
O filme Locke, de Steven Knight, constitui uma verdadeira obra-prima, especialmente devido à magistral interpretação de Tom Hardy que literalmente transporta sozinho o filme. A técnica é antiga e já foi explorada em outros filmes como o magistral Três minutos de vida (Sorry, wrong number, 1948), de Anatole Litvak, com Barbara Stanwyck, ou o mais recente Cabine Telefónica (Phone Booth, 2002), de Joel Schumacher, com Colin Farrel. Tudo se passa ao telefone, objecto que ironicamente permite ao seu utilizador tentar controlar situações à distância, mas que ao mesmo tempo o aprisiona, pois não lhe permite largá-lo enquanto a acção decorre, podendo assistir impotente a verdadeiros dramas do outro lado do fio.
Locke é, porém, mais profundo que os outros dois filmes. Retrata um homem de sucesso, com uma carreira profissional sólida e um casamento feliz, que se vê num momento obrigado a pôr tudo em causa em virtude da necessidade de cumprir um dever moral. Embarca assim numa viagem de hora e meia pela autoestrada, deixando tudo para trás, mas ao mesmo tempo julga que pode manter as coisas sob controlo através do telefone que tem no carro. “Tenho de fazer isto, mas vou resolver as coisas”, é o que diz aos seus interlocutores. O seu poder de controlo à distância é, no entanto, muito limitado, como nos vamos apercebendo, enquanto acompanhamos em tempo real a sua viagem e o seu drama existencial. Como se disse na publicidade ao filme, trata-se de “Hamlet na autoestrada”. Magistral.
