mais vívidos e exponenciais deste atípico passatempo que consiste em passar um dia inteiro a ver decorrer um filme diante de nós. Convém notificar que se trata um gosto adquirido, ou seja, exige muitíssima predisposição e algum treino, sem o que o espectador corre grandes riscos de sair do filme com as nalgas amassadas, uma eventual dor de cabeça e uma deplorável sensação de ter perdido o equivalente a uma jornada de trabalho. Comparem-se, portanto, os “filmes compridos” ao álcool: insuportável na primeira vez que o tragámos, mas com o tempo e a experiência, cada vez mais distintivo e apreciável – mas só para quem quer…

Claro que os “filmes compridos” verdadeiramente interessantes, ao pedirem-nos um dos bens mais preciosos da vida contemporânea – o tempo –, têm a delicadeza de não pedir a nossa atenção indivisível. O bom “filme comprido” está consciente que tempo e atenção fazem um jogo de soma zero, pelo que na maior parte das vezes podemos sair e entrar da sala, ir fazer chichi ou beber um café, que ele espera por nós. É por isso escusado perguntar pelo enredo ou pelas personagens dos “filmes compridos”, pois deles o que perdura é sobretudo um pathos em vez de uma narrativa com cabeça, tronco e membros. O que se pode dizer, por exemplo, ao fim das seis horas de “Near death” de Frederick Wiseman, senão que estivemos um dia nos corredores de um hospital de doentes terminais?

Os “filmes compridos” só têm um problema grave, que é o de serem presa fácil da tanatologia académica, propícios a serem esquartejados nas mesas de autópsia por essa espécie necrológica que é a crítica, incubadora de um enxame de varejeiras analíticas.

Fora isto, são tão perfeitos como uma longa e luxuosa viagem, daquelas que só conseguimos fazer muito de vez em quando.

Grand Budapest Hotel


fiodeprumo,

Grand Budapest Hotel é um filme delicioso que conta as aventuras de um lendário concierge de um hotel europeu e um paquete que se torna no seu amigo de confiança. Tudo isto  durante duas guerras numa história que envolve o roubo e a recuperação de uma preciosa pintura renascentista e a luta por uma enorme fortuna de família, que a esse quadro está ligada.

Em certas alturas o ritmo do filme faz lembrar o da banda desenhada e o riso é inevitável. O elenco que junta dez actores muito conhecidos surpreende e só pode ser a tradução da qualidade do realizador Wes Anderson que já nos presenteou com algumas “preciosidades” de parceria com Owen Wilson e Adrien Brody. A não perder, nestes tempos de crise em que rir é o único remédio possível.  

quantas horas faltam para ir trabalhar?


Patrícia Reis,

O mais velho tem um guião para escrever, é bom, é dramático, dependerá dos actores e isso complica a coisa. O mais novo sabe O Auto da Barca do Inferno de trás para a frente e ainda os Lusíadas, estando para sempre agradecido a Vasco Graça Moura. O meu marido vê a bola. O Tango and Cash está a passar na televisão – mãe, quantas vezes é que já visto isso que é uma treta? -, não me dei ao trabalho de explicar. A casa vai entrar em obras, está a desfazer-se, vamos mudar para a casa ao lado, de um t4 para um t0, vai ser giro:) O resto da semana tratará mais notícias destas, boas e más, feitas de pedaços de palavras dos outros, acções desconhecidas e o planeta continua a caminhar. Aproveito para voltar a Antonio Tabucchi, depois de ter enchido a alma com O Enredo Conjugal de Jeffrey Eugenides (sim, o mesmo autor de Virgens Suicidas e do extraordinário Middlesex). Ah, os livros. Uma salvação. Lá se vai o Tango. Cash não temos.

Famílias


fiodeprumo,

Decidi este fim de semana, ou melhor hoje, ir ver “Um quente Agosto”. Apanhei um fortíssimo murro no estômago, tal a violência psicológica ali narrada.

Não há famílias felizes e muito menos perfeitas. Mas aquela que é retratada ultrapassa tudo quanto se possa imaginar.

Realizada por John Wells – um escritor e produtor de filmes e de séries de televisão de sucesso, várias vezes premiado, – a película é baseada na peça homónima de Tracy Letts, August: Osage County, vencedora de um Prémio Pulitzer e conta-nos a história das mulheres da família Weston, cujas vidas se afastaram até que uma crise familiar as re-aproxima e traz de volta à casa onde cresceram e à mãe que as criou.

Meryl Streep encarna de tal forma essa mulher a que hoje chamaríamos de disfuncional, que o soco que apanhei na alma e no corpo, mais não foi do que a consequência dessa fabulosa interpretação.

Dois actores secundários – Julia Roberts e Sam Shepard, de quem sou fã – completam o painel desta narrativa que, até aos últimos minutos, não pára de nos surpreender. 

É um bom filme, mas vá preparado porque até à derradeira cena, não há um minuto de acalmia. E, se é emocionalmente frágil, pense duas vezes…mas não deixe de ver a interpretação destes monstros sagrados! 

Eu, Gene Kelly, ou como se fica mais são com o avanço da idade.


escafandro,

Por estes dias quase toda a gente anda com auriculares enfiados nos ouvidos. Até eu, de vez em quando. É bom ter música na cabeça. Mas, como naquelas brincadeiras antigas em que se imaginava ser cowboy ou índio, um pedaço de terreno baldio era uma pradaria e se disparava contra colegas de rua ou de escola com espingardas de plástico (entretanto banidas porque estamos todos muito mais pacíficos) ou pedaços de madeira fazendo as vezes de espingardas de plástico, em vez de escolher ser cowboy ou índio no menu da consola de jogos, ver a pradaria no ecrã e disparar contra inimigos sentados noutros sofás olhando para outros televisores (se bem que, em vez de cowboy ou índio, é mais soldado ou alien, que cowboys e especialmente índios são aparições raras nos jogos de vídeo, por estarem pouco de acordo com os mesmos critérios que levaram à abolição da espingarda de plástico), muitas vezes é mais interessante cantarolar o que não se ouve. Ou – tentemos ser exactos – o que se ouve mas não de fora para dentro. Enquanto estudante universitário em Coimbra, descendo sob chuva da alta da cidade para a estação de autocarros, saco de roupa ao ombro, guarda-chuva tão frequentemente fechado como aberto, por défice de chuva digna do termo, excesso de vento ou consciente insensatez, cantarolei muitas vezes Singin’ in the Rain, esboçando mesmo uns passos de dança em raras ocasiões. (Claro que isto foi antes de Kubrick estragar tudo: apanhei uma reposição de A Laranja Mecânica no Gil Vicente ou no São Teotónio, já não sei ao certo, e em vez da imagem de Gene Kelly, feliz da vida, chapinhando nas poças da rua passou a surgir na minha cabeça a de Malcolm McDowell, feliz da vida, pontapeando o cônjuge da senhora que violaria logo a seguir.) Felizmente tal sucedia nas noites de sexta-feira, com as ruas quase desertas, porque, como é fácil de perceber, cantar o que quer que seja sem auriculares nos ouvidos poderia à época e pode ainda hoje ser classificado como loucura. Caso em que o avanço da idade me tornou inegavelmente mais são porque hoje já quase não canto ao calcorrear passeios. Muito menos sem auriculares nos ouvidos. Ou(,) só de longe a longe, As Time Goes By.

Filomena


fiodeprumo,

Uma adolescente engravida e é rejeitada pela família, que  a envia para o convento de Roscrea, onde recebe ajuda das freiras que lhe consentem que veja o filho uma hora por dia, a troco do trabalho que lhes presta.

Com três anos de idade, a criança é adotada por uma família americana. É a história da busca desta mãe que, inconformada, passa cerca de cinquenta anos a procurá-la.

O filme é realizado por Stephen Frears, que está nomeado para dois Oscares e baseia-se numa história veridica. Conta com uma actriz fabulosa, Judi Dench já oscarizada e por seis vezes nomeada, a qual contracena com Steve Coogan, um actor que eu desconhecia, mas que soube encontrar o seu lugar. Este é o guião e a ficha técnica básica.

O produto final é um belo filme sobre o perdão, que aborda um certo catolicismo irlandês, o pecado e a sua expiação e uma moral hipócrita que está longe de ter sido ultrapassada.

É uma película contida, que emociona e faz sorrir, que não cede à tentação do miserabilismo e que confirma, uma vez mais, uma enorme actriz e um grande realizador.

A não perder! 

Um estranho filme


fiodeprumo,

Num destes dias de “festas felizes” fui ver o filme dos manos Ethan e Joel Cohen. Por norma não perco nenhum. Têm sempre uma forma curiosa de abordar as histórias que contam e um humor quase trágico com o qual me identifico.

Este chama-se «Inside Llewyn Davis», e é difícil defini-lo. A branco e preto, de uma lentidão soberba, com um protagonista fabuloso na forma como canta e interpreta, narra uma semana de vida de um músico falhado. 
Em condições normais, este enredo seria suficiente para não pôr os pés no cinema. Dramas e miserabilismo já todos temos dose diária que chegue. Mas um filme dos Coen tem de ser bastante mais do que isto, e de facto é. É também uma narrativa sobre a mediocridade humana e a falta de consciência dela.
Claro que podemos perguntar-nos porque é que se faz uma película sobre este tema. Eu perguntei-me. Mas não encontrei resposta. E contudo, sinto que é um filme que deve ser visto.
Saí da sala um pouco perplexa, incapaz de dizer algo mais que não seja, “é lento, mesmo maçador, mas não pode deixar de se ver”.

Entendem? Eu não, mas é a verdade!

Na morte de Peter O’Toole


Pedro Correia,

 

LAWRENCE DA ARÁBIA: DO SOL ÀS SOMBRAS

 

«O deserto é um oceano onde remo algum se enterra.»

Alcorão

 

Há filmes que facilmente se associam a outros. E há filmes que não se parecem com nenhum outro. É este o caso do deslumbrante Lawrence da Arábia, que David Lean rodou durante mais de um ano em quatro países (Reino Unido, Espanha, Marrocos e Jordânia), por vezes sob um sol inclemente, quase insuportável, que chegou a originar queimaduras na pele de alguns actores.

Nenhum filme é confundível com este porque a personagem central aqui é o deserto e a magia que dele emana vai-nos guiando de cena em cena ao som da hipnótica partitura de Maurice Jarre. Desde o plano-sequência – um dos mais famosos da história do cinema – que começa na chama do fósforo nos dedos de Lawrence e se prolonga pelo sol que começa a elevar-se, como bola em chamas, iluminando a vastidão das areias arábicas em alegoria à primeira aurora do mundo.

T. E. Lawrence, já então conhecido por Lawrence da Arábia, explicará mais adiante a Bentley, o jornalista americano que ali fora em busca de um herói para as manchetes do seu jornal, por que motivo o deserto tanto o atraía. “Por ser limpo”, foi a definição, sucinta e exacta. Esse deserto limpo é o que vemos na primeira parte do filme – aquela em que Lawrence, filho bastardo, ignorado pelo pai e decepcionado com a família de substituição que procurou encontrar nas burocráticas fileiras militares, abraça enfim como se fosse sangue do seu sangue. As jornadas de sol a sol no Sinai e na Península Arábica são um banho lustral para este europeu sem raízes que se sente filho do deserto e irmão das tribos beduínas.

É um filme de 216 minutos – para ser visto em cinema e não em televisão – sem mulheres onde imperam os códigos masculinos e longos momentos de silêncio apenas entrecortados de diálogos lacónicos e sulcados de entrelinhas num cenário em que um poço de água valia mais do que uma vida humana. Em plena I Guerra Mundial, quando britânicos e turcos se confrontavam pelo domínio do Médio Oriente e o nacionalismo árabe emergia enfim de um sono de 900 anos, pelo impensável braço de um inglês pálido e louro que trocara a farda de caqui pelas vestes de beduíno: “Aquele para quem nada está escrito pode escolher a sua tribo.”

 

David Lean designou para protagonista o actor perfeito: Peter O’Toole tem aqui o seu primeiro papel de relevo no cinema – e também o seu melhor papel de sempre. Como se tivesse nascido para interpretar Lawrence em cada palavra, em cada silêncio, em cada gesto, em cada olhar. A Academia de Hollywood, que em 1963 viria a inundar este filme de estatuetas, foi incapaz de reconhecer o talento ímpar desta interpretação, preferindo conceder o Óscar ao desempenho esforçado mas mediano de Gregory Peck em Na Sombra e no Silêncio, politicamente mais correcto mas artisticamente incomparável a Lawrence da Arábia, o filme que Steven Spielberg viu ainda adolescente e o impressionou ao ponto de nesse mesmo dia ter jurado tornar-se cineasta.

“Nada está escrito”, como se repete ao longo do filme. A escolha de O’Toole resultou de um golpe do acaso, após as recusas de Marlon Brando (que preferiu filmar A Revolta na Bounty nas ilhas do Pacífico) e Albert Finney: nenhum destes astros já então consagrados no cinema teria certamente a capacidade revelada pelo desconhecido O’Toole de se entregar de forma tão credível, convincente e quase demencial a este desempenho, como se fosse o último da sua vida.

Da excelente galeria de secundários há que destacar Omar Sharif (num papel que também o tornou célebre e o projectaria para protagonista de Doutor Jivago, o filme seguinte de Lean), Anthony Quinn, Alec Guinness e Claude Rains, o inesquecível capitão Renault de Casablanca que funciona aqui como um traço subliminar a unir duas obras-primas do cinema.

 

Este é um fascinante filme sobre poder, guerra e solidão. Mas é sobretudo um filme sobre a relação umbilical entre o homem e a natureza. Um filme onde, à medida que as imagem progridem – em movimentos de câmara que evoluem sempre da esquerda para a direita, ditados pelo perfeccionismo do realizador britânico -, as sombras vão ganhando terreno ao sol.

Sucedem-se as batalhas, cada vez mais violentas, cada vez mais sangrentas: a conquista de Ácaba aos turcos, o massacre de Tafas, a dilacerante queda de Damasco sem ser alcançada a unidade política entre os árabes que Lawrence sonhou. De permeio acontece a sua captura pelos turcos, que o sujeitam a sevícias que não vemos mas imaginamos.

“Só beduínos e deuses conseguem divertir-se no deserto”, avisara-o a tempo Rains (no papel de Dryden, político entre militares no quartel-general do Cairo, filmado na bem reconhecível Praça de Espanha em Sevilha). Lawrence não lhe dá ouvidos: nada está escrito, ele quer cumprir aquilo por que anseia nas rotas da nação árabe. Superando-se a si próprio com a mesma tenacidade que o levara a tentar expurgar indizíveis dramas íntimos ao prestar-se a inúmeras provas que envolviam dor física. “Neste país, o homem que proporciona vitórias nas batalhas é mais valorizado do que qualquer outro”, diz o Rei Faiçal ao jornalista americano.

Lawrence sagrar-se-á vencedor aos olhos dos outros: Bentley encontrara o herói de que precisa para vender jornais. Mas sente-se derrotado, pois sabe que é incapaz de vencer os seus próprios traumas.

Não voltará a ser o mesmo. Nem nunca mais voltará a ver o deserto com os mesmos olhos. Chegara em busca de purificação, sai de lá mais conspurcado – não com sede de água, mas de sangue, clamando por uma vingança ancestral que o torna incapaz de se aquietar em lugar algum. Home é, sintomaticamente, a última palavra deste filme. O lar que Lawrence procura e jamais encontrará.

…………………………………………..

Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962). De David Lean. Com Peter O’Toole, Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins. José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy.

 

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 29 de Maio de 2013. Acrescentei a hiperligação para o obituário do New York Times.

Desconexos


Teresa Ribeiro,

Desligados

O tema da falta de comunicação entre as pessoas nas sociedades modernas já é tão banal que aflorá-lo sem cair em lugares comuns começa a ser difícil. “Desligados” é pois um filme  que se arrisca à irrelevância ao focar-se por inteiro neste tópico, sem recurso a enredos paralelos ou notas de humor que nos surpreendam. Mas tal como as melhores obras de ficção esta película, premiada nos festivais de Veneza e de Toronto, não precisa de subterfúgios para conseguir a nossa atenção.

Às vezes basta uns minutos de realidade para entrarmos de cabeça numa boa história, pois é o que acontece com “Desligados”. Às primeiras cenas ligamo-nos. A identificação imediata com o que vamos observando é a opção mais tentadora, embora também seja possível ficar só a ver. O que não se torna viável desde o começo é o descomprometimento. A acção em mosaico flui de acordo com a narrativa serena que se faz em torno da incomunicabilidade, um terreno que nos é tão familiar. No centro destas desconexões está a tecnologia, a grande facilitadora, que quase dispensa a intervenção humana. Mais um pouco e não é preciso fazer nada para comunicar. Nem falar, nem estar, nem escrever. Estamos perto disto ou já la estamos e visto de fora, no escuro de uma sala de cinema, juro que parece um filme futurista, daqueles em que os humanos se parecem com robots. Mas isto já sou eu a divagar, porque em momento algum neste filme se faz por interposta personagem estes juízos de valor. Como nos contos de Hemingway o conteúdo de “Desligados” é descritivo, não interpretativo. Essa parte, a mais dura, fica para nós. Se quisermos, antes de retomar as nossas rotinas virtuais, darmo-nos ao trabalho.

 

Título original: Disconnect

Realização: Henry Alex Rubin

Intérpretes: Jason Bateman, Frank Grillo, Hope Davis, Michael Nyqvist, Paula Patton